quinta-feira, 27 de março de 2014

SESSÃO 12 ( dupla): 22 DE ABRIL DE 2014


O HOMEM DO FATO CLARO (1951)

Alexander Mackendrick vinha de uma época dedicada ao documentarismo e ao filme de propaganda bélica de que se ocupou durante quase toda a II Guerra Mundial. Mas, acabada a guerra, em 1946,  integra a equipa de cineastas dos Ealing Studios, onde  durante nove anos realiza alguns dos grandes clássicos da comédia inglesa deste período, como “Whisky Galore!” (1949), “The Man in the White Suit” (1951) ou  “The Ladykillers” (1955). São obras de um humor muito especial, que prolonga a herança de “Oito Vidas por um Título”, conjugando uma ironia discreta, mas ácida, um humor negro por vezes, mas sempre com uma elegância de estilo e uma posse indubitavelmente britânica. Raras vezes uma cinematografia consegue reunir em tão curto espaço de tempo, um tal conjunto de obras que reflectem de forma tão sábia e nítida o modo de ser de um povo, sobretudo na sua vertente humorística.
O filme parte de uma peça teatral da autoria de Roger MacDougall que conheceu algum sucesso um palcos londrinos. Roger MacDougall era primo e amigo de  Alexander Mackendrick e este resolveu adaptar a obra a cinema, com a colaboração do dramaturgo e de John Dighton. Não era a primeira vez que MacDougall e Mackendrick trabalhavam juntos em argumentos para cinema, que outros dirigiam. Desta feita seria Alexander Mackendrick a realizar este projecto nas condições previstas pelos estúdios onde trabalhavam e na época em que o mesmo foi concretizado, pouco depois de terminada a guerra e com o país ainda em reconstrução. Produção barata, filmada a preto e branco, munida de excelentes actores, é verdade, que todavia não deveriam receber muito de cachet, apesar de muitos deles serem primeiras figuras do teatro e do cinema ingleses.


“The Man in The White Suit” organiza-se tendo como base um argumento muito inteligente, original, astuto na análise das situações, com uma sábia utilização dos elementos puramente cinematográficos para fazer avançar a história e simultaneamente criar uma densidade de intenções críticas assinalável.
Sidney Stratton (Alec Guinness), empregado numa fábrica de têxteis dirigida por Alan Birnley (Cecil Parker), é um entusiasta por descobertas cientificas e químicas em particular. Aproveitando o relativo descontrolo da fábrica, conseguira ganhar um cantinho para as suas experiências, instalando alambiques, serpentinas e outros copos e vasos com líquidos em ebulição, enquanto vai arrumando os armazéns. Um dia, porém, Alan Birnley, a sua filha Daphne Birnley (Joan Greenwood) e Michael Corland (Michael Gough), o pretendente à sua mão e, sobretudo, à sua riqueza, visitam a fábrica, descobrem ocasionalmente o discreto reduto do inventor, que não dá provas da sua genialidade, e é despedido. De desgraça em desgraça, mas com uma fé inabalável numa descoberta revolucionária, Sidney acabará mesmo por inventar o tecido nunca visto nem sequer imaginado: algo que não se rompe, que não se estraga, que não se suja. Um tecido para a eternidade, no fundo. Uma invenção que pode retirar a Humanidade da necessidade de comprar novos fatos. Algo de verdadeiramente espectacular, não fora um pequeno pormenor: as fábricas fechariam, os patrões deixariam de ganhar, os operários perderiam os empregos, e instalar-se-ia o caos na economia. Logo, é necessário perseguir e destruir o inventor de semelhante ameaça para capitalistas e operários, que unidos se lançam na perseguição desse “homem do fato claro”. Patronato e sindicatos de acordo, quando a ameaça é conjunta. Capital e trabalho de mãos dadas.


Com uma serenidade narrativa muito britânica, e um humor deliciosamente subtil, mas truculento, Mackendrick conduz a sua obra com uma displicente ironia, criticando métodos e processos de uma sociedade capitalista assente sobre o lucro e na vertigem do consumo, para assegurar que a máquina continue a laborar.
Não são muitos os meios de que o realizador dispõe mas há dois ou três essenciais para o bom desempenho da obra. De um lado a interpretação, superiormente dominada por um Alec Guiness magnifico, numa composição entre o ingénuo perplexo e o persistente cabotino. Depois a banda sonora que domina toda a película, com o efeito causado pelas maquinetas do inventor em plena laboração (esse inolvidável "guggle glub guggle") e que marca o ritmo da obra, injectando-lhe um uma nevrótica cadência.  Haverá ainda que referir a excelente fotografa, de um preto e branco onde, nas sequências finais, sobressai o fato imaculado de Sidney, que parece adquirir uma estranha fosforescência.
“O Homem do Fato Claro” é na verdade uma das grandes comédias do humor inglês da década de 40 do século XX e um dos títulos que deu fama à sua fábrica de origem: os Earling Studios.

O HOMEM DO FATO CLARO
Título original: The Man in the White Suit
Realização: Alexander Mackendrick (Inglaterra, 1951); Argumento: John Dighton, Alexander Mackendrick, Roger MacDougall, segundo peça teatral deste último; Produção:  Michael Balcon, Sidney Cole; Música:  Benjamin Frankel; Fotografia (p/b): Douglas Slocombe; Montagem: Bernard Gribble; Casting: Margaret Harper Nelson; Direcção artística:  Jim Morahan; Guarda-roupa:  Anthony Mendleson; Maquilhagem:  Barbara Barnard, Harry Frampton, Ernest Taylor; Direcção de Produção: Hal Mason, L.C. Rudkin; Assistentes de realização: David Peers, John Assig, Terry Bishop, Jim O'Connolly; Departamento de arte: Norman Dorme, Andrew Low; Som:  Stephen Dalby, Mary Habberfield; Efeitos especiais: Sydney Pearson, Efeitos visuais: Geoffrey Dickinson; Companhias de produção: J. Arthur Rank Organisation, An Ealing Studios Production; Intérpretes: Alec Guinness (Sidney Stratton), Joan Greenwood (Daphne Birnley), Cecil Parker (Alan Birnley), Michael Gough (Michael Corland), Ernest Thesiger (Sir John Kierlaw), Howard Marion-Crawford (Cranford), Henry Mollison (Hoskins), Vida Hope (Bertha), Patric Doona (Frank), Duncan Lamont, Harold Goodwin, Colin Gordon, Joan Harben, Arthur Howard, Roddy Hughes, Stuart Latham, Miles Malleson, Edie Martin, Mandy Miller, Charlotte Mitchell, Olaf Olsen, Desmond Roberts, Ewan Roberts, John Rudling, Charles Saynor, Russell Waters, Brian Worth, George Benson, Frank Atkinson, Charles Cullum, F.B.J. Sharp, Scott Harold, Jack Howarth, Jack McNaughton, Judith Furse, Billy Russell, David Boyd, Alan Haines, Arthur Mullard, Carol Wolveridge, etc. Duração: 85 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Maio de 1952.

ALEXANDER MACKENDRICK 
(1912 – 1993)
Nasceu a 8 de Setembro de 1912, em Boston, Massachusetts, EUA, e viria a falecer a 22 de Dezembro de 1993, com 81 anos. Filho Francis Robert Mackendrick, engenheiro civil que trabalhava na construção naval, e de Martha Mackendrick, originários de Glasgow, na Escócia, e que haviam emigrado para os EUA em 1911. Quando tinha apenas seis anos, o pai morreu, vítima de “gripe espanhola”, a mãe foi obrigada a trabalhar como costureira, e enviou o filho de volta à Escócia, para casa do avô paterno. Alexander Mackendrick, que teve uma infância difícil, nunca mais ouviu falar da mãe. Estudou na escola de Hillhead de 1919 a 1926, e depois arte na Glasgow School of Art. No inicio dos anos 30, Mackendrick parte para Londres, onde começou a trabalhar numa agencia de publicidade,  J. Walter Thompson. Entre 1936 e 1938 escreve alguns argumentos para filmes publicitários. Em 1937, escreve o argumento de “Midnight Menace”, como o seu primo e melhor amigo Roger MacDougall.
Durante a II Guerra Mundial, Mackendrick esteve ao serviço do Ministério da Informação para realizar filmes de propaganda pró-britânica. Em 1942, instalado na Argélia, onde desempenhava importantes funções da Psychological Warfare Division, roda filmes de actualidades, documentários e dá luz verde para Rossellini filmar “Roma, Cidade Aberta”. Acabada a guerra, ele e o primo aparecem na Merlin Productions, rodando documentários, mas, em 1946,  junta-se aos Ealing Studios, onde  durante nove anos realiza grande parte da sua obra inglesa, com filmes como “Whisky Galore!” (1949), “The Man in the White Suit” (1951) ou  “The Ladykillers” (1955), todos eles clássicos da comédia inglesa.
Ainda em 1955, Mackendrick troca a Inglaterra pelos EUA. O resto da sua vida será passada entre Londres e Los Angeles, desenvolvendo uma longa actividade como argumentista, para lá de realizador. “Sweet Smell of Success” (1957) é a sua obra de estreia nos EUA, uma produção Hecht-Hill-Lancaster que colheu críticas muito favoráveis e os favores do público. Regressa depois a Inglaterra para rodar para os mesmos produtores “The Devil’s Disciple”, mas desencontros vários levaram a que o realizador fosse substituído por Guy Hamilton que assina finalmente a obra. Desencorajado, passa algum tempo a trabalhar para publicidade e regressa ao cinema com “Sammy Going South” (1963), o belíssimo “A High Wind in Jamaica” (1965) ou “Don't Make Waves” (1967).
De volta aos EUA em 1969, torna-se professor no California Institute of the Arts, até 1993, quando uma pneumonia fatal o atingiu. Os restos mortais repousam no Memorial Park Cemetery de Westwood Village.

Filmografia
Como realizador:

1949: Whisky Galore!; 1951: The Man in the White Suit (O Homem do Fato Claro); 1952: Mandy (Mandy, a Surda Muda); 1954: The Maggie (Loucuras de Milionário); 1955: The Ladykillers (O Quinteto era de Cordas); 1957: Sweet Smell of Success (Mentira Maldita); 1959: The Devil's Disciple (O Aprendiz do Diabo), assinado por Guy Hamilton, Mackendrick não creditado; 1961: The Guns of Navarone (Os Canhões de Navarone), assinado por Jack Lee Thompson, Mackendrick não creditado; 1963: Sammy Going South (Só Contra o Mundo); 1964: The Defenders (série de TV) (1 episódio “The Hidden Fury”); 1965: A High Wind in Jamaica (Tempestade na Jamaica); 1967: Oh Dad, Poor Dad, Mama's Hung You in the Closet and I'm Feeling So Sad, assinado por  Richard Quine, Mackendrick não creditado; 1967: Don't Make Waves (Não Faças Ondas).

SESSÃO 11: 15 DE ABRIL DE 2014

OS SAPATOS VERMELHOS (1948)

Quando Michael Powell e Emeric Pressburge criaram  em 1942 a sua produtora The Archers, iniciava-se uma colaboração a todos os níveis notável. Os filmes apareciam com a designação de terem sido “escritos, produzidos e realizados por Michael Powell e Emeric Pressburger” e esta comunhão de actividades  não escondia o facto de Pressburger ser predominantemente o argumentista e produtor e Power o realizador. Desta conjugação de talentos nasceram obras absolutamente invulgares, como “A Vida do Coronel Blimp” (1943), “Caso de Vida ou Morte” (1945), “Quando os Sinos Dobram” (1947), “Os Sapatos Vermelhos” (1948) ou “Os Contos de Hoffmann” (1951). O que melhor pode definir o trabalho destes dois génios do cinema inglês é um discreto afastamento do realismo e uma aproximação de uma estética surrealista, uma utilização invulgar do Technicolor, que atinge o seu apogeu em “Os Sapatos Vermelhos”, e a originalidade de escrita e de concepção plástica dos seus filmes, onde é sempre sensível um lirismo forte.
“The Red Shoes” parte de um conto, uma história de fadas, do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), publicado em 1845. É a partir deste autor que se encena o bailado “Os Sapatos Vermelhos” que nos fala de uma jovem órfã a quem a mãe adoptiva oferece um par de sapatos vermelhos que passam a exercer um fascínio evidente sobre a menina que se recusa a tirá-los e dança até à exaustão, dado que os sapatos parecem ter vida própria e uma exigência total. Um anjo anuncia então à rapariga que ela irá dançar até sucumbir, o que se manifesta como um castigo divino, dado que o vermelho dos sapatos é tido como ostentação, sensualidade, pacto com o mal, e ainda por cima a jovem se encontra em período de crisma, impedindo, portanto, essa “comunhão com Deus”. Levada pela sua frivolidade, irá dançar até à morte. Este o esquema do bailado que está no cerne do filme de Michael Powell e Emeric Pressburge.


Mas o filme possui uma história paralela que corre em simultâneo com o bailado. Boris Lermontov é o proprietário e produtor de uma importante companhia de bailado. Solitário, exigente, implacável, sedutor nesse distanciamento que impõe, Lermontov põe a arte e o bailado acima de tudo. Para ele não há vida privada, mas dádiva completa à arte. No caso da dança, esta imposição parece inegociável. Um dia descobre dois novos talentos, Victoria Page, uma bailarina desconhecida, onde ele surpreende um talento imenso, e Julian Craster, um jovem compositor. Ambos são contratados, quase ao mesmo tempo que é dispensada a estrela da companhia Irina Boronskaïa, com o pretexto deque é impossível manter-se bailarina ao mais alto nível e estar casada. Lermontov pede a Craster que crie uma partitura para o bailado novo, “Os Sapatos Vermelhos”, que será dançado por Victoria Page. A estreia é triunfal, tudo parece correr pelo melhor, tanto mais que o amor invade a companhia e Craster e Victoria se apaixonam e resolvem anunciar o seu casamento. Mas o amor aqui não é bem vindo, e Lermontov, fiel ao seu principio, despede director de orquestra e prima bailarina. Quando mais tarde os tenta reunir de novo, impõe o dilema à bailarina: ou o amor ou a dança e o final do bailado irá precipitar-se em repetição no final do filme.
Esta estrutura dramática permite criar um interessante triângulo tendo Victoria como vértice essencial. De um lado o produtor Lermontov, do outro o compositor Craster, um colocando a arte acima dos sentimentos pessoais, o outro tentando conciliar o amor e a arte. Esta luta interna que atravessa o corpo e os sentimentos de Victoria acabará por a levar à auto destruição. Mas o filme é muito mais ambíguo do que poderá parecer a uma simples leitura mais superficial. Será que Lermontov age como age movido apenas pelo interesse pela pureza da arte, ou será que por detrás dessa razão não estarão sobretudo ciúmes? Todo o comportamento de Lermontov desde o momento que descobre Victoria Page numa festa particular parece indicar um deslumbramento emocional. Ou será apenas a descoberta do talento? Ou a reunião de ambos? Vamos mais longe: será que Lermontov tem consciência dessa sua secreta paixão? Ou será que Lermontov vive obcecado apenas pela beleza dessa arte pura que é o bailado e que exige entrega total, uma entrega de tal forma total que ele próprio é o exemplo desse ideal, ele próprio “desiste” de Victoria para que a arte se cumpra, e por isso mesmo não admite que outro não compreenda essa renúncia em nome de um prazer (felicidade) individual?


Há muito de Pigmaleão na figura de Lermontov, assim como se poderá falar de Fausto. Mais ainda, Lermontov é nome de poeta russo. Uma das suas obras mais conhecidas, “O Demónio”, fala de um espírito maligno que se apodera da alma de uma jovem e a leva a abandonar o seu noivo. Haverá relação consciente?
O filme adquire uma progressão dramática muito interessante, iniciando-se como uma história que se aproxima do musical, com a descrição das personagens e dos locais e situações. Especial atenção é dada ao trabalho especifico dos bailarinos, das repetições, do esforço diário para a perfeição do gesto e da harmonia dos movimentos, para o domínio do corpo. Depois a estrutura vai lentamente moldando-se ao ballet que se ensaia, progressivamente se vai descortinando a colagem da personagem de Victoria Page e da protagonista do bailiado, com os sapatos vermelhos a funcionarem como elemento de transição e identificação. Durante a longa sequência do bailado a fusão é total e a partir daí tudo se altera. Victoria assumiu um destino, o seu destino. Ela será para sempre a protagonista de “Os Sapatos Vermelhos” e de tal forma o será que, mesmo na sua ausência, será a sua interpretação a dar forma à derradeira representação.
Duas interpretações fulgurantes colocam a obra no seu pedestal definitivo. Anton Walbrook (em Boris Lermontov ) e Moira Shearer (em Victoria Page) compõem personagens que para sempre se lhes colaram à pele. Ao lado destes, há ainda a referir Ludmilla Tchérina, Marius Goring, Léonide Massine, Robert Helpmann, Albert Bassermann, entre outros. Mas nada ficaria perfeito nesta obra-prima indiscutível, não fora o exuberante e espatodo tratamento cromático da fotografia de Jack Cardiff, a magnifica partitura musical de Brian Easdale, a excelente montagem de Reginald Mills, e toda a concepção plástica e cénica não só do bailado, como de todo o filme.



OS SAPATOS VERMELHOS
Título original: The Red Shoes
Realização: Michael Powell, Emeric Pressburger (Inglaterra, 1948); Argumento: Emeric Pressburger, Keith Winter, Michael Powell, segundo conto de fadas de Hans Christian Andersen; Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger; Música: Brian Easdale; Fotografia (cor): Jack Cardiff; Montagem:  Reginald Mills; Design de produção:  Hein Heckroth; Direcção artística:  Arthur Lawson; Guarda-roupa:  Hein Heckroth; Maquilhagem:  George Blackler, Eric Carter, Ernest Gasser; Assistentes de realização: Sydney Streeter, J.M. Gibson, Laurie Knight, Kenneth K. Rick; Departamento de arte: Alfred Roberts, Bernard Goodwin, G. Heavens, Don Picton, V. Shaw, V.B. Wilkins, Alan Withy; Som: Charles Poulton; Efeitos visuais: George Gunn, E. Hague; Companhias de produção: The Archers, Independent Producers; Intérpretes: Anton Walbrook (Boris Lermontov ), Marius Goring (Julian Craster), Moira Shearer (Victoria Page), Ludmilla Tchérina (Boronskaja (as Ludmilla Tcherina), Léonide Massine (Grischa Ljubov), Robert Helpmann (Ivan Boleslawsky), Albert Bassermann (Sergei Ratov), Esmond Knight (Livingstone 'Livy' Montagne), Jean Short, Gordon Littmann, Julia Lang, Bill Shine, Austin Trevor, Eric Berry, Irene Browne, Jerry Verno, Derek Elphinstone, Marie Rambert, Joy Rawlins, Marcel Poncin, Michel Bazalgette, Yvonne Andre, Hay Petrie, Alan Carter, Joan Harris, Joan Sheldon, Paula Dunning, Brian Ashbridge, Denis Carey, Lynne Dorval, Helen Ffrance, Robert Dorning, Eddie Gaillard, Paul Hammond, Tommy Linden, Trisha Linova, Anna Marinova, Guy Massey, John Regan, Peggy Sager, Ruth Sendler, Hilda Gaunt, etc. Duração: 133 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 23 de Fevereiro de 1950.

ANTON WALBROOK (1896-1967)
Adolf Anton Wohlbrück, mais tarde conhecido como Anton Walbrook, nasceu a 19 de Novembro de 1896 em Viena, Áustria, e viria a falecer a 9 de Agosto de 1967, em Garatshausen, Bavière (RFA). Aluno de Max Reinhardt em Berlim, inicia a sua carreira no teatro e no cinema, começando a ser notado num filme de E.A. Dupont  “Salto Mortale” (1931). Em 1935, as versões alemã, francesa e norte-americana de Miguel Strogoff, assinadas por Richard Eichberg, dão-lhe renome internacional. Judeu e homossexual, foge da Alemanha, perante a ameaça nazi e passa a viver em Inglaterra, sob o nome de Anton Walbrook. Extremamente elegante e algo aristocrata no porte, distante e ligeiramente irónico, interpreta vários papeis em produções históricas e ganha reputação internacional em obras de Michael Powell e Emeric Pressburger, como “49e Parallèle” (1941), “Colonel Blimp” (1943) ou “The Red Shoes” (1948). Trabalha com Thorold Dickinson, Max Ophuls  e Otto Preminger, sendo “I Accuse!”, de José Ferrer, o seu último trabalho no cinema. Passa também pela televisão, antes de falecer, em 1967, vítima de ataque cardíaco. Os restos mortais foram incinerados e as cinzas enterradas na igreja de St John-at-Hampstead, em Londres, como vontade expressa no testamento. Presentemente é um actor muito admirado e considerado por alguns (Martin Scorsese, por exemplo) como um dos melhores intérpretes de sempre. 

Filmografia
Como actor
Na Áustria e na Alemanha: 1915: Marionetten, de Richard Löwenbein; 1923: Martin Luther, de Karl Wüstenhagen; 1924: Mater Dolorosa, de Josef Delmont; 1925: Das Geheimnis von Schloß Elmshöh, de Max Obal; 1931: Salto Mortale, de Ewald André Dupont; 1932: Der Stolz der 3. Kompanie, de Fred Sauer; 1932: Die fünf verfluchten Gentlemen, de Julien Duvivier; Drei von der Stempelstelle, de Eugen Thiele; Melodie der Liebe, de Georg Jacoby; Baby, de Carl Lamac; 1933: Georges et Georgette (Jorge e Georgina), de Roger Le Bon e Reinhold Schünzel; Walzerkrieg, de Ludwig Berger; Keine Angst vor Liebe (Patrões e Empregadas), de Hans Steinhoff; Viktor und Viktoria, de Reinhold Schünzel; 1934: Die vertauschte Braut (As Duas Annys), de Carl Lamac; Maskerade (Mascarada), de Willi Forst; Eine Frau, die weiß, was sie will, de Viktor Janson; Die englische Heirat (Um Casamento Inglês), de Reinhold Schünzel; 1935: Régine (Regina), de Erich Waschneck; Zigeunerbaron, de Karl Hartl; Le Baron tzigane (O Barão Cigano), de Henri Chomette; Ich war Jack Mortimer, de Carl Froelich; Der Student von Prag (O Estudante de Praga), de Arthur Robison; 1936: Michel Strogoff (Miguel Strogoff), de Jacques de Baroncelli e Richard Eichberg (versão francesa); Der Kurier des Zaren (Miguel Strogoff), de Richard Eichberg (versão alemã); Allotria, de Willi Forst; Port-Arthur (Porto Arthur), de Nicolas Farkas;
Após abandonar a Alemanha: 1937: The Soldier and the Lady, de George Nichols Jr.; Victoria the Great (Rainha Vitória), de Herbert Wilcox; The Rat, de Jack Raymond; 1938: Sixty Glorious Years (60 Anos de Glória), de Herbert Wilcox; 1940: Gaslight, de Thorold Dickinson; 1941: Dangerous Moonlight (Aquela Noite em Varsóvia), de Brian Desmond Hurst; 49th Parallel (Os Invasores), de Michael Powell; 1943: The Life and Death of Colonel Blimp (A Vida do Coronel Blimp), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1944: Information Please (curta-metragem)
1945: The Man from Morocco, de Mutz Greenbaum; 1948: The Red Shoes (Os Sapatos Vermelhos), de Michael Powell ed Emeric Pressburger; 1949: The Queen of Spades (A Dama de Espadas), de Thorold Dickinson; 1950: La Ronde (A Ronda), de Max Ophüls; König für eine Nacht, de Paul May; 1951: Wiener Walzer, de Emil E. Reinert; 1952: Le Plaisir (O Prazer), de Max Ophüls (narrador da versão alemã); 1954: L'Affaire Maurizius (O Caso Maurizius), de Julien Duvivier; 1955: Oh... Rosalinda!! (Contos Vienenses), de Michael Powell e Emeric Pressburger; Lola Montès (Lola Montes), de Max Ophüls; 1957: Saint Joan (Santa Joana), de Otto Preminger; 1958: I Accuse!, de José Ferrer; 1960: Venus im Licht (TV); 1962: Laura (TV); 1963: Der Arzt am Scheideweg (TV); 1966: Robert und Elisabeth (TV).

MOIRA SHEARER 
(1926-2006)
Moira Shearer King nasceu a 17 de Janeiro de 1926 , em Dunfermline, Fife, Escócia, e viria a falecer, a 31 de Janeiro de 2006 , em Oxford, Oxfordshire, Inglaterra. Filha de Harold Charles King, actor (ou engenheiro civil, segundo outras fontes), mudou-se com a família para Ndola, na Rodésia do Norte (Zambia), em 1931, onde iniciou as suas aulas de ballet. Estudou na Dunfermline High School. De novo no Reino Unido, a partir de 1936, continuou a estudar dança, agora com Flora Fairbairn, em Londres, e depois com o russo Nicholas Legat. Junta-se então à Sadler's Wells Ballet School. Com o início da II Guerra Mundial, volta a Escócia. Em 1948, porém, já em Londres, atrai o interesse internacional com o seu fulgurante trabalho no filme “The Red Shoes”, da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger. Entre 1942 e 1952 torna-se numa das primeiras bailarinas clássicas de renome mundial, com um vasto reportório e tournées internacionais, sendo a bailarina número um do Royal Ballet at Sadler's Wells. Casou, em 1950, com Ludovic Kennedy, jornalista e radialista, com quem viveu até sua morte e passou a escrever uma coluna no “Daily Telegraph”, a comentar livros no "Daily Journal", e a apresentar palestras por todo o mundo. Conta-se que Arthur Freed a queria para contracenar com Fred Astaire em “Casamento Real” (1951), mas Astaire mostrou-se relutante em acompanhar uma bailarina clássica.  Gene Kelly, por seu turno, queria-a como partenaire em “A Lenda dos Beijos Perdidos” (1954), mas neste caso foi ela que não se mostrou disponível.  Para todos os efeitos, para o bem e pra o mal, nunca mais se libertaria da personagem de Vicky de “Os Sapatos Vermelhos”.

Filmografia:
Como actriz e bailarina

1948: The Red Shoes (Os Sapatos Vermelhos), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1951: The Tales of Hoffmann (Os Contos de Hoffmann), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1953: The Story of Three Loves (História de Três Amores), filme em episódios, de Vincente Minnelli e Gottfried Reinhardt (episódio “The Jealous Lover”, de Gottfried Reinhardt); 1955: The Man Who Loved Redheads, de Harold French; 1960: Les Collants Noirs (Um, Dois, Três, Quatro),  de Terence Young; 1960: Peeping Tom (A Vítima do Medo), de Michael Powell; 1987: A Simple Man, de Gillian Lynne (TV).

SESSÃO 10: 8 DE ABRIL DE 2014


AS AVENTURAS DE OLIVER TWIST (1948)

Dickens é um dos autores mais adaptados ao cinema, já aqui o dissemos. Curioso é ver como, com o desenrolar dos anos, a obra de Dickens tem sobrevivido no cinema. Escolhemos para isso quatro filmes, todos eles partindo de um mesmo romance, precisamente “Oliver Twist”.
“Oliver Twist”, de Roman Polanski, a adaptação mais recente, de 2005, não é, para mim, a melhor adaptação do romance, ainda que seja uma versão muito aproximada da intriga concebida por Dickens. Vendo o filme e relendo o livro, notam-se semelhanças que apontam para uma quase ilustração da palavra do escritor, ainda que renascida pela própria experiência pessoal de Polanski. Anteriormente outros realizadores já se tinham ocupado do tema, desde David Lean, que dirigiu “As Aventuras de Oliver Twist” em 1948, uma excelente versão a preto e branco com Alec Guiness num Fagin inesquecível, até Carol Reed que, em 1968, levara a cinema a versão musicada de Lionel Bart, igualmente com bons resultados.
Curiosamente, há nas versões que conhecemos de “Oliver” abordagens diversificadas, mas cenas que parecem transitar de filme para filme. A personagem do bedel do orfanato muda de nome, não muda de figura, a sequência em que Oliver pede “mais comida” e a subsequente ida à direcção do orfanato (que se banqueteia principescamente com lautos pratos de apetitosa comida) parecem quase filmadas do mesmo ângulo e interpretadas pelos mesmos actores… Mas aí é a força da escrita de Dickens que relembra quase um guião de cinema e impõe uma directriz sem recuo.


Centremo-nos, pois, na versão de 1948, de David Lean, “As Aventuras de Oliver Twist” que se destaca logo pela fabulosa fotografia a preto e branco assinada por Guy Green. Desde a sequência inicial que essa fotografia nos agarra, desde essa paisagem batida pelo temporal, com uma mulher grávida a avançar em direcção a um albergue de mendicidade, onde acaba por dar à luz um menino, antes de morrer. Os cenários são rebuscados, os enquadramentos sugestivos, a iluminação contrastada, o efeito seguro. Dir-se-ia, ao ver o desenrolar da obra, que o filme cruza habilmente uma certa tradição de realismo social inglês e alguns vestígios apurados do expressionismo alemão, tanto ao nível do cenários, como da iluminação, do jogo das sombras e das luzes, prolongando-se até pelo desenho das personagens. Nesse aspecto, toda a mise-en-scène (ou realização) é particularmente forte na forma como sugere sem apontar, servindo-se apenas da imagem. Veja-se logo no início, como os poderosos se enquadram, em relação a Oliver: ocupando o espaço, engolindo a criança, estrangulando a frágil silhueta, aprisionando-a num rectângulo sem horizontes.
Quase no final, há uma sequência passada numa taberna que relembra o ambiente de “O Anjo Azul”, de Sternberg, e não raro nos vêm à memória imagens de “Matou”, de Fritz Lang. Mas com a marca da criatividade de David Lean.


Todo o filme é, aliás, uma excelente sucessão de sugestões de imagem e som que tornam inúteis quaisquer explicações trazidas pelo diálogo. Um exemplo: as crianças no albergue têm fome, e têm medo de o dizer. Espreitam os poderosos a comer numa farta mesa, e quando chega a vez de solicitar mais comida tiram à sorte quem o fará. A palha mais curta, que define a iniciativa, cabe a Oliver. Logo todos os colegas se afastam, criando uma clareira de solidão à sua volta. E quando Oliver se dirige ao bedel Bumble, que o espera batendo ameaçadoramente com a varinha na perna, qualquer espectador antecipa as consequências do acto. Todo este clima de medo e prepotência é muito bem dado numa Londres sinistramente esconsa e suja, numa arquitectura de castelo fantasma ou torre de horrores. Neste particular, na elaboração dos cenários, também esta versão de David Lean é brilhante, criando uma reconstituição de época que quase nos transmite não só a cor como o cheiro, os sons e o tacto. E quase nada é apetecível nesta sociedade egoísta e velhaca, mesquinha e gananciosa, hipócrita e prepotente, onde os mais fracos soçobram, quer sejam as crianças como as mulheres.
O filme não é rigorosamente fiel ao livro, mas julgo-o a mais fidedigna de todas as adaptações ao espírito do romance de Dickens, que tem merecido muitas e interessantes versões. Há personagens que desaparecem, Bet, por exemplo, a amiga de Nancy, e situações que surgem condensadas. O que é normal em casos como este. Mas para quem lê Dickens e vê o seu pequenino herói dividir os restos da comida com o cão do cangalheiro e dormir debaixo do balcão de uma agência funerária, assolado pelos fantasmas de uma imaginação povoada por imagens tétricas, esta é definitivamente uma boa recriação do universo de um dos maiores escritores de língua inglesa.
David Lean trouxe para “Oliver Twist” quase toda a equipa que dois anos antes havia realizado “Great Expectations”, com enorme sucesso crítico e de público, incluindo os produtores Ronald Neame e Anthony Havelock-Allan, o já citado director de fotografia Guy Green, o designer John Bryan e o montador Jack Harris. Kay Walsh, que era então mulher de David Lean, e tinha colaborado na adaptação de “As Grandes Esperanças”, interpreta aqui o papel de Nancy.


AS AVENTURAS DE OLIVER TWIST
Título original: Oliver Twist
Realização: David Lean (Inglaterra, 1948); Argumento: David Lean, Stanley Hayn, Eric Ambler, Kay Walsh (estes dois últimos não creditados), segundo romance de Charles Dickens; Produção: Ronald Neame; Música: Arnold Bax; Fotografia (p/b): Guy Green; Montagem: Jack Harris; Casting: Dennis Van Thal; Decoração: T. Hopewell Ash, Claude Momsay; Guarda-roupa: Margaret Furse; Maquilhagem: Stuart Freeborn, George Blackler, Biddy Chrystal; Direcção de Produção: Norman Spencer; Assistentes de realização: George Pollock, Chuck Simpson; Departamento de arte: John Bryan, Claude Mauncy; Som: Stanley Lambourne, Gordon K. McCallum, Winston Ryder; Efeitos especiais: Stanley Grant, Joan Suttie; Efeitos visuais: Les Bowie; Companhias de produção: Cineguild; Intérpretes: John Howard Davies (Oliver Twist), Robert Newton (Bill Sykes), Alec Guinnes (Fagin), Kay Walsh (Nancy), Francis L. Sullivan (Mr. Bumble), Henry Stephenson (Mr. Brownlow), Mary  (Mrs. Corney), Anthony Newley (Artful Dodger), Josephine Stuart (mãe de Oliver), Ralph Truman (Monks), Kathleen Harrison (Mrs Sowerberry), Gibb McLaughlin, Amy Veness, Frederick Lloyd, Henry Edwards, Ivor Barnard, Maurice Denham, Michael Dear, Michael Ripper, Peter Bull, Deidre Doyle, Diana Dors, Kenneth Downey, W.G. Fay, Edie Martin, Fay Middleton, Graveley Edwards, John Potter, Maurice Jones, Hattie Jacques, Betty Paul, etc. Duração: 116 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 4 de Maio de 1950.

CHARLES DICKENS (1812-1870)
Charles John Huffam Dickens nasceu no dia 7 de Fevereiro de 1812, em Portsmouth (387, Mile End Terrace, Landport, Portsea) no Hampshire, no sul de Inglaterra, filho de John Dickens, funcionário da Armada, e de Elizabeth Barrow. Aos cinco anos, a família mudou-se para Chatham, no Kent, onde prolongou uma infância apenas remediada, mas suficientemente rica de um ponto de vista cultural. Foi a mãe quem o ensinou a ler, actividade que desenvolveu depois de forma voraz, consumindo quer novelas picarescas de Tobias Smollett e Henry Fielding, quer obras de um outro fôlego, como as de Daniel Defoe ou Goldsmith, o "Dom Quixote", o "Gil Blas" ou as "Mil e uma Noites". Foi nestes títulos, em personagens e situações que não mais esqueceria, que foi beber muita da influência que mais tarde iria dispersar pela sua obra.
Se a família tinha algumas posses, se o jovem Charles conseguiu mesmo frequentar uma escola privada durante a infância, tudo se alteraria a partir do momento em que o pai foi preso por dívidas. Muda-se, então, com a mãe e irmãos, para o popular bairro de Camden Town, em Londres. Tinha dez anos, viviam em quartos pobres e empenhavam as pratas e os livros. Era necessário arranjar dinheiro para a família e Charles foi encontrar trabalho, dois anos depois, numa fábrica de graxa para sapatos, na Warren’s, uma empresa de um amigo da família, que ficava onde hoje se encontra a estação ferroviária de Charing Cross. Colava rótulos nos frascos de graxa e ganhava seis xelins por semana.
Passados alguns anos, uma herança paterna libertou a família da prisão, mas não Dickens da fábrica. Aí conheceria um amigo, da sua idade, cuja história iria transformar na intriga central de “Oliver Twist”. Diz a lenda. O universo infantil, a sua exploração em termos de trabalho escravo, seriam a partir daqui uma das suas obsessões. Em Maio de 1827, Dickens começou a trabalhar como amanuense num cartório. Poderia nessa altura ter seguido a carreira de advogado, mas preferiu aprender taquigrafia e ser, durante algum tempo, estenógrafo do tribunal. Continuava a devorar livros, agora na biblioteca do British Museum. Apaixona-se pela filha de um banqueiro, Maria Beadnell, mas os banqueiros não querem as filhas casadas com filhos de presos por dívidas, o caso morre ali, para grande desgosto de Dickens.
É por essa altura que se inicia na escrita, como jornalista, primeiramente cronista judicial e, depois, relatando os debates parlamentares e cobrindo as campanhas eleitorais. Viaja pelo país, de diligência, e escreve “Sketches by Boz” (Boz foi o pseudónimo por ele escolhido, inspirado na alcunha do seu irmão mais novo, que era incapaz de pronunciar a palavra Moses). “Sketches by Boz” eram pequenas peças jornalísticas que surgiam no “Morning Chronicle”. Tinha pouco mais de vinte anos quando “The Pickwick Papers” iria confirmá-lo como escritor e estabelecer uma mística.
Em finais de Março de 1836 sai o primeiro fascículo de “Pickwick” e, dias depois, casa com Catherine Hogarth, que lhe dará dez filhos, cujos nomes suscitam homenagens a referências literárias: Charles Culliford Boz Dickens (6 de Janeiro, 1837 - 1896), Mary Angela Dickens (6 de Março, 1838 - 1896), Kate Macready Dickens (29 de Outubro, 1839 - 1929), Walter Landor Dickens (8 de Fevereiro, 1841 - 1861), Francis Jeffrey Dickens (15 de Janeiro, 1844 - 1886), Alfred D'Orsay Tennyson Dickens (28 de Outubro, 1845 - 1912), Sydney Smith Haldimand Dickens (18 de Abril, 1847 - 1872), Henry Fielding Dickens (15 de Janeiro, 1849 - 1933), Dora Annie Dickens (16 de Agosto, 1850 - Abril, 1851) e Edward Bulwer Lytton Dickens (13 de Março, 1852 - 1902). Houve quem visse nesta ligação dos nomes dos filhos à história da literatura inglesa uma forma de Dickens iniciar uma “dinastia literária”. Tal não aconteceu. Uns esbanjaram dinheiro, outros aproveitaram-se da celebridade do pai, mas apenas Monica Dickens, uma bisneta, ganharia algum renome com a escrita de romances.
“The Pickwick Papers” começa por não ser um sucesso público, vende uns discretos 400 exemplares no seu lançamento, mas a partir da altura em que aparece o criado de Pickwick, Sam Weller, personagem que relembra Sancho Pança numa versão “cockney”, é que o triunfo sucede e se atingem os 40 000 exemplares de vendas. Em 1836, é obra! Dois anos depois do triunfo de Pickwick, Dickens lança-se na publicação, igualmente em folhetins semanais, de “Oliver Twist”. O livro penetra nas suas recordações de infância, no mundo da criança maltratada, no universo depressivo e opressor de uma sociedade de profundas injustiças sociais, no âmago da Inglaterra industrial e vitoriana de um ascendente capitalismo selvagem e desregrado.
Já célebre e com reputação mundial de escritor consagrado viaja com a mulher pelos EUA, onde é recebido entusiasticamente, servindo a viagem de base a “American Notes” e influenciando ainda alguns capítulos de “Martin Chuzzlewit”. Mas cedo voltou os americanos contra si, ao acusar os seus escritores e editores de plagiarem a literatura inglesa e não pagarem os direitos referentes às suas obras que circulam em edições piratas.


Em 1843, publica “A Christmas Carol”, a mais famosa obra dedicada ao Natal, que conta com milhares de edições em todas as línguas, e adaptações a todas as formas de narrativa, desde o cinema, a televisão, a banda desenhada, o teatro… Curioso que Dickens é um autor profundamente crítico quanto às religiões, particularmente o cristianismo. Foi ele que disse: "Eu acredito que a disseminação do catolicismo é o meio mais horrível de degradação política e social deixado no mundo." Mas foi igualmente ele quem disse: “O Natal é um tempo de benevolência, perdão, de generosidade e alegria. A única época que conheço, no calendário do ano, em que os homens e as mulheres parecem, de comum acordo, abrir livremente seus corações. Deus abençoe o Natal!” ou ainda: “Honrarei o Natal no meu coração, e tentarei mantê-lo o ano todo”. Realmente pouco escritores sentiram esse espírito natalício como Dickens, o que explica certamente o sucesso do seu “Conto de Natal”.
Mas a esta história, outras se seguem, igualmente impregnadas de espírito natalício, como “The Chimes” (1844), escrita em Génova, ou “The Cricket on the Hearth” (1845). Em 1846 aparece como director de um jornal, o “Daily News”, mas a experiência dura pouco e, em 1848, sai “Dombey and Son”, abordando a revolução industrial na perspectiva dos operários dos transportes ferroviários. No ano seguinte, publica outro dos seus romances mais populares, “David Copperfield”, em grande parte autobiográfico, recuperando muitos aspectos da sua infância e adolescência. Em 1854, será a vez "Tempos Difíceis", dedicado ao escritor e amigo Thomas Carlyle.
A revista semanal “Household Words”, onde viria a publicar, em folhetins, alguns dos seus romances, foi fundada também por ele, em 1850. A publicação seria reformulada, em 1859, mudando de nome para “All the year round”.
Extremamente popular na época, lido por milhares de leitores em todo o mundo, contando com um público fiel, Dickens tornou-se um homem de teres e haveres, o que lhe permitiu concretizar um sonho de criança e adquirir, em 1856, uma casa e propriedade de nome “Gad’s Hill Place”, perto de Chatham, onde passaria a viver até à sua morte. O local tinha também um significado especial porque algumas cenas do “Henrique V”, de Shakespeare, estavam indicadas como localizadas nessa mesma área.
Mas a vida de Dickens ficou marcada por vários dramas e tragédias. A morte súbita da irmã da mulher, Georgina, com apenas 19 anos, foi uma delas, pois o escritor tinha por ela uma grande afeição. Em 1858, distanciado da mulher que amara, mas que entretanto o desiludira (ou que ele desiludira, consoante as versões), divorcia-se, decisão obviamente não muito bem vista nessa época, sobretudo entre notáveis. Houve rumores de um caso amoroso com a cunhada Georgina, mais tarde uma ligação fortuita com o seu amor de adolescência, Maria Beadnell, posteriormente o seu grande caso com a actriz Ellen Ternan, mais nova que ele vinte e sete anos.
A 9 de Junho de 1865, ao regressar de França, onde fora visitar a amante, Dickens sofreu um acidente ferroviário, em Staplehurst. As seis primeiras carruagens do comboio caíram de uma ponte em reparação, a única carruagem que não se desmoronou foi aquela onde viajava Dickens, Ellen Ternan e a mãe desta. As duas senhoras desapareceram rapidamente do local da tragédia, o escritor desmultiplicou-se no auxílio aos feridos e quase se ia esquecendo de um original entre os destroços. Mas lembrou-se a tempo de resgatar, de dentro da carruagem do comboio, o manuscrito inacabado do seu romance “Our Mutual Friend”. Abafada a ocorrência, Ellen iria tornar-se na companheira fiel que não o abandonou até ao final dos seus dias, apesar de nunca se terem casado oficialmente. Mas o incidente teve outras consequências no escritor. Apesar de ter saído aparentemente ileso do acidente, nunca mais recuperou totalmente do choque. O ritmo da sua produção literária decresceu bastante depois deste episódio. Irá terminar lentamente “Our Mutual Friend” e não irá completar “The Mystery of Edwin Drood”, onde alguns estudiosos dizem sentir a influência de Wilkie Collins, amigo de Dickens e um dos pioneiros do romance policial. Dedicou grande parte dos últimos anos da sua vida a esforçadas e emotivas leituras públicas, que o debilitaram também. Sozinho em palco, lia de forma arrebatada e comovente excertos de obras suas que entusiasmavam as plateias. Foram essas leituras que o levaram novamente à América em 1867, desta vez em triunfo constante.
Cinco anos depois do acidente de Staplehurst, exactamente no dia 9 de Junho de 1870, morreu e foi sepultado no “Poets' Corner”, na Abadia de Westminster. O túmulo encerra numa frase uma vida: “Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos. Com a sua morte desaparece um dos maiores escritores que a Inglaterra deu ao mundo.” A sua glória não pára de crescer. Em 1980, a histórica Eastgate House, em Rochester, no Kent, foi convertida num museu dedicado a Charles Dickens. É aí também que, anualmente, se realiza o Festival Dickens. A casa onde nasceu, em Portsmouth é igualmente um museu. Londres também tem a sua casa-museu Dickens (Doughty Street, 48).


Dickens no Cinema
Em vista do que atrás se disse, não será de estranhar ele ser um dos autores mais adaptados ao cinema e à televisão. A sua escrita é altamente cinematográfica, porque muito visual, muito próxima do leitor, crítica e emotiva, simultaneamente erudita e popular. Dickens é o escritor completo, cuja modernidade não passa. Foi moderno no seu tempo, continua moderno hoje. Os seus temas não passam de moda, porque apesar de se reportarem a um local e um tempo definido, são intemporais. Ele fala da Inglaterra do século XIX, mas nós sentimo-lo como se estivesse hoje, ao nosso lado. Quando se introduz o nome de Charles Dickens no imdb, site cinematográfico por excelência, aparecem mais de 325 títulos de obras cinematográficas ou televisivas adaptadas de escritos do romancista inglês. Muitos deles referem séries com dezenas de episódios. Arthur Conan Doyle, outro escritor inglês muito popular no cinema, não ultrapassa as 220 entradas.
Se oficialmente a história do cinema começa no dia 28 de Dezembro de 1895, em Paris, com a primeira sessão publica dos Irmãos Lumière, temos de registar que, logo em Abril de 1897, apareceu o primeiro, ou um dos primeiros filmes, nessa altura ainda curtos filmes de alguns minutos, adaptado de Oliver Twist. Dizia respeito apenas a um episódio do livro, chamava-se “Death of Nancy Sykes”, e era uma produção norte-americana, com um elenco onde apareciam Mabel Fenton, em Nancy Sykes, e Charles Ross, em Bill Sykes. Esta é a primeira adaptação conhecida, mas é possível que existam outras.
No ano seguinte, 1897, é rodado, agora em Inglaterra, “Mr. Bumble the Beadle”, um produção de Robert W. Paul. A mesma produtora lança, em 1901, “Mr. Pickwick's Christmas at Wardle's”, uma realização de Walter R. Booth, e ainda em Inglaterra, no mesmo ano, a Paul's Animatograph Works estreia uma nova realização de Walter R. Booth, “Scrooge, or Marley's Ghost”. Sabe-se que durava 11 minutos. Novo romance de Dickens é adaptado em 1903, “Nicholas Nickleby”, com direcção de Alf Collins, e interpretação de William Carrington, no papel de Pupil. A produção é da Gaumont.
Entre 1897 e 1927, data em que o “mudo” começa a ceder o lugar ao “sonoro”, conhecem-se cerca de uma centena de adaptações de obras de Charles Dickens ao cinema. Impossível dar conta de todas aqui, mas é conveniente referir uma das mais famosas, ainda hoje, um "Oliver Twist" de 1922, filmado no auge do cinema mudo, realizado por um dos grandes cineastas norte-americanos deste período entre duas épocas, Frank Lloyd. Em Portugal estreou-se com o título “Herança de Miudinho”, no dia 24 de Agosto de 1925 e Jackie Coogan, o fabuloso “Garoto de Charlot”, era um inesquecível Oliver Twist, enquanto Lon Chaney, um actor que era conhecido como “o homem das mil caras”, compunha a figura de Fagin.
Por essa altura, os filmes já tinham uma duração mais convencional, cerca de hora e meia, e a produção era de Jackie Coogan Productions, o que dá bem ideia do sucesso deste miudinho que triunfara em 1921, com “The Kid”, de Charlie Chaplin. A sua criação impôs uma personagem, que em Portugal ficou conhecida por “o miudinho” e que se renova regularmente em obras como “Miudinho não Tem Emenda”, “O Pobre Miudinho”, “Herança de Miudinho”, “A Orfandade de Miudinho” (1921), “Miudinho, Artista de Circo” ou “O Miudinho Trapeiro” (1925). “Oliver Twist” é tragado nesta onda de “miudinhos” e os distribuidores portugueses da época preferiram chamar “Herança de Miudinho” a “Oliver Twist”, levando assim a crer que, na década de 20, valia mais junto do critério do grande público um miudinho como Jackie Coogan do que um escritor como Charles Dickens.
De conjectura em conjectura, pois por esta época é difícil assegurar a veracidade das informações, dado que milhares de filmes foram desaparecendo na voragem do nitrato de prata, dos incêndios e do tempo, parece que o primeiro filme sonoro retirado de uma obra de Dickens foi uma curta produção inglesa, da British Sound Film Productions, de 1928, com cerca de 9 minutos, “Scrooge”, dirigida por Hugh Croise, com Bransby Williams compondo a figura do avarento Ebenezer Scrooge.
A primeira longa-metragem sonora digna de referência data de 1931, partia do romance "Dombey and Son", era uma realização de um outro grande cineasta de Hollywood, John Cromwell. Em português recebeu o título “Audácia que Assombra” (Rich Man's Folly), era uma produção da Paramount Pictures, com George Bancroft, como Brock Trumbull, Frances Dee, como Ann Trumbull, Robert Ames, como Joe Warren e Juliette Compton como Paula Norcross.
São igualmente algumas centenas as adaptações de obras de Dickens durante o sonoro. Ingleses e americanos levam a dianteira na empreitada, mas desde o Japão até ao Brasil, passando por Portugal, há produções em todas as línguas e para todos os gostos. Vamos apenas salientar algumas:
George Cukor, em 1935, dá-nos “Vida e Aventuras de David Copperfield” (The Personal History, Adventures, Experience, & Observation of David Copperfield the Younger), com um bom elenco, Basil Rathbone, Lionel Barrymore, Elsa Lanchester e Freddie Bartholomew. Uma produção da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), que insistiria na obra do escritor em 1935, agora “Duas Cidades” (A Tale of Two Cities), com a assinatura de Jack Conway, com Ronald Colman, Elizabeth Allan, Edna May Oliver, Reginald Owen e Basil Rathbone.
Na década de 40 surgia a televisão nos Estados Unidos e rapidamente Dickens se tornou um autor eleito para este novo tipo de espectáculo audiovisual. “A Christmas Carol, de 1943, dirigido por George Lowther, é um dos primeiros exemplos, emitido na noite de 22 de Dezembro de 1943, uma prática que depois se tornaria muito corrente. Roger De Koven, Ralph Locke e William Podmore, este em Ebenezer Scrooge, eram os protagonistas desta versão para TV a preto e branco. A produção era da W2XWV New York City. Da década de 40 até à actualidade, as adaptações para televisão da quase totalidade da bibliografia de Dickens tem sido uma constante, com múltiplas séries, telefilmes, obras de animação ou em imagem real.
Regressando à década de 40 do século passado, em Inglaterra, surgem duas das mais afortunadas adaptações de Dickens ao cinema, ambas levadas a cabo por um mestre, infelizmente nem sempre reconhecido enquanto tal, David Lean. “Grandes Esperanças” (Great Expectations), data de 1946, e conta com actores como John Mills, Valerie Hobson, Jean Simmons, Bernard Miles, Finlay Currie, Alec Guinness e Tony Wager na figura do jovem Pip. Trata-se de uma das mais fiéis adaptações da obra do escritor britânico, bem assim como uma excelente reconstituição da época em que a acção decorre, nessa Londres vitoriana, com profundas divisões sociais que a industrialização selvagem ajudara a acentuar. O êxito do filme permitiu a David Lean voltar ao mesmo escritor, dois anos depois, agora através de “As Aventuras de Oliver Twist” (Oliver Twist), com um belíssimo naipe de actores. Falaremos adiante desta obra com mais destaque.
“The Life and Adventures of Nicholas Nickleby”, de Alberto Cavalcanti (1947), é outra boa referência inglesa deste período, com actores de excepção, Derek Bond, Cedric Hardwicke, Mary Merrall, Sally Ann Howes, Bernard Miles, etc. De 1951, é “O Homem e o Espectro”, de Brian Desmond Hurst, adaptação de "A Christmas Carol", com uma composição invulgar de Alastair Sim no papel de Ebenezer Scrooge.
Depois de ter conhecido um enorme sucesso nos palcos londrinos, a versão musical de “Oliver!”, surge em 1968, pela mão de Carol Reed, com inspirada partitura musical de Lionel Bart. O filme seria coroado por seis Oscars e mais seis nomeações. e há presenças igualmente inesquecíveis nesta obra, Ron Moody, em Fagin, Oliver Reed, em Bill Sykes, e ainda Shani Wallis, Harry Secombe, Jack Wild, Hugh Griffith e o jovem Mark Lester, em Oliver Twist.
O universo de Dickens tem sobrevivido a tudo, até a adaptações estranhas, como a de “SOS Fantasmas” (Scrooged), de 1988, dirigida por Richard Donner, com Bill Murray, Karen Allen, John Forsythe, John Glover, Carol Kane e Robert Mitchum. Ou a popular versão dos Muppets, “O Conto de Natal dos Marretas” (The Muppet Christmas Carol), de 1992, numa realização de Brian Henson, com um saboroso Michael Caine a compor a disputada figura de Ebenezer Scrooge, rodeado por toda a galeria dos fabuloso bonecos criados por Jim Henson.
A obra de Dickens não se esgota e o cinema e a televisão não se cansam de nela procurar inspiração. Em 1998, Alfonso Cuarón regressa a “Grandes Esperanças”, com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow. Em 2002, surge uma nova versão de “Nicholas Nickleby”, dirigida por Douglas McGrath. Em 2005 será a vez de Roman Polanski tornar seu Oliver, outra grande adaptação de que falaremos mais adiante. Finalmente, em 2009, “Um Conto de Natal” (A Christmas Carol), em 3D, com Jim Carey, assinala o encontro de Robert Zemeckis com Dickens. Gary Oldman, Colin Firth, Cary Elwes, Robin Wright Penn ou Bob Hoskins estão no elenco desta obra que mistura habilmente imagem real e desenho animado.

É altura de sublinhar que também os cineastas portugueses não ficaram alheios ao fascínio de Dickens e à sua vibrante critica social.  Em 1988, João Botelho socorre-se das palavras do escritor para nos dar uma adaptação sua de “Tempos Difíceis”, com cenários habilmente escolhidos entre Lisboa e Barreiro, e um elenco de luxo para a nossa terra, Henrique Viana, Júlia Britton, Eunice Muñoz, Ruy Furtado, Isabel de Castro, Isabel Ruth, Lia Gama, Inês de Medeiros, Pedro Cabrita Reis, entre outros. Uma adaptação dos tempos difíceis ingleses à realidade portuguesa, num magnífico preto e branco, onde a plasticidade visual de Botelho resultou bem. 

SESSÃO 9: 1 DE ABRIL DE 2014


AS VIDAS E AVENTURAS
DE NICHOLAS NICKLEBY (1947)

Charles Dickens é um dos escritores mais adaptados ao cinema e à televisão. Por vezes com muito bons resultados. A maioria das suas obras encontraram boas transposições para o ecrã. “The Life and Adventures of Nicholas Nickleby” é seu o terceiro romance, tendo surgido inicialmente em opúsculos mensais, entre Abril de 1838 e Outubro de 1839. Cavalcanti, brasileiro por nascimento, e um cineastas e errante, que dispersaria a sua obra por vários países, instalou-se durante algum tempo em Inglaterra, primeiro na companhia de documentaristas, como John Grieson, depois nos reputados Ealing Studios, onde dirigiu diversas longas-metragens de ficção, a última das quais foi precisamente “Nicholas Nickleby”. Lendo o romance percebe-se a minucia com que Dickens descreve os ambientes vitorianos, e há quem diga que isso se ficou a dever à sua anterior experiência como jornalista. Conta-se mesmo que para dar maior veracidade à sua narração, nomeadamente o ambiente das escolas da época, terá visitado algumas antes de escrever as páginas que a elas são consagradas. Curiosamente, essa urgência de realismo parece ser igualmente uma das características de Cavalcanti, que durante anos se dedicou ao documentarismo e que, mesmo na ficção, oscilava entre um certo vanguardismo estético e uma obvia propensão para herdar a lição do neo-realismo. O seu “The Life and Adventures of Nicholas Nickleby” de 1947 está mais ligado a esta necessidade de realismo, do que às suas excursões estéticas vanguardistas.


O longo romance de Dickens era de difícil adaptação ao cinema e disso, de alguma forma se ressente o filme, dado que por vezes as cenas se sucedem sem que se sinta a necessária densidade a envolvê-las. Algumas das peripécias são apenas enunciadas, outras concentradas, muitas desaparecem. Mas o essencial fica.
Nicholas Nickleby é um jovem que, por morte do pai, se vê confrontado com a árdua tarefa de sustentar a família, composta pela irmã e a mãe. Sem dinheiro próprio, nem emprego, Nicholas é enviado até junto de um seu tio, Ralph Nickleby, homem endinheirado e usurário sem escrúpulos, enriquecendo com base em expedientes diversos e sem o mais pequeno vislumbre de caridade. A ajuda de Ralph a Nicholas é enviar este como professor para uma miserável escola onde um execrável director explora os alunos e um criado, Smike. Por outro lado, agradado das feições e dos modos da irmã de Nicholas, Ralph contrata-a como governanta, com sigilosas intenções que obviamente não são as melhores. A estrutura é melodramática. De um realismo social característico de todo o Dickens, com dramáticas descrições de certos ambientes da sociedade londrina do século XIX, o filme de Alberto Cavalcanti não fica à altura do romance, mas é um bom exemplo de um certo tipo de cinema inglês deste período, ainda que sem o talento demonstrado por David Lean nas suas magnificas adaptações de “Oliver Twist” (1948) e de “Grandes Esperanças” (1946).
De todas as formas, Cavalcanti tem excelentes momentos, nomeadamente nas sequências passadas em Dotheboys Hall, e os actores são quase todos extremamente interessantes, com relevo para o brilhante Cedric Hardwiche, na personagem do tio Ralph, construída com enorme economia de meios, rigor e eficácia.
“The Life and Adventures of Nicholas Nickleby” não é curiosamente uma das obras mais adaptadas pelo cinema e pela televisão, sobretudo em Inglaterra. Há mais versões norte-americanas, por exemplo. Para televisão há algumas versões: uma mini-série, de 1977, dirigida por Christopher Barry, outra de Jim Goddard (1982), uma de 1985, para lá de uma outra, mais antiga, de 1957, assinada por Eric Tayler. Mais recentemente conhece-se um teledramático, de 2001, dirigido por Stephen Whittaker, e um filme de Douglas McGrath, de 2003. Mas neste panorama, a versão de 1947, de Cavalcanti, será ainda das mais interessantes. 



AS VIDAS E AVENTURAS DE NICHOLAS NICKLEBY
Título original: The Life and Adventures of Nicholas Nickleby
Realização: Alberto Cavalcanti (Inglaterra, 1947); Argumento: John Dighton, segundo romance de Charles Dickens; Produção: Michael Balcon, John Croydon; Música: Lord Berners; Fotografia (p/b): Gordon Dines; Montagem: Leslie Norman; Direcção artística: Michael Relph; Guarda-roupa: Marion Horn; Maquilhagem: Barbara Barnard, Ernest Taylor; Direcção de produção: Hal Mason, Jack Rix; Som: Stephen Dalby, Eric Williams; Efeitos especiais: Lionel Banes, Cliff Richardson; Companhia de produção: Ealing Studios; Intérpretes: Derek Bond (Nicholas Nickleby), Cedric Hardwicke (Ralph Nickleby), Mary Merrall (Mrs. Nickleby), Sally Ann Howes (Kate Nickleby), Bernard Miles (Newman Noggs), Athene Seyler (Miss La Creevy), Alfred Drayton (Wackford Squeers), Sybil Thorndike (Mrs. Squeers), Vida Hope (Fanny Squeers), Roy Hermitage (Wackford Squeers Jnr.), Aubrey Woods, Patricia Hayes, Cyril Fletcher, Fay Compton, Cathleen Nesbitt, Stanley Holloway, Vera Pearce, Una Bart, June Elvin, Drusilla Wills, James Hayter, Emrys Jones, Roddy Hughes, George Relph, Jill Balcon, Michael Shepley, Cecil Ramage, Timothy Bateson, Laurence Hanray, Frederick Burtwell, John Salew, Arthur Brander, Eliot Makeham, John Chandos,      Hattie Jacques, Dandy Nichols, Guy Rolfe, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal (dvd): ; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 3 de Dezembro de 1947.

ALBERTO CAVALCANTI  
(1897-1982)
Alberto de Almeida Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro, a 6 de Fevereiro de 1897, e viria a falecer em Paris, a 23 de Agosto de 1982. Filho de um matemático célebre, foi considerado um jovem precoce e aos 15 anos já estudava Direito da Universidade, mas uma discussão com um professor levou-o a sair da universidade, rumando depois a genebra, na Suíça, onde optou por arquitectura, e depois, em Paris,  design de interiores. Entretanto conhece Marcel L'Herbier, um cineasta francês vanguardista, com quem começa a trabalhar como decorador, nomeadamente em “L'Inhumaine”. Depois começa a realizar os seus próprios filmes, a partir de 1926, um dos primeiro dos quais é “Rien Que les Heures”, um dia na vida de Paris e dos seus habitantes.  No ano seguinte colabora com Walter Ruttmann em “Berlin: Die Sinfonie der Großstadt”. A Paramount francesa contrata-o, mas o estilo de filmes comerciais não o satisfaz, despede-se em 1933, e viaja até Inglaterra, onde começa a trabalhar com o documentarista  John Grierson, na GPO Film Unit. Trabalha ai em vários projectos, dirigidos por si ou por outros, como  “Coal Face” (1935), “Night Mail” (1936), “Message to Geneva” (1937), “Four Barriers” (1937), ou “Spare Time” (1939). Para continuar a trabalhar na GPO em cargos de maior responsabilidade era necessário naturalizar-se inglês, e Cavalcanti sai da unidade, passando para os Ealing Studios, em 1940, sob a direcção de Michael Balcon. Dirige várias longas e curtas-metragens,  algumas de propaganda: “Yellow Caesar” (1941), “Went the Day Well?” (1942), “Three Songs of Resistance” (1943), “Champagne Charlie” (1944), “Dead of Night” (ao lado de outros realizadores) (1945) ou “Nicholas Nickleby” (1947). Incompatibilizado com os Earling Studios, ainda filma mais três obras para outros estúdios britânicos, mas depois regressa ao Brasil, em 1949. Assume o cargo de produtor-geral na Companhia Cinematográfica Vera Cruz (está ligado a obras como "Caiçara" (1950), "Terra é Sempre Terra" (1951), e "Ângela" (1951). É convidado por Getúlio Vargas a erguer o Instituto Nacional de Cinema, trabalha como realizador na empresa Cinematográfica Maristela (em São Paulo), onde dirige "Simão, o Caolho" (1952), "O Canto do Mar" (1953) e "Mulher de Verdade" (1954). Começa então a ser perseguido como comunista, e resolve voltar à Europa, trabalhando em vários países, em projectos diversificados, na RDA, França e Israel.  Morreu aos 85 anos em Paris.

Filmografia
Como realizador: (em França) 1926: Le Train Sans Yeux; Rien que les Heures; 1927: En Rade; Yvette; 1929: La Jalousie du Barbouille (curta-metragem); La P'tite Lilie (curta-metragem); Le Capitaine Fracasse (O Capitão Fracasse); Le Petit Chaperon Rouge; Vous Verrez la Semaine Prochaine; 1930: Toute sa Vie; A Canção do Berço (Portugal); 1931: Dans Une Ile Perdue; Les Vacances du Diable; A Mi-Chemin du Ciel; 1932: En Lisant le Journal (curta-metragem); Le Jour du Frotteur (curta-metragem); Nous ne Ferons Jamais le Cinema (curta-metragem); Revue Montmartroise (curta-metragem); Tour de Chant (curta-metragem); Le Truc du Brésilien (curta-metragem); 1933: Coralie et Cie; Le Mari Garçon; 1933: Plaisirs Defendus (curta-metragem);
(Em Inglaterra, para GPO e Crown Film Units): 1934: The glorious Sixth of June: New rates (curta-metragem); New Rates (curta-metragem); Pett and Pott: A fairy story of the suburbs (curta-metragem); SOS Radio Service (curta-metragem); 1935: Coal Face (curta-metragem); 1936: Message from Geneva (curta-metragem); 1937: The Line to Tschierva Hut (curta-metragem); We Live in Two Worlds (curta-metragem); Who Writes to Switzerland (curta-metragem); 1938: Mony a pickle (curta-metragem); Happy in the morning: A film fantasy; Four Barriers (curta-metragem); 1939: The First Days (documentário); Men of the Alps (curta-metragem); Midsummer Day's Work (curta-metragem); The Chiltern country; 1940: Alice in Switzerland; La Cause Commune; Factory front; Mastery of the sea; 1941: Yellow Caesar (curta-metragem); Young Veteran (curta-metragem); 1942: Went the day well?; 48 Hours (48 Horas de Terror); Film and Reality;

(Em Inglaterra , nos Ealing Studios e outros) 1941: Yellow Caesar (curta-metragem); 1942: Went the Day Well?; 1943: Watertight (curta-metragem); 1944: Champagne Charlie; 1945: Dead of Night (A Dança da Morte) (episódios "Christmas Party"e "The Ventriloquist's Dummy"); 1947: The Life and Adventures of Nicholas Nickleby (Nicholas Nickleby); The First Gentleman (A Prisioneira do Castelo de Windsor); They Made me a Fugitive; 1948: Affairs of a Rogue; 1949: For them that Trespass; 1952: Simão, o Caolho (Simão o Caolho); 1953: O Canto do Mar (O Canto do Mar); 1954: Mulher de Verdade (Mulher de Verdade); 1955: Herr Puntila und Sein Knecht Matti; 1957: Castle in the Carpathians; 1958: La Prima Notte; 1960: The Monster of Highgate Pond; 1967: Thus Spake Theodor Herzl