segunda-feira, 3 de novembro de 2014

SESSÃO 60: 23 DE DEZEMBRO DE 2014


A FUGA DAS GALINHAS (2000)

Genial o filme da dupla Peter Lord e Nick Park, que já nos tinha dado anteriormente alguns momentos de eleição em “As Aventuras de Wallace & Gromit”, uma reunião de sete pequenos filmes de animação que têm por base bonecos de plasticina. Vários realizadores e argumentistas assinam estes pequenos filmes, alguns dos quais premiados com Oscars da Academia, como “Creatures Confort”, em 1992, e “The Wrong Trousers”, em 1994. “Creatures Confort” era uma deliciosa entrevista a vários animais num jardim zoológico, onde as referências a alguns dos temas centrais do mundo moderno adquirem sentido crítico evidente, denotando grande originalidade e humor.
Peter Lord e Nick Park foram muito solicitados para passar à longa-metragem, mas foi a Dreamwork, de Steven Spielberg e Jeffrey Katzenberg, que os convenceu a lançarem-se nesta aventura, estreada em 2000. Depois de lidos algumas centenas de argumentos, foi um desenho de uma galinha com uma pá na mão, escavando na terra, que deu o mote a esta obra.


“A Fuga das Galinhas” situa a sua acção numa quinta de Yorkshire, em 1950. A senhora Tweedy, uma verdadeira tirana, que reina com mão de ferro sobre os indefesos galináceos e o próprio marido, não perdoa uma manhã sem ovos. Cada galinha que não põe o seu ovo da praxe acaba degolada e assada em torta. Perante a ameaça, as galinhas ensaiam várias formas de fuga (as tentativas que o genérico resume são fabulosas), sempre sem resultados evidentes, a não ser permanências em cela solitária. Até que um dia aparece um galo americano, que deambula num circo, onde protagoniza um espectacular número de voo que abre renovadas perspectivas às martirizadas galinhas. E são novas tentativas até à vitória final.
Filmado fotograma a fotograma, alterando cada desenho milimetricamente por forma a dar a sensação de movimento, “A Fuga das Galinhas” é um prodígio no campo da animação, a que se associa um humor muito especial, retintamente inglês e muito subtil. A técnica de animação utilizada em “Chicken’s Run” é a modelagem em plasticina, uma técnica quase artesanal, que nada tem a ver com as muito evoluídas tecnologias digitais. Foram necessários alguns anos de labor continuado para erguer esta obra (lemos algures que para cada segundo de filme foram necessários dois dias de trabalho).
Com base nesta história, que relembra muitas outras em imagem real, Peter Lord e Nick Park  erguem um filme absolutamente espantoso de ironia, de poder de observação, de rigor narrativo.  Ginger é a chefe das galinhas, que não resiste a uma nova hipótese de fuga, Rocky (na versão original a voz é a de Mel Glbson) é o galo voador que vem da América para dar volta às cabeças tontas das poedoras de ovos. Mas há ainda muitas outras personagens inesquecíveis, como a galinha estúpida que não percebe nada do que se passa à sua volta, o galo que vive da memória dos seus tempos de mascote da RAf; a própria senhora Tweedy e o seu submisso marido são deliciosos...
Assim sendo, nada a fazer. Miúdos e graúdos só têm um caminho a tomar: correr até à sala de cinema mais próxima onde esteja em cartaz “Chicken's Run” e deleitarem-se com este magnífico exemplo de cinema de animação e dedicação à oitava arte.


A FUGA DAS GALINHAS
Título original: Chicken Run
Realização: Peter Lord, Nick Park (Inglaterra, EUA, 2000); Argumento: Peter Lord, Nick Park, Karey Kirkpatrick, Mark Burton, John O'Farrell; Produção: Jake Eberts, Jeffrey Katzenberg, Peter Lord, Nick Park, Michael Rose, Carla Shelley, David Sproxton, Lenny Young;  Música: Harry Gregson-Williams, John Powell;  Fotografia (cor):  Tristan Oliver, Frank Passingham; Montagem: Robert Francis, Tamsin Parry, Mark Solomon;  Casting: Patsy Pollock; Design de produção:  Phil Lewis; Direcção artística: Tim Farrington; Guarda-roupa:  Sally Taylor; Direcção de Produção:  Harry Linden, Michael Solinger;  Assistentes de realização: Fred De Bradeny, Robert Hurley, Will Norie, Rich Priestley; Departamento de arte: Bee Arnoux, David Bowers, John Davey, Jack Goodyear, Alastair Green, Jon Minchin, Martin Norie, Steve Priddle, Jan Sanger; Som: Graham Headicar, James Mather; Efeitos especiais: Michelle Freeborn, Kevin Yates; Efeitos visuais: John Adams, Kyleigh Adrian, Kate Anderson, Gill Bliss, Martin Bullard, Gavin Jones, Lizzie Spivey;  Animação: Dug Calder, Cody Cameron, Randy Cartwright, Stefano Cassini, Merlin Crossingham, Sergio Delfino, Suzy Fagan, Jay Grace, William Hodge, Guionne Leroy, Seamus Malone, Dave Osmand, John Pinfield, Loyd Price, Andy Symanowski; Companhias de produção: DreamWorks Animation, Pathé, Aardman Animations; Intérpretes (vozes): Phil Daniels (Fetcher), Lynn Ferguson (Mac), Mel Gibson (Rocky), Tony Haygarth (Mr. Tweedy), Jane Horrocks (Babs), Miranda Richardson (Mrs. Tweedy), Julia Sawalha (Ginger), Timothy Spall (Nick), Imelda Staunton (Bunty), Benjamin Whitrow (Fowler), John Sharian, Jo Allen, Lisa Kay, Laura Strachan, etc. Duração: 84 minutos; Distribuição em Portugal:; Classificação etária: M/ 4 anos; Data de estreia em Portugal: 11 de Agosto de 2000.

AARDMAN ANIMATIONS 
(1972 - )
Casa de animação inglesa fundada em 1972. Os seus criadores foram Peter Lord e David Sproxton, tendo a sua sede em Bristol, Inglaterra. Neste momento possui diversas divisões: Aardman Features, Aardman Digital, Aardman Commercials, Aardman Broadcast, Aardman International, Aardman Rights, Aardman Effects, Aardman 3-D Systems.  Trabalha sobretudo com técnicas clássicas de Stop-Motion. Os seus trabalhos mais notáveis são a série de curtas-metragens de “Wallace e Gromit” e o filme “A Fuga das Galinhas”. Começou a trabalhar primeiramente para a televisão, sobretudo para o Canal 4 da BBC. Os sucessos de público e crítica foram notáveis. Ainda no domínio das curtas-metragens, com Wallace e Gromit, ganharam dois Oscars. Em 1995 a Aardman fechou um contrato com a gigante Dreamworks Animation para produzir alguns de seus futuros filmes. Daí surgiu “A Fuga das Galinhas”.

Filmografia
Longas-metragens: Chicken Run (A Fuga das Galinhas) (2000), Wallace & Gromit: The Curse of the Were-Rabbit (Wallace & Gromit: A Maldição do Coelhomem) (2005), Flushed Away (Por Água Abaixo) (2006), The Pirates! Band of Misfits (Os Piratas!) (2009), Arthur Christmas (2011), Shaun the Sheep (2015, em produção).
Series de televisão: The Great Egg Race (1978), Rex the Runt (1998–2001), Creature Comforts (2003–2007), Planet Sketch (2005), Purple and Brown (2006-2007), Shaun the Sheep (2007–2010), Chop Socky Chooks (2008), Timmy Time (2009–2011), Wallace and Gromit's World of Invention (2010), Canimals (2012), Ploo.

Curtas-metragens: Conversation Pieces (1983), Sledgehammer (filme) (1986), Wallace & Gromit: A Grand Day Out (1989), Wallace & Gromit: The Wrong Trousers (1993), Gogs and Gogwana (1993-1996, 1998), Pib and Pog (1994), Wallace & Gromit: A Close Shave (1995), The Morph Files (1995), Chevron Cars (1995), Wat's Pig (1996), Stage Fright (filme) (1997), Serta (filme) (1997 -), Humdrum (1998), Angry Kid (1999), The Presentators (2001), Wallace & Gromit: Cracking Contraptions (2002), A Town Called Panic (2006), Purple and Brown (2006), Pib and Pog Additional episodes (2007), Wallace & Gromit: A Matter of Loaf and Death (2008), The Cat Burglers (2010), Operation Rudolph (2010), The Scarecrow and his Servant (Não confirmado), JellyBeats (-), Count Duckula (2010). 

FIM DA MASTERCLASS SOBRE 
"O MELHOR DO CINEMA INGLÊS: 1935-2000)
COM VOTOS DE UM FELIZ NATAL 
E DE UM ÓPTIMO 2015.
COM BOM CINEMA: 
"A ACTRIZ, ARTE E SEDUÇÃO" 

SESSÃO 59: 16 DE DEZEMBRO DE 2014


A CASA DA FELICIDADE (2000)

Edith Wharton, escritora norte-americana que atravessou o final do séc. XIX e viria a falecer em França, em 1937, parece ter sorte com a adaptação de obras suas ao cinema. Depois de um excelente “A Idade da Inocência”, que Martin Scorsese nos deu em 1993, temos também outra soberba versão de um romance seu passado ao cinema, desta feita a sua segunda obra de fôlego, “A Casa da Felicidade”, escrita no início do século xx. O arranque é notável, de sugestão, de intensidade erótica, de contenção formal, de elegância estilística, de economia de meios: Lilly Bart, numa estação de caminhos-de-ferro, encontra Selden, seu secreto amor. A troca de olhares, o diálogo carregado de subtendidos, os movimentos de personagens e a colocação e deslocação da câmara, tudo faz desta cena um momento de particular significado, que irá ser acentuado, tempos depois, numa discreta cena de amor em Bellomont, que é todavia um dos mais eróticos momentos do cinema contemporâneo. Dois lábios que se tocam, num esboço de beijo, dois desejos que se cruzam e se bloqueiam. De resto, esta é a história de uma mulher que vive em Nova lorque, em 1905, que ama um homem, Selden, mas que por força de alguns erros próprios e da intolerância de uma sociedade mesquinha vai caindo até ao desespero.
Tendo como pano de fundo uma sociedade em transformações profundas, este filme é um retrato admirável de uma mulher a quem os preconceitos consomem. Proscrita pelos bem pensantes da época, Lily é assediada por anafados capitalistas, que a querem conquistar como troféu de caça. Mas resiste com uma dignidade muito pessoal. Desce até ao precipício, mostrando as vicissitudes de uma educação voltada sobretudo para o casamento. Um belíssimo filme, económico na reconstituição física da época, mas com um enorme talento e sensibilidade a desenhar o pulsar de um período olhado por dentro, impondo personagens e situações.


Terence Davies, realizador inglês cuja obra se inicia na década de 70 mas que rodou poucos títulos, assina filmes de uma qualidade e interesse acima da média: “Vozes Distantes”, “Vidas Suspensas”, “Aqueles Longos Dias” e “A Bíblia de Néon”. Terence Davis não é um cineasta fácil, tentado por qualquer contacto ardiloso com o grande público. Os seus filmes são discretos e intimistas, ganham em cumplicidade com o público o que perdem em espectacularidade. “A Casa da Felicidade” é, todavia, um dos seus melhores exemplos. De uma beleza formal e plástica por vezes sufocante, Terence Davis mantém a sua câmara num rigor de observação pouco usual nos dias que correm e faz desta obra um momento imperdível de justeza psicológica e de rigor narrativo.
Admirável e surpreendente o trabalho de Gillian Anderson (“Ficheiros Secretos”) e de Eric Stotz.

A CASA DA FELICIDADE
Título original: The House of Mirth
Realização: Terence Davies (Inglaterra, França, Alemanha, EUA, 2000); Argumento: Terence Davies, segundo romance de Edith Wharton ("The House of Mirth"); Produção: Pippa Cross, Bob Last, Olivia Stewart, Alan J. Wands;  Música (não original): Heather Bownass, Terry Davies, Isobel Griffiths, Adrian Johnston, Bruce White, Adrian Johnston; Fotografia (cor): Remi Adefarasin; Montagem: Michael Parker; Casting: Kerry Barden, Billy Hopkins, Suzanne Smith; Design de produção: Don Taylor; Direcção artística: Diane Dancklefsen; Decoração:  John Bush; Guarda-roupa:  Monica Howe; Maquilhagem: Eva Marieges Moore, Dianne Millar, Christine Powers, Jan Harrison Shell, Meg Speirs; Direcção de Produção:  Wendy Broom, Tony Hood, Sarah Lee; Assistentes de realização: William Booker, Sarah Lee, Nanna Mailand-Hansen, Guy Travers; Departamento de arte: Alan Bailey, Jo Graysmark, Barry Nelson, Danny Sumsion; Som: Tony Cook, Paul Hamblin, Catherine Hodgson; Efeitos especiais: Ricky Farns, Stuart Murdoch; Efeitos visuais: John Paul Docherty, Tim Ollive, Susi Roper; Companhias de produção: Arts Council of England, Diaphana Films , FilmFour, Granada Film Productions, Kinowelt Filmproduktion, National Lottery, Progres Film Distribution, The Scottish Arts Council,  Showtime Networks, The Glasgow Film Fund, Three Rivers Production; Intérpretes: Gillian Anderson (Lily Bart), Dan Aykroyd (Augustus 'Gus' Trenor), Eleanor Bron (Mrs. Julia Peniston), Terry Kinney (George Dorset), Anthony LaPaglia (Sim Rosedale), Laura Linney (Bertha Dorset), Jodhi May (Grace Julia Stepney), Elizabeth McGovern (Mrs. Carry Fisher), Eric Stoltz (Lawrence Selden), Penny Downie (Judy Trenor), Pearce Quigley (Percy Gryce), Helen Coker, Mary MacLeod, Paul Venables, Serena Gordon, Lorelei King, Linda Marlowe, Anne Marie Timoney, Clare Higgins, Ralph Riach, Brian Pettifer, Philippe De  Grossouvre, Trevor Martin, David Ashton, etc. Duração: 135 minutos; Distribuição em Portugal: LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 11 de Maio de 2001.

TERENCE DAVIES (1945 - )
Terence Davies nasceu a 10 de Novembro de 1945, em Kensington, Liverpool, Lancashire, Inglaterra. A sua família era católica, com uma mãe muito religiosa, mas muito cedo Terence se declarou ateu. Depois de passar por vários pequenos empregos, deixou Liverpool e matriculou-se na Coventry Drama School, em Londres. Escreveu e realizaou uma curta autobiográfica, “Children” (1976), sob os auspícios do BFI Production Board. Cursou depois a National Film School, onde realizou “Madonna and Child” (1980), completando a trilogia com “Death and Transfiguration” (1983), onde imaginava a sua morte. “The Terence Davies Trilogy” ganhou vários prémios em festivais. Daí em diante, a sua obra é rara, recusando todas as concessões, mas de grande significado, sendo considerada uma das de maior importância no contexto do moderno cinema inglês. Há quem a ele se refira como “Britain's greatest living filmmaker”. “Distant Voices, Still Lives” e “The Long Day Closes” são dois marcos, com muita influência autobiográfica e jogando amiúde com a memória. Em 2002, o British Film Institute e a revista “Sight & Sound” organizaram um inquérito sobre os melhores filmes dos últimos 25 anos e “Distant Voices, Still Lives” apareceu colocado em nono lugar. Jean-Luc Godard, que não gostava particularmente de cinema inglês, considerou-o uma excepção “magnífica”.
“The Neon Bible” e “The House of Mirth”, adaptando romances de John Kennedy Toole e Edith Wharton, foram dois outros sucessos. “The Deep Blue Sea” é o seu último grande triunfo. Numa revelação intimista confessou: “Não gosto de ser gay. Isso arruinou a minha vida. Sou um celibatário, mas sê-lo ia mesmo que não fosse gay, pois não tenho uma boa aparência; porque estaria alguém interessado em mim? Ninguém estaria. O meu trabalho é o meu substituto”. Coleccionou até hoje um invulgar número de prémios e distinções.

Filmografia: 
Como realizador: 1976: Children (curta-metragem); 1980: Madonna and Child (curta-metragem); 1983: Death and Transfiguration (curta-metragem); 1984: The Terence Davies Trilogy (antologia dos três títulos anteriores); 1988: Distant Voices, Still Lives (Vozes Distantes, Vidas Suspensas); 1992: The Long Day Closes (Aqueles Longos Dias); 1995: The Neon Bible (A Bíblia de Neon); 2000: The House of Mirth (A Casa da Felicidade); 2008: Of Time and the City (documentário); 2011: The Deep Blue Sea (O Profundo Mar Azul); 2014: Sunset Song (em rodagem). 

SESSÃO 58: 9 DE DEZEMBRO DE 2014


UM MARIDO IDEAL (1999)

Há filmes em que se lamenta verdadeiramente não terem tido o realizador à altura do empreendimento. “Um Marido Ideal”, de Oliver Parker, é apenas mais um exemplo. Oliver Parker, que já nos dera uma adaptação de William Shakespeare particularmente falhada, “Othello”, oferece-nos agora um trabalho uns pontos acima, mas ainda assim algo desinteressante em termos cinematográficos. A realização é baça, sem alma, ilustrativa quase sempre, nada inspirada em termos criativos. Oliver Parker limita-se a reproduzir a peça de Oscar Wilde, por vezes deixando a descoberto os cordelinhos da sua raiz teatral, outras vezes tentando, sem grande consistência, dar-lhe uma respiração cinematográfica, que quase nunca ultrapassa o esquematismo.
“Um Marido Ideal” é, no entanto, um filme cuja visão se recomenda. Vamos tentar explicar porquê. Primeiramente, por que se trata de uma oportunidade única de se assistir à belíssima peça de Oscar Wilder. Escrita há cerca de cem anos (mais precisamente em 1895), imediatamente antes da sua obra-prima “A Importância de ser Ernesto” (igualmente de 1895), e depois de obras como “O Leque de Lady Windermere” (1892) ou “Uma Mulher sem Importância” (1893), “Um Marido Ideal” é um bom exemplo do teatro de um mestre da dramaturgia inglesa do século XIX: violento crítico social do seu tempo, dos bons e dos maus costumes da época, Oscar Wilde escolhia uma ironia mordaz e um diálogo cortante para exorcizar os fantasmas e ridicularizar a hipocrisia e o cinismo dos seus conterrâneos. Homossexual e dandy, pagando por isso dois anos de cadeia e trabalhos forçados que antecederam de pouco a sua morte, Wilde foi, e é, bem um símbolo de um tempo e, simultaneamente, de uma reacção a esse mesmo tempo. Continua matéria de culto para as gerações de hoje (“Velvet Goldmine” cita-o no inicio e Todd Haynes coloca-se sob a sua égide) e este “Um Marido Ideal” demonstra bem a singular actualidade do seu olhar e da mordacidade do seu pensamento. De certa forma, o filme de Oliver Parker conserva tudo isso, e torna-se assim obra a ter em conta, mais pela base literária donde parte, que pela genuína transposição cinematográfica.
A história é simples e articula-se através de equívocos de situação e de qui pro quos de diálogos, muito ao jeito do que era prática corrente na altura. Mas Oscar Wilde era autor de genialidade certa e de frase segura na sua fina e ágil palavra. As antologias de máximas estão repletas de citações de Oscar Wilde, muitas delas retiradas seguramente de “An Ideal Husband”. Há uma frase sua que resume bem a sua posição: “Não diga que concorda comigo. Quando os outros estão de acordo comigo, tenho sempre a sensação de que devo estar errado.”


Sir Robert Chiltern (Jeremy Northam) tem tudo da vida: fortuna, prestigio, crédito político, uma áurea de cidadão impoluto, e uma bela mulher (Cate Blanchett). Mas, um dia, uma cortesã recém chegada da Áustria, Mrs. Cheveley (Julianne Moore), ameaça-o com a revelação de um sórdido segredo, caso ele não a favoreça numa situação que envolve claro suborno. É Arthur Goring (Rupert Everett), um dandy elegante e distanciado da vida, quem irá ajudar a resolver o imbróglio, antes de aceitar a mão da entusiástica irmã de Robert (Minnie Driver). Como se vê, a comédia envolve situações de risco que Oscar Wilde resolve com uma ardilosa arquitectura cénica, sendo que no filme a já tradicional qualidade de representação britânica impera em toda a linha – todos os actores são excelentes, conseguindo por si sós ultrapassar a vulgaridade da realização, e valorizar sabiamente o diálogo e as situações.
Por tudo isso apetece dizer que, não sendo um grande filme, “Um Marido Ideal” é obra de visão obrigatória, pela qualidade do texto teatral de Wilde, pela saborosa representação de um grupo de actores e pelo trabalho de técnicos admiráveis. Oscar Wilde merece bem uma revisão crítica actual, até porque os seus textos permanecem de uma gritante modernidade. E como dizia o próprio dramaturgo e escritor, “se alguém diz a verdade pode estar certo de que é descoberto mais tarde ou mais cedo.” Façam por isso o favor de conhecer ou reconhecer a genialidade do mestre.

UM MARIDO IDEAL 
Título original: An Ideal Husband (1999) 
Realização: Oliver Parker (Inlgaterra, 1999); Argumento: Oliver Parker, segundo peça deteatro de Oscar Wilde; Produção: Nicky Kentish Barnes, Andrea Calderwood, Bruce Davey, Uri Fruchtmann, Ralph Kamp, Susan B. Landau, Barnaby Thompson, Paul L. Tucker; Música: Charlie Mole; Fotografia (cor): David Johnson; Montagem: Guy Bensley; Casting: Celestia Fox; Design de Produção: Michael Howells; Guarda Roupa: Caroline Harris; Makeup: Peter King, Assistente de realização: Richard Hewitt; Som: Peter Lindsay; Produção: Nicky Kentish Barnes, Andrea Calderwood, Bruce Davey, Uri Fruchtmann, Ralph Kamp, Susan B. Landau, Barnaby Thompson, Paul L. Tucker; Intérpretes: Rupert Everett (Lord Arthur Goring), Julianne Moore (Mrs. Laura Cheveley), Jeremy Northam (Sir Robert Chiltern), Cate Blanchett (Lady Gertrud Chiltern), Minnie Driver (Mabel Chiltern), John Wood (Earl of Caversham), Lindsay Duncan (Lady Markby), Peter Vaughan (Phipps), Jeroen Krabbé (Barão Arnheim), Benjamin Pullen (Tommy), Michael Culkin (Oscar Wilde), Marsha Fitzalan (Condessa), Nickolas Grace (o Conde), etc. Duração: 135 min; Distribuição em Portugal: Filmes Lusomundo; Pathé (DVD) Inglês; Classificação: M/12 anos.

OLIVER PARKER (1960 - )
Oliver Parker nasceu a 6 de Setembro de 1960, em Londres, Inglaterra. Filho de Lady Gillian, uma escritora, e de Sir Peter Parker, director executivo dos caminhos-de-ferro ingleses. Na família tem vários actores, o irmão Nathaniel Parker, a cunhada, Anna Patrick, e o próprio pai apareceu como actor em “O Marido Ideal”.  Os seus filmes mais conhecidos são “Um Marido Ideal” (1999), “O Regresso de Johnny English” (2011) e “Giras e Passadas” (2007).

Filmografia
Como realizador:  1995: Othello (Othelo); 1999: An Ideal Husband (Um Marido Ideal); 2002: The Importance of Being Earnest (A Importância de Ser Ernesto); 2003: The Private Life of Samuel Pepys; 2006: Fade to Black (Um Nome Na Lista); 2007: I Really Hate My Job; 2007: St Trinian's (Giras e Passadas); 2009: Dorian Gray (); 2009: St. Trinian's 2: The Legend of Fritton's Gold (Giras e Passadas 2 - A Lenda do Tesouro de Fritton); 2011: Johnny English Reborn (O Regresso de Johnny English); 2015: Dad's Army (em pré-produção).
Como actor surgiu, entre alguns mais, em filmes como Hellraiser (Fogo Maldito), de Clive Barker  (1987), Hellbound: Hellraiser II (Fogo Maldito, II), de Clive Barker  (1988) ou Nightbreed (Raça das Trevas), de Clive Barker  (1990).

OSCAR WILDE (1854-1900)
Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde nasceu a 16 de Outubro de 1854, em Dublin, Irlanda, Reino Unido, e faleceu a 30 de Novembro de 1900, com 46 anos, em Paris, França. Filho de William Wilde e de Jane Wilde, protestantes, depois convertidos ao catolicismo. Estudou na Portora Royal School de Enniskillen e no Trinity College de Dublin, onde sobressaiu como latinista e helenista. Ganhou uma bolsa de estudos para o Magdalen College de Oxford, donde sai em 1878. Pouco depois ganhará o prémio "Newdigate" com o poema "Ravenna". Instalou-se em Londres, onde teve uma vida social agitada, sendo logo caracterizado pelas atitudes extravagantes. É convidado para visitar os Estados Unidos a fim de dar uma série de palestras sobre o movimento estético por ele fundado, o esteticismo, ou dandismo, que tinha o belo como antídoto para os horrores da sociedade industrial. Ele próprio era o modelo do dandy. Em 1883, encontra-se em Paris e entra em contacto com o mundo literário local, o que o leva a abandonar o seu movimento estético. Volta para a Inglaterra e casa-se com Constance Lloyd, filha de um rico advogado de Dublin, indo morar em Chelsea, um bairro londrino de artistas. Com Constance, teve dois filhos, Cyril, em 1885 e Vyvyan, em 1886. Em 1892, inicia o ciclo de obras teatrais, hoje clássicos da dramaturgia britânica: “O Leque de Lady Windermere” (1892), “Uma Mulher sem Importância” (1893), “Um Marido Ideal” ou “A Importância de ser Ernesto” (ambas de 1895).O seu único romance é “O Retrato de Dorian Gray”. Em Maio de 1895, após três julgamentos, foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por "cometer actos imorais com diversos rapazes". Wilde escreveu uma denúncia contra um jovem chamado Bosie, publicada no livro “De Profundis”, acusando-o de tê-lo arruinado. Bosie era o apelido de Lorde Alfred Douglas, um dos homens de que se suspeitava que Wilde fosse amante. Foi o pai de Bosie, o Marquês de Queensberry, que levou Oscar Wilde a tribunal. Foi durante o período da prisão que Wilde redigiu uma longa carta a Douglas, que a chamou de “De Profundis”. No cárcere, em situações tremendas, tanto a saúde como a reputação foram aniquiladas. Aí escreveu, entre outros, “A Alma do Homem sob o Socialismo” e a célebre “Balada do Cárcere de Reading”. Libertado em 19 de Maio de 1897, raros foram os amigos a esperá-lo. Manteve fiel a ele Robert Ross. Instalado num andar humilde, em Paris, passou a usar o pseudónimo de Sebastian Melmoth. Morreu vítima de um violento ataque de meningite (agravado pelo álcool e pela sífilis), a 30 de Novembro de 1900. Wilde foi enterrado no Cemitério de Bagneux, fora de Paris, mas mais tarde foi transladado para o Cemitério de Père Lachaise em Paris.

Obras: 1878: Ravenna; 1881: Poems; 1888: The Happy Prince and Other Tales; 1889: The Decay of Lying; 1890: The Picture of Dorian Gray; 1891: Lord Arthur Savile’s Crime and Other Stories; The Soul of Man under Socialism; 1891: Intentions; Salome; 1892: The House of Pomegranates; Lady Windermere’s Fan; 1893: A Woman of No Importance; The Duchess of Padua; 1894: The Sphinx; 1895: An Ideal Husband; 1895: The Importance of Being Earnest; 1897: De Profundis; 1898 The Ballad of Reading Gaol.

Existem centenas de filmes baseados em obras de Oscar Wilde. Ficam aqui alguns dos mais conhecidos: The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray), de Albert Lewin (1945); The Importance of Being Earnest (A Importância de se Chamar Ernesto), de Anthony Asquith (1952); An Ideal Husband (Um Marido Ideal), de Oliver Parker (1999); The Importance of Being Earnest (A Importância de Ser Ernesto), de Oliver Parker (2002); A Good Woman (Uma Boa Mulher), de Mike Barker (2004); Dorian Gray (Dorian Gray), de Oliver Parker (2009).

Conhece-se ainda um interessante filme baseado na sua vida: Wilde (Wilde), de Brian Gilbert (1997).

SESSÃO 57: 2 DE DEZEMBRO DE 2014


O FIM DA AVENTURA (1999)

Graham Greene é um escritor afortunado com o cinema. A grande maioria das suas obras foram adaptadas ao grande ecrã, não se podendo dizer que sempre com grande qualidade, mas quase sempre com alguma dignidade. “England Made Me” (1935), “The Confidential Agent” (1939) “The Power and the Glory” (1940), “The Ministry of Fear” (1943), “The Third Man” (1949), “The End of the Affair” (1951), “The Quiet American” (1955), “Our Man in Havana” (1958), “The Comedians (1966), “Travels with My Aunt” (1969), “The Honorary Consul” (1973) ou “The Human Factor” (1978) conheceram versões interessantes, nalguns casos deram lugar mesmo a muito bons filmes. 
“The End of the Affair” teve mesmo duas versões oficiais. Uma de 1955, dirigida por Edward Dmytryk, com uma excelente Deborah Kerr, ao lado de Van Johnson, John Mills e Peter Cushing nos principais papeis, uma leitura suavizada pela época e pela censura do código Hays. A outra, mais recente, com um elenco de luxo, com Julianne Moore, de novo numa criação notável, e ainda Ralph Fiennes, Stephen Rea, James Bolam e Ian Hart, com argumento e realização de Neil Jordan. São duas versões interessantes, mas resolutamente mais conseguida a de Neil Jordan, quer pela sensibilidade da realização, pela qualidade do trabalho interpretativos, quer sobretudo pelo clima criado em redor desta história que parece ter muito de autobiográfica. Na verdade, todo o filme se desenrola numa atmosfera brumosa, chuvosa, pressagiando drama ou tragédia desde inicio. Depois a intriga é daquelas caras a Graham Greene, uma teia de emoções urdida no interior de um triângulo amoroso que tem a II Guerra Mundial como pano de fundo. 
Tudo se passa em Londres, mas a narrativa oscila constantemente entre dois tempos, o agora, no final da guerra, e dois anos antes, quando a parte mais substancial da história aconteceu. Maurice Bendrix (Ralph Fiennes), escritor, encontra Sarah (Julianne Moore), casada com Henry Miles (Stephen Rea), e apaixonam-se. O romance explode, tal como as bombas que caiem sobre a capital inglesa. Durante um bombardeamento, Sarah julga que Maurice foi ferido mortalmente, e promete a Deus o impossível caso o seu apaixonado não tivesse morrido. O milagre parece acontecer e a partir daí toda a história se precipita num turbilhão de equívocos e desencontros. O ciúme arrasta as personagens para comportamentos cada vez mais bizarros, e cada uma delas depara-se com opções amargas. O entrecho imaginado por  Graham Greene (que nos dizem ter sido parcialmente vivido pelo escritor, durante um “affair” Lady Catherine Walston, uma mulher casada que parece ter servido de modelo à Sarah do romance. De resto a primeira edição da obra literária surge dedicada a “C”, nas posteriores a dedicatória torna-se mais explicita, a “Catherine” e, afirma quem estudou a biografia do escritor, que este viu a sua casa, situado no nº 14 de Clapham Common Northside, ser bombardeada durante o Blitz, e ele próprio ter ficado ferido. Muitas coincidências para não ser verdade, sobretudo pelo que de irreal a história pode conter, demasiado fantasista para não ser autêntica, ainda que aqui e ali romanceada pela veia literária de Greene.
Quando o romance foi escrito, 1951, Graham Greene era um escritor crente, profundamente católico. Os estudiosos da sua obra afirmam que “The End of the Affair” é a sua última criação abertamente católica. Mas a obra é sobretudo uma envolvente história de amor, apaixonada e febril, com personagens extremamente complexos cujas razões últimas apenas de suspeitam.
A figura de Henry Miles, por exemplo, atormentado pela impotência (física ou psicológica?) é excelentemente desenhada por Stephen Rea ( o mesmo que nos dera o deslumbrante trabalho em ”Jogo de Lágrimas”, do mesmo Neil Jordan). O próprio detective privado, que se faz acompanhar pelo filho durante as investigações, é uma criação magnifica, tanto no romance como no filme.
Uma fotografia de um incrível colorido e de perfeita adequação ao clima desejado e a partitura musical de Michael Nyman ajudam em muito à realização de Neil Jordan que talvez fosse beneficiada com um maior rigor na contensão plástica. Mas estamos abertamente no domínio do melodrama e dos seus excessos assumidos. 
Curiosidades adicionais: em 2004, Jake Heggie compôs uma ópera baseada neste romance, que teve a sua estreia na Houston Grand Opera nos EUA. Em 2011, foi a vez de Karla Boos escrever uma peça de teatro estreada igualmente nos EUA, em Pittsburgh, no Quantum Theatre, sobre o tema de “The End of the Affair”.

O FIM DA AVENTURA
Título original: The End of the Affair
Realização: Neil Jordan (Inglaterra, 1999); Argumento: Neil Jordan, segundo romance de Graham Greene; Produção: Neil Jordan, Kathy Sykes, Stephen Woolley; Música: Michael Nyman; Fotografia (cor): Roger Pratt; Montagem: Tony Lawson; Casting: Susie Figgis; Design de produção: Anthony Pratt; Direcção artística: Jon Billington, Chris Seagers, Tony Woollard; Decoração: John Bush; Joanne Woollard; Guarda-roupa: Sandy Powell; Maquilhagem: Christine Beveridge; Direcção de Produção: Phil Hounam, Michael Saxton; Assistentes de realização: Patrick Clayton, Sean Clayton, Marios Hamboulides, Michael Stevenson, Ian Stone, Anthony Wilcox; Departamento de arte: John Bohan, Danny Rogers, Derek Whorlow; Som: John Lewis Aschenbrenner, Mark Auguste, David Stephenson; Efeitos especiais: Yves De Bono, Trevor Neighbour; Efeitos visuais: Martin Body, Libby Hazell, Mark Nelmes; Companhia de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Ralph Fiennes (Maurice Bendrix), Stephen Rea (Henry Miles), Julianne Moore (Sarah Miles), Heather-Jay Jones (empregada de Henry), James Bolam (Mr. Savage), Ian Hart (Mr. Parkis), Sam Bould (Lance Parkis), Cyril Shaps, Penny Morrell, Simon Fisher-Turner, Jason Isaacs, Deborah Findlay, Nicholas Hewetson, Jack McKenzie, Nic Main, etc. Duração: 102 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Fevereiro de 2000.

NEIL JORDAN (1950 - )
Neil Jordan nasceu em Sligo, Irlanda, Reino Unido, a 25 de Fevereiro de 1950.  Filho de uma bem instalada família da classe média irlandesa, o  pai era professor universitário, a mãe pintora. Para lá de realizador, argumentista, actor e sobretudo realizador, é ainda autor de vários romances de certo sucesso publico e critico, com histórias sobre a Irlanda. Estudou na St. Paul's School em Clontarf, Dublin. A sua estreia no cinema dá-se como conselheiro artístico de John Boorman em “Excalibur”. A experiência leva-o a realizar um documentário que seduz o British Film Institute, que lhe vai permitir financiar a sua primeira longa-metragem, “Angel”, adaptada de um dos seus romances. Em 1984 Jordan ganha prestígio e sucesso com “The Company of Wolves”, uma fábula sobre a adolescência e a mitologia da sexualidade. Seguem-se vários outros grandes sucessos: “Mona Lisa” (1986), “Jogo de Lágrimas” (1992), “Michael Collins” (1996) ou “O Fim da Aventura” (1999), Casado com Vivienne Shields (dois filhos, divorciado) e depois com Brenda Rawn (desde 2004, dois filhos). E conhecida uma relação breve com Mary Donohoe, de quem tem também um filho.
Várias nomeações para o Oscars. Ganhou em 1992 com o argumento de “The Crying Game”.
BAFTA para Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor argumento para “The Crying Game”, o mesmo acontecendo em 1999, com “The End of the Affair”. Muitos outros prémiosnuma carreira altamente prestigiada.

Filmografia:
Como realizador: 1982: Angel (O Anjo da Vingança); 1984: The Company of Wolves (A Companhia dos Lobos); 1986: Mona Lisa (Mona Lisa); 1988: High Spirits (Malucos e Libertinos); 1989: We're No Angels (Ninguém É Santo); 1990: Red Hot and Blue (TV) (episódios "Miss Otis Regrets" e "Just One of Those Things"); 1991: The Miracle (Amar Uma Desconhecida); 1992: The Crying Game (Jogo de Lágrimas); 1994: Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles (Entrevista Com o Vampiro); 1996: Michael Collins (Michael Collins); 1997: The Butcher Boy (O Rapaz do Talho); 1999: In Dreams; 1999: The End of the Affair (O Fim da Aventura); 2000: Not I (curta-metragem); 2002: The Good Thief (O Bom Ladrão); 2005: Breakfast on Pluto (Breakfast on Pluto); 2007: The Brave One (A Estranha em Mim); 2009: Ondine; 2011-2013: The Borgias (Os Bórgias).

RALPH FIENNES (1962 - )
Ralph Nathaniel Twisleton-Wykeham-Fiennes nasceu a 22 de Dezembro de 1962, em Suffolk, Inglaterra, filho de Jennifer Anne Mary Alleyne, uma romancista, e de Mark Fiennes, fotógrafo. Cresceu no seio de uma família aristocrática inglesa. Tem seis irmãos, quatro dos quais dedicados à arte: Martha Fiennes, realizadora; Magnus Fiennes, músico; Sophie, realizadora e produtora; Joseph Fiennes, actor. Os dos restantes, um é arqueólogo, Michael Emery, o outro biólogo e conservacionista, Jacob Fiennes. Ralph é ainda primo em 8º grau de Carlos, príncipe de Gales, e primo em 3º grau do aventureiro Ranulph Fiennes. Actor e realizador, Ralph Fiennes interpretou um conjunto importantes de obras, onde deixou bem vincado o seu talento: “Schindler's List”, “The English Patient”, “The End of the Affair”, “Red Dragon”, cinco “Harry Potters”, “The Constant Gardener”, “The Reader” ou “Skyfall”. Recebeu diversas recompensas: nomeado para Oscar em “Schindler's List” e “The English Patient”, indicado para o Globo de Ouro de Melhor Actor em “Schindler's List”, “The English Patient”, “The Duchess” ou “Bernard and Doris”, ganhou o BAFTA em “Schindler's List” e foi ainda nomeado em “The English Patient”, “The End of the Affair” e “The Constant Gardener”. A sua estreia como argumentista, realizador e produtor, com “Coriolano” mereceu-lhe ainda um BAFTA especial como melhor estreia nesta tripla função. Casado com a actriz Alex Kingston (1993 – 1997), a que se seguiu um relacionamento com a actriz Francesca Annis (1995-2006).

Filmografia
Como actor: 1990: Great Performances: A Dangerous Man: Lawrence After Arabia, de Christopher Menaul (TV); 1991: Prime Suspect, de Christopher Menaul (TV); 1992: Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais), de Peter Kosminsky; 1993: Screen Two: The Cormorant, de Peter Markham (TV); The Baby of Mâcon (O Bebé de Macon), de Peter Greenaway; Schindler's List (A Lista de Schindler), de Steven Spielberg; 1994: Quiz Show (Quiz Show), de Robert Redford; 1995: Strange Days (Estranhos Prazeres), de Kathryn Bigelow; 1996: The English Patient (O Paciente Inglês), de Anthony Minghella; The Great War and the Shaping of the 20th Century (TV); 1997: Oscar and Lucinda (Oscar e Lucinda), de Gillian Armstrong; 1998: The Avengers (Os Vingadores), de Jeremiah S. Chechik; The Prince of Egypt (O Príncipe do Egipto), de Brenda Chapman, Steve Hickner e Simon Wells (voz); 1999: Sunshine (Sunshine), de István Szabó; Onegin (Onegin), de Martha Fiennes; The End of the Affair (O Fim da Aventura), de Neil Jordan; 2000: How Proust Can Change Your Life, de Peter Bevan (TV); 2000: The Miracle Maker, de Derek W. Hayes e Stanislav Sokolov (TV) (voz); How Proust Can Change Your Life (TV); 2002: Spider (Spider), de David Cronenberg; 2002: The Good Thief (O Bom Ladrão), de Neil Jordan; 2002: Red Dragon (Dragão Vermelho), de Brett Ratner; 2002: Maid in Manhattan (Encontro em Manhattan), de Wayne Wang; 2003: Freedom: A History Of Us, de Philip Kunhardt Jr. (TV); 2004: The Chumscrubber (Os Amigos de Dean), de Arie Posin; Ten Days to D-Day (TV); 2005: Chromophobia (Cromofobia), de Martha Fiennes; 2005: The Constant Gardener (O Fiel Jardineiro), de Fernando Meirelles; The Curse of the Were-Rabbit (Wallace & Gromit: A Maldição do Coelhomem), de Steve Box e Nick Park (voz); Harry Potter and the Goblet of Fire (Harry Potter e o Cálice de Fogo), de Mike Newell; Land of the Blind), de Robert Edwards; 2006: The White Countess (A Condessa Russa), de James Ivory; Land of the Blind (Terra de Cegos), de Robert Edwards; 2007: Bernard and Doris, de Bob Balaban (TV); Harry Potter and the Order of the Phoenix (Harry Potter e a Ordem da Fénix), de David Yates; 2008: In Bruges (Em Bruges), de Martin McDonagh; The Duchess (A Duquesa), de Saul Dibb; The Reader (O Leitor), de Stephen Daldry; The Hurt Locker (Estado de Guerra), de Kathryn Bigelow; 2010: Nanny McPhee and the Big Bang (Nanny McPhee e o Toque de Magia), de Susanna White; Clash of the Titans), de Louis Leterrier; Cemetery Junction, de Ricky Gervais e Stephen Merchant; Harry Potter and the Deathly Hallows (Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 1) de David Yates; Harry Potter and the Forbidden Journey, de Thierry Coup (curta-metragem); 2011: Harry Potter and the Deathly Hallows (Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2), de David Yates; Page Eight, de David Hare (TV); 2011-2014: Rev. (TV); 2012: Coriolanus (Coriolano) de Ralph Fiennes; Wrath of the Titans (Fúria de Titãs), de Jonathan Liebesman; (Grandes Esperanças), de Mike Newell; Skyfall (Skyfall), de Sam Mendes; 2013: The Invisible Woman, de Ralph Fiennes; National Theatre Live (TV); 2014: The Grand Budapest Hotel (Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson; Mesyats v derevne (em rodagem); Salting the Battlefield, de David Hare (TV); Turks & Caicos, de David Hare (TV); 2015: James Bond 24, de Sam Mendes (em rodagem); A Bigger Splash de Luca Guadagnino (em rodagem); Hail, Caesar! (em rodagem); 2016 Flying Horse (em preparação);

Como realizador: 2012: Coriolanus (Coriolano); 2014: The Invisible Woman.

SESSÃO 56: 25 DE NOVEMBRO DE 2014


OU TUDO OU NADA (1997)

O cinema inglês tem uma forte tradição realista que vai radicar na época de ouro do documentarismo, aparecido nos anos 30, período em que surgiram autores como John Grierson, Basil Wright, Paul Rotha, Alberto Cavalcanti, etc. Depois, nos anos 60, o free cinema renovou essa tradição nunca atraiçoada, com realizadores como Lindsay Anderson, Tony Richardson, Karel Reisz, etc. Mais recentemente, homens como Kenneth Loach, Anthony Minghella, Mike Leight, e alguns outros vão mantendo acesa a luz.
Os títulos britânicos chegados a salas de Portugal durante a década de 90 prolongam estas preocupações. “Os Virtuosos” (Brassed Off), de Mark Herman, e “Ou Tudo ou Nada” (The Full Monty), de Peter Cattaneo, são dois exemplos com algo de comum - um pano de fundo que tem como base as dificuldades sociais que a onda de desemprego provoca por terras de Sua Majestade. Herança do governo conservador de Tatcher e Major, esses desempregados sobrevivem à deriva. No caso do filme de Peter Cattaneo, que depois de uma longa permanência na BBC se estreia na realização de uma longa-metragem para cinema, um grupo de amigos que diariamente se reúne num centro de emprego resolve inventar algo de inédito para sair da crise - criar um espectáculo de striptease masculino e propor-se assim ao olhar e ao desejo das mulheres de Sheffield, cidade inglesa que outrora fora um poderoso centro industrial, onde o aço comandava o ritmo da vida diária, e presentemente se descobre uma comunidade sem futuro. 


Grande sucesso nos écrans de todo o mundo, “Ou Tudo ou Nada” vive essencialmente do trabalho de um magnífico grupo de actores, comandados por Robert Carlyle, que todos recordam de “Trainspotting”, e que aqui volta a deslumbrar. Mas, a seu lado, Tom Wilkinson, Mark Addy, Lesley Sharp, Emily Woof, Steve Huison, Paul Barber e Hugo Speer compõem um excelente elenco de grande autenticidade e força expressiva, muito longe dos estereótipos do cinema mais convencional. Infelizmente, a história, apesar de muito divertida na sua estrutura anedótica, por vezes cola mal com o backgroung realista que é, indiscutivelmente, um dos pontos fortes do filme. A descrição da vida quotidiana em Sheffield, dos pequenos sonhos adiados, trocados por pequenos dramas do dia-a-dia, é quase sempre bastante bem conseguida. A inserção, simbólica e satírica, do grupo de strippers neste contexto nem sempre é brilhante, resultando por vezes conflituosa. O realismo seco do cenário não se ajusta muito bem ao “espectáculo” da história central, aqui e ali demasiado retórica e demonstrativa.
Mas, apesar disso, “The Full Monty” é uma boa surpresa, onde alguns momentos de apurado sentido crítico conseguem convencer plenamente. Os diversos elementos do grupo de strippers numa fila de desempregados, reagindo instintivamente ao som de uma canção que lhes servia de base de ensaios, é um bom exemplo desse tipo de humor.

OU TUDO OU NADA
Título original: The Full Monty
Realização: Peter Cattaneo (Inglaterra, EUA, 1997); Argumento: Simon Beaufoy; Produção: Paul Bucknor, Polly Leys, Uberto Pasolini, Lesley Stewart; Música: Anne Dudley; Fotografia (cor): John de Borman; Montagem: David Freeman, Nick Moore; Casting: Susie Figgis; Design de produção: Max Gottlieb; Direcção artística: Chris Roope; Guarda-roupa:  Jill Taylor; Maquilhagem: Lucy Bennett, Christine Blundell, Scott Beswick, Sian Richards; Assistentes de realização: David Gilchrist, Claire Hughes, Ben Johnson;  Departamento de arte: Mark Adams, Mike Houseman, John Mills, Terry Woods; Som: Alistair Crocker, Chris Dibble, Eddie Dougall, Steve Price, Adrian Rhodes, Ian Wilson; Efeitos especiais: Ian Rowley; Efeitos visuais: Rob Gordon; Companhias de produção: Redwave Films, Channel Four Films, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Robert Carlyle (Gaz), Mark Addy (David 'Dave'), William Snape (Nathan), Steve Huison (Lomper), Tom Wilkinson (Gerald), Paul Barber (Horse), Hugo Speer (Guy), Lesley Sharp (Jean), Emily Woof (Mandy), Deirdre Costello (Linda), Paul Butterworth (Barry), Dave Hill (Alan), Bruce Jones (Reg), Andrew Livingston, Vinny Dhillon, Kate Layden, Joanna Swain, Diane Lane, Kate Rutter, June Broughton, Glenn Cunningham, Chris Brailsford, Steve Garti, Malcolm Pitt, Dennis Blanch, Daryl Fishwick, David Lonsdale, Muriel Hunt, Fiona Watts, Theresa Maduemezia, Fiona Nelson, The British Steel Stocksbridge Band, Marie Jackman, Enn Reitel, Elaine Young, etc. Duração: 91 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal:21 DE Novembro de 1997.

PETER CATTANEO (1964 - )
Nascido em 1964, em Twickenham, Londres, Inglaterra. Filho de um conhecido autor de filmes publicitários, Tony Cattaneo (1927-2003). Peter Cattaneo tem uma importante carreira como produtor, argumentista, realizador. A sua colaboração no cinema inicia-se na montagem, na curta-metragem de 1989, “Fire and Steel”, de Martin Dunkerton. As suas obras mais conhecidas no cinema são “Ou Tudo ou Nada” (1997), “O Rocker” (2008) e “Lucky Break” (2001) e, na televisão, “Rev.” é uma série bastante apreciada. É membro da Ordem do Império Britânico, desde 1998. Recebeu duas nomeações para o Oscar de Melhor Realizador em 1991 e 1998. Ganhou o Hitchcock de Ouro, no Festival de Dinard em 1997, para “Full Monty”, obra que o celebrizou em todo o mundo e que arrecadou inúmeros outros prémios.

Filmografia:
Como realizador: 1990: Dear Rosie (curta-metragem); 1992: Say Hello to the Real Dr Snide (TV); 1993: Teenage Health Freak; 1995: Loved Up (TV); 1997: The Full Monty (Ou Tudo ou Nada), 2001: Lucky Break; 2005: Opal Dream (Amigos Imaginários); 2008: The Rocker (O Rocker); 2010-2012: Little Crackers (TV); 2010-2014: Rev. (TV).

ROBERT CARLYLE (1961 - )
Nasceu a 14 de Abril de 1961, em Maryhill, Glasgow, Escócia, Reino Unido. Filho de Elizabeth e de Joseph Carlyle, pintor e decorador. Educado pelo pai, desde os quatro anos, após a mãe ter abandonado a família, teve uma infância difícil e, aos 21, depois de ler a peça de Arthur Miller, "The Crucible", quis ser actor. Estudou no Cardonald College em Glasgow, e na Royal Scottish Academy of Music and Drama (mais tarde conhecida por Royal Conservatoire of Scotland). Com quatro outros pretendentes a actores fundou, em 1991, a “Raindog Theatre Company” (o nome era uma homenagem a uma canção de Tom Waits, do álbum "Rain Dog", um dos favoritos de Carlyle). Juntamente com Antonia Bird, Irvine Welsh e Mark Cousins, fundou a casa produtora de filmes 4 Ways. Conquistou inúmeros prémios e distinções ao longo da sua carreira, no teatro, no cinema, na televisão. Oficial da Ordem do Império Britânico desde 1999. Casado com Anastasia Shirley, maquilhadora (1997 – até ao presente).

Filmografia
Como actor / no cinema: 1990: Silent Scream, de David Hayman; Riff-Raff (Riff-Raff), de Ken Loach; 1993: Tender Blue Eyes, de Lasse Braun; Being Human (Gente Como Nós), de Bill Forsyth; Safe, de Antonia Bird; 1994: Pries (O Padre), de Antonia Bird; Marooned, de Jonas Grimås; 1995: Go now, de Michael Winterbottom; The Last Ten Minutes (curta-metragem); 1996: Trainspotting (Trainspotting), de Danny Boyle; Carla's Song (A Canção de Carla), de Ken Loach; 1997: Full Monty (Ou Tudo ou Nada), de Peter Cattaneo; Face, de Antonia Bird; 1999: Plunkett & Macleane (Estradas Perigosas), de Jake Scott; Ravenous (O Insaciável), de Antonia Bird; The World Is Not Enough (007 - O Mundo Não Chega), de Michael Apted; Angela's Ashes (As Cinzas de Ângela), de Alan Parker; 2000: The Beach (A Praia), de Danny Boyle; There's Only One Jimmy Grimble, de John Hay; 2001: To End All Wars (A Última das Guerras), de David L. Cunningham; The 51st State (Fórmula 51), de Ronny Yu; 2002: Once Upon a Time in the Midlands, de Shane Meadows; Black and White, de Craig Lahiff; 2004: Dead Fish (Tiros Certeiros), de Charley Stadler; 2005: The Mighty Celt, de Pearse Elliott; Marilyn Hotchkiss' Ballroom Dancing and Charm School (Um Toque de Sedução), de Randall Miller; 2006: Eragon (Eragon), de  Fangmeier; Flood (Londres - O Dia do Juízo Final), de Tony Mitchell; 2007: 28 Weeks Later (28 Semanas Depois), de Juan Carlos Fresnadillo; 2008: I Know You Know, de Justin Kerrigan; Stone of Destiny (Pedra do Destino), de Charles Martin Smith; Summer, de Kenneth Glenaan; 2009: The Tournament (O Torneio), de Scott Mann; 2012: California Solo, de Marshall; 2015: The Legend of Barney Thomson (post-production)
Na televisão: 1990: Taggart; 1991: The Bill; 1992: Advocates II; 1993: Screenplay;1994: 99-1; 1994: Cracker; 1995 - 1997: Hamish Macbeth; 1998: Looking After Jo Jo; 2003: Hitler: The Rise of Evil, de Christian Duguay; 2004: Gunpowder, Treason & Plot, de Gillies MacKinnon; 2005: Monroe: Class of '76; 2005: Human Trafficking, de Christian Duguay; 2005: Class of '76, de Ashley Pearce; 2006: Born Equal, de Dominic Savage; 2007: La Grande Inondation de Tony Mitchell; 2008: 24: Redemption, de Jon Cassar; 2008: The Last Enemy, de Iain B. MacDonald; 2009: Zig Zag Love, de Gillies MacKinnon; 2009: The Unloved, de Samantha Morton; 2009 - 2010: Stargate Universe, de Nicholas Rush; 2011-2014: Once Upon a Time.

Como realizador: 2010: SGU Stargate Universe (TV) (1 episódio); 2015: The Legend of Barney Thomson (pós-produção).

SESSÂO 55: 18 DE NOVEMBRO DE 2014

BEAN: UM AUTÊNTICO DESASTRE (1997)

Rowan Atkinson é um dos actores mais populares do actual cinema inglês, sendo mundialmente conhecido por uma das suas criações em televisão, que passou igualmente ao cinema, Mr. Bean. Esta é uma personagem que não deixa certamente ninguém indiferente, ou se ama ou se detesta. Começou pelo “Not the Nine O'Clock News”, passou depois por “The Black Adder”, “Mr. Bean” ou  “The Thin Blue Line”,tudo séries de um enorme sucesso de público e com profunda influência no humor que hoje em dia se pratica um pouco por todo o lado. Mas este atarantado homenzinho, ora tímido ora exibicionista, mas sempre gerador de uma torrente de percalços ou de perfeitas catástrofes, de um narcisismo incómodo (são inenarráveis as suas cenas ao espelho ou mesmo aquelas que proporciona directamente ao espectador), desperta obviamente desencontradas reacções no público. Há os fiéis de sempre, que o acompanham como objecto de culto, e há quem não suporte as imbecilidades infantis desta grotesca figura.
Com “Bean: um Autêntico Desastre” a personagem passou ao grande ecrã e as respostas mantiveram-se inalteráveis. O filme, com a assinatura de Mel Smith, tem como protagonista Mr. Bean (Rowan Atkinson), um guarda de uma hipotética Royal Nacional Gallery de Londres, que acaba de vender para a América um quadro famoso, “a Mãe de Whistler”. Os americanos da The Grierson Gallery querem por força um especialista europeu a apresentar publicamente a obra, e os ingleses, para se livrarem do “pior empregado que imaginar se pode”, enviam Mr. Bean como grande especialista em arte, ele que só sabe coçar o nariz e proferir algumas sílabas sem nexo. Chegado à Califórnia, as coisas passam-se como será lógico (?) acontecerem, tanto mais que o curador do museu convida a sumidade britânica para sua casa. O que se segue é uma sucessão pandemónica de peripécias, cada uma mais louca do que a anterior, com alguns gags magníficos, outros dispensáveis, mas que oferecem bem a imagem deste actor que desencadeou uma onda de fervorosos adeptos em todo o mundo.
A realização de Mel Smith é escorreita e aproveita sobretudo as características do humor de  Rowan Atkinson (que admiramos sobretudo em obras como “Quatro Casamentos e Um Funeral”, onde cria uma fabulosa figura de padre), pois essa é a sua função.

BEAN: UM AUTÊNTICO DESASTRE
Título original: Bean
Realização: Mel Smith (Inglaterra, EUA, 1997); Argumento: Rowan Atkinson, Richard Curtis, Robin Driscoll; Produção: Rowan Atkinson, Peter Bennett-Jones, Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner, Rebecca O'Brien; Música: Howard Goodall; Fotografia (cor):  Francis Kenny; Montagem: Chris Blunden; Casting: Ronnie Yeskel; Design de produção: Peter S. Larkin; Direcção artística: Kevin Constant; Decoração:  Bill Gregory; Guarda-roupa:  Hope Hanafin; Maquilhagem: Tony Gardner, Brian McManus, Emjay Olson, Rupert Simon, Judy Yonemoto; Direcção de Produção: Cydney Bernard, Deborah Harding; Assistentes de realização: Trey Batchelor, John Greaves, Cliff Lanning, Todd Y. Murata, Michael Zimbrich; Departamento de arte: Andy Evans, Maureen Farley, Craig Gadsby, Gregory S. Hooper, Tom Hrupcho, Theodore Sharps, Abigail Sheiner; Som: Robert J. Anderson Jr., Matt Grimes, Eddy Joseph, Nick Lowe, Kenneth C. Mantlo, Nigel Mills; Efeitos especiais: Scott Kodrik; Companhias de produção: Polygram Filmed Entertainment, Working Title Films, Tiger Aspect Productions; Intérpretes: Rowan Atkinson (Mr. Bean), Peter MacNicol (David Langley), John Mills (Chairman), Pamela Reed (Alison Langley), Harris Yulin (George Grierson), Burt Reynolds (General Newton), Larry Drake (Elmer), Danny Goldring (segurança), Johnny Galecki (Stingo Wheelie), Chris Ellis (Det. Butler), Andrew Lawrence (Kevin Langley), Peter Egan (Lord Walton), Peter Capaldi (Gareth), June Brown, Peter James, Clive Corner, Rob Brownstein, Julia Pearlstein, Tom McGowan, Sandra Oh, Tricia Vessey, Alison Goldie, Dakin Matthews, Scott Charles, Thomas Mills, Ronnie Yeskel, etc. Duração: 89 minutos; Distribuição em Portugal: Vitória Filmes (1997, cinema), Prisvideo (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Setembro de 1997.

MEL SMITH (1952-2013)
Melvyn Kenneth Smith nasceu a 3 de Dezembro de 1952, em Chiswick, Londres, Inglaterra, e faleceu a 19 de Julho de 2013, em St John's Wood, Londres, Inglaterra, vítima de ataque de coração. Actor, produtor, realizador, um dos seus títulos mais conhecidos terá sido “A Princesa Prometida” (1987). Casado com a modelo Pamela Gay-Rees (1991-2013). Estudou na Universidade de Oxford. Trabalhou muito na televisão, fazendo por vezes parelha com Griff Rhys Jones, seu sócio na companhia de produção Talkback. Ainda na universidade, produziu “The Tempest”, e representou na Oxford University Dramatic Society. Passou pelo Royal Court Theatre de Londres, depois pelo Bristol Old Vic. Foi director associado do Sheffield's Crucible Theatre, mas rapidamente enveredou por uma carreira de actor e produtor de televisão, sobretudo na área da comédia, onde se notabilizou. Em 1999 foi hospitalizado em virtude de uma overdose de comprimidos contra as dores e as insónias. Morreu em 2013, em casa, vítima de um ataque cardíaco.

Filmografia:
Como realizador:  1989: The Tall Guy (Os Homens Medem-se aos Palmos); 1994: From Here to Paternity (TV); Radioland Murders; 1997: Bean (Bean: Um Autêntico Desastre); 2001: Heels and Low Lifes (Perigo de Saltos Altos); 2003: Blackball (A Estrela da Equipa).

ROWAN ATKINSON (1955 - )
Rowan Sebastian Atkinson nasceu a 6 de Janeiro de 1955, em County Durham, Inglaterra. Filho de Ella May e Eric Atkinson. Passa a juventude numa quinta dirigida pelo pai, mais tarde estuda nas Universidade de Newcastle e em Oxford onde tira o curso de engenheiro electrónico. É o seu encontro com o argumentista Richard Curtis que o leva para o espectáculo, escrevendo e representando comédias, sobretudo na televisão. Associa-se à equipa que escreve e interpreta a série “Not the Nine O'Clock News” (1979), que ganha um International Emmy Award e o British Academy Award para "Best Light Entertainment Programme of 1980." Ele próprio ganha o "British Academy Award" e é considerado a "BBC Personality of the Year" pela sua representação no programa. É o triunfo que se prolonga por várias aparições no cinema (“Dead on Time”, 1983, “Pleasure at Her Majesty's”, 1976, “Nunca Digas Nunca”, 1983, “Os Homens Medem-se aos Palmos”, 1989),  mas sobretudo na televisão (em séries como “The Black Adder”, “Mr. Bean”, “Funny Business” ou “The Thin Blue Line”, etc.).
Casado com a maquilhadora Sunetra Sastry desde 1990. Entusiasta de automóveis e velocidade, escreve sobre carros e participa em corridas (e por vezes em choques traumáticos que o levam ao hospital). Recebeu o Laurence Olivier Theatre Award para Best Comedy Performance em 1982.

Filmografia
Como actor / no cinema: 1982: Fundamental Frolics; 1983: Dead on Time, de Lyndall Hobbs (curta-metragem); Never Say Never Again (nunca Digas Nunca), de Irvin Kershner; 1989: The Appointments of Dennis Jennings, de Dean Parisot (curta-metragem); The Tall Guy (Os Homens Medem-se aos Palmos), de Mel Smith; 1990: The Witches (As Bruxas), de Nicolas Roeg; 1991: The Driven Man, de Mark Chapman; 1992: Laughing Matters; 1993: Hot Shots! 2 (Ases pelos Ares, 2), de Jim Abrahams; 1994: Four Weddings and a Funeral (Quatro Casamentos e um Funeral), de Mike Newell; The Lion King (O Rei Leão), de Roger Allers, Rob Minkoff  (voz);  1997: Bean (Bean: um Autêntico Desastre), de Mel Smith; 2000: Maybe Baby, de Ben Elton; 2001: Rat Race (Está Tudo Louco!), de Jerry Zucker; 2002: Scooby-Doo (Scooby-Doo), de Raja Gosnell; 2003: Johnny English (Johnny English), de Peter Howitt; Love Actually (O Amor Acontece), de Richard Curtis; 2005: Keeping Mum (Uma Família dos Diabos), de Niall Johnson;
2007: Mr. Bean's Holiday (Mr. Bean em Férias), de Steve Bendelack; 2011: Johnny English Reborn         (O Regresso de Johnny English), de Oliver Parker;

Como actor / na televisão: Canned Laughter (1979), The Secret Policeman's Ball (1979), Not the Nine O'Clock News (1979–1982), Peter Cook & Co (1980), The Innes Book of Records (1980), Blackadder II; blackadder's Christmas Carol; Blackadder III, Blackadder's Christmas Carol; Blackadder III; Blackadder's Christmas Carol; Blackadder Goes Forth(1983–1989); Saturday Live (1986); Mr. Bean (1990–2012); Rowan Atkinson Live (1992); Bernard and the Genie (1991); Funny Business (1992); A Bit of Fry & Laurie (1992); The Thin Blue Line; (1995–1996); The Story of Bean (1997); Black Adder and Centurion Blaccadicus (2000); Mr. Bean (animação) (voz) (2002); Blackadder: The Cavalier Years (1988); Nosenight (1989); Mr Bean's Red Nose Day (1991); The Stonk (1991); (I Wanna Be) Elected (1992); Blind Date with Mr Bean (1993); Torvill and Bean (1995); Doctor Who and the Curse of Fatal Death (1999); Popsters (2001); Lying to Michael Jackson (2003); Spider-Plant Man (2005); Mr Bean's Wedding (2007); The Greatest Worst Bits of Comic Relief (2007); Live from Lambeth Palace (2013); We Are Most Amused (2008); Blackadder Rides Again (2008); Not Again: Not the Nine O'Clock News (2009); Bondi Rescue (2010); Top Gear (2011); The Olympics opening ceremony (2012); Goodness Gracious Me (2013); Goodwood Festival of Speed (2014).

SESSÃO 54: 11 DE NOVEMBRO DE 2014


SEGREDOS E MENTIRAS (1996)

De início há duas mulheres, com vidas separadas que vamos acompanhando em montagem paralela. De um lado, Hortence, uma jovem negra de 27 anos, técnica de optometria, que acaba de assistir ao enterro da sua mãe adoptiva. Como o pai adoptivo já tinha morrido anos antes, Hortence é agora uma mulher só.
Num outro local de Londres, Cynthia, uma mulher branca, de meia idade, mãe de uma rapariga de 20 anos, Roxane, empregada numa fábrica, é a imagem da instabilidade e do desconforto. Vamos assistindo a cenas de ora uma, ora outra, imagens desligadas que pressentimos que mais à frente irão colidir. Chama-se a isto, em linguagem técnica e escolástica, montagem de convergência.
Hortence sente-se só e vai tentar encontrar a mãe biológica que a deu para adopção ainda bebé. Pela legislação inglesa isto é possível e Hortence acaba por descobrir que a sua mãe é Cynthia, nada mais, nada menos. Uma negra filha perdida de uma branca que não quer acreditar nos seus olhos quando é posta perante as evidências: “Mas minha querida, eu não posso ser tua mãe!”. Claro que podia, lembrou-se depois de um americano de que não quer falar e com quem se cruzara quando tinha dezasseis anos.
O resto são “segredos e mentiras” de que fala o título da obra de Mike Leigh e que se vem lentamente deslindando, perante surpresas, dúvidas, ataques de fúria e um churrasco familiar que introduz alguma harmonia, mesmo que passageira, naquela nova família.


Mike Leigh propõe uma solução utópica, é certo, mas saudável. Nada melhor que a verdade e enfrentá-la resolutamente. Como já se sabe, Mike Leigh e Ken Loach são dois dos mais representativos cineastas do cinema inglês contemporâneo e dois cultores de um cinema de forte implantação social. “Segredos e Mentiras” é modelar na forma como retrata a realidade social de Inglaterra, na década de 90, com as suas  dificuldades e características próprias. De um lado, temos uma média burguesia com os seus pequenos sonhos (curiosamente representada por uma negra), do outro, uma mescla de pequena burguesia a descambar para o proletariado (a filha de Cynthia é empregada de limpeza nas ruas de Londres). Mas Cynthia tem um irmão, Maurice,  fotógrafo de casamentos e baptizados e de fotos de estúdio, que tem uma vida um pouco mais desafogada. É neste universo sem grandes horizontes, num bairro popular da capital inglesa, que tudo se passa. Mas a precisão das anotações sociais, o rigor na descrição das situações, e sobretudo a densidade psicológica, a verdade humana que as personagens exalam, quer pelo desenho das personalidades que o argumento lhes oferece, quer pelo brilhantismo da interpretação de um elenco absolutamente notável que conseguiu nomeações para os Oscars nas respectivas categorias: Timothy Spall é um fabuloso Maurice, desde o pormenor das suas sessões fotográficas até ao comovente tom conciliador com que tenta reunir a família; Marianne Jean-Baptiste na figura de Hortence, rigorosa e discreta, a brilhante Brenda Blethyn na complexa e histriónica Cynthia, divididas entre as mais amplas emoções, ou mesmo Claire Rushbrook, a revoltada Roxanne, que deixa cair a sua fachada de agressividade latente, perante o desenrolar dos acontecimentos.
A realização de Mike Leigh é serena, atenta ao mais pequeno indício, intimista e púdica, com uma construção extremamente inteligente e sensível. Uma obra-prima invulgar, optimista no seu desencanto.


SEGREDOS E MENTIRAS
Título original: Secrets & Lies
Realização: Mike Leigh (Inglaterra, 1996);  Argumento: Mike Leigh; Produção: Simon Channing Williams; Música: Andrew Dickson; Fotografia (cor):  Dick Pope; Montagem: Jon Gregory; Casting: Susie Parriss, Paddy Stern; Design de produção: Alison Chitty; Direcção artística: Eve Stewart; Decoração: Liz Griffiths; Guarda-roupa:  Maria Price; Maquilhagem: Christine Blundell, Kirstin Chalmers; Direcção de Produção: Georgina Lowe; Assistentes de realização: Zerlina Hughes, Jennie Osborn, Josh Robertson, Chris Rose, Paula Spinks; Departamento de arte: Nic Orlande; Som: Orin Beaton, Mick Boggis, Loveday Harding, George Richards, Ted Swanscott; Efeitos visuais: David Smith; Companhias de produção: Channel Four Films, CiBy 2000, Thin Man Films; Intérpretes: Timothy Spall (Maurice Purley), Phyllis Logan (Monica Purley), Brenda Blethyn (Cynthia Rose Purley), Claire Rushbrook (Roxanne Purley), Marianne Jean-Baptiste (Hortense Cumberbatch), Elizabeth Berrington (Jane), Michele Austin (Dionne), Lee Ross (Paul), Lesley Manville, Ron Cook, Emma Amos, Brian Bovell, Trevor Laird, Clare Perkins, Elias Perkins McCook, Jane Mitchell, Janice Acquah, Keylee Jade Flanders, Hannah Davis, Terence Harvey, Kate O'Malley, Joe Tucker, Richard Syms, Grant Masters, Annie Hayes, Jean Ainslie, Daniel Smith, Lucy Sheen, Frances Ruffelle, etc. Duração: 142 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Outubro de 1996.

MIKE LEIGH (1943- )
Nasceu a 20 de Fevereiro de 1943, em Salford, Greater Manchester, Inglaterra. Filho de um médico, a família era originária de emigrantes judeus da Europa de Leste. Estudou na Royal Academy of Dramatic Art (RADA). Vasta actividade no teatro, na televisão e no cinema. Tanto no cinema como no teatro, raramente trabalha com um guião (peça ou argumento) pré-estabelecido. A sua peça "Abigail's Party", levada a cena no New Ambassador's Theatre, foi nomeada para o Laurence Olivier Theatre Award for Best Revival de 2002. Os seus filmes têm tido algumas das maiores recompensas e distinções em Festivais de todo o mundo. Professor coordenador da The London Film School. Foi casado com Alison Steadman (1973 – 2001, divórcio), de quem tem duas filhas.  Agraciado com o oficialato da Ordem do Império Britânico, em 1993. Para si, os melhores filmes de sempre são: A Árvore dos Tamancos (1978), Viagem a Tóquio (1953), Soy Cuba (1964), Os Quatrocentos Golpes (1959), A Morte do Sr. Lazarescu (2005), Sånger från andra våningen (2000), Quanto Mais Quente Melhor (1959), Os Dias da Rádio (1987), As Sete Ocasiões de Pamplinas (1925) e How a Mosquito Operates (1912).

Filmografia:
Cinema / Longas-metragens: 1984: Meantime; 1988: High Hopes (Grandes Ambições); 1991: Life is Sweet; 1993: Naked (Nu); 1996: Secrets and Lies (Segredos e Mentiras); 1997: Career Girls (Raparigas de Sucesso); 1998: Welcome to Hollywood; 1999: Topsy-Turvy (Topsy-Turvy); 2002: All or Nothing (Tudo ou Nada); 2004: Vera Drake (Vera Drake); 2007: Happy-Go-Lucky (Um Dia de Cada Vez); 2010: Another Year (Um Ano Mais); 2014: Mr. Turner
Curtas-metragens: 1971: Bleak Moments; 1975: Five-Minutes Films; 1987: The Short and Curlies; 1992: A Sense of History; 2012: A Running Jump;

Televisão: 1973: Hard Labour; Scene (A Mug's Game?);1973-1982: Play for Today (TV) (Home Sweet Home, Who's Who, Abigail's Party, The Kiss of Death, Nuts in May); 1975-1976: Second City Firsts (Knock for Knock, The Permissive Society); 1976: Plays for Britain; 1980: BBC2 Playhouse (Grown-Ups); 1982: Home Sweet Home; 1982: Five-Minute Films (Afternoon, A Light Snack, Probation, Old Chums, The Birth of the Goalie of the 2001 F.A. Cup Final); 1983: Meantime; 1985: Four Days in July.