domingo, 28 de setembro de 2014

SESSÃO 50: 14 DE OUTUBRO DE 2014


QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994)

O cinema inglês sempre conheceu bons períodos onde a comédia sobressaiu. Basta recordar a época brilhante dos Estúdios Ealing, nos anos 50, com os inesquecíveis “O Quinteto era de Cordas”, “Oito Vidas por um Título”, “O Homem do Fato Claro” ou “Roubei um Milhão”, para se perceber a importância desta comédia com o seu toque muito britânico. Depois surgiram séries de grande sucesso popular, como “Com Jeito Vai…” ou “Doctor in Love”, mas de reduzido interesse cinematográfico, aparecendo, nos anos 60 e 70, Peter Sellers e Richard Lester, seguidos dos Monthy Python, fabulosos na televisão e também no cinema, com “Monty Python e o Cálice Sagrado”, A Vida de Brian”, “O Sentido da Vida”, com muitas outras obras a prosseguirem o seu caminho: “Brazil”, “Clockwise”, “ Time Bandits”, etc.  Em finais da década de 80, e durante toda a seguinte,  títulos como “A Fish Called Wanda” (1988), “Four Weddings and a Funeral” (1994),  “The Full Monty” (1997), “Notting Hill” (1999) mantiveram a chama acesa, a que se deve associar ainda um outro tipo de comédias retiradas de grandes clássicos literários, tais como “An Ideal Husband” (1999), “Much Ado About Nothing” (1993), “Peter's Friends” (1992), “Shakespeare in Love” (1998), entre vários outros. Já no início do novo século, a comédia manteria alguma qualidade com “Billy Elliot” (2000), “O Diário de Bridget Jones” (2001), “O Amor Acontece” (2003) ou “Death at a Funeral” (2007), não esquecendo que durante todo este período um outro cómico, Rowan Atkinson, o popular Mr. Bean, nos daria um conjunto de películas que, não possuindo uma qualidade cinematográfica invulgar, merecem destaque, desde “Bean” (1997) a “Johnny English” (2003).
“Four Weddings and a Funeral” é um bom exemplo de um tipo de comédia romântica e sentimental que se inscreve numa certa tradição inglesa e norte-americana, mas devidamente adaptada à realidade contemporânea. Mais apimentada nalguns pontos, menos sugestiva noutros, mas de evidente qualidade. O argumento de Richard Curtis é paradigmático, dado tratar-se de um especialista neste tipo de comédia: “Notting Hill” (1999), “O Diário de Bridget Jones” (2001), “O Amor Acontece” (2003) e “O Barco do Rock” (2009) trazem a sua assinatura, bem como a quase totalidade da filmografia de Rowan Atkinson, o que não deixa de ser um bom cartão de apresentação.


A estrutura do filme de Mike Newell é particularmente inventiva e de certa forma original. No seu centro está um romance de amor entre Charles (Hugh Grant) e Carrie (Andie McDowell), ele muito inglês, ela bem americana, que se vão encontrar ao longo de cinco cerimónias daquelas que reúnem amigos de tempos a tempos. Aqui, os quatro casamentos e o funeral estão bem próximos uns dos outros e é através desses encontros (fortuitos ou nem tão fortuitos assim) que a relação vai ganhando contextura até culminar, como não poderia deixar de ser num casamento (será mesmo um casamento?). Mas esta aproximação vive de avanços e recuos, da timidez e do receio de Charles, da voluptuosidade e do arrebatamento de Carrie, das intromissões de terceiros, de desilusões e de esperanças. Charles, sobretudo, e contra todas as expectativas, parece não ter mesmo jeito nenhum para se declarar no momento certo. Dir-se-ia o exemplo acabado do pretendente sempre adiado, sempre ultrapassado pelos acontecimentos. 
Deve dizer-se que esta construção relembra aqui e ali as comédias de Shakespeare, ainda que, obviamente, sem a beleza formal dos diálogos do autor de Stratford-upon-Avon. Mas a graça e a elegância não estão isentas, os actores são magníficos, alguns com pequenas rábulas deliciosas (os casos, entre outros, de Simon Callow ou Rowan Atkinson, este na composição de um padre inesquecível), a realização é extremamente sóbria, graciosa, envolvente. Um bom exemplo de uma comédia inteligente e sensível, sofisticada e ardilosa, com um toque moderno e urbano. Vê-se com o mesmo prazer com que os convivas assistem aos casamentos. Nem o funeral destoa no estilo.

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL
Título original: Four Weddings and a Funeral
Realização: Mike Newell (Inglaterra, 1994); Argumento: Richard Curtis; Produção: Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner, Duncan Kenworthy; Música: Richard Rodney Bennett; Fotografia (cor): Michael Coulter; Montagem: Jon Gregory; Casting: Michelle Guish; Design de produção: Maggie Gray; Decoração:  Anna Pinnock; Guarda-roupa:  Lindy Hemming; Maquilhagem: Ann Buchanan, Ann Buchanan; Direcção de Produção:  Mary Richards; Assistentes de realização: Oscar Beuselinck, Peter Freeman, Kieron Phipps, Trevor Puckle; Departamento de arte: Dave Allen, Paul Cheesman, Ken Hawkey, Barry Wilkinson; Som: Sue Baker, Gerry Bates, Nick Flowers, Colin Ritchie, David Stephenson;  Efeitos especiais: Ian Wingrove; Efeitos visuais: Peter Tyler; Companhias de produção: PolyGram Filmed Entertainment, Channel Four Films, Working Title Films; Intérpretes: Hugh Grant (Charles), James Fleet (Tom), Simon Callow (Gareth), John Hannah (Matthew), Kristin Scott Thomas (Fiona), David Bower (David), Charlotte Coleman (Scarlett), Andie MacDowell (Carrie), Timothy Walker, Sara Crowe (Laura), Ronald Herdman (Padre), Elspet Gray, Philip Voss, Rupert Vansittart, Nicola Walker, Paul Stacey, Simon Kunz, Rowan Atkinson (Padre, segundo casamento),  Robin McCaffrey (Serena), Michael Mears, Kenneth Griffith, David Haig, Sophie Thompson Lydia, a noiva do segundo casamento), Corin Redgrave (Hamish), Donald Weedon, Nigel Hastings, Emily Morgan, Amanda Mealing, Melissa Knatchbull, Polly Kemp, Anna Chancellor, Hannah Taylor Gordon, Bernice Stegers, Robert Lang, Jeremy Kemp (Sir John Delaney), Rosalie Crutchley, Ken Drury, Struan Rodger, Lucy Hornak, Randall Paul, Pat Starr, Tim Thomas, Neville Phillips, Susanna Hamnett, John Abbott, Richard Butler, David Wright, Ray Uren, Gordon Blackwell, Ron Griffiths, Richard Allen, Mark James, Jason Bruer, Simon Wallace, Jason McDermid, Bryn Burrows, Paulette Ivory, Christine Hewett, Juliette James, Duncan Kenworthy, Dexter Koh, etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal (DVD):LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Outubro de 1994.

MIKE NEWELL (1942 - )
Michael Cormac Newell nasceu em Hertfordshire, St Albans, Inglaterra, a 28 de Março de 1942. Estudou na St. Albans School e na Universidade de Cambridge. Começou a trabalhar na Granada Television, em Manchester, onde se manteve alguns anos. Depois de uma longa carreira na televisão, onde colabora com escritores e dramaturgos como David Hare, David Edgar, John Osborne ou Jack Rosenthal,  chega ao cinema. A sua primeira longa-metragem de cinema foi “O Homem da Máscara de Ferro” (1977). Assina alguns filmes de aventura e grande espectáculo, mas são sobretudo as obras mais intimistas que o tornam conhecido (“O Bom Pai”, “Dança Fatal”, “Viagem Sentimental”, Quatro Casamentos e um Funeral” e “Donnie Brasco”). Com "Four Weddings and a Funeral" (1994) ganhou os BAFTAS de Melhor Filme e Melhor Realizador e ainda o César de Melhor Filme Estrangeiro. Casado com Bernice Stegers, de quem tem três filhos.

Filmografia
Como realizador: 1964: Sharon (TV); 1967: The Kindness of Strangers (TV); 1968: The Visitors (TV);  Them Down There (TV); The Gamekeeper (TV); 69 Murder: The Blood Relation (TV); 1969: Blood Relations (TV); 1970: Arthur Wants You for a Sunbeam (TV);  Allergy (TV); 1971: Mrs. Mouse, Are You Within? (TV); Big Soft Nelly Mrs. Mouse (TV); 1972: Not Counting the Savages (TV); Just Your Luck (TV); 1973: The New World (TV); A Face of Your Own (TV); Barbara's Wedding (TV); £12 look (TV); The Melancholy Hussar (TV); 1974: Silver Wedding (TV); The Gift of Friendship (TV); Baa Baa Black Sheep (TV); The Childhood Friend (TV); Ms or Jill an Jack (TV); 1975: Of the Fields Lately (TV); Mrs. Ackland Ghosts (TV); Lost yer tongue? (TV); Jack Flea's Birthday Celebration (TV); Brassneck (TV); The Boundary (TV); The Midas Connection (TV); 1976: Ready when you are Mr. McGill (TV); Buffet (TV); 1977: The Man in the Iron Mask (O Homem da Máscara de Ferro); Honey (TV); The Fosdyke Saga (TV); Charm (TV); The Mayor's Charity (TV); 1978: Little Girls Don't (TV); Mr. & Mrs. Bureaucrat (TV); Destiny (TV); 1980: The Awakening (A Maldição do Vale dos Faraós); 1981: Bad Blood; 1982: Birth of a Nation (TV); 1983: Blood Feud (TV); 1985: The Good Father (O Bom Pai); 1985: Dance with a Stranger (Dança Fatal); 1987: Amazing Grace and Chuck (O Poder do Silêncio); 1988: Soursweet; 1989: The Whole Hog (TV); 1990: Common Ground (TV); 1992: Enchanted April (Viagem Sentimental); Into the West (O Caminho do Oeste); 1994: Four Weddings and a Funeral (Quatro Casamentos e um Funeral); 1995: An Awfully Big Adventure; 1997: Donnie Brasco (Donnie Brasco); 1999: Pushing Tin (Tudo Sob Controlo); 1999: The Adventures of Young Indiana Jones: Masks of Evil (TV) (episódio "Istanbul"); 2002: Jo (TV); 2003: Mona Lisa Smile (O Sorriso de Mona Lisa); 2005: Harry Potter and the Goblet of Fire (Harry Potter e o Cálice de Fogo); 2006: Harry Potter Spoof Movie (curta-metragem); 2007: Love in the Time of Cholera (O Amor nos Tempos do Cólera); The Adventures of Young Indiana Jones: The Perils of Cupid (TV) (episódio "Florence"); 2010: Prince of Persia: The Sands of Time (Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo), 2012: Great Expectations (Grandes Esperanças). 

HUGH GRANT (1960 - )
Hugh John Mungo Grant nasceu a 9 de Setembro de 1960, em Hammersmith, Londres, Inglaterra. A mãe, Fyvola Susan, era professora, e o pai, James Murray Grant, um artista e vendedor de carpetes. Estudou nas Wetherby School e Latymer Upper School, e no New College, na Universidade de Oxford, onde cursou literatura inglesa. Frequentou igualmente o Art History at the Courtauld Institute, em Londres. Grant foi um bom atleta, jogando cricket e futebol na sua juventude, bem como golf, posteriormente. Mas começou a orientar a carreira para a representação, iniciando-se na televisão, onde aparece em dezenas de obras, telefilmes e séries, começando antes, em 1982, por se estrear no cinema, em “Privileged”, de Michael Hoffman. Especialmente dotado para papéis de galã, em comédias românticas, torna-se particularmente notado na personagem de Charles, em “Quatro Casamentos e um Funeral” (1994), ao lado de Andie MacDowell, papel que lhe valeu um BAFTA e um Globo de Ouro, como Melhor Actor. Entre as muitas obras por si interpretadas contam-se “Paixões Secretas de Uma Mulher” (1991), “Os Despojos do Dia” (1993), “Sensibilidade e Bom Senso” (1995), “Mickey Blue Eyes” (1999), “Notting Hill” (1999), “O Diário de Bridget Jones” (2001), “Era Uma Vez Um Rapaz” (2002), “Amor sem Aviso” (2002), ou “O Amor Acontece” (2003), ao lado de Lúcia Moniz. Tal como Elizabeth Hurley, Lily Allen, Pierce Brosnan, Hugh Laurie, Benicio Del Toro, Daniel Radcliffe, Andrew Johnston ou até Michael Jackson, Hugh Grant é adepto do Fulham Football Club. Com uma vida sentimental muito movimentada, conheceu várias companhias, como Elizabeth Hurley (1987 – 2000), Jemima Khan, embaixadora da UNICEF, Anna Elisabeth Eberstein, produtora de televisão sueca, ou Tinglan Hongm (conta-se que destas duas últimas relações teve dois filhos com tês meses de intervalo). Mas o caso mais sensacional foi o seu encontro com uma prostituta, Divine Brown, no interior de um carro, num lugar público, o que lhe valeu ser apanhado pela polícia e condenado por “maus costumes”. Numa entrevista, em 2002, concedida à rádio Capital FM confessou que o filme seu de que mais gostava era “Os Despojos do Dia” (1993) e o que não gostava era “Última Viagem Para Veneza” (1996).

Filmografia

Como Actor: 1982: Privileged, de Michael Hoffman; 1985: The Last Place on Earth, de Ferdinand Fairfax (TV); The Detective, de Don Leaver (TV); Jenny's War, de Steve Gethers (TV); Honour, Profit & Pleasure, de Anna Ambrose (TV); 1986: Ladies in Charge, de Richard Bramall, Neville Green, Jane Howell e John Wood (TV); A Very Peculiar Practice (TV); Shades of Darkness (TV); 1986: The Dream Lover, de Peter Hammond (TV); Lord Elgin and Some Stones of No Value, de Christopher Miles (TV); 1987: White Mischief (Adeus, África), de Michael Radford; Maurice (Maurice), de James Ivory; 1988: La Nuit Bengali, de Nicolas Klotz; Nocturnes, de François Aubry (curta-metragem); The Dawning (Segredos de Guerra), de Robert Knights; The Lair of the White Worm; Remando al Viento (Remando ao Vento), de Gonzalo Suárez; 1989: Till We Meet Again, de Charles Jarrott (TV); Champagne Charlie (TV); The Lady and the Highwayman (Jardim do Mal), de Ken Russell (TV); 1990: The Big Man (O Grande Homem), de David Leland; 1991: Impromptu (Paixões Secretas de Uma Mulher), de James Lapine; Our Sons (Os Filhos da Sida), de John Erman (TV); The Trials of Oz, de Sheree Folkson (TV); 1991-1993: Performance (TV); 1992: Bitter Moon (Lua de Mel, Lua de Fel), de Roman Polanski; Shakespeare: The Animated Tales, de Leon Garfield (TV) (voz); 1993: Night Train to Venice (A Última Viagem Para Veneza), de Carlo U. Quinterio; Sirens (O Encanto das Sereias), de John Duigan; 1993: The Remains of the Day (Os Despojos do Dia), de James Ivory; 1994: The Changeling, de Simon Curtis (TV); Four Weddings and a Funeral (Quatro Casamentos e um Funeral), de Mike Newell; 1995: An Awfully Big Adventure, de Mike Newell; 1995: The Englishman Who Went Up a Hill But Came Down a Mountain (O Inglês Que Subiu Uma Colina e Desceu Uma Montanha), de Christopher Monger; Nine Months (Nove Meses), de Chris Columbus; Sense and Sensibility (Sensibilidade e Bom Senso), de Ang Lee; 1995: Restoration (Restauração), de Michael Hoffman; 1996: Extreme Measures (Medidas Extremas), de Michael Apted; 1999: Comic Relief: Doctor Who and the Curse of The Fatal Death (TV); 1999: Notting Hill (Notting Hill), de Roger Michell; Mickey Blue Eyes (Mickey Blue Eyes), de Kelly Makin; Hooves of Fire (TV); 2000: Small Time Crooks (Vigaristas de Bairro), de Woody Allen; 2001: Bridget Jones's Diary (O Diário de Bridget Jones), de Sharon Maguire; 2002: About a Boy (Era Uma Vez Um Rapaz), de Chris e Paul Weitz; 2002: Two Weeks Notice (Amor Sem Aviso), de Marc Lawrence; Legend of the Lost Tribe (TV); 2003: Love Actually (O Amor Acontece), de Richard Curtis; About a Boy: Deleted Scenes (curta-metragem); 2004: Bridget Jones: The Edge of Reason (O Novo Diário de Bridget Jones), de Beeban Kidron; 2005: Travaux, on sait quand ça commence..., de Brigitte Roüan; 2006: American Dreamz, de Paul Weitz; 2007: Music and Lyrics (Música e Letra), de Marc Lawrence; 2009: Did You Heard About the Morgans? (Ouviste Falar dos Morgans?), de Marc Lawrence; 2010: I'm Still Here, de Casey Affleck; The Pirates! Band of Misfits (Os Piratas!), de Peter Lord e Jeff Newitt (voz); So You Want to Be a Pirate! (curta-metragem); Cloud Atlas (Clous Atlas), de Tom Tykwer e Andy e Lana Wachowski; 2014: The Rewrite, de Marc Lawrence; 2015: The Man from U.N.C.L.E., de Guy Ritchie (em pós-produção).

SESSÃO 49: 7 DE OUTUBRO DE 2014


CHUVA DE PEDRAS (1993)

Kenneth Loach é, conjuntamente com Mike Leigh, um dos mais importantes cineastas ingleses da actualidade, e um dos que mais empenhadamente reata com uma tradição de cinema social, que vem desde os anos 30, do documentarismo britânico de então, e que é repegada durante o período do “Free Cinema”, voltando a afirmar-se vigorosamente nas décadas de 70 a 90 do século passado. Desde “Poor Cow” (1967), passando por “Kes” (1970), depois por “Vida em Família”, Ken Loach não só confirma qualidades cinematográficas como documenta com uma observação crítica implacável as condições de vida das classes trabalhadoras, o que lhe permitiu um reconhecimento internacional, alternando uma carreira no cinema e na televisão, nunca se afastando da sua visão dos mais humildes e desprotegidos, a quem procura dar corpo e voz.
Numa entrevista, Ken Loach confessou há tempos que três filmes inspiraram a sua carreira, “Ladrões de Bicicletas”, de De Sica, “Os Amores de uma Loira”, de Milos Forman, e “A Batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo. Quem vê “Chuva de Pedras” não pode deixar de encontrar algumas afinidades com “Ladrões de Bicicletas”. Onde em De Sica um operário desempregado se vê em apuros por lhe roubarem a bicicleta, em “Chuva de Pedras” um desempregado em maus lençóis descobre-se desesperado quando lhe roubam uma carrinha. Em ambos há uma criança no meio de um casal em dificuldades extremas.
O filme começa um pouco em jeito de comédia quase burlesca. Bob e Tommy, dois amigos desempregados, tentam sobreviver roubando ovelhas que não conseguem matar, mas que, uma vez desmembradas pelo talhante cúmplice, vão vender pelos cafés das redondezas. É numa dessas sortidas que descobrem que a carrinha onde viajam desapareceu e os deixou apeados. Depois, a história centra-se mais em Bob Williams, que procura sobreviver de qualquer forma, e tenta sobretudo arranjar dinheiro para comprar o vestido e os sapatos para a primeira comunhão da sua filha Coleen. O padre da paróquia bem lhe tenta explicar que não é preciso uma vestimenta especial para o efeito, mas Bob não quer ser menos que os outros e a sua filha há-de ter um vestido novo, tal como a filha de qualquer burguês. Mete-se nas mais desvairadas ocupações, como desentupir canos, ser segurança num bar, roubar relva do clube dos conservadores locais, mas a sua desdita acontece sobretudo quando pede emprestadas duas centenas de libras que depois não pode pagar.


Ambientado nos arredores suburbanos de Manchester, “Raining Stones” tem a particularidade de abordar um tema forte e denso, nunca caindo nem na demagogia fácil, nem no choradinho melodramático, nem sobretudo no maniqueísmo político. Os seus protagonistas são pessoas complexas, o ambiente social é descrito com rigor e largueza de meios, as instituições são criticadas e o liberalismo thatcherista é zurzido, mas nada é dado a preto e preto. Por exemplo a personagem do padre é magnificamente desenhada, afastando a obra de qualquer simplismo ou facilitismo. São-nos apontados os perigos de uma sociedade virada para o consumo e o dinheiro, com a miséria dela decorrente, mas são igualmente evocados os riscos de um proletariado sem visão de classe, preocupado sobretudo em seguir as modas, mas também preso a tradicionalismos sem qualquer justificação, conjugando o pior do passado e do presente, que obviamente vão delapidar o futuro. O filme evolui entre o humor e o drama, envolvido sempre por um olhar fraterno e solidário, no que é muito bem servido por um elenco de actores pouco conhecidos do grande público, mas excelentes na sua simplicidade de processos e na sua aparente espontaneidade. Bruce Jones (Bob) voltaremos a ver em “Ou Tudo ou Nada”, e de Ricky Tomlinson (Tommy) em Portugal não há mais vestígios (apesar de ter uma vasta carreira como actor e escritor).

CHUVA DE PEDRAS
Título original: Raining Stones
Realização: Ken Loach (Inglaterra, 1993); Argumento: Jim Allen; Produção: Sally Hibbin; Música: Stewart Copeland; Fotografia (cor):  Barry Ackroyd;  Montagem: Jonathan Morris;  Design de produção: Martin Johnson; Direcção artística: Fergus Clegg; Guarda-roupa:  Anne Sinclair; Maquilhagem: Louise Fisher;  Direcção de Produção:  Lesley Stewart;  Assistentes de realização: David Gilchrist, Tommy Gormley, Ben Johnson; Departamento de arte: Simon Dalton, Nick Goodall, Stephen Hargreaves, James Morgan; Som: Ray Beckett, Karen Jones; Companhias de produção: Channel Four Films, Parallax Pictures; Intérpretes: Bruce Jones (Bob), Julie Brown (Anne), Gemma Phoenix (Coleen), Ricky Tomlinson (Tommy), Tom Hickey (Padre Barry), Mike Fallon (Jimmy), Ronnie Ravey (Butcher), Lee Brennan (Irishman), Karen Henthorn (jovem mãe), Christine Abbott (May), Geraldine Ward (Tracey), William Ash (Joe), Matthew Clucas (Sean), Anna Jaskolka, Jonathan James (Tansey), Anthony Bodell (Ted), Bob Mullane, Jack Marsden, Jim R. Coleman, George Moss, Jackie Richmond, Little Tony, Derek Alleyn, Tracey Adamson, Antony Audenshaw, etc. Duração: 90 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Trisan Editores, Lda; Classificação etária: M / 12 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Maio de 1994.

KEN LOACH (1936 - )
Kenneth Loach nasceu a 17 de Junho de 1936, em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra. Filho de
Vivien e John Loach, estudou na King Edward VI School e no St Peter's College, em Oxford, tendo entretanto passado dois anos na Royal Air Force. Interessado pelo teatro e pela representação, inicia a carreira como actor na Oxford Revue. Como assistente de encenador integra a companhia de Northampton, Royal & Derngate, mas na década de 60 do século XX vamos encontrá-lo na televisão, dirigindo em 1964 alguns episódios de “Z-Cars”. A sua actividade é intensa como documentarista e ficcionista, em telefilmes e séries, destacando-se “Up the Junction” (1965), “Cathy Come Home” (1966) ou “In Two Minds” (1967). Percebe-se desde logo o seu interesse pela vida e problemas das classes trabalhadoras, o que será uma constante em toda a sua obra futura. Estreia-se na longa-metragem de ficção para cinema com “Poor Cow” (1967), a que se segue “Kes” (1970), um magnífico retrato de um jovem, que chamou definitivamente a atenção para a sua personalidade e preocupações. O título encontra-se em 7º lugar na lista dos melhores filmes ingleses de sempre, numa consulta organizada pelo British Film Institute. “Vida em Família” confirma qualidades e reconhecimento internacional. A partir daí alterna o cinema com a televisão, nunca se afastando da sua visão da classe operária, que ele considera sem voz própria nos meios de comunicação social.
Entre 1980 e 1990, assina várias obras particularmente interessantes, como “Hidden Agenda”, “Carla's Song” ou “Land and Freedom”, onde se debatem problemas políticos e sociais que raras vezes são abordados no cinema. Com “The Wind That Shakes the Barley” ganha a Palma de Ouro de Cannes, tornando-se depois um dos autores mais constantes na selecção oficial deste festival.
Casado com Lesley, vive em Bath, onde é sócio do Bath City F.C, clube a que dedicou uma curta metragem, que surge no DVD de "Looking for Eric". Um dia confessou que três filmes inspiraram a sua carreira, “Ladrões de Bicicletas”, de De Sica, “Os Amores de uma Loira”, de Milos Forman, e “A Batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo. Em “Chuva de Pedras” há curiosas afinidades com “Ladrões de Bicicletas”. Reatando com uma tradição de cinema social, que vem desde os anos 30, do documentarismo, e que é repegada durante o período do “Free Cinema”, Ken Loach, como Mike Leigh, é uma das mais destacadas personalidades da cultura inglesa contemporânea. Loach tem coleccionado prémios e distinções, sobretudo na Europa. No Festival de Cannes foi prémio do Júri por “Hidden Agenda” (1990), “Raining Stones” (1993), e  “The Angel's Share” (2012).  Palma de Ouro com “The Wind That Shakes the Barley” (2006). César para o Melhor Filme Estrangeiro em 1996, com “Land and Freedom” e Melhor Filme da União Europeia, em 2005, para “Just a Kiss”. Em 2009, ganhou um prémio de honra pelo conjunto da sua obra, e em 2012 foi-lhe concedido o Prémio Robert-Bresson, no Festival de Veneza, atribuído pela igreja católica em reconhecimento pela “compatibilidade da sua obra com os ensinamentos do evangelho”. No mesmo ano, no festival de Grand Lyon, recebeu o Prix Lumière pelo conjunto da sua obra.

Filmografia
Como realizador - No cinema: 1967: Poor Cow; 1969: Kes (Kes); 1971: The Save the Children Fund Film (documentário); Family Life (Vida em Família); 1979: Black Jack; 1980: The Gamekeeper; 1981: Looks and Smiles; 1984: Which Side Are You On? (documentário); 1986: Fatherland; 1989: Time to Go (documentário); 1990: Riff-Raff (Riff-Raff); Hidden Agenda (Agenda Secreta); 1993: Raining Stones (Chuva de Pedras); 1994: Ladybird Ladybird (Ladybird Ladybird); 1995: A Contemporary Case for Common Ownership (documentário, curta-metragem); Land and Freedom (Terra e Liberdade); A Contemporary Case for Common Ownership (documentário); 1996: Carla's Song (A Canção de Carla); 1997: The Flickering Flame (documentário); McLibel: Two Worlds Collide (documentário); 1998: My Name Is Joe (O Meu Nome É Joe); 2000: Bread and Roses; 2001: The Navigators; 2002: Sweet Sixteen; 2002: 11’9’’01 - September 11 (11'09''01 - 11 Perspectivas) (episódio "United Kingdom"); 2004: Ae Fond Kiss; 2005: Tickets (corealizado com Ermanno Olmi e Abbas Kiarostami); 2005: McLibel, corealizado com Franny Armstrong (documentário); 2006: The Wind That Shake The Barley (Brisa de Mudança);  2007: Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence (Cada Um o Seu Cinema) (episódio "Happy Ending"); It's a Free World... (Neste Mundo Livre...); 2009: Looking For Eric (O Meu Amigo Eric); 2010: Route Irish (Route Irish - A Outra Verdade); 2012: The Angel's Share (A Parte dos Anjos); 2013: The Spirit of '45 (documentário); 2014: Jimmy's Hall (O Salão de Jimmy);

Na televisão: 1964: Z Cars (série); Diary of a Young Man; The Wednesday Play (série); Teletale: Catherine; 1965: A Tap on the Shoulder; 1965: 3 Clear Sundays; Up the Junction; 1965: The End of Arthur's Marriage; The Wednesday Play: Coming Out Party; 1966: The Wednesday Play: Cathy Come Home; 1967: The Wednesday Play: In Two Minds; 1968: The Wednesday Play: The Golden Vision; 1969: The Wednesday Play: The Big Flame; 1971: ITV Saturday Night Theatre: After a Lifetime; The Rank and the File; 1971-1977: Play for Today;  1973: A Misfortune; Full House;  1975: Days of Hope; 1977: The Price of Coal; 1980: Auditions; 1981: A Question of Leadership; 1983: Questions of Leadership; 1983: The Red and the Blue: Impressions of Two Political Conferences - Autumn 1982; 1989: The View From the Woodpile.

domingo, 21 de setembro de 2014

SESSÃO 48: 30 DE SETEMBRO DE 2014


MUITO BARULHO POR NADA (1993)

“Much Ado About Nothing” é uma das comédias de William Shakespeare, que decorre na cidade de Messina, na Sicília, tendo tido a sua primeira apresentação em 1598 ou 1599. É geralmente considerado um dos textos mais divertidos de Shakespeare, por isso muitas vezes encenado no teatro e adaptado a televisão e cinema. O que, diga-se de passagem, não é apanágio só desta obra, pois todo o Shakespeare conta com cerca de quinhentas adaptações  a televisão e cinema. Será possivelmente, o autor mais adaptado de sempre, em todo o mundo. Esta é, pois, mais uma, com a característica de ser um trabalho de Kenneth Branagh que é, indiscutivelmente, um dos actuais especialistas no autor isabelino, tendo interpretado e dirigido várias versões cinematográficas de peças teatrais do notável dramaturgo inglês. Na verdade, neste aspecto, Kenneth Branagh é um pouco o equivalente contemporâneo de um outro actor, encenador e realizador britânico que era igualmente tido como especialista em Shakespeare, precisamente Laurence Olivier (ambos dirigiram e interpretaram, por exemplo, uma versão de “Henrique V”).


“Muito Barulho para Nada” é mais uma vez uma comédia de encontros e desencontros sentimentais, girando desta feita à volta de um casal de noivos, Cláudio (Robert Sean Leonard) e Hero (Kate Beckinsale), que estão para casar mas sofrem a vingança ciumenta do terrível  Don John (Keanu Reeves), que imagina uma cena para inculpar Hero de traição. O filme começa com a chegada de vários cavaleiros que regressam vitoriosos da guerra, tendo a comandá-los Don Pedro de Aragão (Denzel Washington). Entre eles destacam-se Cláudio, Don John e ainda Benedick (Kenneth Branagh). A entrada triunfal dos regressados da guerra em casa do velho Leonato, governador de Messina e pai de Hero, é um momento grande no filme, bem ao estilo dos westerns tradicionais, definidor de personagens e do próprio tom da obra, comédia obviamente, ambientada em tonalidades medievais, com sumptuoso guarda-roupa e magníficos cenários naturais, tudo envolvido numa representação descontraída e alegre, musculada e cénica, com homens e mulheres dos dois lados da barricada, o que fica desde logo definido pelo confronto entre Benedick, que confessa o seu desprezo pelo género feminino, e Beatrice (Emma Thompson), que proclama a sua violenta antipatia para com os viris representantes da raça humana.


O restante filme irá acompanhar o desenrolar da peça, passando por diversas peripécias que acabaram por solucionar a desavença entre Claudio e Hero, e colocarão a descoberto os íntimos sentimentos de Benedick e Beatrice. Tudo termina em bem, com casamentos múltiplos, o que se prevê desde início, acostumados que estamos a estas intrigas sentimentais que passam por crises várias para culminarem num happy end. Mas, pelo caminho, o dramaturgo (e o seu adaptador a cinema) vai distribuindo algumas ferroadas contra alguns pecadilhos da sociedade, mas nada que se compare com as vigorosas análises que surpreendemos nas suas tragédias. Aqui o registo é de bonomia e diversão palaciana, o que se compreende porque algumas destas peças mais ligeiras eram encomendas régias para diversão da corte.  
Branagh é um realizador competente e por vezes inspirado, autor de uma filmografia algo irregular mas onde se descobrem pequenas pérolas, como "Henry V",  "Dead Again" ou "Peter's Friends".  Este “Much Ado About Nothing”, rodado na Toscânia, com as suas belezas naturais e o fascínio do seu património histórico, vive sobretudo do talento de um elenco de luxo, onde sobressaem Robert Sean Leonard e Kate Beckinsale, no par romântico, mas, acima de todos, Kenneth Branagh e Emma Thompson, então marido e mulher na vida real, com papéis que parecem ter sido escritos a seu pedido, tal a oportunidade criada para desenvolver os seus dotes que lhes permitem uma multiplicidade de registos. O discreto Denzel Washington, o vilão Keanu Reeves, o divertido Michael Keaton, compõem o ramalhete, com prestações seguras e sólidas. É um prazer ver trabalhar tais actores, debitando um texto literário, brilhante na sua oralidade, e ostentando uma alegria contagiante.
Não será dos melhores Shakespeare, mas é seguramente uma inspiradora versão moderna de um clássico.


MUITO BARULHO POR NADA
Título original: Much Ado About Nothing
Realização: Kenneth Branagh (Inglaterra, EUA, 1993); Argumento: Kenneth Branagh, segundo obra de William Shakespeare; Produção: Kenneth Branagh, Stephen Evans, David Parfitt; Música: Patrick Doyle; Fotografia (cor): Roger Lanser; Montagem: Andrew Marcus; Casting: Pam Dixon; Design de produção: Tim Harvey; Direcção artística: Martin Childs; Guarda-roupa: Phyllis Dalton; Maquilhagem: Paul Engelen, Suzanne Stokes-Munton;  Direcção de Produção:  Mark Cooper, Rosanna Roditi; Assistentes de realização: Andrew Marcus, Justin Muller, Christopher Newman, Carl Oprey; Departamento de arte: Celia Bobak, Gavin Gordon, Diana Trotter; Som: David Crozier, Lucy Fawcett, Pauline Griffiths, Andrew Sissons; Efeitos visuais: Nicholas Brooks, Paddy Eason, Pete Hanson; Companhias de produção: American Playhouse Theatrical Films, Renaissance Films; Intérpretes: Kenneth Branagh (Benedick), Emma Thompson (Beatrice), Richard Briers (Signor Leonato), Keanu Reeves (Don John), Kate Beckinsale (Hero), Robert Sean Leonard (Claudio), Denzel Washington (Don Pedro de Aragão), Michael Keaton (Dogberry), Imelda Staunton (Margaret), Imelda Staunton, Jimmy Yuill, Brian Blessed, Andy Hockley, Chris Barnes, Conrad Nelson, Phyllida Law, Alex Lowe, Richard Clifford, Gerard Horan, Patrick Doyle, Alex Scott, Ben Elton, Edward Jewesbury, etc. Duração: 111 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 25 de Março de 1994.

KENNETH BRANAGH 
(1960 - )
Sir Kenneth Charles Branagh nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, a 10 de Dezembro de 1960. Com nove anos de idade a família mudou-se para Inglaterra, começando a estudar na The Royal Academy of Dramatic Arts. Tornou-se rapidamente num dos mais importantes intérpretes de Shakespeare da actualidade. Actor, encenador, realizador, argumentista, está ligado a várias versões teatrais e cinematográficas de obras de William Shakespeare. No cinema são de recordar “Henrique V” (1989, nomeado para o Oscar de melhor realizador e melhor actor), “Muito Barulho por Nada” (1993), “Otelo” (1995),  “Hamlet” (1996, nomeado para o Oscar de melhor argumento adaptado) ou “Como vos Agradar” (2003). Mas como realizador ainda assinou títulos de um outro tipo, com grande aceitação popular:  1994: Frankenstein de Mary Shelley; 007 Sleuth, Autópsia de Um Crime; 2011: Thor, ou 2013: Jack Ryan: Agente Sombra. Como actor ficou particularmente conhecido pelas suas participações em “Wild Wild West” (1999), “Harry Potter e a Câmara Secreta” (2002), Valkyrie (2008), ou “O Meu Fim-de-semana com Marilyn” (2011), pelo qual foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor Secundário. Branagh, para lá das cinco nomeações para Oscars, ganhou um Emmy, três BAFTAS e outras cinco nomeações para os Globos de Ouro. Foi casado, entre 1989 e 1995, com a actriz Emma Thompson. Apareceram juntos no elenco de “Look Back in Anger”, “Henry V”, “Much Ado About Nothing”, “Dead Again”, e “Peter's Friends”, enquanto estiveram casados. Em 1984 inicia uma relação com a também actriz Helena Bonham-Carter. Em 2003, casa com a directora de arte Lindsay Brunnock. É adepto do Tottenham Hotspur e do Rangers F.C. Em “O Meu Fim-de-semana com Marilyn” Branagh interpretou o papel de Laurence Olivier, curiosamente o actor, encenador e realizador de cinema com quem mantém as mais íntimas comparações, dada a relação de ambos com a obra de William Shakespeare.

Filmografia
Como actor: 1981: Charriots of Fire (Momentos de Glória) de Hugh Hudson (não creditado); 1982: Play for Tomorrow (TV); 1982-1984: Play for Today (TV); 1983: To the Lighthouse (TV); Maybury (TV); 1984: Boy in the Bush (TV); 1985: Coming Through (Relação Escandalosa), de  Peter Barber-Fleming (TV); 1987 Lorna (TV); The Lady's Not for Burning (TV); Fortunes of War (TV); Theatre Night (TV); A Month in the Country (Longe da Guerra), de Pat O'Connor; High Season, de Clare Peploe; 1988: Thompson (TV); American Playhouse (TV); 1989: Henry V (Henrique V), de Kenneth Branagh; Look Back in Anger (TV); 1991: Dead Again (Viver de Novo), de Kenneth Branagh; 1992: Peter's Friends (Os Amigos de Peter), de Kenneth Branagh; 1993: Swing Kids (Os Últimos Rebeldes), de Thomas Carter (curta-metragem); 1993: Much Ado About Nothing (Muito Barulho por Nada), de Kenneth Branagh; 1994: Frankenstein (Frankenstein de Mary Shelley), de Kenneth Branagh; 1995: Othello (Othello), de Oliver Parker; Performance (TV); 1996: Hamlet (Hamlet), de Kenneth Branagh; 1998: The Proposition (A Proposta), de Lesli Linka Glatter; The Gingerbread Man (Caminhos Perigosos), de Robert Altman; Celebrity (Celebridades), de Woody Allen; The Theory of Flight (Teoria de Voo), de Paul Greengrass; The Dance of Shiva, de Jamie Payne (curta-metragem); 1999: The Periwig-Maker, de Steffen Schäffler; Wild Wild West (Wild Wild West), de Barry Sonnenfeld; 2000: Love's Labour's Lost (Difícil Renúncia), de Kenneth Branagh; How to Kill Your Neighbor's Dog (Como Matar o Cão do Vizinho), de Michael Kalesniko; The Road to El Dorado (O Caminho para El Dorado) de Éric Bergeron, Will Finn, Don Paul e David Silverman (voz); 2001: Schneider's 2nd Stage, de Phil Stoole (curta-metragem); Conspiracy (TV); Short6 Periwig-maker ("The Periwig-Maker")(curta-metragem) (voz); 2002: Alien Love Triangle, de Danny Boyle (curta-metragem); Rabbit-Proof Fence (A Vedação), de Phillip Noyce; Harry Potter and the Chamber of Secrets (Harry Potter e a Câmara dos Segredos), de Chris Columbus; Shackleton (TV); 2004: Five Children and It, de John Stepheson; 2005: Warm Springs (TV); 2006: The American Experience (TV); 2007 Sleuth (Autópsia de Um Crime), de Kenneth Branagh; 2008: Walkyrie (Valquíria), de Bryan Singer; 10 Days to War (TV); Alien Love Triangle (curta-metragem); 2008-2015: Wallander (TV), 2009: Good Morning England (O Barco do Rock), de Richard Curtis; 2010: Mystery! (TV); 2011: My Week with Marilyn (A Minha Semana Com Marilyn), de Simon Curtis; 2011: Prodigal,  de Benjamin Grayson (court métrage); 2012 London 2012 Olympic Opening Ceremony: Isles of Wonder (TV); 2012: Stars in Shorts; 2013: The Ryan Initiative (Jack Ryan: Agente Sombra) de Kenneth Branagh; 2013 National Theatre Live (TV)

Como realizador: 1989: Henry V (Henrique V); 1991: Dead Again (Viver de Novo); 1992: Peter's Friends (Os Amigos de Peter); Swan Song  (curta-metragem); 1993: Much Ado About Nothing (Muito Barulho por Nada); 1994: Frankenstein (Frankenstein de Mary Shelley); 1995: In the Bleak Midwinter (Sonho de Uma Noite de Inverno);  1996: Hamlet (Hamlet); 2000: Love's Labour's Lost (Difícil Renúncia); Listening  (curta-metragem); 2005: Warm Springs (TV);  2006: The Magic Flute; As You Like It (Como vos Agradar); 2007: Sleuth (Autópsia de Um Crime); 2011: Thor (Thor); 2013: National Theatre Live (TV) Macbeth; 2014: The Ryan Initiative (Jack Ryan: Agente Sombra); 2015: Cinderela (em produção).


WILLIAM SHAKESPEARE 
(1564-1616)
William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra, a 23 de Abril de 1564 e viria a falecer em Stratford-upon-Avon, a 23 de Abril de 1616. Stratford-Upon-Avon era então uma próspera cidade mercantil, uma das mais importantes do condado de Warwickshire. O seu pai, John Shakespeare, era um comerciante bem-sucedido e membro do conselho municipal. A mãe, Mary Arden, pertencia a uma das mais notáveis famílias de Warwickshire. Frequentou o liceu de Stratford, onde os filhos dos comerciantes da região aprendiam Grego e Latim e recebiam uma educação apropriada à classe média a que pertenciam. Nascido e criado em Stratford-upon-Avon, cidade onde se encontra ainda hoje uma réplica do seu Globe Theatre, o teatro da companhia a que Shakespeare se associara, construído pelo actor e empresário Richard Burbage no bairro de Southwark, na margem sul do Tamisa. O Globe Theatre, entretanto, foi destruído pelo fogo no dia 23 de Junho de 1613, durante uma representação de Henry VIII. Segundo alguns estudiosos, Shakespeare, aos 18 anos, ter-se-ia casado com Anne Hathaway, que lhe deu três filhos: Susanna, e os gémeos Hamnet e Judith.
Poeta e dramaturgo é unanimente considerado o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo. De toda a sua obra, conhecem-se 38 peças, 3 154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e diversos outros poemas. É ainda hoje um dos autores mais representados em todo o mundo, no teatro, mas também com adaptações na televisão e no cinema. “Romeu e Julieta” mantém-se como a história de amor por excelência, e “Hamlet” inclui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that's the question (Ser ou não ser, eis a questão).
Entre 1585 e 1592 começou uma carreira em Londres como actor, escritor e um dos proprietários da companhia de teatro chamada Lord Chamberlain's Men, mais tarde conhecida como King's Men. Julga-se que tenha regressado a Stratford por volta de 1613, morrendo três anos depois. Restaram poucos registros da vida privada de Shakespeare, e existem muitas dúvidas e especulações sobre a sua aparência física, sexualidade, crenças religiosas, e se algumas das obras que lhe são atribuídas teriam sido escritas por outros autores.
Shakespeare produziu a maior parte de sua obra entre 1590 e 1613. As suas primeiras peças eram principalmente comédias e obras baseadas em eventos e personagens históricos. A partir de então escreveu quase só tragédias até por volta de 1608, incluindo “Hamlet”, “Rei Lear” e “Macbeth”, consideradas das obras mais importantes na língua inglesa. Na sua última fase, surge um conjunto de peças classificadas como tragicomédias ou romances, e colaborou com outros dramaturgos. Em 1623, dois de seus antigos colegas de teatro, John Heminges e Henry Condell, publicaram o chamado First Folio, uma colectânea das suas obras dramáticas que incluía todas as peças (com a excepção de duas) reconhecidas actualmente como sendo de sua autoria.
Muito respeitado e admirado no seu tempo, viria a alcançar a glória universal com os românticos, que aclamaram a sua genialidade, o que se manteve até hoje.
As suas 37 peças dividem-se geralmente em três categorias: comédias, dramas históricos e tragédias. Entre os dramas históricos, destacam-se “Richard III” (Ricardo III), “Richard II” (Ricardo II) e “Henry IV” (Henrique IV). Nas comédias contam-se “Love's Labour's Lost”, “The Comedy of Errors”, “The Taming of the Shrew”, a comédia de intenção séria “The Merchant of Venice” (O Mercador de Veneza), “As You Like It” (Como Quiserem) e “A Midsummer Night's Dream” (Um Sonho de Uma Noite de Verão). A tragédia não é uma forma que pertença exclusivamente a um determinado período na evolução da obra de Shakespeare. Sob influência de Marlowe, a forma de tragédia já se encontrava nas peças que dramatizavam episódios da História inglesa. Em “Romeo and Juliet” (Romeu e Julieta) e “Julius Caesar” (Júlio César) Shakespeare combinou a perspectiva histórica com uma interpretação trágica dos conflitos humanos. O período em que Shakespeare escreveu as suas grandes tragédias iniciou-se com “Hamlet”, escrita entre 1600-1602, a que se seguiram “Othelo”, “Macbeth”, “King Lear”, “Anthony and Cleopatra” e “Coriolanus”, todas elas compostas entre 1601 e 1608. Na última fase da sua vida situam-se as peças de tom mais ligeiro: “Cymbeline”, “The Winter's Tale” e “The Thempest”.


Obras de William Shakespeare: publicadas antes de 1594: Henry VI; Richard III; Titus Andronicus; Love's Labour's Lost; The Two Gentlemen of Verona; The Comedy of Errors; The Taming of The Shrew. Entre 1594-1597: Romeo and Juliet; A Midsummer Night's Dream; Richard II; King John; The Merchant of Venice. Entre 1597-1600: Henry IV; Henry V; Much Ado About Nothing; Merry Wives of Windsor; As You Like It; Julius Caeser; Troilus and Cressida. Entre 1601-1608: Hamlet; Twelfth Night; Measure for Measure; Alls Well That Ends Well; Othello; King Lear; Macbeth; Timon of Athens; Anthony and Cleopatra; Coriolanus. Depois de 1608: Pericles; Cymbeline; The Winter's Tale; The Tempest; Henry VIII. Poemas (datas desconhecidas): Venus and Adonis; The Rape of Lucrece; Sonnets; The Phoenix and The Turtle.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SESSÃO 47: 23 DE SETEMBRO DE 2014


REGRESSO A HOWARDS END (1992)

James Ivory é um realizador com características muito próprias. Quase toda a sua obra  conta com a colaboração de um produtor, Ismail Merchant, e de uma argumentista, Ruth Prawer Jhabvala. Nenhum deles é inglês, ainda que o seu trabalho seja quase exclusivamente realizado em Inglaterra: Ruth é de origem alemã e polaca, Ismail é indiano e James Ivory é americano. Todos nutrem um especial fascínio pela Índia, onde decorrem as obras iniciais desse realizador.
Por outro lado, grande parte da sua filmografia é adaptada de obras literárias (clássicos como Henry James, Jane Austen, E. M. Forrester, ou escritores mais recentes, como Jean Rhys, Evan S. Connell, Kasuo Ishiguro, Kaylie Jones, Diane Johnson, Peter Cameron, etc.), sendo que o seu autor de eleição parece ser mesmo Edward Morgan Forrester, de quem adaptou “Quarto com Vista para a Cidade”, “Maurice” e “O Regresso a Howards End”. Além destes, Forrester viu ainda passados a cinema “A Passage to India” (David Lean) e “Where Angels Fear to Tread” (Charles Sturridge), o que demonstra bem o fascínio que desenvolveu junto dos cineastas. Escritor discreto, bom observador das transformações sociais, humanista, anti-belicista militante, sensível retratista das paixões humanas, deu especial relevo às relações homossexuais (sobretudo em “Maurice”), ele que era um praticante mais ou menos assumido.
Mas é sobretudo na análise dos contrastes sociais, dos confrontos de classes normalmente reflectidos em relações amorosas, que o seu contributo é mais relevante, o que fica bem demonstrado nesta adaptação de “O Regresso a Howards End”.


Esta bem pode ser a história de uma casa de campo, Howards End, que permanece refúgio de uma família de que resta Mr. Wilcox (Anthony Hopkins) e a sua mulher, Ruth Wilcox (Vanessa Redgrave). Estamos em 1910, a casa já funciona mais como mansão desabitada da família, quando Ruth Wilcox encontra Margaret Schlegel (Emma Thompson) e Helen Schlegel (Helena Bonham-Carter), oriundas de uma famíla burguesa, bem instaladas na vida, mas objectivamente de um extracto social mais baixo. A amizade entre Ruth e Margareth intensifica-se, o que leva a proprietária de Howards End a, antes de morrer, escrever um bilhete a oferecer a casa à sua amiga. Mas os Wilcox restantes não admitem que a mãe tenha escrito tal bilhete, que destroem, não dando dele conhecimento a ninguém. 
Entretanto, a intriga adensa-se quando Helen encontra ocasionalmente um tímido e infeliz  Leonard Bast (Sam West), que não só perdeu o chapéu de chuva como também o emprego, um pouco por causa dessa oacorrência. Helen sente-se responsável pela má sorte de Bast e, simultaneamente, atraída pr esse misantropo desajeitado.
Do cruzar das duas histórias vem ao de cima a frieza desumana dos Wilcox e a envolvente simpata humana das Schlegel, o que irá marcar todo o desenvolvimento da história que acabará por trocar as voltas ao destino de alguns e adensar a tragédia de outros. “Os pobres são pobres, mas podemos ter pena deles, mas mais nada”, poderá ser uma das máximas do Senhor Wilcox que resume bem a distância que separa dois mundos que se encontram, mas nunca se fundem.
Muito interessantes são os retratos das diferentes personagens que vão passando por Howards End, todas elas muito bem descritas pelo argumento de Ruth Prawer Jhabvala e a criteriosa realização de James Ivory, mas excelentemente interpretadas por belíssimos actores que, nunca entrando pelos caminhos da demagogia e da facilidade, imprimem a cada carácter uma densidade invulgar. Emma Thompson é brilhante, sobretudo pela discreção, ironia e distanciamento. Vanessa Redgrave, num papel que cedo se apaga, demonstra uma invejável sensibilidade e delicadeza, impondo-se em meia dúzia de minutos essenciais. Helena Bonham Carter compõe uma figura de mulher livre e rebelde, decidida e persistente que define o seu talento. Anthony Hopkins é um Henry Wilcox que se afasta imenso dos estereotipos, osclilando entre o empedernido empresário e o carente viúvo. Samuel West é absolutamente deslumbrante no tímido, frágil, amargurado Leonard Bast. Mas o filme vive ainda de uma magnífica direcção artística, de um deslumbrante guarda-roupa, de uma soberba fotografia, num colorido matizado, e de uma partitura musical envolvente. Por muitos foi considerado o filme do ano. Se não foi, andou lá perto.


Howards End recebeu várias mãos-cheias de prémios, por todo o lado por onde passou. Nos Oscars, em 1993, ganhou o Oscar de Melhor Actriz (Emma Thompson), Melhor Argumento Adaptado (Ruth Prawer Jhabvala) e de Melhor Direcção Artística (Luciana Arrighi e Ian Whittaker), além de ter sido nomeado para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz Secundária (Vanessa Redgrave), Melhor Fotografia (Tony Pierce-Roberts, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Música. Nos Globos de Ouro, Emma Thompson repetiu o galardão e o filme mais três nomeações (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento). Nos BAFTAS (os Oscars ingleses), ganhou o de Melhor Filme e de Melhor Actriz, e uma chusma de nove nomeações. Em 1993, foi ainda considerado o Melhor Filme Europeu do ano, conquistando o Prémio Bodil.

O REGRESSO A HOWARDS END
Título original: Howards End
Realização: James Ivory (Inglaterra, 1992); Argumento: Ruth Prawer Jhabvala, segundo romance de E.M. Forster; Produção: Ismail Merchant, Ann Wingate, Paul Bradley, Donald Rosenfeld; Música: Richard Robbins; Fotografia (cor): Tony Pierce-Roberts; Montagem: Andrew Marcus; Casting: Celestia Fox; Design de Produção: Luciana Arrighi; Direcção artística: John Ralph; Guarda Roupa: Jenny Beavan, John Bright; Assistente de realização: Christopher Newman; Companhias de produção: Merchant Ivory Productions,  Sumitomo Corporation, Imagica, Cinema Ten Corporation, Japan Satellite Broadcasting (JBS), Ide Productions, Film Four International; Intérpretes: Vanessa Redgrave (Ruth Wilcox), Helena Bonham Carter (Helen Schlegel), Joseph Bennett (Paul Wilcox), Emma Thompson (Margaret Schlegel), Prunella Scales (Tia Juley), Adrian Ross Magenty (Tibby Schlegel), Jo Kendall (Annie), Anthony Hopkins (Henry Wilcox), James Wilby (Charles Wilcox), Jemma Redgrave (Evie Wilcox), Ian Latimer, Samuel West (Leonard Bast), Mary Nash, Siegbert Prawer, Susie Lindeman, Nicola Duffett, Mark Tandy, Andrew St. Clair, Anne Lambton, Emma Godfrey, Duncan Brown, Iain Kelly, Gerald Paris, Allie Byrne, Atlanta White, Sally Geoghegan, Paula Stockbridge, Bridget Duvall, Lucy Freeman, Harriet Stewart, Tina Leslie, Mark Payton, David Delaney, Mary McWilliams, Barbara Hicks, Rodney Rymell, Luke Parry, Antony Gilding, Peter Cellier, Crispin Bonham-Carter, Patricia Lawrence, Margery Mason, Jim Bowden, Alan James, Jocelyn Cobb, Peter Darling, Terence Sach, Brian Lipson, Simon Callow, Barr Heckstall-Smith, etc. Duração: 137 min; Distribuição em Portugal (DVD): Filmes Lusomundo; Classificação: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 2 de Outubro de 1992.

JAMES IVORY (1928 - )
James Francis Ivory nasceu a 7 de Junho de 1928, em Berkeley, Califórnia, EUA. Nascido americano, passou pela India, onde rodou alguns dos seus títulos iniciais, e instalou-se finalmente em Inglaterra. Trabalhou durante várias décadas com o produtor indiano Ismail Merchant e a escritora e argumentista alemã, de origem indiana, Ruth Prawer Jhabvala. Os seus primeiros filmes são fortemente influenciados pelo estilo de Satyajit Ray e pelo de Jean Renoir (sobretudo “O Rio”). Formado pela USC School of Cinema-Television (1957). Trabalha em Nova Iorque, antes de se fixar em Inglaterra, onde roda grande parte da sua filmografia, adaptada sobretudo de obras literárias (clássicos como Henry James, Jane Austen, E. M. Forrester, ou escritores mais recentes, como Jean Rhys, Evan S. Connell, Kasuo Ishiguro, Kaylie Jones, Diane Johnson, Peter Cameron, etc.), sendo que o seu autor de eleição parece ser mesmo Edward Morgan Forrester, de quem passou ao cinema “Quarto com Vista para a Cidade”, “Maurice” e “O Regresso a Howards End”.
Ivory e Ismail Merchant receberam um BAFTA especial pela sua contribuição ao cinema, “beleza visual, maturidade e inteligência no tratamento dos temas, excelência de casting e interpretações soberbas”. Autor extremamente premiado, foi nomeado para 3 Oscar de Melhor Realizador ("A Room with a View", 1985; "Howard's End ", 1992, e "The Remains of the Day", 1993) e os seus filmes venceram seis óscares da Academia.

Filmografia
Como realizador: 1953: Four in the Morning  (curta-metragem); 1957: Venice: Theme and Variations  (curta-metragem); 1959: The Sword and the Flute (curta-metragem); 1963: The Householder; 1964: The Delhi Way (curta-metragem); 1965: Shakespeare Wallah; 1969: The Guru; 1970: Bombay Talkie (Paixão Fatal); 1971: Adventures of a Brown Man in Search of Civilization; 1972: Savages (Selvagens); 1973: Helen, Queen of the Nautch Girls (curta-metragem); 1973: ABC Afterschool Specials (TV) (1 episódio: William: The Life, Works and Times of lliam Shakespeare); 1975: The Wild Party (A Noite do Pecado); The Place of Peace (TV); Autobiography of a Princess; 1977: Roseland; 1978: Hullabaloo Over Georgie and Bonnie's Pictures (TV); 1979: The Europeans; 3 by Cheever (TV, 1 episódio: The 5:48);  1980: The Five Forty-Eight; Jane Austen in Manhattan; 1981: Quartet (Os Anos Loucos de Montparnasse); 1983: Heat and Dust (Verão Indiano); The Courtesans of Bombay (TV); 1984: The Bostonians (As Mulheres de Boston); 1986: A Room with a View (Quarto com Vista Sobre a Cidade); 1987: Maurice (Maurice); 1989: Slaves of New York (Escravos de Nova Iorque); 1990: Mr. & Mrs. Bridge (Mr. e Mrs. Bridge); 1991: Howards End (Regresso a Howards End); 1993: Remains of the Day (Os Despojos do Dia): 1995: Jefferson in Paris (Jefferson em Paris); 1995: Lumière et compagnie (episódio "Merchant Ivory/Paris"); 1996: Surviving Picasso (Sobreviver a Picasso); 1999: A Soldier's Daughter Never Cries (Filha de Soldado Nunca Chora); 2000: The Golden Bowl (Infidelidades); 2003: Le Divorce (O Divórcio); 2005: The White Countess (A Condessa Russa); 2007: City of Your Final Destination (A Cidade do Teu Destino Final).

E. M. FORSTER (1879-1970)
Edward Morgan Forster nasceu a 1 de Janeiro de 1879, em Marylebone, Middlesex, Inglaterra, e viria a falecer a 7 de Junho de 1970, com 91 anos de idade, em Coventry, Warwickshire, Inglaterra. Filho único de Alice Clara "Lily" e Edward Morgan Llewellyn Forster, um arquitecto, começa por ser erradamente baptizado com o nome Edward Morgan Forster, quando o escolhido seria Henry Morgan Forster. O pai morreu quando ele tinha dois anos, mas a herança de uma tia, no valor de 8.000 libras (qualquer coisa como 776,200 na actualidade), permitiu-lhe dedicar-se à literatura). Estudou na Tonbridge School, em Kent e, posteriormente, no King's College, em Cambridge, entre 1897 e 1901, onde pertencia ao grupo de discussão “Apostles”, mais tarde conhecido por “Bloomsbury Group”. Viajou pela Europa, Egipto, e durante a I Guerra Mundial ofereceu-se como voluntário para a Cruz Vermelha (E. M. Forster era objector de consciência). Posteriormente, foi secretário do marajá Tukojirao III, na Índia. Quando regressou a Inglaterra, escreveu “A Passage to India” (1924) e “Eliza Fay's” (1756–1816), reunião de cartas da Índia. Entre 1930 e 1940, tornou-se célebre pela sua colaboração radiofónica na BBC. Homossexual, Forster manteve uma relação com Bob Buckingham, um polícia casado. Depois de uma carreira extremamente fecunda, deixando uma obra admirada pelos seus contemporâneos e pelos vindouros, morreu com 91 anos, na sua casa de Buckinghams, em Coventry.

Obras mais importantes: Romances: Where Angels Fear to Tread (1905), The Longest Journey (1907), A Room with a View (1908), Howards End (1910), A Passage to India (1924), Maurice (1913–14, só publicado em 1971), Arctic Summer (incompleto, escrito entre 1912–13, só publicado em 2003); Contos: The Celestial Omnibus (1911), The Eternal Moment and other stories (1928), Collected Short Stories (1947) contendo "The Story of a Panic", "The Other Side Of The Hedge", "The Celestial Omnibus", "Other Kingdom", "The Curate's Friend", "The Road from Colonus", "The Machine Stops", "The Point of It", "Mr Andrews", "Co-ordination"m "The Story of the Siren", "The Eternal Moment", The Life to Come and other stories (1972) contendo "Ansell", "Albergo Empedocle", "The Purple Envelope", "The Helping Hand", "The Rock", "The Life to Come", "Dr Woolacott", "Arthur Snatchfold", "The Obelisk", "What Does It Matter? A Morality", "The Classical Annex", "The Torque", "The Other Boat", "Three Courses and a Dessert: Being a New and Gastronomic Version of the Old Game of Consequences"; Peças de teatro: Abinger Pageant (1934), England's Pleasant Land (1940); Argumento cinematográfico:  A Diary for Timothy (1945) (realização de  Humphrey Jennings, comentário dito por Michael Redgrave); Libreto: Billy Budd (1951) (com Eric Crozier; segundo romance de Melville, para a ópera de Benjamin Britten); Ensaios: Abinger Harvest (1936), Two Cheers for Democracy (1951),Aspects of the Novel (1927), The Feminine Note in Literature) (2001), The Creator as Critic and Other Writings; Biografia: Goldsworthy Lowes Dickinson (1934), Marianne Thornton, A Domestic Biography (1956); Viagens: Alexandria: A History and Guide (1922), Pharos and Pharillon (A Novelist's Sketchbook of Alexandria Through the Ages) (1923), The Hill of Devi (1953); Outras obras: Selected Letters (1983–85), Commonplace Book (facsimile ed. 1978; edição de Philip Gardner, 1985), Locked Diary (2007).
Principais filmes e teledramáticos retirados de obras suas: The Machine Stops (1966), BBC série Out of the Unknown; A Passage to India (1984), dir. David Lean; A Room with a View (1985), dir. James Ivory; Maurice (1987), dir. James Ivory; Where Angels Fear to Tread (1991), dir. Charles Sturridge; Howards End (1992), dir. James Ivory.

ANTHONY HOPKINS (1937 - )
Philip Anthony Hopkins nasceu a 31 de Dezembro de 1937, em Margam, Port Talbot, West Glamorgan, País de Gales, Reino Unido. Filho de Muriel Anne e de Richard Arthur Hopkins, padeiro. Foi Richard Burton que o levou a inscrever-se no College of Music and Drama, onde se diplomou em 1957. Em 1965, junta-se ao National Theatre, em Londres, por convite de Laurence Olivier, que reconheceu de imediato o extraordionário talento de Hopkins. Depois de algumas temporadas no teatro, passa à televisão, onde em 1967, integra o elenco de “A Flea in Her Ear”. No ano seguinte já obtinha um papel importante em “O Leão no Inverno”, inaugurando assim uma carreira repleta de sucessos, onde se contam títulos como “Uma Ponte Longe Demais” (1977), “O Homem Elefante” (1980), “A Rua do Adeus” (1987), “ A Noite do Desespero” (1990) “Regresso a Howards End” (1992), “Os Despojos do Dia” (1993) (nomeado para Oscar), “Dois Estranhos, Um Destino” (1993), “Lendas de Paixão” (1994), “Nixon” (1995) (nomeado para Oscar), “Sobreviver a Picasso” (1996), “Amistad” (1997) (nomeado para Oscar), “A Máscara de Zorro” (1998), “Conhece Joe Black?” (1998) e “Instinto” (1999), mas o seu maior êxito terá sido “O Silêncio dos Inocentes” (1991), no qual ganhou o Oscar para Melhor Actor pela sua composição de Hannibal Lecter, bem como o BAFTA e muitos outros prémios. Trabalhou por diversas vezes com James Ivory, Richard Attenborough, Oilver Stone. Casado com Petronella Barker (1967 - 1972), Jennifer Lynton (1973 - 2002) e Stella Arroyave (2003 até ao presente). Em 1987 foi condecorado com a ordem do Império Britânico.

Filmografia
Como actor, no cinema: 1967: The White Bus, de Lindsay Anderson; 1968: The Lion in Winter (O Leão no Inverno), de Anthony Harvey; 1969: The Looking Glass War (Espelho de Espiões), de Frank Pierson; Hamlet (Hamlet), de Tony Richardson; 1971: When Eight Bells Toll, de Étienne Périer; 1972: Young Winston (O Jovem Leão) de Richard Attenborough; 1973: A Doll's House, de Patrick Garland; 1974: Juggernaut (Código: Juggernaut), de Richard Lester; 1974: The Girl from Petrovka) de Robert Ellis Miller; 1976: A Bridge Too Far (Uma Ponte Longe Demais) de Richard Attenborough; 1977: Audrey Rose (Audrey Rose), de Robert Wise; 1978: International Velvet (Sarah) de Bryan Forbes; 1978: Magic (Magic), de Richard Attenborough; 1980: The Elephant Man (O Homem Elefante) de David Lynch; A Change of Seasons (A Aluna e o Professor) de Richard Lang; 1984: The Bounty (Revolta no Pacífico), de Roger Donaldson; 1985: The Good Father (O Bom Pai), de Mike Newell; 1986: 84 Charing Cross Road (A Rua do Adeus), de David Jones; 1988: The Dawning (Segredos de Guerra), de Robert Knights; 1989: A Chorus of Disapproval, de Michael Winner;1990: Desperate Hours (A Noite do Desespero) de Michael Cimino; 1991: The Silence of the Lambs (O Silêncio dos Inocentes), de Jonathan Demme; 1992: Freejack (Corrida Contra o Futuro), de Geoff Murphy; Spotswood (Um Nó na Madeira) de Mark Joffe; 1992: Howards End (Regresso a Howards End), de James Ivory; 1992: Bram Stoker's Dracula (Drácula de Bram Stoker) de Francis Ford Coppola; Chaplin (Chaplin), de Richard Attenborough; 1993: The Trial, de David Hugh Jones; The Innocent (Inocente), de John Schlesinger; The Remains of the Day (Os Despojos do Dia), de James Ivory; Shadowlands (Dois Estranhos, Um Destino), de Richard Attenborough; 1994: The Road to Wellville (Sexo e Corn Flakes), de Alan Parker; A Century of Cinema de Caroline Thomas (documentário); Legends of the Fall (Lendas de Paixão),  de Edward Zwick; 1995: Nixon (Nixon), de Oliver Stone; 1996: August, de Anthony Hopkins; Surviving Picasso (Sobreviver a Picasso), de James Ivory; 1997: The Edge (No Limite) de Lee Tamahori; Amistad (Amistad), de Steven Spielberg; 1998: The Mask of Zorro (A Máscara de Zorro) de Martin Campbell; Meet Joe Black (Conhece Joe Black?), de Martin Brest; Instinct (Instinto), de Jon Turteltaub; 1999: Titus (Titus), de Julie Taymor; 2000: Mission: Impossible 2 (Missão Impossível, II) de John Woo; (não creditado); How the Grinch Stole Christmas (Grinch), de Ron Howard (só voz); 2001: Hannibal (Hannibal), de Ridley Scott; Hearts in Atlantis (Corações na Atlântida), de Scott Hicks; 2002: Bad Company (Más Companhias), de Joel Schumacher; Red Dragon (Dragão Vermelho), de Brett Ratner; 2003: The Human Stain (Culpa Humana), de Robert Benton; 2003: Shortcut to Happiness ou The Devil and Daniel Webster (O Julgamento do Diabo), de  Alec Baldwin (sob o pseudónimo de Harry Kirkpatrick); 2004: Alexander (Alexandre, o Grande) de Oliver Stone; 2005: Proof (Proof - Entre o Génio e a Loucura), de John Madden; The Worlde s Fastest Indian (Indian - O Grande Desafio), de Roger Donaldson; 2006: Bobby (Bobby), de Emilio Estevez; All the King's Men (O Caminho do Poder) de Steven Zaillian; 2007: Slipstream (Slipstream - A Vida Como Um Filme), de Anthony Hopkins; Fracture (Ruptura), de Gregory Hoblit; Beowulf (Beowulf), de Robert Zemeckis; 2008: City of Your Final Destination (A Cidade do Teu Destino Final), de James Ivory; Immutable Dream of Snow Lion (curta-metragem); Where I Stand: The Hank Greenspun Story (documentário); 2010: The Wolfman (O Lobisomem), de Joe Johnston; The Third Rule de Aundre Johnson (curta-metragem); You Will Meet a Tall Dark Stranger (Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos), de Woody Allen; Bare Knuckles, de Eric Etebari; 2011: The Rite (O Ritual), de Mikael Håfström; Thor (Thor), de Kenneth Branagh; 2012: 360 (360), de Fernando Meirelles; 2013: Hitchcock (Hitchcock), de Sacha Gervasi; Red 2 (Red 2: Ainda Mais Perigosos), de Dean Parisot; Thor: The Dark World (Thor: O Mundo das Trevas), de Alan Taylor; 2014: Noah (Noé), de Darren Aronofsky; Kidnapping Freddy Heineken, de Daniel Alfredson; Solace, de Afonso Poyart; Autobahn, de Eran Creevy; 2014: Westworld; 2014: Autobahn.
Como actor, na televisão: 1965: The Man in Room 17; 1967: A Flea in Her Ear; 1968: The Company of Five; A Walk Through the Forest; 1969: ITV Saturday Night Theatre: The Three Sisters; 1970: Hearts and Flowers; Uncle Vanya; Danton; The Great Inimitable Mr. Dickens; Département S; 1970-1974: Play for Today;  1970-1982: BBC Play of the Month; 1971:  Great Performances; The Ten Commandments; 1972: Poet Game; The Man Outside; War and Peace; 1973: Lloyd George; The Edwardians; Black and Blue; 1974: QB VII; Childhood; Possessions; Omnibus; Código: Juggernaut; ITV Sunday Night Drama; The Girl from Petrovka;  1975: All Creatures Great and Small; 1976: Dark Victory; The Lindbergh Kidnapping Case; Victory at Entebbe (Vitória em Entebbe); 1978: Kean; 1979: Mayflower: The Pilgrim's Adventure; 1981: The Bunker; Peter and Paul; Othello; 1982: The Hunchback of Notre Dame;  Little Eyolf; 1983: A Married Man; 1984: Arch of Triumph; Strangers and Brothers; Six Centuries of Verse; 1985: Guilty Conscience; Hollywood Wives; Mussolini and I; 1987: Blunt; 1988: The Tenth Man; Across the Lake; 1989: Heartland; Great Expectations; 1991: One Man's War; 1992: To Be the Best; 1993: Selected Exits 2003: Freedom: A History of US; 2007: American Masters: Tony Bennett: The Music Never Ends; 

Como realizador: 1990: Dylan Thomas: Return Journey; 1996: August; 2007: Slipstream.

SESSÃO 46: 16 DE SETEMBRO DE 2014


LIGAÇÕES PERIGOSAS (1988)

Pierre-Ambroise-François Choderlos de Laclos (1741 - 1803), o autor de "Les Liaisons Dangereuses", foi general do exército francês e tinha propensão para a matemática. Atravessou uma época particularmente conflituosa da História Francesa, com Revolução e Napoleão pelo meio, era o negativo de um Don Juan ou Casanova, marido amantíssimo e fiel, e dizem-no não muito bem parecido nem sedutor. Entre as suas comissões de serviço e as férias que tirava para passar em Paris escreveu a obra que o iria imortalizar.  O seu romance “As Ligações Perigosas” conheceu êxito imediato que se mantém até ao presente. Razão para ter sido tantas vezes adaptado ao cinema e à televisão e em países tão diversos.
Em 1959, Roger Vadim dirige "Les Liaisons Dangereuses" (Ligações Perigosas), uma das versões mais célebres, por ser das primeiras, e por incluir no elenco Jeanne Moreau, Gérard Philipe e Jean-Louis Trintignant, além da adaptação contar com a colaboração de Roger Vailland (e também de Claude Brulé e do próprio Vadim). Roger Vailland era tido como escritor da libertinagem e da felicidade (além de comunista, a partir de certa altura da sua vida) e um especialista em Roger Vailland, de quem escreveu uma biografia. Roger Vadim era um provocador, o filme foi um sucesso, um escândalo na época.
Depois, “Valmont”, em 1989, com assinatura de Milos Forman, contava igualmente com um bom elenco, Colin Firth, Annette Bening, Meg Tilly, entre outros. Praticamente ao mesmo tempo (1988), em Inglaterra, Stephen Frears rodara outra “Dangerous Liaisons”, retirada de uma peça teatral da autoria de Christopher Hampton que a levava ao cinema. Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Keanu Reeves são os principais intérpretes e pode dizer-se que a obra constituiu um êxito brilhante.


Curioso será referir que o mesmo romance está na base de muitas outras adaptações, umas mais, algumas menos fiéis ao espírito, ao tempo e ao local, mas não espanta ver chineses e coreanos a assumirem admiração pelos escritos de Laclos: “Wi-heom-han gyan-gye” é de 2012, rodado na China, por Jin-ho Hur, com Cecilia Cheung, Dong-gun Jang, Ziyi Zhang, e “Scandal - Joseon namnyeo sangyeoljisa” surge no ano seguinte, uma produção da Coreia do Sul, assinada por Je-yong Lee, com Mi-suk Lee, Do-yeon Jeon e Yong-jun Bae. Também na televisão são várias as adaptações, mas uma das mais badaladas é uma mini série de 2003, francesa, “Les Liaisons Dangereuses”, com realização de Josee Dayan, e um elenco de luxo, Catherine Deneuve, Rupert Everett, Nastassja Kinski.
Esta versão de Stephen Frears é uma das de maior sucesso. Sendo o romance de Choderlos de Laclos uma obra das mais conhecidas do seculo XVIII é evidente que nela se cristalizam algumas das ideias centrais deste período que irá marcar para sempre a História da Humanidade, pelo clima revolucionário que impôs, pelo ambiente de liberalização de costumes que desencadeou, pela sede de liberdade que advogou, fundamentalmente ainda pelas profundas transformações sociais que proporcionou. A Revolução Francesa (e todas as outras que se lhe seguiram, inspiradas nesta), o pensamento dos iluministas e o seu saber enciclopedista (Diderot, d'Alembert, Voltaire ou Montesquieu, entre outros), a ideia filosófica de libertinagem que se manifesta sobretudo nas artes e, nomeadamente, na literatura, com autores como o Marquês de Sade, Restif de La Bretonne, ou o próprio Choderlos de Laclos, abalaram as estruturas sociais e mentais da época, criando a base do futuro.
Fiquemos agora pela figura do libertino, esse indivíduo mais ou menos amoral que elege como valor supremo a liberdade de comportamento e satisfação dos seus prazeres, particularmente os sexuais. O amor torna-se então não tanto um jogo de sentimentos, mas sobretudo um divertimento que procura saciar o desejo sexual. Mas o curioso, neste contexto, é que cada autor apresenta uma ideia muito pessoal desta procura. O Marquês de Sade, em títulos como “Os Crimes do Amor”, “120 Dias de Sodoma”, “A Filosofia na Alcova” ou “Justine ou Os Infortúnios da Virtude”, é o mais radical na sua defesa do prazer pessoal que pode levar até ao aniquilamento do outro. Restif de La Bretonne, autor de “Anti-Justine ou As Delícias do Amor”, não cedendo perante quase nenhum tabu, propõe um tipo de amor livre notoriamente mais pacífico e harmonioso. Quanto a Choderlos de Laclos, em “As Relações Perigosas”, para lá do rigor na descrição da época, é talvez o mais moralista, pois no final as manipulações sem escrúpulos, tendentes à satisfação do desejo, acabarão por demonstar que, quando o amor se intromete, a tragédia pode advir. 


O filme de Stephen Frears, rodado quase todo em cenários naturais, nas regiões francesas de Île-de-France e da Picardia, com exteriores e interiores de castelos como os de Vincennes, de Champs-sur-Marne, de Guermantes, de Saussay, e ainda do Teatro Montansier em Versailles, funciona um pouco como um jogo de sombras, uma história de fantasmas que habitam sumptuosos palácios e se entregam a entretenimentos de uma total vacuidade. São jogos de sedução que não ultrapassam o vazio e a ociosidade de quem os pratica. Olhando para estes títeres sem densidade percebe-se o porquê da Revolução Francesa, o porquê do ódio à aristocracia e à monarquia. A história é resumidamente simples: a Marquesa de Merteuil (Glenn Close) e o seu amigo e ex-amante Visconde de Valmont (John Malkovich) imaginam uma vingança da marquesa contra um antigo amante que a trocou por Cecile (Uma Thurman), filha de sua prima Madame de Volanges, com quem pensa casar. A jovem é inocente e desprevenida e cai numa cilada de Valmont, mas este está muito mais interessado em captar o interesse de Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), que tem o marido em viagem de negócios e se mostra um troféu muito mais difícil de alcançar.
Toda a intriga se estabelece entre estas conjuras, onde a ideia de sedução está mais ligada a um jogo de submissão e poder do que ao desejo ou ao amor. Mas será o amor finalmente a intrometer-se e levar ao desenlace trágico, que levanta o véu de uma moralidade que castiga os manipuladores, sem por isso salvar as vítimas. A adaptação parece bastante fiel ao romance, ainda que no final a condenação da Marquesa de Merteuil não seja no filme tão brutal como acontece no romance.
Cremos que a intenção de Stephen Frears é mais esboçar um retrato fantasmagórico da sociedade aristocrata do século XVIII do que propriamente o esquisso de um estudo da libertinagem desse período.  
“Les Liaisons Dangereuses”, o romance, é uma obra que vive unicamente de trocas de cartas e é através delas que vamos conhecendo o desenrolar das intrigas, o que se encontra muito na tradição do romance iluminista desse século (veja-se o caso de “A Religiosa”, de Diderot, todo ele baseado em cartas e diário). Este ponto de partida torna mais difícil a sua adaptação ao cinema, mas nem por isso menos apetecível, como já vimos.
Nesta versão, há que sublinhar devidamente a qualidade e o rigor da reconstituição de época. Quer o design de produção (Stuart Craig), a direcção artística (Gavin Bocquet e Gérard Viard), como os elementos de decoração (Gérard James) ou o sumptuoso guarda-roupa (James Acheson), são primorosos, bem como a fotografia de Philippe Rousselot e a excelente banda sonora de George Fenton. Mas creio que um dos pontos altos da obra é o trabalho dos actores: Glenn Close é inesquecível na ambiciosa e pérfida Marquesa de Merteuil, John Malkovich é inquietante como Valmont, um predador sexual arrogante e petulante, amoral e presunçoso, Michelle Pfeiffer perfeita na forma atormentada como recria Madame de Tourvel, Keanu Reeves é um competente Cavaleiro Danceny, e Uma Thurman, uma frágil e estouvada Cecile.


“Ligações Perigosas” foram nomeadas para os Oscars em sete categorias (Melhor Filme, Melhor Actriz (Glenn Close), Melhor Actriz Secundaria (Michelle Pfeiffer), Melhor Partitura Musical (George Fenton), Melhor Argumento Adaptado (Christopher Hampton), Melhor Direcção Artística (Stuart Craig / Gérard James) e Melhor Guarda-roupa (James Acheson), tendo vencido nas três últimas. Nos BAFTAS ingleses reteve dez nomeações, tendo ganho duas (Michelle Pfeiffer e Christopher Hampton).

LIGAÇÕES PERIGOSAS
Título original: Dangerous Liaisons
Realização: Stephen Frears (Inglaterra, EUA, 1988); Argumento: Christopher Hampton, segundo peça de sua autoria, adaptada do romance de Choderlos de Laclos ("Les Liaisons Dangereuses"); Produção: Christopher Hampton, Norma Heyman, Hank Moonjean; Música: George Fenton; Fotografia (cor):  Philippe Rousselot; Montagem: Mick Audsley; Casting:  Howard Feuer, Juliet Taylor; Design de produção: Stuart Craig;  Direcção artística: Gavin Bocquet, Gérard Viard; Decoração: Gérard James; Guarda-roupa: James Acheson; Maquilhagem: Monique Huylebroeck, Peter Owen, Dominique Plez, Malou Rossignol, Jean-Luc Russier, Pierre Vadé;  Direcção de Produção:  Patrick Gordon, Suzanne Wiesenfeld; Assistentes de realização: Jérôme George, Vincent Lascoumes, Bernard Seitz; Departamento de arte: Paul Bastide, Daniel Braunschweig, André Loisif, André Marchandet, Claude Potier, Claude Périnet;  Som: Christopher Ackland, Richard Dunford, Steve Hancock, Peter Handford, Kant Pan, John Stevenson; Companhias de produção: Lorimar Film Entertainment, NFH Productions, Warner Bros; Intérpretes: Glenn Close (Marquesa Isabelle de Merteuil), John Malkovich (Vinconde Sébastien de Valmont), Michelle Pfeiffer (Madame de Tourvel), Swoosie Kurtz (Madame de Volanges), Keanu Reeves (Cavaleiro Raphael Danceny), Mildred Natwick (Madame de Rosemonde), Uma Thurman (Cécile de Volanges), Peter Capaldi (Azolan), Joe Sheridan (Georges), Valerie Gogan (Julie), Laura Benson (Emilie), Joanna Pavlis (Adèle), Nicholas Hawtrey (Major-domo), Paulo Abel Do Nascimento (Castrato), François Lalande (Cura), François Montagut, Harry Jones, Christian Erickson, Catherine Cauwet, Shannon Finnegan, Patricia Kessler, etc. Duração: 119 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 3 de Março de 1989.

STEPHEN FREARS (1941 - )
Nasceu a 20 de Junho de 1941, em Leicester, Inglaterra. Estudou na escola de Gresham, depois cursou Direito na Universidade de Cambridge. Foi assistente de Lindsay Anderson e de Albert Finney no London's Royal Court Theatre. Integrou a "David Lean Chair in Fiction Direction" na National Film and Television School, em Beaconsfield. Foi assistente de realização de Karel Reisz no filme “Morgan - Um Caso para Tratamento”. Estreia-se na realização com a curta-metragem The Burning (1968). Até 1984, dirigiu episódios de séries de televisão e programas para a BBC. “The Hit” é a sua longa-metragem de estreia, a que se seguiram obras que o projectaram internacionalmente, “My Beautiful Laundrette” e “Prick Up Your Ears”. A glória chega com “Dangerous Liaisons”, que ganharia três Oscars, e “The Grifters”, primeira nomeação para o Oscar de Melhor Realizador. Oscilando entre Hollywood e a Inglaterra, a sua carreira acumula sucessos. Casado com Mary-Kay Wilmers, de quem se divorciou, e posteriormente com Anne Rothenstein (1992 – até ao presente).

Filmografia
Como realizador: 1968: The Burning (curta-metragem); 1969: St. Ann's (curta-metragem documental); Parkin's Patch (TV) (2 episódios); 1971-1973: Follyfoot (TV) (4 episódios);  1970: Tom Grattan's War (TV) (5 episódios); 1971: Gumshoe (Passos Silenciosos); 1972: A Day Out (TV); 1973: Sporting Scenes (TV) (1 episódio); The Cricket Match (TV); 1974: Second City Firsts (TV) (1 episódio); 1975: Three Men in a Boat (TV); Daft As a Brush (TV); 1975-1979:  Play for Today (TV) (3 episódios); 1976: Last Summer (TV); 1976-1981: BBC2 Playhouse (TV) (2 episódios); 1977:  Black Christmas (TV);  1977-1978:  ITV Playhouse (TV) (2 episódios); 1977-1978 BBC2 Play of the Week (TV) (2 episódios); 1978: Doris and Doreen (TV); Me! I'm Afraid of Virginia Woolf (TV); 1979: Bloody Kids; One Fine Day (TV); Afternoon Off (TV); 1982: Walter (TV); The Tractor Factor (curta-metragem); 1983: Saigon: Year of the Cat (TV); The Last Company Car (TV); Walter and June (TV); 1984: The Hit (Refém de Boa Vontade); 1984-1988: The Comic Strip Presents... (TV) (3 episódios); 1985: My Beautiful Laundrette (A Minha Bela Lavandaria); 1986: Walter and June; Screen Two (TV) (1 episódio); 1987: Prick Up Your Ears (Vidas em Fúria); 1987: Sammy and Rosie Get Laid (Sammy e Rosie); December Flower (TV); 1988: Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas); 1990: The Grifters (Anatomia do Golpe); 1992: Hero (O Herói Acidental); 1993: The Snapper (O Puto) (TV); 1996: Mary Reilly (Mary Reilly); 1995: A Personal History of British Cinema by Stephen Frears (TV); 1996: The Van (A Carrinha); 1998: The Hi-Lo Country (Terra Perdida); 2000: High Fidelity (Alta Fidelidade); Liam; Fail Safe (Alerta Nuclear) (TV); 2003: Dirty Pretty Things (Estranhos de Passagem); The Deal (TV);  2004: The Route V50 (curta-metragem); 2005: Mrs. Henderson Presents (Mrs. Henderson) 2006: The Queen (A Rainha); Sarah Brightman: Diva: The Video Collection (Vídeo) (video "Pie Jesu"); 2007:  The Making of 'The Queen' (TV); 2008: Skip Tracer (TV); 2009: Chéri; 2010: Tamara Drewe; 2012: Lay the Favorite; 2013: Muhammad Ali's Greatest Fight; Philomena (Filomena).

CHRISTOPHER HAMPTON (1946 - )
Christopher James Hampton nasceu a 26 de Janeiro de 1946 , no Faial, Açores, Portugal. Os pais foram Dorothy Patience e Bernard Patrick Hampton, um engenheiro naval de telecomunicações da Cable & Wireless. Depois dos Açores a família passou por Aden, Alexandria, Hong Kong e Zanzibar. Autor de inúmeras peças teatrais, adaptações para teatro e cinema e argumentos originais para cinema e televisão.  Casado com Laura de Holesch (1971: até ao presente). Foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico em 1999. Em 1995, ganhou dois Tonys pela sua adaptação teatral de "Sunset Boulevard”. Anteriormente já havia sido nomeado por duas vezes, noutras peças,"The Philanthropist"(1971) e "Les Liaisons Dangereuses" (1987).

Bibliografia
Peças: 1964: When Did You Last See My Mother?; 1967: Total Eclipse; 1969: The Philanthropist; 1973: Savages; 1975: Treats; 1984: Tales From Hollywood; 1991: White Chameleon; 1994: Alice's Adventures Under Ground; 2002: The Talking Cure; 2012: Appomattox;
Musicais: 1993: Sunset Boulevard; 2001 & 2004: Dracula, The Musical; 2012: Rebecca, 2013: Stephen Ward the Musical;
Adaptações: 1977: Tales from the Vienna Woods, de Ödön von Horváth; 1982: The Portage to San Cristobal of A.H., de George Steiner; 1983: Tartuffe, de Molière; 1985: Les Liaisons Dangereuses, de Choderlos de Laclos; 1993: Sunset Boulevard, de Billy Wilder; 2001 & 2004: Dracula, The Musical, de Barm Stoker; 2006: Embers, de Sándor Márai; 2009: The Age of the Fish, de Ödön von Horváth;

Filmografia para cinema e televisão: 1973: A Doll's House; 1977: Able's Will; 1979: Tales from the Vienna Woods; 1981: The History Man;1983: Beyond the Limit; 1984: The Honorary Consul (O Cônsul Honorário); 1986: The Wolf at the Door (Lobo Indomável); 1986: Hotel du Lac: 1986: The Good Father (O Bom Pai); 1986: Arriving Tuesday; 1988: Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas);  1989: Tales from Hollywood; 1989: The Ginger Tree; 1995: Carrington (Carrington); 1995: Total Eclipse (Eclipse Total); 1996: Mary Reilly (Mary Reilly); 1996: The Secret Agent (O Agente Secreto); 2002: The Quiet American (O Americano Tranquilo); 2003: Imagining Argentina (Aconteceu na Argentina); 2007: Atonement (Expiação); 2009: Cheri; 2009: Sunset Boulevard; 2011: A Dangerous Method (Um Método Perigoso); 2012: Ali and Nino (Paixões Proibidas); 2013 - The Thirteenth Tale.