segunda-feira, 3 de novembro de 2014

SESSÃO 54: 11 DE NOVEMBRO DE 2014


SEGREDOS E MENTIRAS (1996)

De início há duas mulheres, com vidas separadas que vamos acompanhando em montagem paralela. De um lado, Hortence, uma jovem negra de 27 anos, técnica de optometria, que acaba de assistir ao enterro da sua mãe adoptiva. Como o pai adoptivo já tinha morrido anos antes, Hortence é agora uma mulher só.
Num outro local de Londres, Cynthia, uma mulher branca, de meia idade, mãe de uma rapariga de 20 anos, Roxane, empregada numa fábrica, é a imagem da instabilidade e do desconforto. Vamos assistindo a cenas de ora uma, ora outra, imagens desligadas que pressentimos que mais à frente irão colidir. Chama-se a isto, em linguagem técnica e escolástica, montagem de convergência.
Hortence sente-se só e vai tentar encontrar a mãe biológica que a deu para adopção ainda bebé. Pela legislação inglesa isto é possível e Hortence acaba por descobrir que a sua mãe é Cynthia, nada mais, nada menos. Uma negra filha perdida de uma branca que não quer acreditar nos seus olhos quando é posta perante as evidências: “Mas minha querida, eu não posso ser tua mãe!”. Claro que podia, lembrou-se depois de um americano de que não quer falar e com quem se cruzara quando tinha dezasseis anos.
O resto são “segredos e mentiras” de que fala o título da obra de Mike Leigh e que se vem lentamente deslindando, perante surpresas, dúvidas, ataques de fúria e um churrasco familiar que introduz alguma harmonia, mesmo que passageira, naquela nova família.


Mike Leigh propõe uma solução utópica, é certo, mas saudável. Nada melhor que a verdade e enfrentá-la resolutamente. Como já se sabe, Mike Leigh e Ken Loach são dois dos mais representativos cineastas do cinema inglês contemporâneo e dois cultores de um cinema de forte implantação social. “Segredos e Mentiras” é modelar na forma como retrata a realidade social de Inglaterra, na década de 90, com as suas  dificuldades e características próprias. De um lado, temos uma média burguesia com os seus pequenos sonhos (curiosamente representada por uma negra), do outro, uma mescla de pequena burguesia a descambar para o proletariado (a filha de Cynthia é empregada de limpeza nas ruas de Londres). Mas Cynthia tem um irmão, Maurice,  fotógrafo de casamentos e baptizados e de fotos de estúdio, que tem uma vida um pouco mais desafogada. É neste universo sem grandes horizontes, num bairro popular da capital inglesa, que tudo se passa. Mas a precisão das anotações sociais, o rigor na descrição das situações, e sobretudo a densidade psicológica, a verdade humana que as personagens exalam, quer pelo desenho das personalidades que o argumento lhes oferece, quer pelo brilhantismo da interpretação de um elenco absolutamente notável que conseguiu nomeações para os Oscars nas respectivas categorias: Timothy Spall é um fabuloso Maurice, desde o pormenor das suas sessões fotográficas até ao comovente tom conciliador com que tenta reunir a família; Marianne Jean-Baptiste na figura de Hortence, rigorosa e discreta, a brilhante Brenda Blethyn na complexa e histriónica Cynthia, divididas entre as mais amplas emoções, ou mesmo Claire Rushbrook, a revoltada Roxanne, que deixa cair a sua fachada de agressividade latente, perante o desenrolar dos acontecimentos.
A realização de Mike Leigh é serena, atenta ao mais pequeno indício, intimista e púdica, com uma construção extremamente inteligente e sensível. Uma obra-prima invulgar, optimista no seu desencanto.


SEGREDOS E MENTIRAS
Título original: Secrets & Lies
Realização: Mike Leigh (Inglaterra, 1996);  Argumento: Mike Leigh; Produção: Simon Channing Williams; Música: Andrew Dickson; Fotografia (cor):  Dick Pope; Montagem: Jon Gregory; Casting: Susie Parriss, Paddy Stern; Design de produção: Alison Chitty; Direcção artística: Eve Stewart; Decoração: Liz Griffiths; Guarda-roupa:  Maria Price; Maquilhagem: Christine Blundell, Kirstin Chalmers; Direcção de Produção: Georgina Lowe; Assistentes de realização: Zerlina Hughes, Jennie Osborn, Josh Robertson, Chris Rose, Paula Spinks; Departamento de arte: Nic Orlande; Som: Orin Beaton, Mick Boggis, Loveday Harding, George Richards, Ted Swanscott; Efeitos visuais: David Smith; Companhias de produção: Channel Four Films, CiBy 2000, Thin Man Films; Intérpretes: Timothy Spall (Maurice Purley), Phyllis Logan (Monica Purley), Brenda Blethyn (Cynthia Rose Purley), Claire Rushbrook (Roxanne Purley), Marianne Jean-Baptiste (Hortense Cumberbatch), Elizabeth Berrington (Jane), Michele Austin (Dionne), Lee Ross (Paul), Lesley Manville, Ron Cook, Emma Amos, Brian Bovell, Trevor Laird, Clare Perkins, Elias Perkins McCook, Jane Mitchell, Janice Acquah, Keylee Jade Flanders, Hannah Davis, Terence Harvey, Kate O'Malley, Joe Tucker, Richard Syms, Grant Masters, Annie Hayes, Jean Ainslie, Daniel Smith, Lucy Sheen, Frances Ruffelle, etc. Duração: 142 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Outubro de 1996.

MIKE LEIGH (1943- )
Nasceu a 20 de Fevereiro de 1943, em Salford, Greater Manchester, Inglaterra. Filho de um médico, a família era originária de emigrantes judeus da Europa de Leste. Estudou na Royal Academy of Dramatic Art (RADA). Vasta actividade no teatro, na televisão e no cinema. Tanto no cinema como no teatro, raramente trabalha com um guião (peça ou argumento) pré-estabelecido. A sua peça "Abigail's Party", levada a cena no New Ambassador's Theatre, foi nomeada para o Laurence Olivier Theatre Award for Best Revival de 2002. Os seus filmes têm tido algumas das maiores recompensas e distinções em Festivais de todo o mundo. Professor coordenador da The London Film School. Foi casado com Alison Steadman (1973 – 2001, divórcio), de quem tem duas filhas.  Agraciado com o oficialato da Ordem do Império Britânico, em 1993. Para si, os melhores filmes de sempre são: A Árvore dos Tamancos (1978), Viagem a Tóquio (1953), Soy Cuba (1964), Os Quatrocentos Golpes (1959), A Morte do Sr. Lazarescu (2005), Sånger från andra våningen (2000), Quanto Mais Quente Melhor (1959), Os Dias da Rádio (1987), As Sete Ocasiões de Pamplinas (1925) e How a Mosquito Operates (1912).

Filmografia:
Cinema / Longas-metragens: 1984: Meantime; 1988: High Hopes (Grandes Ambições); 1991: Life is Sweet; 1993: Naked (Nu); 1996: Secrets and Lies (Segredos e Mentiras); 1997: Career Girls (Raparigas de Sucesso); 1998: Welcome to Hollywood; 1999: Topsy-Turvy (Topsy-Turvy); 2002: All or Nothing (Tudo ou Nada); 2004: Vera Drake (Vera Drake); 2007: Happy-Go-Lucky (Um Dia de Cada Vez); 2010: Another Year (Um Ano Mais); 2014: Mr. Turner
Curtas-metragens: 1971: Bleak Moments; 1975: Five-Minutes Films; 1987: The Short and Curlies; 1992: A Sense of History; 2012: A Running Jump;

Televisão: 1973: Hard Labour; Scene (A Mug's Game?);1973-1982: Play for Today (TV) (Home Sweet Home, Who's Who, Abigail's Party, The Kiss of Death, Nuts in May); 1975-1976: Second City Firsts (Knock for Knock, The Permissive Society); 1976: Plays for Britain; 1980: BBC2 Playhouse (Grown-Ups); 1982: Home Sweet Home; 1982: Five-Minute Films (Afternoon, A Light Snack, Probation, Old Chums, The Birth of the Goalie of the 2001 F.A. Cup Final); 1983: Meantime; 1985: Four Days in July.

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