quinta-feira, 27 de março de 2014

SESSÃO 12 ( dupla): 22 DE ABRIL DE 2014


O HOMEM DO FATO CLARO (1951)

Alexander Mackendrick vinha de uma época dedicada ao documentarismo e ao filme de propaganda bélica de que se ocupou durante quase toda a II Guerra Mundial. Mas, acabada a guerra, em 1946,  integra a equipa de cineastas dos Ealing Studios, onde  durante nove anos realiza alguns dos grandes clássicos da comédia inglesa deste período, como “Whisky Galore!” (1949), “The Man in the White Suit” (1951) ou  “The Ladykillers” (1955). São obras de um humor muito especial, que prolonga a herança de “Oito Vidas por um Título”, conjugando uma ironia discreta, mas ácida, um humor negro por vezes, mas sempre com uma elegância de estilo e uma posse indubitavelmente britânica. Raras vezes uma cinematografia consegue reunir em tão curto espaço de tempo, um tal conjunto de obras que reflectem de forma tão sábia e nítida o modo de ser de um povo, sobretudo na sua vertente humorística.
O filme parte de uma peça teatral da autoria de Roger MacDougall que conheceu algum sucesso um palcos londrinos. Roger MacDougall era primo e amigo de  Alexander Mackendrick e este resolveu adaptar a obra a cinema, com a colaboração do dramaturgo e de John Dighton. Não era a primeira vez que MacDougall e Mackendrick trabalhavam juntos em argumentos para cinema, que outros dirigiam. Desta feita seria Alexander Mackendrick a realizar este projecto nas condições previstas pelos estúdios onde trabalhavam e na época em que o mesmo foi concretizado, pouco depois de terminada a guerra e com o país ainda em reconstrução. Produção barata, filmada a preto e branco, munida de excelentes actores, é verdade, que todavia não deveriam receber muito de cachet, apesar de muitos deles serem primeiras figuras do teatro e do cinema ingleses.


“The Man in The White Suit” organiza-se tendo como base um argumento muito inteligente, original, astuto na análise das situações, com uma sábia utilização dos elementos puramente cinematográficos para fazer avançar a história e simultaneamente criar uma densidade de intenções críticas assinalável.
Sidney Stratton (Alec Guinness), empregado numa fábrica de têxteis dirigida por Alan Birnley (Cecil Parker), é um entusiasta por descobertas cientificas e químicas em particular. Aproveitando o relativo descontrolo da fábrica, conseguira ganhar um cantinho para as suas experiências, instalando alambiques, serpentinas e outros copos e vasos com líquidos em ebulição, enquanto vai arrumando os armazéns. Um dia, porém, Alan Birnley, a sua filha Daphne Birnley (Joan Greenwood) e Michael Corland (Michael Gough), o pretendente à sua mão e, sobretudo, à sua riqueza, visitam a fábrica, descobrem ocasionalmente o discreto reduto do inventor, que não dá provas da sua genialidade, e é despedido. De desgraça em desgraça, mas com uma fé inabalável numa descoberta revolucionária, Sidney acabará mesmo por inventar o tecido nunca visto nem sequer imaginado: algo que não se rompe, que não se estraga, que não se suja. Um tecido para a eternidade, no fundo. Uma invenção que pode retirar a Humanidade da necessidade de comprar novos fatos. Algo de verdadeiramente espectacular, não fora um pequeno pormenor: as fábricas fechariam, os patrões deixariam de ganhar, os operários perderiam os empregos, e instalar-se-ia o caos na economia. Logo, é necessário perseguir e destruir o inventor de semelhante ameaça para capitalistas e operários, que unidos se lançam na perseguição desse “homem do fato claro”. Patronato e sindicatos de acordo, quando a ameaça é conjunta. Capital e trabalho de mãos dadas.


Com uma serenidade narrativa muito britânica, e um humor deliciosamente subtil, mas truculento, Mackendrick conduz a sua obra com uma displicente ironia, criticando métodos e processos de uma sociedade capitalista assente sobre o lucro e na vertigem do consumo, para assegurar que a máquina continue a laborar.
Não são muitos os meios de que o realizador dispõe mas há dois ou três essenciais para o bom desempenho da obra. De um lado a interpretação, superiormente dominada por um Alec Guiness magnifico, numa composição entre o ingénuo perplexo e o persistente cabotino. Depois a banda sonora que domina toda a película, com o efeito causado pelas maquinetas do inventor em plena laboração (esse inolvidável "guggle glub guggle") e que marca o ritmo da obra, injectando-lhe um uma nevrótica cadência.  Haverá ainda que referir a excelente fotografa, de um preto e branco onde, nas sequências finais, sobressai o fato imaculado de Sidney, que parece adquirir uma estranha fosforescência.
“O Homem do Fato Claro” é na verdade uma das grandes comédias do humor inglês da década de 40 do século XX e um dos títulos que deu fama à sua fábrica de origem: os Earling Studios.

O HOMEM DO FATO CLARO
Título original: The Man in the White Suit
Realização: Alexander Mackendrick (Inglaterra, 1951); Argumento: John Dighton, Alexander Mackendrick, Roger MacDougall, segundo peça teatral deste último; Produção:  Michael Balcon, Sidney Cole; Música:  Benjamin Frankel; Fotografia (p/b): Douglas Slocombe; Montagem: Bernard Gribble; Casting: Margaret Harper Nelson; Direcção artística:  Jim Morahan; Guarda-roupa:  Anthony Mendleson; Maquilhagem:  Barbara Barnard, Harry Frampton, Ernest Taylor; Direcção de Produção: Hal Mason, L.C. Rudkin; Assistentes de realização: David Peers, John Assig, Terry Bishop, Jim O'Connolly; Departamento de arte: Norman Dorme, Andrew Low; Som:  Stephen Dalby, Mary Habberfield; Efeitos especiais: Sydney Pearson, Efeitos visuais: Geoffrey Dickinson; Companhias de produção: J. Arthur Rank Organisation, An Ealing Studios Production; Intérpretes: Alec Guinness (Sidney Stratton), Joan Greenwood (Daphne Birnley), Cecil Parker (Alan Birnley), Michael Gough (Michael Corland), Ernest Thesiger (Sir John Kierlaw), Howard Marion-Crawford (Cranford), Henry Mollison (Hoskins), Vida Hope (Bertha), Patric Doona (Frank), Duncan Lamont, Harold Goodwin, Colin Gordon, Joan Harben, Arthur Howard, Roddy Hughes, Stuart Latham, Miles Malleson, Edie Martin, Mandy Miller, Charlotte Mitchell, Olaf Olsen, Desmond Roberts, Ewan Roberts, John Rudling, Charles Saynor, Russell Waters, Brian Worth, George Benson, Frank Atkinson, Charles Cullum, F.B.J. Sharp, Scott Harold, Jack Howarth, Jack McNaughton, Judith Furse, Billy Russell, David Boyd, Alan Haines, Arthur Mullard, Carol Wolveridge, etc. Duração: 85 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Maio de 1952.

ALEXANDER MACKENDRICK 
(1912 – 1993)
Nasceu a 8 de Setembro de 1912, em Boston, Massachusetts, EUA, e viria a falecer a 22 de Dezembro de 1993, com 81 anos. Filho Francis Robert Mackendrick, engenheiro civil que trabalhava na construção naval, e de Martha Mackendrick, originários de Glasgow, na Escócia, e que haviam emigrado para os EUA em 1911. Quando tinha apenas seis anos, o pai morreu, vítima de “gripe espanhola”, a mãe foi obrigada a trabalhar como costureira, e enviou o filho de volta à Escócia, para casa do avô paterno. Alexander Mackendrick, que teve uma infância difícil, nunca mais ouviu falar da mãe. Estudou na escola de Hillhead de 1919 a 1926, e depois arte na Glasgow School of Art. No inicio dos anos 30, Mackendrick parte para Londres, onde começou a trabalhar numa agencia de publicidade,  J. Walter Thompson. Entre 1936 e 1938 escreve alguns argumentos para filmes publicitários. Em 1937, escreve o argumento de “Midnight Menace”, como o seu primo e melhor amigo Roger MacDougall.
Durante a II Guerra Mundial, Mackendrick esteve ao serviço do Ministério da Informação para realizar filmes de propaganda pró-britânica. Em 1942, instalado na Argélia, onde desempenhava importantes funções da Psychological Warfare Division, roda filmes de actualidades, documentários e dá luz verde para Rossellini filmar “Roma, Cidade Aberta”. Acabada a guerra, ele e o primo aparecem na Merlin Productions, rodando documentários, mas, em 1946,  junta-se aos Ealing Studios, onde  durante nove anos realiza grande parte da sua obra inglesa, com filmes como “Whisky Galore!” (1949), “The Man in the White Suit” (1951) ou  “The Ladykillers” (1955), todos eles clássicos da comédia inglesa.
Ainda em 1955, Mackendrick troca a Inglaterra pelos EUA. O resto da sua vida será passada entre Londres e Los Angeles, desenvolvendo uma longa actividade como argumentista, para lá de realizador. “Sweet Smell of Success” (1957) é a sua obra de estreia nos EUA, uma produção Hecht-Hill-Lancaster que colheu críticas muito favoráveis e os favores do público. Regressa depois a Inglaterra para rodar para os mesmos produtores “The Devil’s Disciple”, mas desencontros vários levaram a que o realizador fosse substituído por Guy Hamilton que assina finalmente a obra. Desencorajado, passa algum tempo a trabalhar para publicidade e regressa ao cinema com “Sammy Going South” (1963), o belíssimo “A High Wind in Jamaica” (1965) ou “Don't Make Waves” (1967).
De volta aos EUA em 1969, torna-se professor no California Institute of the Arts, até 1993, quando uma pneumonia fatal o atingiu. Os restos mortais repousam no Memorial Park Cemetery de Westwood Village.

Filmografia
Como realizador:

1949: Whisky Galore!; 1951: The Man in the White Suit (O Homem do Fato Claro); 1952: Mandy (Mandy, a Surda Muda); 1954: The Maggie (Loucuras de Milionário); 1955: The Ladykillers (O Quinteto era de Cordas); 1957: Sweet Smell of Success (Mentira Maldita); 1959: The Devil's Disciple (O Aprendiz do Diabo), assinado por Guy Hamilton, Mackendrick não creditado; 1961: The Guns of Navarone (Os Canhões de Navarone), assinado por Jack Lee Thompson, Mackendrick não creditado; 1963: Sammy Going South (Só Contra o Mundo); 1964: The Defenders (série de TV) (1 episódio “The Hidden Fury”); 1965: A High Wind in Jamaica (Tempestade na Jamaica); 1967: Oh Dad, Poor Dad, Mama's Hung You in the Closet and I'm Feeling So Sad, assinado por  Richard Quine, Mackendrick não creditado; 1967: Don't Make Waves (Não Faças Ondas).

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