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quinta-feira, 27 de março de 2014

SESSÃO 11: 15 DE ABRIL DE 2014

OS SAPATOS VERMELHOS (1948)

Quando Michael Powell e Emeric Pressburge criaram  em 1942 a sua produtora The Archers, iniciava-se uma colaboração a todos os níveis notável. Os filmes apareciam com a designação de terem sido “escritos, produzidos e realizados por Michael Powell e Emeric Pressburger” e esta comunhão de actividades  não escondia o facto de Pressburger ser predominantemente o argumentista e produtor e Power o realizador. Desta conjugação de talentos nasceram obras absolutamente invulgares, como “A Vida do Coronel Blimp” (1943), “Caso de Vida ou Morte” (1945), “Quando os Sinos Dobram” (1947), “Os Sapatos Vermelhos” (1948) ou “Os Contos de Hoffmann” (1951). O que melhor pode definir o trabalho destes dois génios do cinema inglês é um discreto afastamento do realismo e uma aproximação de uma estética surrealista, uma utilização invulgar do Technicolor, que atinge o seu apogeu em “Os Sapatos Vermelhos”, e a originalidade de escrita e de concepção plástica dos seus filmes, onde é sempre sensível um lirismo forte.
“The Red Shoes” parte de um conto, uma história de fadas, do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), publicado em 1845. É a partir deste autor que se encena o bailado “Os Sapatos Vermelhos” que nos fala de uma jovem órfã a quem a mãe adoptiva oferece um par de sapatos vermelhos que passam a exercer um fascínio evidente sobre a menina que se recusa a tirá-los e dança até à exaustão, dado que os sapatos parecem ter vida própria e uma exigência total. Um anjo anuncia então à rapariga que ela irá dançar até sucumbir, o que se manifesta como um castigo divino, dado que o vermelho dos sapatos é tido como ostentação, sensualidade, pacto com o mal, e ainda por cima a jovem se encontra em período de crisma, impedindo, portanto, essa “comunhão com Deus”. Levada pela sua frivolidade, irá dançar até à morte. Este o esquema do bailado que está no cerne do filme de Michael Powell e Emeric Pressburge.


Mas o filme possui uma história paralela que corre em simultâneo com o bailado. Boris Lermontov é o proprietário e produtor de uma importante companhia de bailado. Solitário, exigente, implacável, sedutor nesse distanciamento que impõe, Lermontov põe a arte e o bailado acima de tudo. Para ele não há vida privada, mas dádiva completa à arte. No caso da dança, esta imposição parece inegociável. Um dia descobre dois novos talentos, Victoria Page, uma bailarina desconhecida, onde ele surpreende um talento imenso, e Julian Craster, um jovem compositor. Ambos são contratados, quase ao mesmo tempo que é dispensada a estrela da companhia Irina Boronskaïa, com o pretexto deque é impossível manter-se bailarina ao mais alto nível e estar casada. Lermontov pede a Craster que crie uma partitura para o bailado novo, “Os Sapatos Vermelhos”, que será dançado por Victoria Page. A estreia é triunfal, tudo parece correr pelo melhor, tanto mais que o amor invade a companhia e Craster e Victoria se apaixonam e resolvem anunciar o seu casamento. Mas o amor aqui não é bem vindo, e Lermontov, fiel ao seu principio, despede director de orquestra e prima bailarina. Quando mais tarde os tenta reunir de novo, impõe o dilema à bailarina: ou o amor ou a dança e o final do bailado irá precipitar-se em repetição no final do filme.
Esta estrutura dramática permite criar um interessante triângulo tendo Victoria como vértice essencial. De um lado o produtor Lermontov, do outro o compositor Craster, um colocando a arte acima dos sentimentos pessoais, o outro tentando conciliar o amor e a arte. Esta luta interna que atravessa o corpo e os sentimentos de Victoria acabará por a levar à auto destruição. Mas o filme é muito mais ambíguo do que poderá parecer a uma simples leitura mais superficial. Será que Lermontov age como age movido apenas pelo interesse pela pureza da arte, ou será que por detrás dessa razão não estarão sobretudo ciúmes? Todo o comportamento de Lermontov desde o momento que descobre Victoria Page numa festa particular parece indicar um deslumbramento emocional. Ou será apenas a descoberta do talento? Ou a reunião de ambos? Vamos mais longe: será que Lermontov tem consciência dessa sua secreta paixão? Ou será que Lermontov vive obcecado apenas pela beleza dessa arte pura que é o bailado e que exige entrega total, uma entrega de tal forma total que ele próprio é o exemplo desse ideal, ele próprio “desiste” de Victoria para que a arte se cumpra, e por isso mesmo não admite que outro não compreenda essa renúncia em nome de um prazer (felicidade) individual?


Há muito de Pigmaleão na figura de Lermontov, assim como se poderá falar de Fausto. Mais ainda, Lermontov é nome de poeta russo. Uma das suas obras mais conhecidas, “O Demónio”, fala de um espírito maligno que se apodera da alma de uma jovem e a leva a abandonar o seu noivo. Haverá relação consciente?
O filme adquire uma progressão dramática muito interessante, iniciando-se como uma história que se aproxima do musical, com a descrição das personagens e dos locais e situações. Especial atenção é dada ao trabalho especifico dos bailarinos, das repetições, do esforço diário para a perfeição do gesto e da harmonia dos movimentos, para o domínio do corpo. Depois a estrutura vai lentamente moldando-se ao ballet que se ensaia, progressivamente se vai descortinando a colagem da personagem de Victoria Page e da protagonista do bailiado, com os sapatos vermelhos a funcionarem como elemento de transição e identificação. Durante a longa sequência do bailado a fusão é total e a partir daí tudo se altera. Victoria assumiu um destino, o seu destino. Ela será para sempre a protagonista de “Os Sapatos Vermelhos” e de tal forma o será que, mesmo na sua ausência, será a sua interpretação a dar forma à derradeira representação.
Duas interpretações fulgurantes colocam a obra no seu pedestal definitivo. Anton Walbrook (em Boris Lermontov ) e Moira Shearer (em Victoria Page) compõem personagens que para sempre se lhes colaram à pele. Ao lado destes, há ainda a referir Ludmilla Tchérina, Marius Goring, Léonide Massine, Robert Helpmann, Albert Bassermann, entre outros. Mas nada ficaria perfeito nesta obra-prima indiscutível, não fora o exuberante e espatodo tratamento cromático da fotografia de Jack Cardiff, a magnifica partitura musical de Brian Easdale, a excelente montagem de Reginald Mills, e toda a concepção plástica e cénica não só do bailado, como de todo o filme.



OS SAPATOS VERMELHOS
Título original: The Red Shoes
Realização: Michael Powell, Emeric Pressburger (Inglaterra, 1948); Argumento: Emeric Pressburger, Keith Winter, Michael Powell, segundo conto de fadas de Hans Christian Andersen; Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger; Música: Brian Easdale; Fotografia (cor): Jack Cardiff; Montagem:  Reginald Mills; Design de produção:  Hein Heckroth; Direcção artística:  Arthur Lawson; Guarda-roupa:  Hein Heckroth; Maquilhagem:  George Blackler, Eric Carter, Ernest Gasser; Assistentes de realização: Sydney Streeter, J.M. Gibson, Laurie Knight, Kenneth K. Rick; Departamento de arte: Alfred Roberts, Bernard Goodwin, G. Heavens, Don Picton, V. Shaw, V.B. Wilkins, Alan Withy; Som: Charles Poulton; Efeitos visuais: George Gunn, E. Hague; Companhias de produção: The Archers, Independent Producers; Intérpretes: Anton Walbrook (Boris Lermontov ), Marius Goring (Julian Craster), Moira Shearer (Victoria Page), Ludmilla Tchérina (Boronskaja (as Ludmilla Tcherina), Léonide Massine (Grischa Ljubov), Robert Helpmann (Ivan Boleslawsky), Albert Bassermann (Sergei Ratov), Esmond Knight (Livingstone 'Livy' Montagne), Jean Short, Gordon Littmann, Julia Lang, Bill Shine, Austin Trevor, Eric Berry, Irene Browne, Jerry Verno, Derek Elphinstone, Marie Rambert, Joy Rawlins, Marcel Poncin, Michel Bazalgette, Yvonne Andre, Hay Petrie, Alan Carter, Joan Harris, Joan Sheldon, Paula Dunning, Brian Ashbridge, Denis Carey, Lynne Dorval, Helen Ffrance, Robert Dorning, Eddie Gaillard, Paul Hammond, Tommy Linden, Trisha Linova, Anna Marinova, Guy Massey, John Regan, Peggy Sager, Ruth Sendler, Hilda Gaunt, etc. Duração: 133 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 23 de Fevereiro de 1950.

ANTON WALBROOK (1896-1967)
Adolf Anton Wohlbrück, mais tarde conhecido como Anton Walbrook, nasceu a 19 de Novembro de 1896 em Viena, Áustria, e viria a falecer a 9 de Agosto de 1967, em Garatshausen, Bavière (RFA). Aluno de Max Reinhardt em Berlim, inicia a sua carreira no teatro e no cinema, começando a ser notado num filme de E.A. Dupont  “Salto Mortale” (1931). Em 1935, as versões alemã, francesa e norte-americana de Miguel Strogoff, assinadas por Richard Eichberg, dão-lhe renome internacional. Judeu e homossexual, foge da Alemanha, perante a ameaça nazi e passa a viver em Inglaterra, sob o nome de Anton Walbrook. Extremamente elegante e algo aristocrata no porte, distante e ligeiramente irónico, interpreta vários papeis em produções históricas e ganha reputação internacional em obras de Michael Powell e Emeric Pressburger, como “49e Parallèle” (1941), “Colonel Blimp” (1943) ou “The Red Shoes” (1948). Trabalha com Thorold Dickinson, Max Ophuls  e Otto Preminger, sendo “I Accuse!”, de José Ferrer, o seu último trabalho no cinema. Passa também pela televisão, antes de falecer, em 1967, vítima de ataque cardíaco. Os restos mortais foram incinerados e as cinzas enterradas na igreja de St John-at-Hampstead, em Londres, como vontade expressa no testamento. Presentemente é um actor muito admirado e considerado por alguns (Martin Scorsese, por exemplo) como um dos melhores intérpretes de sempre. 

Filmografia
Como actor
Na Áustria e na Alemanha: 1915: Marionetten, de Richard Löwenbein; 1923: Martin Luther, de Karl Wüstenhagen; 1924: Mater Dolorosa, de Josef Delmont; 1925: Das Geheimnis von Schloß Elmshöh, de Max Obal; 1931: Salto Mortale, de Ewald André Dupont; 1932: Der Stolz der 3. Kompanie, de Fred Sauer; 1932: Die fünf verfluchten Gentlemen, de Julien Duvivier; Drei von der Stempelstelle, de Eugen Thiele; Melodie der Liebe, de Georg Jacoby; Baby, de Carl Lamac; 1933: Georges et Georgette (Jorge e Georgina), de Roger Le Bon e Reinhold Schünzel; Walzerkrieg, de Ludwig Berger; Keine Angst vor Liebe (Patrões e Empregadas), de Hans Steinhoff; Viktor und Viktoria, de Reinhold Schünzel; 1934: Die vertauschte Braut (As Duas Annys), de Carl Lamac; Maskerade (Mascarada), de Willi Forst; Eine Frau, die weiß, was sie will, de Viktor Janson; Die englische Heirat (Um Casamento Inglês), de Reinhold Schünzel; 1935: Régine (Regina), de Erich Waschneck; Zigeunerbaron, de Karl Hartl; Le Baron tzigane (O Barão Cigano), de Henri Chomette; Ich war Jack Mortimer, de Carl Froelich; Der Student von Prag (O Estudante de Praga), de Arthur Robison; 1936: Michel Strogoff (Miguel Strogoff), de Jacques de Baroncelli e Richard Eichberg (versão francesa); Der Kurier des Zaren (Miguel Strogoff), de Richard Eichberg (versão alemã); Allotria, de Willi Forst; Port-Arthur (Porto Arthur), de Nicolas Farkas;
Após abandonar a Alemanha: 1937: The Soldier and the Lady, de George Nichols Jr.; Victoria the Great (Rainha Vitória), de Herbert Wilcox; The Rat, de Jack Raymond; 1938: Sixty Glorious Years (60 Anos de Glória), de Herbert Wilcox; 1940: Gaslight, de Thorold Dickinson; 1941: Dangerous Moonlight (Aquela Noite em Varsóvia), de Brian Desmond Hurst; 49th Parallel (Os Invasores), de Michael Powell; 1943: The Life and Death of Colonel Blimp (A Vida do Coronel Blimp), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1944: Information Please (curta-metragem)
1945: The Man from Morocco, de Mutz Greenbaum; 1948: The Red Shoes (Os Sapatos Vermelhos), de Michael Powell ed Emeric Pressburger; 1949: The Queen of Spades (A Dama de Espadas), de Thorold Dickinson; 1950: La Ronde (A Ronda), de Max Ophüls; König für eine Nacht, de Paul May; 1951: Wiener Walzer, de Emil E. Reinert; 1952: Le Plaisir (O Prazer), de Max Ophüls (narrador da versão alemã); 1954: L'Affaire Maurizius (O Caso Maurizius), de Julien Duvivier; 1955: Oh... Rosalinda!! (Contos Vienenses), de Michael Powell e Emeric Pressburger; Lola Montès (Lola Montes), de Max Ophüls; 1957: Saint Joan (Santa Joana), de Otto Preminger; 1958: I Accuse!, de José Ferrer; 1960: Venus im Licht (TV); 1962: Laura (TV); 1963: Der Arzt am Scheideweg (TV); 1966: Robert und Elisabeth (TV).

MOIRA SHEARER 
(1926-2006)
Moira Shearer King nasceu a 17 de Janeiro de 1926 , em Dunfermline, Fife, Escócia, e viria a falecer, a 31 de Janeiro de 2006 , em Oxford, Oxfordshire, Inglaterra. Filha de Harold Charles King, actor (ou engenheiro civil, segundo outras fontes), mudou-se com a família para Ndola, na Rodésia do Norte (Zambia), em 1931, onde iniciou as suas aulas de ballet. Estudou na Dunfermline High School. De novo no Reino Unido, a partir de 1936, continuou a estudar dança, agora com Flora Fairbairn, em Londres, e depois com o russo Nicholas Legat. Junta-se então à Sadler's Wells Ballet School. Com o início da II Guerra Mundial, volta a Escócia. Em 1948, porém, já em Londres, atrai o interesse internacional com o seu fulgurante trabalho no filme “The Red Shoes”, da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger. Entre 1942 e 1952 torna-se numa das primeiras bailarinas clássicas de renome mundial, com um vasto reportório e tournées internacionais, sendo a bailarina número um do Royal Ballet at Sadler's Wells. Casou, em 1950, com Ludovic Kennedy, jornalista e radialista, com quem viveu até sua morte e passou a escrever uma coluna no “Daily Telegraph”, a comentar livros no "Daily Journal", e a apresentar palestras por todo o mundo. Conta-se que Arthur Freed a queria para contracenar com Fred Astaire em “Casamento Real” (1951), mas Astaire mostrou-se relutante em acompanhar uma bailarina clássica.  Gene Kelly, por seu turno, queria-a como partenaire em “A Lenda dos Beijos Perdidos” (1954), mas neste caso foi ela que não se mostrou disponível.  Para todos os efeitos, para o bem e pra o mal, nunca mais se libertaria da personagem de Vicky de “Os Sapatos Vermelhos”.

Filmografia:
Como actriz e bailarina

1948: The Red Shoes (Os Sapatos Vermelhos), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1951: The Tales of Hoffmann (Os Contos de Hoffmann), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1953: The Story of Three Loves (História de Três Amores), filme em episódios, de Vincente Minnelli e Gottfried Reinhardt (episódio “The Jealous Lover”, de Gottfried Reinhardt); 1955: The Man Who Loved Redheads, de Harold French; 1960: Les Collants Noirs (Um, Dois, Três, Quatro),  de Terence Young; 1960: Peeping Tom (A Vítima do Medo), de Michael Powell; 1987: A Simple Man, de Gillian Lynne (TV).

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SESSÃO 3: 18 DE FEVEREIRO DE 2014


A VIDA DO CORONEL BLIMP (1943)

Michael Powell e Emeric Pressburger são uma das duplas mais interessantes de toda a história do cinema mundial, tendo-nos oferecido, entre as décadas de 30 e 60 do século passado, um notável conjunto de obras, algumas delas absolutamente ímpares. “Falta um dos Nossos Aviões”, “A Vida do Coronel Blimp”, “Caso de Vida ou Morte”, “Quando os Sinos Dobram”, “Os Sapatos Vermelhos”, “Os Contos de Hoffmann” ou “A Vítima do Medo” (este assinado só por Michael Powell), para só citar alguns, são exemplos admiráveis de uma filmografia extremamente original, inventiva, plasticamente de uma qualidade invulgar, por vezes roçando o surrealismo (Buñuel era o grande mestre e inspirador de Powell), umas vezes irónica, outras romântica, mas sempre muito sedutora.
“The Life and Death of Colonel Blimp”, rodado em plena II Guerra Mundial, é um filme estranho sob diversos pontos de vista. Inicia-se na actualidade (da rodagem obviamente, 1943), numa altura em que o coronel Wynne-Candy (Roger Livesey) se encontra já reformado, mas ainda a chefiar um grupo paramilitar, a Home Guard, que inicia uns exercícios militares em terra. “A guerra vai começar à meia-noite” diz uma mensagem que o “inimigo” recebe. O coronel, já de considerável idade, encontra-se nos banhos turcos quando é feito prisioneiro pelo “inimigo” que, não respeitando as regras da honorabilidade militar, resolve atacar seis horas mais cedo, apanhando de surpresa tudo e todos. Sobretudo o coronel, que acaba por sucumbir ao cair dentro de uma piscina. Este preâmbulo é importante para se perceber toda a obra. Segue-se um longo flashback que abarca uma parte considerável da história inglesa da primeira metade do século XX.
O tenente Candy regressa em 1902 da guerra dos Boers, com recompensas e prestígio. Recebe então uma mensagem de uma jovem inglesa, Edith Hunter (Deborah Kerr), que vive em Berlin e que não suporta ouvir os alemães satirizarem e ridicularizarem os ingleses. Candy tenta contra-atacar com autorização militar, não o consegue e fá-lo por iniciativa própria. Da troca de insultos efectuada num restaurante resulta um duelo. O seu opositor será Theo Kretschmar-Schuldorff (Anton Walbrook) e o desafio é um verdadeiro encontro de gentlemen, que, após a troca de ferimentos, se tornam amigos. Ambos estão apaixonados por Edith Hunter, mas Candy “cede” o objecto da sua paixão a Theo.


Voltam a avistar-se no final da I Guerra Mundial, quando Theo se encontra num campo de prisioneiros e Candy intercede por ele. Antes, em operações militares em França, Candy cruzara-se com uma enfermeira, Barbara Wynne (Deborah Kerr, de novo), com quem se casara. O tempo passa, Barbara morre, em 1935, Candy reforma-se. Regressa a guerra, agora contra os nazis. 
Theo vive agora exilado em Inglaterra, sozinho, por morte de Edith, tendo deixado na Alemanha dois filhos que são dois puros “jovens nazis”. Candy volta a avalizar o carácter de Theo e, de confidência em confidência, confessa que também ele amara Edith. Entretanto, o exército achara-o velho para o activo e as suas ideias ultrapassadas, e para “sentir” alguma utilidade entrara para a Home Guard, onde tem como motorista Angela "Johnny" Cannon (Deborah Kerr, ainda). Para Candy não se pode combater os nazis com as mesmas armas. Há que manter a honra, “preferindo perder a guerra a usar os métodos dos nazis”. Theo não está de acordo, a sua experiência com os nazis é terrível. Fechado o flashback, Candy será derrotado pelos novos métodos.
Este é o segundo filme da dupla Powell e Pressburger para a produtora “The Archers”, criada por eles em 1940. O primeiro fora "...One of Our Aircraft is Missing". Powell tinha sido apresentado a Pressburger, um húngaro, por Alexander Korda, outro húngaro, e seu antigo produtor. Tornaram-se amigos e colaboradores inseparáveis.
Há quem diga que “ Blimp” foi influenciado pelos cartoons satíricos de um dos mais célebres caricaturistas ingleses de então, Sir David Alexander Cecil Low, um talentoso desenhador que não poupou Hitler, Mussolini ou Estaline. A sua obra atingiu uma tal agressividade que Goebbels colocou o seu nome no “Livro Negro” das personalidades a abater aquando da invasão de Inglaterra. Uma das suas personagens era precisamente um Coronel Blimp. Mas Powell afirmou que a ideia lhe surgiu de uma cena rodada e não incluída no seu filme anterior, e David Lean, então montador dos dois filmes, confirma conversas nesse sentido. A conversa teria a ver com sentir o envelhecimento e a falta de utilidade subsequente.


Mas esta obra que dir-se-ia plenamente integrada no esforço de guerra de Inglaterra contra a ameaça nazi não foi assim entendida no seu tempo. Durante a rodagem, esta foi várias vezes incomodada pelos poderes políticos e militares ingleses. Eles não viam com bons olhos o aparecimento de um alemão que, apesar de confessadamente anti-nazi, tinha um melhor entendimento da guerra moderna que o coronel Candy e Winston Churchill, talvez por se sentir ridicularizado pela figura do protagonista, também impediu a sua estreia, inclusive nos EUA. O filme atrasou alguns meses em Inglaterra e alguns anos nos EUA (só seria lançado em salas em 1945). Chegou a provocar o aparecimento de panfletos, como “The Shame and Disgrace of Colonel Blimp”, da autoria de dois “sociólogos”, E. W. e M. M. Robson", membros de uma tal “Sidneyan Society”, que afirmavam esta ser “the most disgraceful production that has ever emanated from a British film studio”.
O coronel Candy vive nos tempos das regras de ouro, dos duelos pela honra, da guerra com dignidade. Como um verdadeiro gentleman, ele não abdica de princípios em nome de qualquer tipo de pragmatismo. Ora, visto hoje em dia, o filme é profundamente patriótico, ainda que levemente satírico quanto ao espírito inglês, mas abertamente anti-nazi. Nada na obra levanta dúvidas a esse respeito. E a sua qualidade estética, humor, inteligência, novidade e arrojo formal transformam-na seguramente numa obra-prima indiscutível, com lugar assegurado entre as melhores de sempre da cinematografia britânica. O seu relançamento na década de 80, numa versão restaurada, concedeu nova vida ao filme e permitiu uma reapreciação mais correcta, mas foi definitivamente um novo restauro, realizado através do empenho de Martin Scorsese e da sua montadora habitual, Thelma Schoonmaker, que tinha sido mulher de Michael Powell até à morte deste, com o apoio da Academy Film Archive, o BFI, o ITV Studios Global Entertainment Ltd. e a The Film Foundation, e fundos provenientes de The Material World Charitable Foundation, de Louis B. Mayer Foundation, de Cinema per Roma Foundation, e de The Film Foundation, que permitiu a total recuperação crítica desta obra admirável, que teve a sua “re-estreia” em Nova Iorque, a 6 de Novembro de 2011, e, posteriormente, a 30 do mesmo mês, em Londres.


Este é seguramente um dos mais “ingleses” filmes jamais realizados e, no entanto, Powell divertia-se a dizer que este filme “100% british”, fora fotografado por um francês, escrito por um húngaro, musicado por um judeu alemão, o guarda-roupa tinha sido desenhado por um checo, um outro alemão assinara o design de produção, e havia ainda actores austríacos e escoceses. Sim, o realizador era inglês. “Uma equipa técnica e um elenco sem fronteiras de nenhuma espécie”.
Rodado numa época de crise, em plena guerra, não teve grandes meios de produção, mas o resultado final é admirável, dada a invenção e a habilidade que os realizadores demonstram em sugerir ambientes. As cenas de guerra não são o que se pode chamar realistas, quase se aparentam a alguns quadros surrealistas, mas oferecem uma veracidade interna notável. O aproveitamento de certos edifícios nalgumas sequências é igualmente brilhante, desde o ginásio onde se efectua o duelo, o hospital onde Candy passa algum tempo, os banhos turcos, etc. Toda a obra ostenta uma notável capacidade criativa.
Inicialmente, os actores escolhidos pela dupla de realizadores (e quando falamos da dupla de realizadores há que sublinhar que Michael Powell foi sempre mais “o realizador”, e Emeric Pressburg mais “o argumentista”, apesar de ambos assinarem a realização e o argumento, além da produção) foram Laurence Olivier, para interpretar o coronel Candy, o que não foi possível por Olivier estar na Força Aérea e o Ministério ter recusado a cedência, e Wendy Hiller para os três papéis depois atribuídos a Deborah Kerr. Mas deve dizer-se que, visto agora, este filme não se consegue libertar do trabalho de Anton Walbrook (Theo Kretschmar-Schuldorff), Deborah Kerr (Edith Hunter / Barbara Wynne / Johnny Cannon) e Roger Livesey (Clive Candy). Eles são brilhantes e marcaram para sempre a obra com a sua presença.
Mal recebido na época da sua estreia, “The Life and Death of Colonel Blimp” é presentemente um justificado e autêntico filme de culto, para o que muito terá contribuído igualmente a sua magnífica fotografia a cores, um tipo de Technicolor que caracterizou algumas das produções de “The Archers”, como “The Red Shoes” ou “Black Narcissus”. Muitos o consideram um exemplo brilhante do que “quer dizer ser inglês”, e alguns afirmam que este é “o melhor filme inglês de sempre”.

A VIDA DO CORONEL BLIMP
Título original: The Life and Death of Colonel Blimp
Realização: Michael Powell e Emeric Pressburger (Inglaterra, 1943); Argumento:  Michael Powell e Emeric Pressburger; Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger, Richard Vernon; Música:  Allan Gray; Fotografia (cor): Georges Périnal; Montagem: John Seabourne Sr.; Design de produção: Alfred Junge; Guarda-roupa: Joseph Bato; Maquilhagem: George Blackler, Dorrie Hamilton, Stuart Freeborn; Direcção de produção: Alec Saville, Sydney Streeter, Tom White; Assistente de realização: Kenneth Horne, Tom Payne; Departamento de arte: Peter Manley; Som: Desmond Dew, C.C. Stevens; Efeitos visuais: W. Percy Day, Jason Richardson; Companhia de produção: The Rank Organisation, The Archers, Independent Producers; Intérpretes: Anton Walbrook (Theo Kretschmar-Schuldorff), Deborah Kerr (Edith Hunter / Barbara Wynne / Johnny Cannon), Roger Livesey (Clive Candy), Roland Culver (Coronel Betteridge), James McKechnie (Spud Wilson), Albert Lieven (von Ritter), Arthur Wontner, David Hutcheson, Ursula Jeans, John Laurie, Harry Welchman, Reginald Tate, A.E. Matthews, Carl Jaffe, Valentine Dyall, Muriel Aked, Felix Aylmer, Frith Banbury, Neville Mapp, Vincent Holman, Spencer Trevor, James Knight, Dennis Arundell, David Ward, Jan Van Loewen, Eric Maturin, Robert Harris, Theodore Zichy,  Jane Millican, Phyllis Morris, Diana Marshall, W.H. Barrett, Thomas Palmer, Yvonne Andre, Marjorie Gresley, Helen Debroy, Norman Pierce, Edward Cooper, Joan Swinstead, John Boxer, Ian Fleming (Maj. Plumley, 1902) , Desmond Jeans, Patrick Macnee, etc. Duração: 163 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal (DVD): Lusomundo Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 11 de Outubro de 1946.

MICHAEL POWELL 
(1905-1990)
Michael Latham Powell nasceu a 30 de Setembro de 1905, em Bekesbourne, Kent, Inglaterra, e veio a falecer a 19 de Fevereiro de 1990, em Avening, Gloucestershire, Inglaterra, vítima de cancro.  Filho de Thomas William Powell e Mabel Powell foi desde criança um apaixonado pelo cinema.  Tanto viveu em Canterbury, como no sul de França, onde os pais dirigiam um hotel.
Estudou na Kings School, e no Canterbury & Dulwich College e começou depois a trabalhar num baco. Em 1925 começou a colaborar com Rex Ingram, no cinema, durante a rodagem de “Mare Nostrum” (1926). Iniciou-se como realizador de curtas, nos estúdios de Denham & Pinewood. Foi o produtor Alexabder KJorda quem o apresentou a um judeu, emigrante húngaro, Emeric Pressburger, que dominava completamente o inglês, e com quem começou a trabalhar em dupla, a partir de 1942, fundando um casa produtora, The Archers, e criando um invulgar conjunto de obras que os colocam entre os maiores da cinematografia inglesa. Em 1957, deforma amigável, desfizeram a dupla, e já sozinho, Powell rodou “A Vítima do Medo” (1960) que o colocou numa espécie de lista negra. Foi descoberto por homens como  Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese que o convidaram a trabalhar e a dar aulas na América (em 1980 leccionou no Dartmouth College, em New Hampshire, e mais tarde foi “Senior Director”, numa “Residence” nos estúdios Zoetrope). Foi casado com Gloria Mary Rouger (1927 – 1927, durou três semanas), Frankie Reidy (1943 - 1983)(durante este casamento viveu vários anos com Pamela Brown)  e ainda Thelma Schoonmaker (1984 – 1990), esta última habitual montadora dos filmes de Scorsese. Morreu de cancro em Inglaterra, em 1990.
“Faço filmes para mim. Espero que o maior número possível de pessoas os entendam. Quanto ao resto, bem, é problema delas”, disse.

Filmografia
(como realizador)
Curtas-metragens: 1928: Riviera Revels (Powell co-realiza com Harry Lachman); 1930: Caste (Campbell Gullan é o realizador, Powell não aprece creditado); 1931: Two Crowded Hours; 1932: My Friend the King; Rynox; The Rasp; The Star Reporter; Hotel Splendide; C.O.D.; His Lordship; 1933: Born Lucky; 1934: The Fire Raisers; Red Ensign; Something Always Happens; 1935: The Girl in the Crowd; Lazybones; The Love Test; The Night of the Party; The Phantom Light; The Price of a Song; Someday; 1936: Her Last Affaire; The Brown Wallet; First National; Crown v. Stevens; The Man Behind the Mask; 1937: The Edge of the World; 1939: The Spy in Black (O Espião Negro); Smith; Embankment Fellowship Co. (curta); The Lion Has Wings (O Leão Tem Asas) (documentário); 1940: Contraband; The Thief of Bagdad (O Ladrão de Bagdad) (co-realizado por Ludwig Berger, Michael Powell e Tim Whelan); 1941: An Airman's Letter to His Mother (curta); 49th Parallel (Os Invasores); (entre 1942 e 1957 todos os filmes de Michael Powell aparecem assinados, na realização, argumento e produção, conjuntamente com Emeric Pressburger): 1942: One of Our Aircraft Is Missing (Falta um dos Nossos Aviões); 1943: The Life and Death of Colonel Blimp (A Vida do Coronel Blimp); The Volunteer (curta de propaganda); 1944: A Canterbury Tale (Três Modernos Peregrinos); 1945:I Know Where I'm Going! (Sei Para Onde Vou); 1946: A Matter of Life and Death (Caso de Vida ou Morte); 1947: Black Narcissus (Quando os Sinos Dobram); 1948: The Red Shoes (Os Sapatos Vermelhos); 1949: The Small Back Room (O Seu Pior Inimigo); 1950: Gone to Earth (A Raposa); The Elusive Pimpernel (O Libertador); 1951: The Tales of Hoffmann (Os Contos de Hoffmann); 1952: The Wild Heart; 1955: Oh... Rosalinda!! (Contos Vienenses); 1956: The Sorcerer's Apprentice (curta de bailado); The Battle of the River Plate (A Batalha do Rio da Prata); 1957: Ill Met by Moonlight (Perigo nas Sombras); (a partir daqui Michael Powelll assina a solo): 1959: Luna de Miel; 1960: Peeping Tom (A Vítima do Medo); 1961: The Queen's Guards; 1963: Herzog Blaubarts Burg; 1966: They're a Weird Mob; 1969: Age of Consent (Homens Maduros); 1972: The Boy Who Turned Yellow; 1978: Return to the Edge of the World;
Para a televisão:
1963: Never Turn Your Back on a Friend; 1964: The Frantick Rebel; Espionage: Free Agent, The Frantick Rebel, - Never Turn Your Back on a; 1965: The Defenders: The Sworn Twelve e The Nurses: A 39846;
Como produtor: 1043: The Silver Fleet; 1947: The End of the River; 1951: Aila, pohjolan tytär; 1968: Sebastian; 1983: A Woman for All Time.
Apareceu como actor (pequenas aparições) em diversas obras.

EMERIC PRESSBURGER 
(1902-1988)
Imre József Pressburger (depois Emeric Pressburger) nasceu a 5 de Dezembro de 1902, em Miskolc, na Hungria, e viria a falecer a 5 de Fevereiro de 1988, em Saxtead, Suffolk, Inglaterra, aos 85 anos. Casado com Ági Donáth (1938-1941) e Wendy Orme (1947-1971).
De uma família judia, era filho de Kätherina e Kálmán Pressburger, este último gerente de uma propriedade. Estudou em Temesvár, sendo um excelente aluno a matemática, literatura e música. Passou pelas universidades de Praga e Estugarda. Quando o pai morreu foi obrigado a abandonar os estudos, tornando-se jornalista. No final da década de 20 passou a trabalhar nos estúdios da UFA, em Berlim, mas a ascensão dos nazis leva-o a refugiar-se em Paris e depois Londres, onde passa a viver a partir de 1935. Nesta cidade encontra um grupo de exilados húngaros que o apoiam, entre os quais Alexander Korda, um dos mais influentes e poderosos produtores cinematográficos, que o contrata como argumentista. É através de Korda  que conhece Michael Powell, trabalhando ambos em “The Spy in Black” (1939). Começam a colaborarem equipa e fundam uma produtora, The Archers. Concebem entre os anos 40 e 50 um conjunto de filmes dos mais importantes da cinematografia inglesa (ver nota Michael Powell, bem como a filmografia conjunta).
Escreveu os romances “Killing a Mouse on Sunday” (1961) e “The Glass Pearls” (1966). Casado com Ági Donáth (1938-1941) e Wendy Orme (1947-1953). Ferveroso adepto de Arsenal F.C. Morreu em 1988, num lar, devido a complicações derivadas de um pneumonia. Foi enterrado no cemitério de Our Lady of Grace Church, em Aspall, sendo o seu o único túmulo ali existente a ostentar a estrela de David.

Filmografia
(Alemanha e Paris)
1930: Die Große Sehnsucht, Abschied; 1931: Ronny, Das Ekel, Dann schon lieber Lebertran, Emil und die Detektive, Der Kleine Seitensprung; 1932: Une jeune fille et un million, ...und es leuchtet die Pußta, Sehnsucht 202, Petit écart, Lumpenkavaliere, Held wider Willen, Eine von uns, La Belle aventure, Wer zahlt heute noch?, Das Schöne Abenteuer, A Vén gazember;
1933: Une femme au volant, Incognito; 1934: Mon coeur t'appelle, Milyon avcilari; 1935: Monsieur Sans-Gêne, Abdul the Damned; 1936: Sous les yeux d'occident;
A partir de 1935, em Inglaterra:
1936: Port-Arthur, Parisian Life, One Rainy Afternoon; 1937: The Great Barrier; 1938: The Challenge; 1939: The Silent Battle;
Com Michael Powell:
1940: Spy for a Day; 1941: Atlantic Ferry; 1942: Rings on Her Fingers, Breach of Promise; 1943: Squadron Leader X; 1946: Wanted for Murder;
Em colaboração com Powell:
1941: 49th Parallel, 1943: The Life and Death of Colonel Blimp, 1946: A Matter of Life and Death, 1947: Black Narcissus,1948: The Red Shoes, 1951: The Tales of Hoffmann;
A seguir à separação de Powell, como argumentista:
1953: Twice Upon a Time (este igualmente como realizador); 1957: Men Against Britannia; 1957: Miracle in Soho; 1965: Operation Crossbow; 1966: They're a Weird Mob; 1972: The Boy Who Turned Yellow.

DEBORAH KERR 
(1921-2007)
Deborah Jane Kerr-Trimmer nasceu a 30 de Setembro de 1921, em Helensburgh,  Glasgow, na Escócia, e viria a falecer a 16 de Outubro de 2007, aos 86 anos, em Botesdale, Suffolk, Inglaterra, atormentada pela doença de Parkinson. Deixou viúvo o escritor Peter Viertel, com quem esteve casada mais de 47 anos. Antes havia sido casada com Anthony Bartley, piloto da força aérea (1945–1959). Foi coleccionando prémios e honrarias ao longo da sua extensa carreira como catriz, tendo sido nomeada por seis vezes para o OPscar de Melhor Actriz que nunca ganhou, mas foi-lhe atribuído um Oscar honorário, por ter sido “uma artista de impecável graça e beleza, uma dedicada actriz cuja carreira se pautou sempre pela exidencia de perfeição, disciplina e elegância”.
Filha de Kathleen Rose e Arthur Charles Kerr-Trimmer, um ca+itão veterano que perdeu uma perna durante a I Guerra Mundial, e se dedicaria depois a engenharia civil. Kerr estudou na Northumberland House School, em Henleaze, Bristol, e na Rossholme School, Weston-super-Mare. A sua orientação inicial terá sido o bailado, tendo mesmo aparecido enquanto tal, em 1938, num palco de Sadler's Wells. Mas rapidamente o teatro e o cinema a conquistariam. Teve como primeiro professor de arte dramática, um tio,  Phyllis Smale, professor na Hicks-Smale Drama School em Bristol. Surgiu em várias produções teatrais, em muitas encenações de Shakespeare para o Open-Air Theatre, ou o Oxford Playhouse. Em Londres, no West End, no inicio da década de 40. 
Iniciou-se no cinema em obras da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger (numa das suas obras auto-biograficas, Powell confessa que ele e Deborah Kerr foram amantes nessa época), e interpretou dezenas e dezenas de filmes, sempre deixando marca da sua beleza, elegância e talento. Nalguns poderia parecer fria e distantes, mas noutros deixou vir ao de cima a sua arrojada sensualidade. Alguns actores que com ela contracenaram, como Stewart Granger ou Burt Lancaster, contam como foram seduzidos por esta mulher “The Life and Death of Colonel Blimp”, “Black Narcissus”, “Separate Tables”, “Quo Vadis”, “The Innocents”, “Heaven Knows, Mr. Allison”, “Julius Caesar”, “The King and I”, “An Affair to Remember”, “Tea and Sympathy” ou “From Here to Eternity” são apenas alguns exemplos onde ficou registado o fascínio da sua presença.

Filmografia
Como actriz
1940: Contraband, de Michael Powell (cena retirada da montagem final); 1941: Major Barbara, de Gabriel Pascal; Love on the Dole, de John Baxter; 1942: Penn of Pennsylvania (Penn, o Fundador da Pensilvânia), de Lance Comfort; Hatter's Castle (O Castelo do Homem sem Alma), de Lance Comfort; The Day Will Dawn, de Harold French; A Battle for a Bottle (curta, de animação); 1943: The Life and Death of Colonel Blimp (A Vida do Coronel Blimp), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1945: Perfect Strangers (Férias de Casamento); 1946: I See a Dark Stranger (A Espia da Irlanda), de Jack Conway; 1947: Black Narcissus (Quando os Sinos Dobram), de Michael Powell e Emeric Pressburger; The Hucksters (Traficante de Ilusões), de Jack Conway; If Winter Comes (Intriga), de Victor Saville; 1949: Edward, My Son (Meu Filho Eduardo), de George Cukor; 1950: Please Believe Me, de Norman Taurog; King Solomon's Mines (As Minas de Salomão), de Compton Bennett; 1951: Quo Vadis (Quo Vadis), de Mervyn LeRoy; 1952: The Prisoner of Zenda (O Prisioneiro de Zenda), de Richard Thorpe; Thunder in the East (Tempestade no Oriente), de Charles Vidor; 1953: Young Bess (Amor de Rainha), de George Sidney; Julius Caesar (Júlio César), de Joseph L. Mankiewicz; Dream Wife (A Esposa Ideal), de Sidney Sheldon; From Here to Eternity (Até à Eternidade), de Fred Zinnemann; 1955: The End of the Affair (O Fim da Aventura), de Edward Dmytryk; 1956: The Proud and Profane (Ela Amou Um Bruto), de George Seaton; The King and I (O Rei e Eu), de Walter Lang (dobrada nas canções por Marni Nixon); Tea and Sympathy (Chá e Simpatia), de Vincente Minnelli; 1957: Heaven Knows, Mr. Allison (O Espírito e a Carne), de John Huston; An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida), de Leo McCarey; Kiss Them for Me (Quatro Dias de Loucura) (dobrada nalgumas cenas por Suzy Parker); 1958: Bonjour Tristesse (Bom Dia, Tristeza), de Otto Preminger; Separate Tables (Vidas Separadas), de Delbert Mann; 1959: The Journey (Crepúsculo Vermelho), de Anatole Litvak; Count Your Blessings, de Jean Negulesco; Beloved Infidel, de Henry King; 1960: The Sundowners (Três Vidas Errantes), de Fred Zinnemann; The Grass Is Greener (Ele, Ela e o Marido), de Stanley Donen; 1961: The Naked Edge, de Michael Anderson; The Innocents (Os Inocentes), de Jack Clayton; 1963: ITV Play of the Week (episódio Three Roads to Rome); 1964: On the Trail of the Iguana; The Chalk Garden, de Ronald Neame; The Night of the Iguana (A Noite de Iguana), de John Huston; 1965: Marriage on the Rocks (Divórcio à Americana), de Jack Donohue; 1966: Eye of the Devil, de J. Lee Thompson; 1967: Casino Royale (Casino Royale), de Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath e Robert Parrish; 1968: Prudence and the Pill, de Fielder Cook; 1969: The Gypsy Moths (Os Paraquedistas), de John Frankenheimer; The Arrangement (O Compromisso), de Elia Kazan; 1982: BBC2 Playhouse (episódio "A Song at Twilight"); Witness for the Prosecution (telefilme); 1984: A Woman of Substance,  de Don Sharp (mini-série de TV); 1985: The Assam Garden, de Mary McMurray; Reunion at Farnborough, de Herbert Wise (telefilme); A Woman of Substance (mini-série de TV); 1986: Hold the Dream, de Don Sharp (telefilme).

THE ARCHERS 
(1943-1957)
Companhia inglesa de produção de filmes, fundada em 1943 por Michael Powell (1905–1990) e Emeric Pressburger (1902–1988). Produziu um importante conjunto de obras, entre 1943 e 1957. Nesta colaboração, Powell reservava-se mais o papel de realizador, e Pressburger o que argumentista e produtor, mas ambos assinavam as obras em conjunto.
Numa carta endereçada a Wendy Hiller, em 1942, convidando-a a participar em “Colonel Blimp”, Pressburger explicava, em cinco pontos, quais as intenções da produtora: “We owe allegiance to nobody except the financial interests which provide our money; and, to them, the sole responsibility of ensuring them a profit, not a loss.
Every single foot in our films is our own responsibility and nobody else's. We refuse to be guided or coerced by any influence but our own judgement.
When we start work on a new idea we must be a year ahead, not only of our competitors, but also of the times. A real film, from idea to universal release, takes a year. Or more.
No artist believes in escapism. And we secretly believe that no audience does. We have proved, at any rate, that they will pay to see the truth, for other reasons than her nakedness.
At any time, and particularly at the present, the self-respect of all collaborators, from star to prop-man, is sustained, or diminished, by the theme and purpose of the film they are working on.
Powell e Pressburger criaram uma equipa, em The Archers, onde foi possível ver, em diversos projectos, os mesmos actores e técnicos, como Esmond Knight, Cyril Cusack, Sir Ralph Richardson, David Farrar, Googie Withers, Marius Goring, Pamela Brown, Laurence Olivier, Roger Livesey, John Laurie, Anton Walbrook, Conrad Veidt, Deborah Kerr, Eric Portman, Finlay Currie, Kathleen Byron, Léonide Massine, Robert Helpmann, Valerie Hobson, nos elencos, e Erwin Hillier, Jack Cardiff, Christopher Challis, Alfred Junge, Hein Heckroth, Ivor Beddoes, Brian Easdale, Allan Gray, Sir Thomas Beecham, Miklós Rózsa, David Lean ou Reginald Mills.


Filmografia da produtora (principais títulos): Contraband (1940), 49th Parallel (1941), One of Our Aircraft Is Missing (1942), The Life and Death of Colonel Blimp (1943), The Volunteer (1943), The Silver Fleet, de Vernon Sewell e Gordon Wellesley (1943), A Canterbury Tale (1944), I Know Where I'm Going! (1945), A Matter of Life and Death (1946), Black Narcissus (1947), The End of the River, de de Derek N. Twist (1947),The Red Shoes (1948), The Small Back Room (1949), The Elusive Pimpernel (1950), Gone to Earth (1950), The Tales of Hoffmann (1951), Oh... Rosalinda!! (1955), The Battle of the River Plate (1956), Ill Met by Moonlight (1957), etc.