segunda-feira, 10 de março de 2014

SESSÃO 8: 25 DE MARÇO DE 2014


O TERCEIRO HOMEM (1949)
Há filmes míticos, já se sabia. “O Terceiro Homem” é um deles. Interessante será tentar perceber qual o mistério, a magia que se encontra por detrás desta obra que mais de 70 anos depois de estreada consegue manter os espectadores suspensos do seu canto, mesmo que saibam quase de cor as réplicas e não tenham esquecido um só dos planos que fazem deste título um deslumbramento plástico, envolvido por um tema musical dos mais inspirados de toda a história do cinema. Afinal, já estamos a organizar algumas das razões que podem explicar o sucesso de “O Terceiro Homem”.
A história: depois de terminada a II Guerra Mundial, Viena de Áustria tornou-se uma cidade dividida em quatro zonas de influência, cada uma delas administrada por um dos quatro vencedores do conflito, EUA, Inglaterra, França e URSS. Numa cidade destruída pelos bombardeamentos, a corrupção impera, o tráfico de influências e o mercado negro prosperam, e se a guerra foi devastadora, o pós-guerra não o será menos, ainda que de outra forma.
É neste contexto que chega a Viena um americano, Holly Martins, escritor menor de romances do Oeste, que vem chamado por um amigo de infância, Harry Lime que, sabendo-o em dificuldades, o convida a trabalhar com ele. Mas, quando chega, Holly descobre que o amigo acabara de falecer, atropelado à porta de casa e nessa mesma altura se encontra a ser sepultado num dos cemitérios locais. Holly chega a tempo de ainda ouvir as palavras de despedida proferidas pelo padre, sabe que Harry deixou uma desamparada Anna Schmidt a chorar o desaparecimento do amante, e inicia uma conversa com o Major Calloway, que o aconselha a deixar a cidade no dia seguinte, com um bilhete de regresso pago pelas forças ocupantes. Mas Holly é convidado para dar uma conferência sobre literatura moderna numa estranha associação e, ao mesmo tempo, começa a duvidar que o amigo tenha sido vítima de um simples acidente. Há alguns factos que não batem certo e a sua curiosidade impede-o de deixar Viena. Umas testemunhas falam de duas pessoas a transportar o corpo de Harry Lime aquando do desastre, outras falam de três, e aqui começa o enigma: saber quem era o misterioso e suspeito “terceiro homem”. Calloway, perante a teimosia de Holly, resolve contar-lhe a verdade sobre o amigo. Harry Lime não passava de um escroque da pior espécie que, entre outras malfeitorias, vendia penicilina adulterada no mercado negro, provocando dezenas de mortes e deixando atrás de si um rasto de doenças incuráveis. Ter morrido terá sido o melhor que lhe poderia ter acontecido.
Mas Holly continua com dúvidas e persiste em encontrar o “terceiro homem”. Ele irá aparecer, surgindo como uma sombra na noite escura, escondido na penumbra de uma porta, com um gato aos pés.
O filme parte de um argumento escrito directamente para o cinema por Graham Greene, segundo história de Alexander Korda, tendo contado com a colaboração de Carol Reed e Orson Welles, não creditada no genérico. Diga-se, aliás, que depois do sucesso do filme, o escritor inglês acabou por editar o romance, mantendo-se o êxito.
Conta a pequena história que existiram diversos confrontos entre o escritor, o realizador e os dois produtores mais importantes, Alexander Korda, o húngaro, pelo lado inglês, e David O. Selznick, pela participação americana. Sabe-se mesmo que há algumas alterações entre a história inicial e a versão final do filme, nomeadamente o derradeiro plano. No romance, Graham Greene prenuncia um “happy end”, enquanto o filme é muito mais pessimista e desiludido. Sabe-se que, passados alguns anos, o escritor confessou que Carol Reed tinha toda a razão ao optar por aquele desfecho.
As personagens: obviamente que um dos encantos de “O Terceiro Homem” são as personagens que intervêm na ficção. Desde as mais prosaicas, o Major Calloway e o seu acompanhante, sargento Paine, até ao protagonista, esse escritor, americano típico, ingénuo e persistente, que não se desvia do seu percurso, que intercede pela rapariga e se mostra leal à amizade até quase ao irracional, mas toma a boa decisão na altura certa, passando por esse universo de misteriosas personagens que têm todas algo a esconder, do Dr. Vinkler a Popescu, de Karl ao Barão Kurtz, passando pelo estranho Crabbin e as suas sessões literárias. Mas não esquecemos Anna Schmidt e a sua devoção à memória de um homem que amou. Finalmente, guardamos para o fim a figura central desta obra, que todavia só aparece na meia hora final, mas para sempre irá marcar este filme, com uma das mais geniais criações de um actor, ou não fosse ele Orson Welles. O seu “terceiro homem” sintetiza nas curtas aparições uma ideia de “mal”, na displicência com que olha os outros, na distância que guarda perante a miséria que semeia, no irónico olhar de quem se julga superior aos demais. De resto, todo o filme se constrói em função do suspense quanto ao “terceiro homem” e as suas aparições são trabalhadas de forma eloquente. Envolta em mistério, a figura está para lá na “normalidade”, ou surge envolvida nas sombras, ou em contraluz que lhe agiganta a projecção de um espectro ameaçador.
O clima plástico: entramos assim no que me parece ser o aspecto dominante de “The Third Man”, o seu estilo plástico, conseguido pela conjugação de uma direcção artística barroca, uma fotografia de um preto e branco ameaçador, equívoco, dissimulado, e de uma angulação da câmara quase sempre oblíqua, que faz com que a realidade filmada surja destorcida, desequilibrada, como os tempos que então se viviam em Viena. Mas há ainda a iluminação, com ressaibos de expressionismo, sublinhando o lado grotesco desta representação de máscaras numa terra de ninguém. Se a história relembra um pouco “Casablanca”, com os seus heróis cansados, amores desencontrados, vilões de brutal ambiguidade, algumas cenas remetem directamente para “Matou”, sobretudo as sequência onde aparece um miúdo, apontando um (falso) culpado que é perseguido pela multidão nas ruas da cidade. Mas se influências existem, a que o próprio cinema de Orson Welles não é alheio, a verdade é que Carol Reed comanda com maestria este singular cocktail, que é indiscutivelmente um dos melhores retratos do pós-guerra, mostrando como os restos de um confronto podem ser tão destrutivos e violentos quanto as batalhas nas trincheiras. Durante algum tempo especulou-se se Orson Welles não teria realmente dirigido grande parte da película, mas ele próprio, numa entrevista a Peter Bogdanovich, confessou que o filme era obra integral de Carol Reed, com uma ou outra contribuição de Welles, sobretudo ao nível do diálogo.  
É sabido que uma das mais famosas réplicas de “The Third Man” refere o relógio de cuco, e essa sim terá sido uma contribuição de Welles que, na pele de Harry Lime, terá sentenciado, do alto da roda de Wiener Riesenrad, olhando com desprezo para as humanas “formigas” que cá em baixo passavam, que “em Itália, durante 30 anos sob o jugo dos Bórgia, tiveram carnificinas, terror, assassinatos e violência, mas também aconteceram Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, com tanto amor fraterno, em quinhentos anos de democracia e paz, que produziram? O relógio de cuco!”
A fotografia traz a assinatura de Robert Krasker, que acabaria por ganhar o único Oscar atribuído ao filme, apesar de este ter sido ainda nomeado para melhor realização e montagem. Montagem essa igualmente preponderante na criação do tom, e que era da responsabilidade de Oswald Hafenrichter. Mas se não ganhou senão um Oscar, hoje em dia aparece referenciado como um dos mais importantes filmes ingleses de sempre, e mesmo um dos melhores de toda a história do cinema.
A música: outro aspecto primordial desta obra é a banda sonora criada por Anton Karas, um compositor vienense, que se limitou a utilizar a cítara, um instrumento de cordas, muito usado na música folclórica, em zonas de influência alemã, dos Alpes à Europa Central e do Leste. O efeito é realmente excelente, contribuindo para criar o ambiente inquietante e algo exótico que se pressente ao longo de toda a obra.

O TERCEIRO HOMEM
Título original: The Third Man
Realização: Carol Reed (Inglaterra, EUA, 1949); Argumento: Graham Greene, segundo história de Alexander Korda, com colaboração de Carol Reed e Orson Welles (não creditados); Produção: Hugh Perceval, Carol Reed, Alexander Korda, David O. Selznick; Música: Anton Karas; Fotografia (p/b): Robert Krasker; Montagem: Oswald Hafenrichter; Decoração: Dario Simoni; Guarda-roupa: Ivy Baker, George Murrey; Maquilhagem: George Frost, Joe Shear, Peter Evans; Direcção de produção: T.S. Lyndon-Haynes; Assistente de realização: Guy Hamilton, Jack Causey, Jack N. Green, George Pollock, Gino Wimmer; Departamento de arte: Joseph Bato, John Hawkesworth, Vincent Korda; Som: John Cox, Jack Drake, Red Law, Bert Ross; Efeitos visuais: W. Percy Day; Companhia de produção: Carol Reed's Production, London Film Productions; Intérpretes: Joseph Cotten (Holly Martins), Alida Valli (Anna Schmidt), Orson Welles (Harry Lime), Trevor Howard (Maj. Calloway), Bernard Lee (Sgt. Paine), Paul Hörbiger (Karl), Ernst (Batão Kurtz), Siegfried Breuer (Popescu), Erich Ponto (Dr. Winkel), Wilfrid Hyde-White (Crabbin), Hedwig Bleibtreu, Nelly Arno, Jack Arrow, Harold Ayer, Harry Belcher, Leo Bieber, Paul Birch, Martin Boddey, Madge Brindley, Robert Brown, Ray Browne, Paul Carpenter, Marie-Louise Charlier, Alexis Chesnakov, Guy De Monceau, Reed De Rouen, Jack Faint, Peter Fontaine, Thomas Gallagher, Michael Godfrey, Vernon Greeves, Herbert Halbik, Paul Hardtmuth, Walter Hertner, Lily Kann, Geoffrey Keen, Brookes Kyle, Martin Miller, Hannah Norbert, Eric Pohlmann, Carol Reed (narrador), etc. Duração: 104 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Círculo Digital; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 3 de Março de 1950.

CAROL REED (1906-1976)
Nasceu a 30 de Dezembro de 1906, em Putney, Londres, Inglaterra, e viria a falecer, de ataque cardíaco, a 25 de Abril de 1976, em Chelsea, Londres, Inglaterra. Filho ilegítimo de Sir Herbert Beerbohm Tree, um actor, professor de arte dramática e empresário que fundou a Royal School of Dramatic Arts, e Beatrice Mae Pinney. Tree sustentava uma vida dupla, casado, mantendo todavia uma segunda casa com Beatrice, de quem teve seis filhos. Carol Reed cresceu num meio abastado, com uma educação esmerada, assegurada na King's School, em Canterbury, e desde cedo quis seguir as pisadas do pai e ser actor. A mãe, para o afastar dessa ideia, envia-o para casa de um irmão, nos EUA, mas Reed regressa rapidamente a casa e inicia um estágio na companhia de Dame Sybil Thorndike, estreando-se em 1924. Encontra Edgar Wallace, o escritor de policiais, que o marca para sempre com o gosto pelo thriller. Rapidamente ingressa no cinema, como assistente de Wallace. Entra para os Ealing Studios como dialogista, passa à realização em 1935, com “It Happened in Paris” (co-realização com Robert Wyler), e depois, no ano seguinte, já a solo, com “Midshipman Easy”. Conhece Graham Green, que o incita a continuar, e firma-se como um bem sucedido director de filmes de série B, muito na linha do seu mestre Hitchcock. Torna-se um realizador de sucesso em Inglaterra e também nos EUA, e a sua contribuição para o esforço de guerra ajudou à reputação. “A Verdadeira Glória” (1945), co-realizado com Garson Kanin, ganha o Oscar para Melhor Documentário, em 1946. “A Casa Cercada” (1947), “O Ídolo Caído” (1948), “O Terceiro Homem” (1949), “O Homem da Zona Russa” (1953) ou “O Coração de Uma Cidade” (1955) cimentaram uma carreira, que a colaboração com Graham Green ajudaria a engrandecer.
Carol Reed tornou-se um cineasta internacional, e Hollywood adoptou-o: “Trapézio” (1956), “A Chave” (1958), “Our Man in Havana” (1959), “Revolta na Bounty” (1962), cuja realização abnadonou a meio, por choque de personalidades com Marlon Brando ou com o produtor Aaron Rosenberg, segundo versões diversas, “A Agonia e o Êxtase” (1965) ou “Oliver” (1968), um musical que teve direito a 11 nomeações para os Oscars, vencendo cinco, entre elas a de Melhor Filme e Melhor Realização, tornaram Carol Reed um dos mais conhecidos e notáveis cineastas ingleses. Michael Powell tinha-o em enorme consideração e Graham Greene não podia ser mais entusiástico referindo-se ao cineasta que afirmava ser “uma criatura
calorosa e simpática, que sabia escolher o melhor ângulo, o corte certo e criar a empatia necessária com toda a equipa”. Steven Spielberg considera-o uma das suas grandes influências. Casou com Diana Wynyard (1943 - 1947) e com Penelope Dudley-Ward (1948 - 1976). 

Filmografia
Como realizador:
1935: It Happened in Paris (co-realização com Robert Wyler), Midshipman Easy, 1936: Laburnum Grove; 1937: Talk of the Devil; 1937: Who's Your Lady Friend? (Uma Mulher a Mais); 1938: Penny Paradise; Bank Holiday (Fim-de-Semana Atribulado), Climbing High (As Noivas do Milionário); 1939: A Girl Must Live; 1940: The Stars Look Down (Noite sem Estrelas), Girl in the News (O Nome nos Jornais), Night Train to Munich (Expresso de Munique); 1941: Kipps, A Letter from Home (curta-metragem), 1942: The Young Mr. Pitt (Pitt, Vencedor de Napoleão); 1943: The New Lot (curta-metragem); 1944: The Way Ahead (7 de Infantaria); 1945: The True Glory (A Verdadeira Glória) (documentário, co-realizado com Garson Kanin, não creditado); 1947: Odd Man Out (A Casa Cercada); 1948: The Fallen Idol (O Ídolo Caído); 1949: The Third Man (O Terceiro Homem) ; 1952: Outcast of the Islands (Os Desterrados do Arquipélago); 1953: The Man Between (O Homem da Zona Russa); 1955: A Kid for Two Farthings (O Coração de Uma Cidade); 1956: Trapeze (Trapézio); 1958: The Key (A Chave); 1959: Our Man in Havana (O Nosso Homem em Havana); 1962: Mutiny on the Bounty (Revolta na Bounty) (Carol Reed dirigiu algumas cenas, não creditadas); 1963: The Running Man; 1965: The Agony and the Ecstasy (A Agonia e o Êxtase); 1968: Oliver! (Oliver); 1970: Flap; 1972: Follow Me ! (Segue-me Querido).

TREVOR HOWARD 
(1913-1988)
Trevor Wallace Howard-Smith nasceu a 29 de Setembro de 1913, em Cliftonville, Kent, Inglaterra, e viria a falecer a 7 de Janeiro de 1988, em Bushey, Hertfordshire, Inglaterra, vítima de gripe e bronquite.
Filho de Arthur John Howard-Smith, representante do Lloyd's of London no Ceilão, e de Mabel Grey Wallace, canadiana, enfermeira. Viveu no Ceilão até aos cinco anos, depois vem para Bristol com a mãe, frequenta o Clifton College, inscrevendo-se na Royal Academy of Dramatic Art para estudar arte dramática. Passa por algumas companhias londrinas, é notado pela Paramount Pictures que o convida para ingressar no cinema, mas Trevor Howard, nessa altura, declina o convite, entrando para a do Stratford Memorial Theatre. Com o eclodir da II Guerra Mundial oferece-se como voluntário, não é aceite numa primeira fase, mas depois integra o Royal Corps of Signals, divisão aerotransportada. Contam-se histórias de grande heroísmo, algumas inventadas pelo marketing sem conhecimento do actor. Mas passou pela Noruega ocupada pelos nazis, e pelo desembarque na Sicília.  
Em 1943, Howard regressa ao teatro, encontra a actriz Helen Cherry, com quem se casa. Dado ao álcool, são igualmente conhecidas algumas histórias rocambolescas, como a sua prisão por usurpar a identidade de um oficial quando se encontrava a trabalhar em Viena.
Finalmente, em 1944, estreia-se no cinema, sob a direcção de Carol Reed, em “The Way Ahead”, iniciando uma carreira repleta de sucessos, desde esse brilhante “Brief Encounter”, (David Lean, 1945), “The Third Man” (Carol Reed, 1949), “The Key (Carol Reed, 1958), “The Heart of the Matter” (G.M O’Ferral, 1953), entre muitos outros. A sua extensa filmografia mostra um actor de grande versatilidade e de enormes recursos, numa linha de grande sobriedade, num registo clássico que nunca abandonou. Profissional exigente, passou igualmente com intenso brilho pela televisão. Era considerado “um dos mais ingleses” actores do seu país, e era um apaixonado por cricket, membro do Marylebone Cricket Club, e tão entusiasta que obrigava a colocar nos seus contractos uma cláusula que lhe permita abandonar as filmagens em dia de jogos. Em 1959, foi considerado o Melhor Actor pela Academia Britânica de Cinema pela sua interpretação em “The Key”. Em 1961 foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor pelo seu trabalho em “Sons and Lovers” (1960).
Discreto, Trevor um dia disse: “Em Inglaterra não temos a “Method School” para representar. Lemos simplesmente o guião, decoramo-lo, encarnamos a personagem e fazemos o que temos que fazer”.

Filmografia
Como actor:
1944: The Way Ahead (7 de Infantaria), de Carol Reed (não creditado); 1945: The Way to the Stars (O Caminho das Estrelas), de Anthony Asquith; Brief Encounter (Breve Encontro), de David Lean; 1946: Green for Danger (A Espia da Irlanda), de Frank Launder; I See a Dark Stranger (O Criminoso Vestia de Branco), de S. Gilliat; 1947: They Made Me a Fugitive, de Alberto Cavalcanti; So Well Remembered (A Esquina da Vida), de Edward Dmytryck; 1949: The Passionate Friends (Mais Forte Que o Amor), de David Lean; The Third Man (O Terceiro Homem), de Carol Reed; 1950: Odette, Agent S. 23 (Odette), de Herbert Wilcox; Golden Salamander (O Fantasma do Deserto); 1951: The Clouded Yellow (Nuvens Amarelas), de R. Thomas; Lady Godiva Rides Again, de Frank Launder; 1951: This Is Show Business (TV); 1952: La Mano dello Straniero ou The Stranger's Hand, de Mario Soldati; Outcast of the Islands (Os Desterrados do Arquipélago), de Carol Reed; 1952: The Gift Horse, de C. Bennett; 1953: The Heart of the Matter (O Fundo da Questão), de G.M O’Ferral; 1954: Les Amants du Tage ou April in Portugal (Os Amantes do Tejo), de Henry Verneuil; Producers' Showcase (TV); BBC Sunday-Night Theatre (TV); 1955: The Cockleshell Heroes (Homens em Casca de Noz), de Jose Ferrer; 1956: Run for the Sun (Rumo ao Sol), de Roy Boulting; Around the World in Eighty Days (A Volta ao Mundo em 80 Dias) de Michael Anderson; The 20th Century-Fox Hour (TV); Studio One (TV); 1957: Manuela (Manuela), de Guy Hamilton; Interpol (Policia Internacional), de John Gilling; The World Our Stage (TV); A Day in Trinidad, Land of Laughter (curta-metragem); 1958: The Key (A Chave), de Carol Reed; The Roots of Heaven (As Raízes do Céu), de John Huston; 1959: Westinghouse Desilu Playhouse (TV); 1960: Sons and Lovers (Filhos e Apaixonados), de Jack Cardiff; Moment of Danger (Momento de Perigo), de L. Benedek; Playhouse 90 (TV); 1962: The Lion (O Leão), de Jack Cardiff; Mutiny on the Bounty (A Revolta na Bounty), de Lewis Milestone; Kraft Mystery Theater (TV); 1963: Hedda Gabler (TV); The Invincible Mr. Disraeli (TV); 1964: Man in the Middle (Conselho de Guerra), de Guy Hamilton; Father Goose (Grão-Lobo Chama), de Ralph Nelson; 1965: The Liquidator (Assassino de Encomenda), de Jack Cardiff; Operation Crossbow (Operação V-2), de Michael Anderson: Von Ryan's Express (O Expresso de Von Ryan), de Mark Rodson; Morituri (Moriture), de Bernard Wicki; Eagle in a Cage (TV); 1966: The Poppies Are Also Flowers (A Papoila Também é uma Flor), de Terence Young: Triple Cross (O Maior Espião da História), de Terence Young; 1967: The Long Duel (Duelo sem Tréguas), de Ken Annakin; 1967: Pretty Polly; 1968: The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira), de Tony Richardon; 1969: Twinky (A Adolescente e o Quarentão), de Richar Donner; Battle of Britain (A Batalha de Inglaterra), de Guy Hamilton; 1970: Ryan's Daughter (A Filha de Ryan), de David Lean; 1971: To Catch a Spy (Meu Marido, esse Desconhecido),de René Clement; Mary, Queen of Scots (Duas Rainhas), de Charles Jarrot; The Night Visitor (Visita Inesperada), de Laslo Benedet; Kidnapped (O Magnífico Rebelde), de Delbert Mann; 1972: The Offence (A Sevícia), de Sidney Lumet; Pope Joan (A Papisa Joana), de Michael Anderson; Ludwig (Luís da Baviera), de Luchino Visconti; 1973: Craze, de Freddie Francis; A Doll's House (A Casa da Boneca), de Joseph Losey; Catholics (TV); ITV Saturday Night Theatre (TV); Who?, de Jack Gold; 1974: Cause for Concern (narrador): Persecution, de Don Chaffey; 11 Harrowhouse (A Casa dos Diamantes), de Aram Avakian; 1975: The Count of Monte-Cristo (A Vingança de Monte Cristo), de David Greene (TV); Hennessy (Hennessy), de Don Sharp; Conduct Unbecoming (A Honra do Regimento), de Michael Anderson; 1976: Alle origini della mafia (TV); Albino, de Jürgen Goslar; The Bawdy Adventures of Tom Jones (As Aventuras de Tom Jones), de Cliff Owen; Aces High, de Jack Gold; Eliza Fraser, de Tim Burstall; 1977: Babel Yemen (curta-metragem, narrador); The Last Remake of Beau Geste (A Mais Louca Aventura de Beau Geste), de Marty Feldman; 1978: Slavers (Escravos), de Jürgen Goslar; Stevie (A Incrível Stevie), de Robert Enders; Superman (Super-Homem), de Richard Donner; Scorpion Tales (TV); 1979: The Spirit of Adventure: Night Flight, de Desmond Davis (TV); Hurricane (A Grande Tempestade), de Jan Troell; Meteor (Meteoro), de Ronald Neame; 1980: The Shillingbury Blowers, de Val Guest; Windwalker, de Kieth Merrill; The Sea Wolves (Os Comandos de Sua Majestade), de Andrew V. McLaglen; Sir Henry at Rawlinson End, de Steve Roberts; Staying On (TV); 1981: Les Années lumière (Os Anos de Luz), de Alain Tanner; The Great Muppet Caper, de Jim Henson; No Country for Old Men (TV); 1982: Deadly Game (TV); Inside the Third Reich (TV); The Missionary (Um Missionário em Apuros), de Richard Loncraine; Gandhi (Gandhi), de  Richard Attenborough; 1984: Flashpoint Africa (TV); George Washington (TV); Sword of the Valiant (A Espada dos Valentes), de Stephen Weeks; 1985: This Lightning Always Strikes Twice (TV); God Rot Tunbridge Wells (TV); 1985: Dust, de Marion Hänsel; 1986: Peter the Great (TV); Foreign Body, de  Ronald Neame; Shaka Zulu (TV); Christmas Dove (TV); Screen Two (TV); 1987: Shaka Zulu; Hand in Glove (TV); White Mischief (Adeus, África), de Michael Radford; 1988: The Dawning (Perversa Tentação), de Camilo Vila; The Unholy (Segredos de Guerra), de Robert Knights.

GRAHAM GREENE (1904-1991)
Henry Graham Greene nasceu a 2 de Outubro de 1904, em Berkhamsted, Hertfordshire, Inglaterra, e viria a falecer a 3 de Abril de 1991, em Corseaux, Vaud, Suíça. O pai era director de uma escola, onde GG estudou, passando depois pelo Balliol College de Oxford e pela Universidade de Oxford. Publicou uma recolha de poesias em 1925 e começou a sua carreira como jornalista, trabalhando no “The Times”. Converte-se ao catoliscismo em 1926 para poder casar com Vivien Daryell-Browning, o que acontece no ano seguinte, casamento que durou até à sua morte, muito embora se conhecessem várias amantes oficiais e uma vida sexual extra conjugal intensa. Especializa-se em crítica literária e cinematográfica, no “The Spectator” e depois no “Night and Day”, para o qual escreveu uma reportagem em Hollywood sobre o assédio sexual dos magnates da capital do cinema para com Shirley Temple que lhe valeu um processo, a fuga para o México e, finalmente, há quem diga que o trabalho levou à falência da revista. Durante a II Guerra Mundial, entre 1941 a 1943, trabalhou para o governo inglês, um pouco como espião, dirigindo um escritório em Freetown, na Serra Leoa, o que o inspirou para vários romances. Conta-se que foi recrutado para o MI6 por um célebre agente duplo, Kim Philby. Espionagem, intriga internacional, religião, cenários exóticos da América Latina ou da Ásia são alguns dos temas que absorveram este homem controverso que foi considerado um dos maiores romancistas europeus do século XX. Um dos seus primeiros sucessos foi “O Expresso do Oriente” (1932). Mas muitas foram as obras a receber os favores do público, como “O Poder e a Glória” (1940), O Americano Tranquilo” (1955), “O Nosso Homem em Havana” (1958), “Os Comediantes” (1966), “Viagens com a minha Tia” (1969), “O Consulo Honorário” (1973), ou “O Factor Humano” (1978). Quase toda a sua extensa bibliografia, romances, contos, peças de teatro, foi adaptada ao cinema e à televisão. Alguns romances, como “O Terceiro Homem”, foram escritos inicialmente como argumentos de filmes, e depois passados a obras literárias. Apaixonado pelo cinema, aparece como actor segundário num filme de François Truffaut, “La nuit américaine”, rodado em Nice. Acontece que Truffaut só descobriu na sala de montagem quem era o actor que fazia de agente de seguros.  
Os últimos anos da sua vida passou-os na aldeia de Corseaux, na Suiça, junto ao lago Léman. Morreu aí, em 1991, vivendo com Yvonne Cloetta, apesar de nunca se ter divorciado de Vivien Daryell-Browning, de quem estava mais ou menos separado desde finais da II Guerra Mundial.

Bibliografia: The Man Within (1929), The Name of Action (1930), Rumour at Nightfall (1931), Stamboul Train (1932), It's a Battlefield (1934), England Made Me (1935), A Gun for Sale (1936), Journey Without Maps (1936), Brighton Rock (1938), The Confidential Agent (1939), The Power and the Glory (1940), The Ministry of Fear (1943), The Heart of the Matter (1948), The Third Man (1949), The End of the Affair (1951), Twenty-One Stories (1954) (contos), Loser Takes All (1955), The Quiet American (1955), Our Man in Havana (1958), A Burnt-Out Case (1960), A Sense of Reality (1963) (contos), The Comedians (1966), May We Borrow Your Husband? (1967) (contos), Travels with My Aunt (1969), A Sort of Life (1971) (autobiografia), The Honorary Consul (1973), The Human Factor (1978), Doctor Fischer of Geneva (1980), Ways of Escape (1980) (autobiografia), Monsignor Quixote (1982), Getting to Know the General (1984) (memórias do Panamá), The Tenth Man (1985), The Captain and the Enemy (1988), The Last Word (1990) (contos), No Man's Land (2005).

Filmografia (obras de GG adaptadas ao cinema, ou escritas directamente por ele para o cinema): Orient Express, de Paul Martin (1934), The Green Cockatoo, de William Cameron Menzies (1937), 21 Days Together, de Basil Dean (1940), This Gun for Hire, de Frank Tuttle (1942), Went the Day Well?, de Alberto Cavalcanti (1942), Ministry of Fear, de Fritz Lang (1944), Confidential Agent, de Herman Shumlin (1945), The Smugglers, de Bernard Knowles (1947) (segundo "The Man Within"), The Fugitive, de John Ford(1947) (segundo "The Labyrinthine Ways" ou "The Power and The Glory"), Brighton Rock, de John Boulting (1947), The Fallen Idol, de Carol Reed (1948)  (segundo "The Basement Room"), The Third Man, de Carol Reed (1949), The Heart of the Matter, de George More O'Ferrall (1953), La mano dello straniero, de Mario Soldati (1954), The End of the Affair, de Edward Dmytryk (1955),  Die Kraft und die Herrlichkeit, de Rainer Wolffhardt (1957) (segundo "The Power and the Glory"), Saint Joan, de Otto Preminger (1957), Across the Bridge, de Ken Annakin (1957), Short Cut to Hell, de James Cagney (1957) (segundo "A Gun for Sale"), The Quiet American, de Joseph L. Mankiewicz (1958), Verschlossene Räume, de Roger Burckhardt (1958) (segundo "The Living Room"), Our Man in Havana, de Carol Reed (1959), Günes dogmasin, de Halit Refig e Memduh Ün (1961) (segundo "A Gun for Hire"), The Power and the Glory, de Marc Daniels (1961), Der letzte Raum, de Korbinian Köberle  (1966) (segundo "The Living Room"), Pelon talo, de Mikko Majanlahti (1966) (segundo "The Living Room"), The Comedians, de Peter Glendville (1967), Das Herz aller Dinge, de Oswald Döpke (1971) (segundo "The Heart of the Matter"), The Wounded Wolf, de Lutfi Akad (1972) (segundo "A Gun for Hire"), Travels with My Aunt, de George Cukor (1972), The Human Factor, de Otto Preminger (1979), Beyond the Limit, de John Mackenzie (1983) (segundo "The Honorary Consul"), Dr. Fischer of Geneva, de Michael Lindsay-Hogg (1985)( segundo "Dr. Fischer of Geneva: The Bomb Party"), May We Borrow Your Husband?, de Bob Mahoney  (1986), The Tenth Man, de Jack Gold  (1988), Strike It Rich, de James Scott (1990), This Gun for Hire, de Lou Antonio (1991), The End of the Affair, de Neil Jordan (1999), Double Take, de  (2001) (segundo "Across the Bridge"), The Quiet American, de Phillip Noyce (2002), Brighton Rock, de Rowan Joffe (2010).

Entretanto, para lá de várias curtas metragens, muitos programas de televisão se basearam em textos de GG: Studio One in Hollywood (1951), Loser Takes All (1956), Quinta colonna (1966), The Unforeseen (1960), The DuPont Show of the Month (1959), H.M. Tennent Globe Theatre (1956), The Third Man (1959-1965), Thursday Theatre (1965), About Religion (1964), Studio 4 (1962), Play of the Week (1959-1961), Una pistola in vendita (1970), La fine dell'avventura (1969), Shades of Greene (1975-76), El teatro (1974), Noche de teatro (1974), The Heart of the Matter (1983), Estudio 1 (1982), Au théâtre ce soir (1980), The Istambul Train (1980), Great Performances (1987), Primera función (1989), etc.

SESSÃO 7: 18 DE MARÇO DE 2014


BREVE ENCONTRO (1945)

Laura Jesson (Celia Johnson) é uma discreta dona de casa. Vive em Ketchworth, com o marido, um filho e uma filha. Viaja uma vez por semana de comboio a Milford, onde faz compras, troca livros na biblioteca e vai ao cinema. O Dr. Alec Harvey (Trevor Howard) é igualmente casado, tem dois filhos, vive e dá consulta em Churley, e vai semanalmente a Milford substituir um colega no hospital local, onde aproveita para aprofundar os seus conhecimentos especializados sobre pneumologia perante os efeitos de alguns ofícios. São duas vidas recatadas que vivem o seu dia a dia sem sobressaltos. Até que um dia se cruzam na plataforma da estação de Milford. Laura deixou entrar uma cinza para um dos olhos e Alec apresta-se para a livrar do incómodo cisco. Agradecimentos da praxe, um café de circunstância, uma despedida formal. Ela regressa para casa, onde o marido a acolhe como sempre, amável e prestável, passando os serões a resolver problemas de palavras cruzadas. Um beijo de boa noite e o dia que se segue. Igual. Sem sobressaltos. Numa felicidade que dir-se-ia perfeita. Sobretudo para quem não conheceu nunca o sobressalto da paixão. Que, no entanto, passa a habitar os encontros cada vez mais regulares de Laura e Alec, até levar à confissão de um amor e ao desejo da sua concretização, que nunca chega.


A estação de caminhos de ferro de Milford é o cenário central desta história de amor que, desde início, se supõe desencontrada: os seus comboios partem em direcções contrárias, eles sabem que “nenhum deles é livre para amar o outro.” Raras vezes um cenário natural terá tamanha importância na definição dramática de um clima. A passagem dos comboios, o rasto de fumo por eles deixado, a iluminação esconsa, o isolamento das plataformas, os enquadramentos dos planos, em profundidade de campo, o ar intimista e secreto, mas perigoso, do cafezinho da estação, onde a uma mesa do canto se acoitam os apaixonados, segredando impossibilidades de sonhos, tudo isto faz deste “décor” um local de apetecível mistério, refúgio arrojado de impronunciáveis amores, tímido anseio de “inflamadas paixões” que ambos vêem no cinema local, de mãos dadas no escuro do primeiro balcão.
“Nada dura para sempre, nem a felicidade, nem a infelicidade”, sentencia Alec, e o efeito da frase é, neste contexto, ambíguo. Realmente nada dura para sempre, há momentos de escondida sofreguidão que, todavia, se descobrem tolhidos pelo dilema moral que a situação encerra, entre escolher o amor e aceitar a mentira.
Mas o eclodir do amor comporta os seus riscos. A confortável vida familiar, a roçar o entediante, convida à aventura, ao risco, ao proibido. Passear de mãos dadas, à chuva, pelo anoitecer de uma Milford de recantos sombrios é seguramente um risco apetecível. Tanto mais que a fotografia a preto e branco de Robert Krasker é deslumbrante e o concerto para piano nº 2 de  Rachmaninov é uma banda sonora inspirada, que sublinha devidamente as emoções sem as enfatizar em demasia.
O médico sente igualmente o seu entusiasmo a transbordar. Ele só conhecia esta felicidade com o trabalho, com a paixão que o avassala, como o descreve a Laura, numa dessas conversa de café. Ser médico é jogar “com essa paixão, sentir essa vocação, tal como um escritor, um pintor”, Laura compreende o que Alec diz. Ela vive agora esse arrebatamento, esse impulso. Um “flirt” com um estranho rapidamente se transforma nessa vertigem. Mas, em simultâneo, sobe o sentimento de culpa, sofre intimamente da indignidade dos gestos e das falsidades, sente a sordidez de certas situações, sobretudo quando é apanhada em falta no apartamento do colega de Alec, regressado a destempo.


Esta intriga podia derrapar facilmente para o melodrama xaroposo ou para um moralismo puritano intragável, mas o segredo de David Lean é esse mesmo, manter o nível altíssimo, nunca pactuar com a facilidade, nunca ir pelo caminho mais simples. Manter a ambiguidade que permite desenvolver as emoções sem recurso a chavões, o que vai desembocar num final de sublime obscuridade ou clareza, quando o marido vê Laura olhá-lo e este se aproxima dela para lhe dizer: “Estiveste afastada muito tempo. Obrigado por teres voltado para mim”. O adultério não concretizado, mas assumido, levou o filme a ser proibido na Irlanda, à data da estreia, “por mostrar o adultério sob uma perspectiva simpática”. O que não deixa de ser surpreendente por um lado, mas demonstra, por outro, a ambiguidade da proposta.
“Brief Encounter” parte de uma peça teatral de Noel Coward (“Still Life”), adaptada brilhantemente ao cinema por David Lean (e pelo próprio Noel Coward, enquanto um dos responsáveis pelo empreendimento, como produtor), juntamente com Anthony Havelock-Allan, e Ronald Neame. O filme estreia-se em 1945, o que pressupõe um rodagem durante a II Guerra Mundial, com a Inglaterra a sofrer as consequências dos bombardeamentos nazis e as suas tropas a combaterem no continente europeu. O final da obra terá sido pacificador para os soldados que regressam a casa, e encontram as mulheres à sua espera, “eles, que nessa altura regressam para elas”. Mas há um outro aspecto que é interessante sublinhar: a vida quotidiana na Inglaterra desse tempo, que transparece subtilmente durante a visão deste “Breve Encontro”, com a curiosidade de se perceber que, mesmo durante a brutalidade da guerra, a cinematografia inglesa manteve o nível que esta obra testemunha e a fina e complexa sensibilidade que a mesma ostenta. Com interpretações de uma delicadeza extrema, onde Celia Johnson e Trevor Howard sobressaem, mas onde é igualmente de referir o trabalho de Stanley Holloway (Albert Godby) e Joyce Carey (Myrtle Bagot), um casal de divertidos “compères” que enchem de humor os seus diálogos no balcão do café da gare de Milford. 
Creio que muitos filmes se realizaram, posteriormente, tendo “Breve Encontro” como referência. Um deles terá sido possivelmente o magnífico “As Pontes de Madison County”, de Clynt Eastwood.

BREVE ENCONTRO
Título original: Brief Encounter
Realização: David Lean (Inglaterra, 1945); Argumento: Anthony Havelock-Allan, David Lean, Ronald Neame, segundo peça teatral de Noel Coward ("Still Life"); Produção: Noel Coward, Anthony Havelock-Allan, Ronald Neame; Música: Rachmaninov (Concerto para Piano No. 2) (tema musical): Percival Mackey (música adiciona); John Hollingsworth (director musical); Fotografia (p/b): Robert Krasker; Montagem: Jack Harris; Direcção artística: Lawrence P. Williams; Direcção de Produção: Anthony Havelock-Allan, E.J. Holding, Ronald Neame; Assistentes de realização: George Pollock, Victor Wark; Departamento de arte: G.E. Calthrop, William Kellner; Som: Desmond Dew, Stanley Lambourne, Harry Miller; Efeitos especiais: George Blackwell; Efeitos visuais: Charles Staffell; Companhias de produção: Cineguild; Intérpretes: Celia Johnson (Laura Jesson), Trevor Howard (Dr. Alec Harvey), Stanley Holloway (Albert Godby), Joyce Carey (Myrtle Bagot), Cyril Raymond(Fred Jesson), Everley Gregg (Dolly Messiter), Marjorie Mars (Mary Norton), Margaret Barton (Beryl Walters), Wilfred Babbage, Alfie Bass, Wallace Bosco, Sydney Bromley, Nuna Davey, Valentine Dyall, Irene Handl, Dennis Harkin, Edward Hodge, Jack May, Avis Scott, George V. Sheldon, Richard Thomas, Henrietta Vincent, etc. Duração: 86 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal (cinema): 14 de Abril de 1947.

DAVID LEAN (1908-1991)
Nasceu a 25 de Março de 1908, em Croydon, Surrey, Inglaterra, Reino Unido; Faleceu a 16 de Abril de 1991, em Londres. Em 2002, a revista “Sight & Sound”, pertencente ao British Film Institute elegeu o Top dos realizadores mundiais, e David Lean apareceu em nono lugar. Entretanto, numa outra votação, para os “Top 100 British Films”, também organizada pelo British Film Institute, quatro dos seus filmes apareciam entre os onze primeiros. David Lean é um dos autores preferidos de cineastas como Steven Spielberg ou Stanley Kubrick. Recordado por épicos como “The Bridge on the River Kwai” (1957), “Lawrence of Arabia” (1962), “Doctor Zhivago” (1965), ou “A Passage to India” (1984), teve, no entanto, outras obras absolutamente inesquecíveis como as adaptações de Charles Dickens, “Great Expectations” (1946) e “Oliver Twist” (1948), ou a admirável colaboração com Noel Coward nesse sublime drama, “Brief Encounter” (1945).
Filho de Quakers, Francis William le Blount Lean e Helena Tangye, frequentou uma escola dirigida por esta religião, a “Leighton Park School in Reading”. Mas passava todo o tempo livre na cinema e, em 1927, resolveu empregar-se nos estúdios da Gaumont, distribuindo chá e transportando bobines de filmes. Rápido passou a montador e assistente de realização.
Montou dois filmes de Gabriel Pascal, segundo peças de George Bernard Shaw, “Pygmalion” (1938) e “Major Barbara” (1941), assim como obras de Powell & Pressburger, “49th Parallel” (1941) e “One of Our Aircraft Is Missing” (1942), após o que passou a dirigir as suas próprias obras. Na primeira, “In Which We Serve” (1942), colaborou com Noël Coward, a que se seguiram “This Happy Breed” (1944), “Blithe Spirit” (1945) e “Brief Encounter” (1945). A sua relação com o teatro manteve-se: “The Sound Barrier” (1952) foi escrito pelo dramaturgo Terence Rattigan e “Hobson's Choice” (1954) baseava-se numa peça de Harold Brighouse. Depois do sucesso do drama romântico “Summertime” (1955), totalmente rodado em Veneza, David Lean afirma-se nas superproduções épicas, demonstrando um cuidado e uma sensibilidade invulgares neste tipo de películas, o que lhe granjeou excelente reputação. Antes de falecer, em 1991, preparava-se para adaptar ao cinema um romance de Joseph Conrad, “Nostromo”, prevendo um elenco de luxo, Marlon Brando, Paul Scofield, Anthony Quinn, Peter O'Toole, Christopher Lambert, Isabella Rossellini, Dennis Quaid, Alec Guinness e Georges Corraface no protagonista. Trabalhou o guião com Christopher Hampton e Robert Bolt, mas a sua morte impediu a concretização.

Filmografia
Como realizador: 1942: In Which We Serve (Sangue, Suor e Lágrimas); 1944: This Happy Breed (Esta Nobre Raça); 1945: Blithe Spirit (Uma Mulher do Outro Mundo); Brief Encounter (Breve Encontro); 1946: Great Expectations (Grandes Esperanças); 1948: Oliver Twist (As Aventuras de Oliver Twist); 1949: The Passionate Friends (Mais Forte Que o Amor); 1950: Madeleine (Culpada ou Inocente?); 1952: The Sound Barrier; 1954: Hobson's Choice; 1955: Summertime (Loucura em Veneza); 1957: The Bridge on the River Kwai (A Ponte do Rio Kwai); 1962: Lawrence of Arabia (Lawrence da Arábia); 1965: The Greatest Story Ever Told (A Maior História de Todos os Tempos) (algumas cenas, não creditadas); 1965: Doctor Zhivago (Doutor Jivago); 1970: Ryan's Daughter (A Filha de Ryan); 1979: Lost and Found: The Story of Cook's Anchor (TV); 1984: A Passage to India (Passagem para a Índia).

Como assistente de realização: Balaclava, de Maurice Elvey, Milton Rosmer (1928), The Physician, de Georg Jacoby (1928), Sailors Don't Care, de W.P. Kellino (1929), High Treason, de Maurice Elvey (1929); Como montador: The Night Porter, de Sewell Collins (1930).

SESSÃO 6: 11 DE MARÇO DE 21014


HENRIQUE V (1944)

Shakespeare será dos autores ingleses mais adaptados ao cinema. No campo de teatro não haverá outro tão visto e revisto no ecrã. As versões são de todo o género, clássicas e modernas, irreverentes ou fiéis, mas raras possuem a qualidade e o grau de exigência artística deste “Henrique V”, que Laurence Olivier produziu, realizou e interpretou, em 1944.
“The Cronicle History of King Henry the Fift with His Battell Fought at Agincourt in France”, no seu título original, foi adaptado pelo próprio Olivier, de colaboração com Dallas Bower e Alan Dent, e apresenta-se como um projecto grandioso, na concepção plástica, na reconstituição histórica, no envolvimento de massas humanas como figurantes e actores. È conveniente não esquecer que a Inglaterra se encontrava em pleno conflito armado, que os nazis apesar de não terem invadido o território britânico o bombardeavam constantemente, flagelando habitantes e património, e que muito do esforço humano e económico da nação se destinava a combater a Alemanha do III Reich, e os seus comparsas do Eixo. Por isso, reunir meios para produzir esta obra épica, terá sido aventura arrojada, muito embora a própria Inglaterra contemporânea se tenha revisto neste filme onde se exalta a figura de um rei que soube combater fora de portas, precisamente em terra francesa, nas planícies de Azincourt.


Esta gesta gloriosa para as tropas inglesas integra-se no que ficou conhecido pela Guerra dos 100 Anos (que teria alguns mais, mas cuja designação acabaria por arredondar a duração) que opôs ingleses e franceses durante mais de um século. Durante a Idade Média, entre os séculos XIV e XV (mais precisamente entre 1337 e 1453, datas que convencionalmente marcam o início e o fim da contenda), a Inglaterra detinha uma província em terra que os franceses reclamavam como sua. A França lutava pela recuperação de territórios que afirmava seus, a Inglaterra pela manutenção dessa posse. A guerra teve vários períodos, que ora se inclinavam para um lado, ora para o outro, mas o episódio da batalha de Azincourt, que de certa forma fecha o terceiro período, iria fazer pender a vitória para Inglaterra. Na quarta e derradeira etapa, onde se iria destacar a mítica figura de Joana d’Arc, os franceses deram a volta e acabariam por triunfar, expulsando os ingleses e unificando a França tal como a conhecemos. As transformações políticas, sociais e económicas causadas por esta longa e dura guerra iriam mudar o rumo da História e encerrar a Idade Média, dando inicio à Idade Moderna.
Mas o que interessou a William Shakespeare quando escreveu a peça e, posteriormente, a Laurence Oliver, ao rodar o filme durante a II Guerra Mundial, foi mostrar a capacidade heróica dos ingleses, que, em condições adversas, lutando com um diminuto exército de 15000 homens, contra as forças franceses que reuniam 50000, alcançou uma vitória histórica, com pesadíssimas baixas do lado gaulês e diminutas perdas inglesas (fala-se em 10000 mortos de um lado contra 1500 do outro). A batalha aconteceu a 25 de Outubro de 1415, considerado o Dia de São Crispim, o que levou o monarca inglês a inflamar os seus soldados com palavras que o dramaturgo imortalizou: "Aquele que sobreviver a este dia e chegar à velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e dir-lhes-á: "Amanhã é São Crispim". E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: "Recebi estas feridas no dia de São Crispim”.
Dizem os historiadores que Winston Churchill terá ficado muito impressionado com o projecto, terá mesmo facilitado meios e figuração, e terá apreciado muito que este heróico testemunho de um rei guerreiro e afortunado possa ter sido estreado numa altura em que tropas inglesas combatiam de novo em terras francesas, e em que os Aliados desembarcavam na costa da Normandia. Na sua versão original, o filme era dedicado aos “Commandos and Airborne Troops of Great Britain the spirit of whose ancestors it has been humbly attempted to recapture". 


Filme patriótico, portanto, que mostra mais uma vez como o cinema se coloca (e colca, se possível cada vez mais) ao serviço de causas. Muitas vezes fazendo fretes políticos, outras tantas respondendo a encomendas oficiais, mas muitas vezes colocando-se deliberada e conscientemente na defesa de certos ideais em que os autores acreditam. Creio ser este o caso de Laurence Olivier em Inglaterra, como foi o caso de Frank Capra, por exemplo, nos EUA, na defesa da política do New Deal e da entrada dos EUA na II Guerra Mundial, ou o caso, ainda assim menos claro, de Eisenstein, com os seus “Ivan, o Terrível” ou “Alexandre Nevski”, cuja estética em muito terá influenciado a realização de “Henrique V”, sobretudo durante toda a longa sequência da batalha de Azincourt. Mas uma coisa são as intenções, outra, os resultados. Muitas vezes as primeiras são as melhores e os segundos ficam muito aquém. Neste caso, o resultado final é simplesmente brilhante, dada a forma original como a adaptação foi concebida e ainda a qualidade global atingida em todos os aspectos da obra.
O filme assume-se como uma representação no interior do Globe Theatre, por onde arranca a acção. Olivier leva-nos ao longo de uma panorâmica até Stratford-upon-Avon, terra natal do dramaturgo, onde se edificou o seu GlobeTheatre, e aproximamo-nos do palco do teatro, onde se inicia uma representação de “Henrique V”. Um coro sugere aos espectadores que se deixem levar pela imaginação e se transportem para os locais da acção. Essa representação liberta-se de imediato dos limites da cena teatral e expande-se para os imensos cenários naturais onde vai ser filmado todo o filme, que só voltará ao Globe para dar por terminada a performance. Olivier denuncia assim a origem teatral do texto, e mostra ao espectador como se processa esta adaptação de um meio narrativo para outro, o que não deixa de ser, sobretudo se enquadrado na época, um feito digno de registo, pela inteligência, eficácia e originalidade.
Curiosamente, esta foi a primeira adaptação cinematográfica de Shakespeare a obter sucesso crítico e popular. Anteriormente já havia uma considerável lista de adaptações, algumas célebres, como “Taming of the Shrew”, de Sam Taylor, com Mary Pickford e Douglas Fairbanks, datada de 1929, ou  “A Midsummer's Night Dream”, de Max Reinhardt (1935), ou “Romeo and Juliet”, de George Cukor (1936), com Leslie Howard e Norma Shearer, mas todos eles tinham sido consideráveis fracassos de bilheteira.
O próprio Laurence Olivier já tinha protagonizado “As You Like It”, uma realização de Paul Czinner (1936), e haveria de votar a Shakespeare como actor e realizador, quatro anos depois, com “Hamlet”. Com “Henrique V”, porém, o triunfo é total ao nível da bilheteira e da recepção crítica. Laurence Olivier recebe mesmo um Oscar especial pelo “extraordinário feito de trazer para cinema “Henrique V” como actor, realizador e produtor”.


Se o empenho de Olivier como produtor é magnífico, a sua concepção como realizador é notável. Como intérprete, o seu “Henry V” é brilhante. Com ele assinala a sua terceira nomeação para o Oscar de Melhor Actor (depois dos anteriores em “Wuthering Heights”, 1939, e “Rebecca”, 1940), numa invulgar carreira que iria contabilizar, no total, uma dúzia de nomeações e a conquista de três estatuetas. “Henrique V” mereceria ainda nomeações para Melhor Filme e Melhor Música.
Mas o sucesso da obra muito se fica a dever ainda à exuberante fotografia em magnífico Techicolor de Robert Krasker e Jack Hildyard, que se inspiraram nas fabulosas ilustrações do livro de horas conhecido como “Très Riches Heures du Duc de Berry”, bem como a partitura musical de William Walton, rapidamente considerada um clássico neste tipo de trabalho, incorporando elementos de canções folclóricas francesas, como os Chants d'Auvergne, de Joseph Canteloube. Rodado em exteriores na neutral Irlanda, com interiores filmados parcialmente nos Denham Studios, em Buckinghamshire, Inglaterra, iria merecer na altura da sua estreia rasgados elogios, como os que lhe dedicou Pauline Kael, que considerou o filme "a triumph of color, music, spectacle and soaring heroic poetry”. Esta terá sido, pois, a primeira grande adaptação de Shakespeare a resultar plenamente no cinema. Ao longo das décadas seguintes algumas outras nasceram, assinadas por genuínos talentos como Orson Welles ou Kenneth Branagh.

HENRIQUE V
Título original: The Chronicle History of King Henry the Fift with His Battell Fought at Agincourt in France ou Henry V
Realização: Laurence Olivier (Inglaterra, 1944); Argumento: Dallas Bower, Alan Dent, Laurence Olivier, segundo peça teatral de William Shakespeare ("Henry V"); Produção: Dallas Bower, Laurence Olivier, Filippo Del Giudice, Herbert Smith; Música: William Walton; Fotografia (cor): Robert Krasker, Jack Hildyard; Montagem: Reginald Beck; Casting: Irene Howard; Direcção artística: Paul Sheriff; Guarda-roupa:  Roger K. Furse; Maquilhagem: Tony Sforzini, Vivienne Walker;  Assistentes de realização: Vincent Permane, John Paddy Carstairs, Pat MacDonnell; Departamento de arte: E. Lindegaard; Som: John Dennis, Desmond Dew; Efeitos especiais:  W. Percy Day; Efeitos visuais: George Blackwell, W. Percy Day, Henry Harris, Charles Staffell; Companhias de produção: Two Cities Films (A Laurence Olivier Production); Intérpretes: Laurence Olivier (Rei Henrique V), Renee Asherson (Princesa Katherine), Robert Newton (Velho Pistol), Leslie Banks (Coro), Felix Aylmer (Arcebispo de Cantuária), Robert Helpmann (Bispo de Ely), Vernon Greeves (The English Herald), Gerald Case (Conde de Westmoreland), Griffith Jones (Conde de Salisbury), Morland Graham (Sir Thomas Erpingham), Nicholas Hannen (Duque de Exeter), Michael Warre (Duque de Gloucester), Ralph Truman (Mountjoy), Ernest Thesiger (Duque de Berri), Frederick Cooper (Soldado Nym), Roy Emerton (Tenente Bardolph), Freda Jackson (Aia Quickly), George Cole (Rapaz), George Robey (Sir John Falstaff), Harcourt Williams (Rei Carlos VI de França), Russell Thorndike (Duque de Bourbon), Leo Genn (Comissário de Polícia de França), Francis Lister (Duque de Orleans), Max Adrian (Delfim), Jonathan Field  (Mensageiro Francês), Esmond Knight (Fluellen), Michael Shelpy (Gower), John Laurie (Jamy), Niall MacGinnis (MacMorris), Frank Tickle (Governador de Harfleur), Ivy St. Helier (Alice), Janet Burnell (Rainha Isabel de França), Brian Nissen (Court), Arthur Hambling (Bates), Jimmy Hanley (Williams), Ernest Hare (Padre), Valentine Dyall (Duque de Burgundy, etc. Duração: 137 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Novembro de 1945.

LAURENCE OLIVIER (1907–1989)
Laurence Kerr Olivier nasceu a 22 de Maio de 1907, em Dorking, Surrey, Inglaterra, e viria a falecer a 11 de Julho de 1989, com 82 anos, em Steyning, West Sussex, Inglaterra. Casado com Jill Esmond (1930 - 1940) (um filho), Vivien Leigh (1940 - 1961) e Joan Plowright (1961 - 1989) (3 filhos).
Sir Laurence Olivier, Barão Olivier de Brighton, é por muitos considerado o maior actor britânico de sempre. Mas ele foi ainda realizador, encenador, produtor, argumentista, em todas estas categorias galardoado com diversas distinções, Oscars, Globos de Ouro, BAFTAs e Emmys. Agraciado com o título de Sir em 1947, e elevado a Lord, em 1970, pela rainha Elizabeth II, Laurence Olivier, como actor, desdobrou-se em diversos papéis, da comédia ao drama, do filme histórico ao thriller, em todos eles impondo uma personalidade e um brilho só próprios de um talento invulgar.
Filho de um pastor da igreja anglicana, ele estreia-se no palco numa montagem amadora de "Júlio César", aos 10 anos de idade, o que terá marcado a sua paixão por Shakespeare, um autor que cultivou no teatro e no cinema, deixando a sua marca em obras que interpretou, produziu, realizou ou encenou, como "Henrique V" em 1945, "Hamlet" em 1948, "Ricardo III" em 1956 e "Otelo" em 1965.
O seu nome surge em mais de 120 peças de teatro, com representação em Inglaterra, mas também em vários palcos da Europa e dos Estados Unidos. No cinema, integra o elenco de mais de 65 títulos, por vezes de qualidade irregular, mas ia buscar a alguns o capital necessário para investir em obras de características mais pessoais.
Conheceu Vivien Leigh em 1937, durante a montagem de "Hamlet", e casaram em 1940. Tornaram-se rapidamente num casal celebérrimo, estando juntos até 1961. A ligação foi tempestuosa e deu origem aos mais variados boatos, que alguns biógrafos confirmam. Diz-se que ambos eram dados a muitas aventuras extra conjugais, com inúmeras incursões pouco ortodoxas na época. Entre os citados amantes de Olivier fala-se de Noel Coward e Danny Kaye. Em 1946, pela sua contribuição em "Henrique V", recebe um Oscar especial, que sublinha a sua importância como actor, produtor e realizador. Com "Hamlet", arrecada quatro Oscars, para Melhor Filme, Actor, Direcção Artística e Guarda-roupa. Em 1978, recebeu um Oscar especial pelo conjunto da sua obra e pela sua contribuição para a arte cinematográfica.
Morreu com 82 anos, de cancro no estômago, numa altura em que estava casado com a sua terceira mulher, a actriz Joan Plowright. Foi enterrado na Abadia de Westminster. Laurence Olivier é ainda autor de duas obras biográficas, "Confessions of an Actor"e “On Acting”.

Filmografia
Como realizador: 1944: Henry V ou The Chronicle history of King Henry the Fift with his battell at Agincourt in France (Henrique V); 1948: Hamlet (Hamlet), de Laurence Olivier; 1955: Richard III (Ricardo III); 1957: The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista); 1970: Três Irmãs; 1976:  Hindle Wakes (TV)
Como actor, no cinema: 1930: Too Many Crooks, de George King; The Temporary Widow, de Gustav Ucicky; 1931: The Yellow Ticket (O Passaporte Maldito), de Raoul Walsh; Potiphar's Wife, de Maurice Elvey; 1931: Friends and Lovers (Amigos ou Rivais), de Victor Schertzinger; 1932: Westward Passage, de Robert Milton; The Perfect Understanding, de Cyril Gardner; 1933: No Funny Business, de John Stafford e Victor Handbury; 1935: Moscou Nights, de Anthony Asquith; 1936: As you Like it, de Paul Czinner; Conquest of the Air, de Donald Taylow; 1937: Fire Over England (Inglaterra em Chamas), de William K. Howard; 1938: The Divorce of Lady X (O Divórcio de Lady X), de Tim Whelan; Q Planes (Perdeu-se um Bombardeiro), de Tim Whelan; 1939: Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais), de William Wyler; 1940: 21 Days (21 Dias), de Basil Dean; Rebecca (Rebecca), de Alfred Hitchcock; Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito), de Robert Z. Leonard; 1941: Lady Hamilton (A Batalha de Trafalgar), de Alexander Korda; 49th Parallel (Os Invasores), de Michael Powell; 1943: The Demi-Paradise (Metade do Paraíso), de Anthony Asquith; 1944: This Happy Breed (Esta Nobre Raça), de David Lean (narrador, não creditado); 1944: Henry V  ou The Chronicle History of King Henry the Fift with his Battell at Agincourt in France (Henrique V), de Laurence Olivier; 1948: Hamlet (Hamlet), de Laurence Olivier; 1951: The Magic Box, de John Boulting; 1952: Carrie (Entre Duas Lágrimas), de William Wyler; 1953: The Beggar's Opera (A Ópera dos Mendigos), de Peter Brook; 1955: Richard III  (Ricardo III), de Laurence Olivier; 1957: The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista), de Laurence Olivier; 1959: The Devil's Disciple (O Aprendiz do Diabo), de Guy Hamilton; 1960: The Entertainer (O Comediante), de Tony Richardson; Spartacus (Spartacus), de Stanley Kubrick; 1962: Term of Trial (Final de julgamento) de Peter Glenville; 1963: Uncle Vanya (Tio Vânia), de Stuart Burge; 1965: Bunny Lake is Missing (Desapareceu Bunny Lake), de Otto Preminger; Othello (Othello), de Stuart Burge; 1966: Khartoum (Khartoum), de Basil Dearden; 1968: The Shoes of the Fisherman (As Sandálias do Pescador), de Michael Anderson; Romeo and Juliet (Romeu e Julieta), de Franco Zefirelli (narrador, versão inglesa); 1969: What a Lovely War (Viva a Guerra!), de Richard Attenborough; The Dance of Death, de David Giles; Battle of Britain (A Batalha de Inglaterra), de Guy Hamilton; David Copperfield (David Copperfield), de Delbert Mann; 1970: Three Sisters (Três Irmãs), de Laurence Olivier e John Sichel; 1971: Nicholas and Alexandra (Nicolau e Alexandra), de Franklin J. Schaffner; 1972: Sleuth (Sleuth: Autópsia de um Crime), de Joseph L. Mankiewicz; 1973: Lady Caroline Lamb (Lady Caroline Lamb), de Robert Bolt; 1974: The Rehearsal, de Jules Dassin; 1976: Marathon Man (O Homem da Maratona), de John Schlesinger; The Seven-per-cent Solution (O Regresso de Sherlock Holmes), de Herbert Ross; 1977: A Bridge too Far (Uma Ponte Longe Demais), de Richard Attenborough; Jesus de Nazareth, de Franco Zefirelli (cinema); 1978: The Betsy, de Daniel Petrie; The Boys from Brazil (Os Comandos da Morte), de Franklin J. Schaffner; 1979: A Little Romance (Um Pequeno Romance), de George Roy Hill; Dracula (Drácula), de John Badham; 1980: The Jazz Singer (O Cantor de Jazz),  de Richard Fleischer; 1981: Inchon, de Terence Young; Clash of the Titans (Choque de Titãs), de Desmond Davis; 1984: The Bounty (Revolta no Pacífico), de Roger Donaldson; The Jigsaw Man (O Grande Espião), de Terence Young; 1985: Wild Geese II (Gansos Selvagens II), de Peter Hunt; War Requiem, de Derek Jarman; 2004: Sky Captain and the World of Tomorrow (Sky Captain e o Mundo de Amanhã), de Kerry Conran (imagens de arquivo).
Como actor, na televisão: 1958: ITV Play of the Week (série de TV); 1959: The Moon and Sixpence, de Robert Mulligan; 1961: The Power and the Glory (O Poder e a Glória), de Mark Daniels; 1967: NET Playhouse (série de TV) - Uncle Vanya; 1969: David Copperfield, de Delbert Mann; 1969: Male of the Species (Narrador); 1973: The Merchant of Venice, de John Sichel; ITV Saturday Night Theatre (série) - Long Day's Journey Into Night; 1975: Love Among the Ruins (Amor Entre Ruínas), de George Cukor; 1976: Cat on a Hot Tin Roof, de Robert Moore; Professor James Moriarty; Great Performances (série) - The Collection; 1977: Jesus of Nazareth (Jesus de Nazaré), de Franco Zeffirelli (mini-série); Come Back, Little Sheba, de Silvio Narizzano; 1978: Saturday, Sunday, Monday, de Alan Bridges; 1978: Daphne Laureola, de Waris Hussein; 1983: King Lear, de Michael Elliott; Wagner, de Tony Palmer (série); 1981: Reviver o Passado em Brideshead (série); 1983: Mr. Halpern and Mr. Johnson,  de Alvin Rakoff; 1984: A Talent for Murder (Pecados Campestres), de Alvin Rakoff; A Voyage Round My Father, de Alvin Rakoff; The Last Days of Pompeii (Os Últimos Dias de Pompeia), de Peter Hunt; The Ebony Tower de Robert Knights; 1986: Peter the Great (mini-série), de Marvin J. Chomsky; Lost Empires (mini-série), de Alan Grint.


SESSÃO 5: 4 DE MARÇO DE 2014


OITO VIDAS POR UM TÍTULO (1949)

No final da década de 40 e inícios da de 50 do século XX, um dos estúdios ingleses mais célebres, o Ealing Studio, produziu um conjunto de comédias verdadeiramente invulgar, pela qualidade do seu humor, pelas características absolutamente britânicas desse humor, pela excelência da representação (onde sobressaiu Alec Guiness, entre outros). Títulos como “Whisky Galore!” (1949), “Passport to Pimlico” (1949), “Kind Hearts and Coronets” (1949), “The Lavender Hill Mob” (1951), “The Man in the White Suit” (1951), ou “The Ladykillers” (1955) são hoje em dia considerados clássicos indiscutíveis do chamado humor inglês. “Oito Vidas por um Título”, “O Homem do Fato Claro” e “O Quinteto era de Cordas”, sobretudo estes três títulos, são indiscutíveis referências desta época do cinema britânico e, igualmente, do trabalho excepcional de um actor que muitos consideram dos melhores de sempre em todo o mundo, Alec Guiness.
“Oito Vidas por um Título” tem como título original “Kind Hearts and Coronets”, que é uma citação ligeiramente alterada de um poema de um dos mais prestigiados escritores ingleses, Alfred Lord Tennyson. O poema, “Lady Clara Vere de Vere”, surgiu integrado no livro de 1842, “The Lady of Shalott and Other Poems”, e podia ler-se assim: “Trust me, Clara Vere de Vere, / From yon blue heavens above us bent / The gardener Adam and his wife / Smile at the claims of long descent. / Howe’er it be, it seems to me, / ’Tis only noble to be good. / Kind hearts are more than coronets, / And simple faith than Norman blood.” O título da obra de Robert Hamer filia-se, portanto, neste poema de meados do século XIX, uma época vitoriana, onde os contrastes sociais eram imensos, a hipocrisia e a violência constantes.
O filme de Robert Hammer parte de um argumento escrito pelo próprio Robert Hamer, de colaboração com John Dighto, segundo romance de Roy Horniman, “Israel Rank: The Autobiography of a Criminal” (1907), que relatava a vida e as façanhas criminosas de um judeu de ascendência italiana que confessara a autoria de vários crimes cometidos ao longo da vida numa sistemática vingança. O romance conheceu grande sucesso na época, pelo tom cínico e irónico com que relatava as proezas amorais de um herói pouco provável.


O que nos dá o filme: em 1868, na cela de uma prisão londrina, na véspera da sua execução, Louis Mazzani (Dennis Price), duque de Ascoyne, escreve as memórias, remontando a tempos passados quando a mãe se viu privada dos seus direitos de nobreza, como represália familiar por ter casado com um “simples” cantor italiano. Por causa disso, Louis Mazzani jura vingança e procura recuperar o posto nobilitário perdido, para o que precisa de “anular” oito membros da família Ascoyne. A narrativa é sóbria e delicada, contrastando em tudo com o narrado: um a um os vários possíveis pretendentes à sucessão vão sendo afastados do caminho, através de um pouco de veneno, um tiro de caçadeira, um pequeno naufrágio, uma morte natural, um balão atravessado por uma seta, uma explosão, uma colisão marítima, ou mesmo um apetitoso caviar… Há de tudo, um banqueiro, um padre, um capitão da marinha, um militar, uma senhora sufragista, um fotógrafo amador, e o mais espantoso é que os oito representantes da dinastia Ascoyne são todos interpretados brilhantemente por um único actor, Alec Guiness. De início, ele ia apenas interpretar quatro papéis, mas à medida que foi interiorizando a família, acabou por a dominar por completo, com uma mestria invulgar. Guiness era já um actor célebre, mas este filme encarregou-se de projectar o seu talento, colocando-o entre os melhores actores do mundo. Diga-se que o filme conta ainda com duas outras representações dignas de referência, Dennis Price, no cínico e eficaz serial killer dos Ascoynes, e a belíssima Joan Greenwood, na figura da jovem Sibella, uma notável presença, senhora de uma voz absolutamente inesquecível. 
Situando-se num período vitoriano, com a burguesia em ascensão, que se estabelecia como "middle class", limitada a norte pela "upper class", constituída por uma aristocracia em decadência, mas ainda vigorosa e a ocupar lentamente os lugares da alta finança e da governação, esta comédia de humor negro, mas de delicado e elegante humor (o que o torna ainda mais negro), é um retrato curioso dessa época. A família Ascoyne é um bom exemplo dessa aristocracia que domina, mas que se autodestrói pela ganância e pelos jogos de influência e de poder. Tudo com uma fleuma e uma discrição próprias da reserva britânica, ou não fosse o “humor negro” uma das características mais constantes da cultura inglesa.
Todos estes pormenores são descritos por Louis Mazzani que os fixa numas “memórias” que pretende deixar para a posteridade. Espera-o a forca, na manhã seguinte, depois de ter sido acusado e sentenciado (injustamente, neste caso) pelo assassinato de alguém que ele efectivamente não tinha morto. Quando o seu final de aproxima, ocorre o imprevisto, e quando este o coloca à porta da cadeia, uma nova reviravolta se anuncia. A ironia nunca se afasta desta obra que se torna de tal forma incómoda que nos EUA foi censurada, tendo-lhe sido amputados cerca de seis minutos e alterado o final (a ambiguidade do final inglês foi reduzida a um final mais politicamente correcto).


Claro que este filme, e seguramente a obra de Roy Horniman que lhe está na base, devem muito a “O Assassinato Considerado como uma das Belas-Artes”, de Thomas de Quincey, aparecido em livro em 1854, depois de ter surgido no “Blackwood's Magazine” em 1827, depois em 1839, acompanhado de uma continuação, e finalmente em volume, com um importante desenvolvimento dedicado aos crimes de John Williams. Essa visão do assassinato como uma “arte”, mais precisamente uma das “Belas-Artes”, reflecte esse humor muito próprio dos ingleses, e que este filme tão bem exemplifica (tal como outras obras de autores tão diversos de Hitchcock aos Monty Python). Diga-se, concluindo, que o título francês, “Noblesse Oblige”, se sente muito mais apropriado do que o português “Oito Vidas por um Título”, demasiado prosaico e pragmático para traduzir correctamente o espírito desta comédia brilhante.
Não só no plano do assassinato o filme se mostra um tanto ou quanto iconoclasta. Na verdade, em 1949, o adultério não era actividade muito vista no cinema, e nunca antes o fora mostrado numa das inúmeras películas produzidas pelos Ealing Studio, então dirigidos por Michael Balcon. Foi, pois, com alvoroço que o produtor viu o filme depois de rodado, descobrindo que Louis Mazzani, além de assassino, era igualmente um obstinado adúltero que mantinha com Sibella uma relação carnal (apenas sugerida no filme, mas sugerida de forma muito persuasiva e intensa) para lá do casamento desta com um amigo. Balcon ainda tentou remediar as coisas, mas Hamer era um realizador difícil de dobrar e manteve o filme intocável nesse aspecto.
A belíssima fotografia a preto e branco de Douglas Slocombe, a direcção artística de William Kellner, e a área “Il mio Tesoro”, da ópera “Don Giovanni”, de Mozart, são outros tantos motivos que levaram os inqueridos do British Film Institute, em 1999, a colocar “Kind Hearts and Coronets” em sexto lugar, entre os melhores filmes de sempre da cinematografia inglesa. 


OITO VIDAS POR UM TÍTULO
Título original: Kind Hearts and Coronets
Realização: Robert Hamer (Inglaterra, 1949); Argumento: Robert Hamer, John Dighto, segundo romance de Roy Horniman; Produção: Michael Balcon, Michael Relph; Música: Ernest Irving; Fotografia (p/b): Douglas Slocombe; Montagem: Peter Tanner; Direcção artística: William Kellner; Guarda-roupa: Anthony Mendleson; Maquilhagem: Barbara Barnard, Harry Frampton, Pearl Orton, Ernest Taylor; Direcção de produção: Leigh Aman, Hal Mason; Assistente de realização: Norman Priggen, John Hewlett, David W. Orton; Departamento de arte: Grace Bryan-Brown, Norman Dorme, Roger Hopkin, Jack Shampan, V. Shaw, R. Thurgarland; Som: Stephen Dalby, John W. Mitchell, Norman King; Efeitos especiais: Geoffrey Dickinson, Sydney Pearson; Companhia de produção: Ealing Studios (An Ealing Studios Production); Intérpretes: Dennis Price (Louis), Valerie Hobson (Edith), Joan Greenwood (Sibella), Alec Guinness (a familia D'Ascoyne: o duque / o banqueiro / o padre / o general / o almiranto carrasco), Clive Morton (Governador da prisão), John Penrose (Lionel), Cecil Ramage, Hugh Griffith (Lord High Steward), John Salew (Mr. Perkins), Eric Messiter (Burgoyne), Lyn Evans, Barbara Leake, Peggy Ann Clifford, Anne Valery, Arthur Lowe, Stanley Beard, Maxwell Foster, Peter Gawthorne, Molly Hamley-Clifford, Leslie Handford, Nicholas Hill, Fletcher Lightfoot, Cavan Malone, Laurence Naismith, Gordon Phillott, Jeremy Spenser, Ivan Staff, Richard Wattis, Carol White, Harold Young, etc. Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 29 de Junho de 1950.

ROBERT HAMER (1911-1963)
Robert James Hamer nasceu a 31 de Março de 1911, em Kidderminster, Worcestershire, Inglaterra, e veio a falecer, de pneumonia, a 4 de Dezembro de 1963, em Londres, Inglaterra. Filho do actor Gerald Hamer (1886-1972), estudou na Universidade de Cambridge, começando a escrever poesia, alguma dela publicada na colecção “Contemporaries and Their Maker”. Iniciou a sua actividade no cinema nos estúdios da London Films, em 1934, onde trabalhou como assistente e montador (nomeadamente no filme de Alfred Hitchcock, “A Pousada da Jamaica”, em 1939). Em 1941 passou para os Ealing Studio, onde desempenhou funções de argumentista e produtor associado, tendo-se estreado como realizador numa obra colectiva, “A Dança da Morte”, onde assinou o episódio "The Haunted Mirror" (1945). Dirigiu Alec Guiness nalgumas obras particularmente interessantes, nas quais há a destacar “Oito Vidas por Um Título” (1949), uma das obras-primas da comédia inglesa deste período. Outros títulos a merecer referência são “O Padre Brown Detective” (1954), segundo G.K. Chesterton, “Amor à Inglesa... em Paris” (1955) ou “O Outro Eu” (1959), segundo Daphne Du Maurier. Alcoólico e homossexual, morreu precocemente em Londres, em 1963, vítima de pneumonia.

Filmografia:
Como realizador
1943: San Demetrio (não creditado); 1945: Dead of Night (A Dança da Morte) (episódio "The Haunted Mirror"); 1946: Pink String and Sealing Wax; 1947: The Loves of Joanna Godden (não creditado, assinado por Charles Frend); It Always Rains on Sunday; 1949: The Spider and the Fly (A Aranha e a Mosca); Kind Hearts and Coronets (Oito Vidas por Um Título); 1952: The Long Memory (A Hora da Vingança); His Excellency; 1954: Father Brown (O Padre Brown Detective); 1955: To Paris with Love (Amor à Inglesa... em Paris); ITV Play of the Week (série de TV) (2 episódios: The Green of the Year e A Month in the Country; 1959: The Scapegoat (O Outro Eu); 1960: School for Scoundrels or How to Win Without Actually Cheating!.

JOAN GREENWOOD (1921-1987)
Joan Greenwood nasceu a 4 de Março de 1921, em Chelsea, Londres, e viria a falecer a 27 de Fevereiro de 1987, com 65 anos, vítima de ataque de coração. Filha de um famoso artista plástico, Sydney Earnshaw Greenwood (1887-1949), começou por se interessar por dança, e depois entrou para a Academia Real de Arte Dramática, de Londres. Aos 18 anos já interpretava Molière, no Apollo Theatre. Leslie Howard, actor e encenador, além de por vezes realizador, reparou no seu talento e ofereceu-lhe um papel num dos seus primeiros filmes, em 1943. Continuou a dividir a sua actividade entre o teatro e o cinema, onde foi interpretando um conjunto de obras de grande qualidade, onde o seu trabalho (e a sua voz, rouca e sensual) a tornou uma das mais populares actrizes inglesas dessa época. Durante a II Guerra Mundial associou-se ao movimento "Entertainments National Service Association", criado em 1939 pelo realizador Basil Dean e pelo actor Leslie Henson, viajando ao longo de Inglaterra, com espectáculos. Interpretou grandes clássicos no teatro, na companhia de Donald Wolfit, como George Bernard Shaw, Shakespeare ou Ibsen. A partir da década de 50 começou a ser particularmente requisitada pela televisão, em séries e teledramáticos, muitos deles inspirados em obras literárias. As suas interpretações mais celebradas terão sido, porém, as que ofereceu em comédias dos Ealing Studio, como “Kind Hearts and Coronets” (Oito Vidas por Um Título), de Robert Hamer, ou “Whisky Galore!” ou “The Man in the White Suit” (O Homem do Fato Claro), ambas de Alexander Mackendrick. Casada com André Morell (1960–1978).

Filmografia
Como actriz
Cinema: 1941: My Wife's Family, de Walter C. Mycroft; He Found a Star, de John Paddy Carstairs; 1943: The Gentle Sex (Mulheres, Irmãs e Noivas), de Leslie Howard e Maurice Elvey; 1946: Latin Quarter, de Vernon Sewell; They Knew Mr. Knight, de Norman Walker; A Girl in a Million, de Francis Searle; 1947: The October Man, de Roy Ward Baker; The Man Within (O Fantasma da Floresta), de Bernard Knowles; The White Unicorn (Almas Perdidas), de Bernard Knowles; 1948: Saraband for Dead Lovers (Uma Mulher e um Trono), de Basil Dearden; 1949: The Bad Lord Byron (Lorde Byron, Poeta e Aventureiro), de David MacDonald; Kind Hearts and Coronets (Oito Vidas por Um Título), de Robert Hamer; Whisky Galore!, de Alexander Mackendrick; 1951: Flesh & Blood, de Anthony Kimmins; The Man in the White Suit (O Homem do Fato Claro), de Alexander Mackendrick; Le Passe-Muraille (O Passa-Paredes), de Jean Boyer ; Young Wives' Tale, de Henry Cass; 1952: The Importance of Being Earnest (A Importância de se Chamar Ernesto), de Anthony Asquith; 1953: Monsieur Ripois (O Grande Conquistador), de René Clément; 1954: Father Brown (O Padre Brown Detective), de Robert Hamer; 1955: Moonfleet (O Tesouro do Barba Ruiva), de Fritz Lang; 1958: Stage Struck (Lágrimas da Ribalta), de Sidney Lumet; 1959: Hest på sommerferie, de Astrid Henning-Jensen (curta-metragem, voz); 1961: Mysterious Island, de Cy Endfield; 1962: The Amorous Prawn, de Anthony Kimmins; 1963: Tom Jones (Tom Jones, Romântico e Aventureiro), de Tony Richardson; 1964: The Moon-Spinners, de James Neilson; 1968: Barbarella (Barbarela), de Roger Vadim; 1971: Girl Stroke Boy, de Bob Kellett; 1977: The Uncanny, de Denis Héroux; 1978: The Water Babies (Os Bebés da Água), de Lionel Jeffries; 1978: The Hound of the Baskervilles (Sherlock Holmes em Apuros), de Paul Morrissey.

Televisão: 1939: Little Ladyship; 1952: BBC Sunday-Night Theatre (The Truth About the Truth); 1954: The Philco Television Playhouse (The King and Mrs. Candle); 1955: Producers' Showcase; 1956: Man and Superman; Armchair Theatre (Tears in the Wind); 1957: Armchair Theatre (Ann Veronica); 1958: Target (Turmoil); 1959: After Hours; 1963: Steam, Sanctity and Song (narradora); 1966: Danger Man (The Paper Chase); ITV Play of the Week; 1967: The Wednesday Play; 1968: The Jazz Age (Winner Take All); 1970: The Main Chance; It's Tommy Cooper; 1978: Shadows (The Rose of Puddle Fratrum); 1979: Love Among the Artists (Successes and Surrenders e Dilemmas and Decisions); 1980: Wainwright's Law; 1981: Tales of the Unexpected (Bosom Friends); Play for Today  (Country); Bognor; 1982-1983: Triangle; 1983: Wagner; 1984: Strangers and Brothers; One by One; Ellis Island; 1985: Past Caring; Girls on Top; 1987: Great Performances (Melba); Agatha Christie's Miss Marple (At Bertram's Hotel); 1988: Great Performances