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segunda-feira, 2 de junho de 2014

SESSÃO 21: 18 DE JUNHO DE 2014


OS INOCENTES (1961)

Sou um apaixonado por filmes fantásticos que vive muito decepcionado com o que nos reservam hoje o fantástico, o terror, o horror. O gore impera, as facadas, o sangue a escorrer, as tripas de fora, e nada de sugestões, tudo à mostra para ninguém ter que imaginar o que quer que seja. Ora um bom filme fantástico, ou excelente filme de terror não precisa de muita coisa, apenas de responsáveis inteligentes e talentosos. Quem viu “A Casa Maldita”, de Robert Wise, ou “Os Inocentes”, de Jack Clayton, percebe certamente ao que me refiro. Um bom filme deste género vive, sobretudo, de atmosferas, de climas, do que se não vê mas se intui, do silêncio perturbador, do ruído que inquieta, da presença que está mas não está, e que provoca aquele mal-estar no estômago que fazia com que eu, quando era jovem, e vinha para casa à noite, depois de um filme desses, visse todas as sombras a agigantarem-se, todos os ruídos a transformarem-se em pesadelos, e o melhor era mesmo correr para junto dos pais. Falo de quando era jovem, porque não fica bem falar de quando se é adulto e se sente as mesmas angústias.
“Os Inocentes” é seguramente uma obra-prima do cinema fantástico, retirado de uma obra-prima da literatura das sombras, esse fabuloso “The Turn of the Screw”, de Henry James, que o dramaturgo William Archibald adaptou a teatro (1950, Broadway), e que o mesmo, com a colaboração de Truman Capote (nos diálogos adicionais) e John Mortimer, colocou em cinema para o inspirado Jack Clayton dirigir magistralmente, com um elenco de quatro ou cinco actores, entre os quais a magnifica Deborah Kerr, e duas criancinhas, Martin Stephens e Pamela Franklin, de fazer arrepiar os cabelos.

“The Innocents” data de 1961 e traz a assinatura do mesmo cineasta que dirigiu “Room at the Top” que muitos colocam ao lado das obras iniciais do “Free Cinema”. Haverá quem possa pensar “que obras tão distantes, na concepção e nas intenções!” Um é de um realismo social e de uma provocante sensualidade, e o outro uma incursão pelo fantástico com o seu quê de análise de um puritanismo feroz. Pois não há nada de mais coerente e um parece ser o prolongamento do outro, ainda que em níveis diferentes. Um olhado de fora para dentro, o outro de dentro para fora.
Estamos no século XIX, numa Inglaterra vitoriana, e o filme começou com Miss Giddens (Deborah Kerr) a ser recebida por um tio (Michael Redgrave) de duas crianças, que procura uma ama para tomar conta dos miúdos que se encontram numa casa apalaçada, na província rural do Condado de Bly, lá para o interior da Grã-Bretanha. O tio é de um egoísmo extremo, mas também de uma honestidade frontal, vive em Londres, tem a sua vida e não está para se preocupar com Miles e Flora, dois jovens órfãos, que herdou, que quer ver bem tratados, mas que não quer ver por perto. Tem mais que fazer. O tio é um nobre muito british, endinheirado e bem-apessoado, que Miss Giddens acha obviamente atraente. A anterior ama, Jessel de seu nome, morrera e a senhora Giddens vai ocupar o seu lugar.

Mal chega à propriedade, percebe que a vasta casa é dirigida por uma governanta, Miss Grose, que mantém ainda um ou dois criados, e aí vive apenas a pequena Flora, dado que o irmão desta, Miles, se encontra interno num colégio. Mas Flora avisa logo que o irmão está a regressar pois foi expulso do internato. Pouco depois, este aparece e começam a acontecer coisas estranhas naquela casa. Pelo menos assim o diz Miss Giddens, que se convence que a anterior Miss Jessel e um outro antigo criado da casa, Peter Quint, mantinham relações de muito duvidosa moral, para lá de ambos terem igualmente morrido em circunstâncias estranhas. Este casal de fantasmas começa a assolar os sonhos de Giddens e esta descobre que as crianças estão possuídas pelas almas danadas daqueles pecadores que estão a destruir a pureza dos dois anjinhos. Ou será que a traumatizada Miss Giddens projecta nas criancinhas as suas frustrações e medos?
Existe terror naquela casa, existe pecado a escorrer por aquelas paredes antigas, ou tudo não passa de uma visão interior da amargurada Miss Giddens, que não tendo alguém como o sedutor e snob tio para tratar de si, começa a imaginar pecado e vício um pouco por todo o lado? As aparições de Jessel e Peter Quint são reais ou apenas existem na imaginação doentia da perturbada ama? O que é mais intrigante no filme é essa incerteza latente que oscila entre uma história de fantasmas ou um conflito freudiano de uma sexualidade mal resolvida.

Rodado numa magnífica mansão gótica localizada em Parque Sheffield, East Sussex, fotografado de forma notável por Freddie Francis, que retira do preto e branco uma tonalidade de cinzentos impressionante e que ilumina as imagens de forma deslumbrante, enquadrando-as primorosamente e logrando uma profundidade de campo invulgar, “Os Inocentes” conta ainda com uma banda sonora de efeito surpreendente, que coloca a obra entre os melhores momentos da história do cinema de terror de todos os tempos. Digo-o eu e diz Martin Scorsese, que coloca o título entre os 10 melhores de sempre no género, segundo o seu critério.
"O Willow Waly", a canção infantil ouvida ao longo do filme, foi escrita por Georges Auric e Paul Dehn, e é cantada por Isla Cameron. Mais tarde serviria de inspiração a Kate Bush, para o tema "The Infant Kiss", canção do álbum “Never for Ever” (1980).

OS INOCENTES
Título original: The Innocents
Realização: Jack Clayton (Inglaterra, EUA, 1961); Argumento: John Mortimer, William Archibald, Truman Capote, segundo romance de Henry James ("The Turn of the Screw"); Produção: Jack Clayton, Albert Fennell; Música: Georges Auric; Fotografia (p/b): Freddie Francis; Montagem: Jim Clark; Direcção artística: Wilfred Shingleton; Guarda-roupa:  Sophie Devine; Maquilhagem: Gordon Bond, Harold Fletcher; Direcção de Produção: James H. Ware, Claude Watson; Assistentes de realização: Michael Birkett, Ken Softley, Claude Watson; Departamento de arte: Peter James; Som: Buster Ambler, John Cox, Peter Musgrave, Ken Ritchie; Companhias de produção: Achilles, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Deborah Kerr (Miss Giddens), Peter Wyngarde (Peter Quint), Megs Jenkins (Mrs. Grose), Michael Redgrave (o tio), Martin Stephens (Miles), Pamela Franklin (Flora), Clytie Jessop (Miss Jessel), Isla Cameron (Anna), Eric Woodburn, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo; Classificação etária: M/ 12 anos.

HENRY JAMES (1843–1916)
Henry James nasceu em Nova Iorque, a 15 de Abril de 1843, vindo a falecer em Londres, a 28 de Fevereiro de 1916. Filho do teólogo Henry James Senior, um homem culto, filósofo, que fazia questão que os filhos recebessem uma boa educação. Viajou com a família para a Europa, em 1855, quando Henry tinha 12 anos, e durante três anos percorreram Inglaterra, Suíça e França, visitando museus, bibliotecas e teatros. Regressaram aos EUA em 1858, para voltarem de novo a Genebra e Bona no ano seguinte. Em 1860, já estavam de volta a Newport, onde Henry e William James, o irmão mais velho que se tornaria psicólogo e filósofo, estudaram com o pintor William Morris Hunt. Henry estudou direito em Harvard, em 1862. Mais interessado na leitura de Balzac, Hawthorne e George Sand e nas relações com intelectuais como Charles Eliot Norton e William Dean Howels, abandonou o curso para se dedicar à literatura. No início de 1869, foi a Inglaterra, Suíça, Itália e França, países que lhe forneceriam uma grande quantidade de material para suas obras. Regressou a Cambridge em 1875. Viveu um ano em Paris, onde conheceu o círculo de Flaubert (Daudet, Maupassant, Zola) e, em 1876, fixou-se em Londres, onde escreveu a maior parte de sua extensa obra. A carreira literária de Henry James teve três etapas. A primeira foi na década de 1870, com "Roderick Hudson" (1876), "The American" (1877) e "Daisy Miller" (1879) e culminou com a publicação de "Retrato de Uma Senhora", em 1881, cujo tema é o confronto entre o novo mundo com os valores do velho continente. Na segunda etapa, James experimentou diversos temas e formas. De 1885 até 1890, escreveu três novelas de conteúdo político e social, "The Bostonians" (1886), "The Princess Casamassima" (1886) e "The Tragic Muse" (1889), histórias sobre reformadores e revolucionários que revelam a influência da corrente naturalista. Entre 1890 e 1895, "os anos dramáticos", James escreveu sete obras de teatro, das quais duas foram encenadas, com pouco êxito. James voltou à narrativa com "A Morte do Leão" (1894), "The Coxon Fund" (1894), "The Next Time" (1895), "What Maisie Knew" (1897) e " The Turn of the Screw " (1898). "The Beast in the Jungle" (1903), "The Great Good Place" (1900) e "The Jolly Corner" (1909) fazem parte da última etapa do trabalho de James, considerada por muitos como a mais importante, quando o autor explora o complexo funcionamento da consciência humana. A prosa torna-se mais densa, com uma sintaxe mais intrincada. Essas características definem as três grandes obras dessa etapa final, " The Wings of the Dove " (1902), " The Ambassadors " (1903) e " The Golden Bowl " (1904).
Além dos romances, contos, peças de teatro, deixou inúmeros ensaios sobre viagens, críticas literárias, cartas, e três obras autobiográficas. Os últimos anos da sua vida transcorreram em absoluto isolamento, na sua casa, que só deixou em 1904 para regressar momentaneamente aos Estados Unidos, depois de vinte anos de ausência. Em 1915, durante a I Guerra Mundial, Henry James adoptou a cidadania britânica. Morreu aos 72 anos, pouco depois de receber a Ordem do Mérito Britânica.

Obras de Henry James: Romances: “Watch and Ward” (1871), “Roderick Hudson” (1875), “The American” (1877), “The Europeans” (1878), “Confidence” (1879), “Washington Square” (1880), “The Portrait of a Lady” (1881), “The Bostonians” (1886), “The Princess Casamassima” (1886), “The Reverberator” (1888), “The Tragic Muse” (1890), “The Other House” (1896), “The Spoils of Poynton” (1897), “What Maisie Knew” (1897), “The Awkward Age” (1899), “The Sacred Fount” (1901), “The Wings of the Dove” (1902), “The Ambassadors” (1903), “The Golden Bowl” (1904), “The Whole Family” (1908), “The Outcry” (1911), “The Ivory Tower” (1917), “The Sense of the Past” (1917);
Novelas: “Daisy Miller” (1878), “The Aspern Papers” (1888), “The Turn of the Screw” (1898), “The Beast in the Jungle” (1903)
Peças de Teatro: “Theatricals” (1894), “Theatricals: Second Series” (1895), “Guy Domville” (1895);
Ensaio: “French Poets and Novelists” (1878), “Hawthorne” (1879), “A Little Tour in France” (1884), “Partial Portraits” (1888), “Essays in London and Elsewhere” (1893), “Picture and Text” (1893), “William Wetmore Story and His Friends” (1903), “English Hours” (1905), “The American Scene” (1907), “Italian Hours” (1909), “A Small Boy and Others” (1913), “Notes on Novelists” (1914), “Notes of a Son and Brother” (1914), “Notebooks The Middle Years” (1917).


Adaptações cinematográficas de obras de Henry James (selecção das mais importantes): 1933: “Berkeley Square”, de Frank Lloyd; 1947: “The Lost Moment”, de Martin Gabel;1949: “The Heiress”, de William Wyler; 1961: “The Innocents”, de Jack Clayton; 1965: “La Redevance du Fantôme”, de Robert Enrico; 1971: “The Nightcomers”, de Michaël Winner; 1974: “Daisy Miller”, de Peter Bogdanovich; “Le Tour d'Écrou”, de Raymond Rouleau; 1976: “Le Banc de la Désolation”, de Claude Chabrol; “De Grey”, de Claude Chabrol, “L'Auteur de Beltraffio”, de Tony Scott; “Les Raisons de Georgina”, de Volker Schlöndorff; 1978: “La Chambre Verte”, de François Truffaut; “The Europeans”, de James Ivory; 1981: “Les Ailes de la Colombe”, de Benoît Jacquot; 1982: “Aspern”, de Eduardo de Gregorio; 1984: “The Bostonians”,  de James Ivory; 1996: “The Portrait of a Lady”, de Jane Campion; “L'Élève”, de Olivier Schatzky; 1997: “Washington Square, de Agnieszka Holland; “Les Ailes de la Colombe”, de Iain Softley; 2000: “The Golden Bowl”, de James Ivory; 2012: “What Maisie Knew, de Scott McGehee e David Siegel.

SESSÃO 20: 17 DE JUNHO DE 2014


UMA GOTA DE MEL (1961)

“A Taste of Honey”, filme de 1961, assinado por Tony Richardson, adapta uma peça teatral das mais célebres entre as que saíram do movimento dos “Angry Young Men”. Apesar da designação do movimento, Shelagh Delaney é uma mulher que escreveu esta peça quando tinha apenas 18 anos, tendo a mesma sido estreada em 1958, com enorme sucesso.
A peça e o filme passam-se em Salford, Lancashire, terra natal da dramaturga, e chama a primeiro plano um grupo de personagens nada habitual de se ver no cinema inglês dos anos anteriores. Jo (Rita Tushingham) é uma jovem estudante, sem pai que se veja e a viver com uma mãe (Dora Bryan) que a deixa à solta e se vai entretendo com alguns homens que a convencem que não está a envelhecer. Entre eles, Peter Smith (Robert Stephens), que acaba mesmo por casar com Helen, o que deixa a filha desta ainda mais à deriva. Depois de uma história de uma noite, com um marinheiro de cor, Jo engravida, e só encontra conforto na companhia de Geoffrey Ingham (Murray Melvin), um jovem homossexual, delicado e sensível, que a acolhe e acarinha.
Esta sucinta resenha permite desde logo mostrar a originalidade e a novidade, algo provocadora, de “Uma Gota de Mel”. Famílias que hoje em dia se diriam disfuncionais, mães e pais separados, filhas deixadas ao Deus dará, relações sexuais pré-matrimoniais, gravidez solteira, abordagem do tema do aborto, homossexualidade, enfim… um verdadeiro relatório de temas tabus. De atmosferas sociais que se diriam pouco apetecíveis em cinema, de personagens proibidas e, sobretudo, uma abordagem sem artificialismo, desencantada, para não se dizer mesmo desesperada. Estas figuras evoluem por cenários totalmente desromantizados, a juventude não é observada como um tempo de esperança e de futuro, o amor quando existe é preconceituosamente olhado de revés, a candura e a inocência são maltratadas, o calculismo pragmático parece tomar conta das relações dos adultos… Este não é um universo apetecível e, todavia, Tony Richardson apresenta-no-lo com uma sinceridade e autenticidade tocantes. Filmes como estes rasgam uma cortina perante os olhos dos espectadores ingleses (e mundiais), revelando realidades escondidas, personagens esquecidas, rostos banais, mas de uma formosura inatacável. Rita Tushingham, por exemplo, é uma revelação espantosa, sem a beleza arquétipa das “actrizes de cinema”, ela é uma rapariga retirada da rua, sem retoque nem maquilhagem, mas densa, difícil de arquivar num estereótipo tradicional, multifacetada, viva. O mesmo se pode dizer de Murray Melvin, que compõe um dos mais apaixonantes retratos de homossexuais de toda a história do cinema, jogando com um rigor e uma austeridade de processos invulgares.
Esta evocação dos anos 60 em Lancashire, nas margens do rio Irwell, é mais uma aprendizagem da vida, a dolorosa entrada na maturidade, com tudo o que isso representa de dor e de desilusão, mas igualmente com a descoberta de algumas alegrias. “A Taste Of Honey” é, por outro lado, um típico exemplo do “kitchen sink drama” que chama a atenção para vidas marginalizadas, complexas, bastante afastadas dos dramas habituais da burguesia bem instalada na vida.

UMA GOTA DE MEL
Título original: A Taste of Honey
Realização: Tony Richardson (Inglaterra, 1961); Argumento: Tony Richardson, Shelagh Delaney, segundo peça teatral desta última; Produção: Tony Richardson; Música: John Addison; Fotografia (p/b): Walter Lassally; Montagem: Antony Gibbs; Direcção artística: Ralph W. Brinton; Guarda-roupa: Sophie Devine, Barbara Gillett; Maquilhagem: George Frost, Bill Griffiths; Direcção de Produção: Leigh Aman, Roy Millichip; Assistentes de realização: Peter Yates; Departamento de arte: Ted Marshall;  Som: Don Challis, Roy Hyde, Charles Poulton; Companhia de produção: Woodfall Film Productions; Intérpretes: Dora Bryan (Helen), Robert Stephens (Peter Smith), Rita Tushingham (Jo), Murray Melvin (Geoffrey Ingham), Paul Danquah (Jimmy), Michael Bilton, Eunice Black, David Boliver, Margo Cunningham, A. Goodman. John Harrison, Veronica Howard, Moira Kaye, Graham Roberts, Valerie Scarden, Rosalie Scase, Herbert Smith, Jack Yarker, Hazel Blears, Linda Lewis, Janet Rugg, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Edivisa; Classificação etária: M/ 12 anos.

RITA TUSHINGHAM (1942 - )
Rita Tushingham nasceu a 14 de Março de 1942, em Garston, Liverpool, Lancashire, Inglaterra. Estudou numa escola religiosa, La Sagesse, em Liverpool, cidade onde haveria de se estrear no teatro, na Liverpool Playhouse. Já como profissional apareceu em inúmeras peças de teatro durante a década de 60, na English Stage Company, no Royal Court Theatre: “The Changeling” (1961), “The Kitchen” (1961), “A Midsummer Night's Dream” (1962), “Twelfth Night” (1962), ou “The Knack” (1962). Descoberta por Tony Richardson, que a estreou no cinema, em “A Taste of Honey”, em 1961, uma adaptação da peça teatral de Shelagh Delaney, uma das mais características do “kitchen sink drama”. Esta obra ganharia diversos prémios nos British Film Awards, entre os quais o de Melhor Actriz Revelação. Tushingham tornou-se rapidamente um dos símbolos do “Free Cinema” e lançar-se-ia numa carreira que reuniu títulos marcantes: “Girl with Green Eyes” (1963), “The Leather Boys” (1964),”The Knack …and How to Get It” (1965), “Doctor Zhivago” (1965), “The Trap” (1966), “Smashing Time” (1967), “The Bed Sitting Room” (1969) ou “The 'Human' Factor” (1975), “Being Julia” (2004).
Casada com o fotógrafo Terry Bicknell (1962 - ?), de quem teve duas filhas, Dodonna Bicknell e Aisha Bicknell. Esta última esteve muito doente com cancro, em 2005, quando tinha 33 anos, mas salvou-se, o que levou mãe e filha a participarem, a partir daí, em campanhas de sensibilização sobre o cancro, tornando-se activistas. Divorciada, casaria com o director de fotografia iraquiano Ousama Rawi (? - 1996), indo viver para o Canadá durante uma longa temporada. Em finais dos anos 90, passou a dividir-se entre Londres e a Alemanha, onde vive com o escritor Hans-Heinrich Ziemann.

Filmografia
Como actriz
1961: A Taste of Honey (Uma Gota de Mel), de Tony Richardson; 1963: A Place to Go, de Basil Dearden; 1964: The Leather Boys, de Sidney J. Furie; Girl with Green Eyes, de Desmond Davis; The Human Jungle (TV); 1965: The Knack ...and How to Get It (Lições de Sedução), de Richard Lester; Doctor Zhivago (Doutor Jivago), de David Lean; 1966: The Trap (A Armadilha), de Sidney Hayers; 1967: Smashing Time  (Duas Raparigas em Londres), de  Desmond Davis; 1968: Diamonds for Breakfast (Diamantes ao Pequeno - Almoço), de Christopher Morahan;  1969: The Guru, de James Ivory; The Bed Sitting Room (O Quarto-sala), de Richard Lester; 1972: Straight on Till Morning (Até ao Amanhecer), de Peter Collinson; 1973: Situation, de  Peter Patzak; Where Do You Go from Here?; Armchair Theatre (TV); 1974: Rachel's Man, de Moshé Mizrahi; No Strings (TV); Comedy Playhouse (TV); Fischia il sesso, de Gian Luigi Polidoro; 1975: The 'Human' Factor, de Edward Dmytryk; 1976: Ragazzo di Borgata, de Giulio Paradisi; 1977: Gran Bollito, de Mauro Bolognini; Pane, Burro e Marmellata, de Giorgio Capitani; Green Eyes (TV); 1978: Mysteries (O Visitante Misterioso), de Paul de Lussanet; 1980: Lady Killers (TV); 1982: Spaghetti House, de Giulio Paradisi; Bekenntnisse des Hochstaplers Felix Krull (TV); 1984: Seeing Things (TV); 1985: ABC Weekend Specials (TV); 1986: A Judgment in Stone, de Ousama Rawi; Flying (A Campeã), de Paul Lynch; 1988: The Legendary Life of Ernest Hemingway, de José María Sánchez; Bread (TV); 1989: Hard Days, Hard Nights, de Horst Königstein; Resurrected, de Paul Greengrass; 1990: Sunday Pursuit (Perseguição de Domingo), de Mai Zetterling (curta-metragem); 1991: Dieter Gütt - ein Journalist (TV); 1992: A Csalás gyönyöre, de Lívia Gyarmathy; Papierowe malzenstwo, de Krzysztof Lang; Hamburger Gift (TV); 1994: Gospel According to Harry, de Lech Majewski; 1995: An Awfully Big Adventure, de Mike Newell; 1996: The Boy from Mercury, de Martin Duffy; 1997: Under the Skin, de Carine Adler; 1998: Nächte mit Joan (TV); 1999: Swing, de Nick Mead; 2000: Out of Depth, de Simon Marshall; Home Ground, de Jonathan Haren (curta-metragem); 2002: The Stretford Wives (TV); Helen West (TV); 2003: Life Beyond the Box (TV); 2004: Being Julia (As Paixões de Júlia), de István Szabó; 2005: Loneliness and the Modern Pentathlon, de Daria Martin (curta-metragem); New Tricks (TV); 2006: Angel Cake (TV); Agatha Christie's Marple (TV); 2007: Puffball (Filhos do Oculto), de Nicolas Roeg; Il Nascondiglio, de Pupi Avati; 2008: Come Here Today, de Simon Aboud (curta-metragem); Broken Lines, de Sallie Aprahamian; Telstar, de Nick Moran; Sight Test, de Joseph Knowles (curta-metragem); 2009: The Calling, de Jan Dunn; 2011: Seamonsters, de Julian Kerridge; Bedlam (TV); 2012: Outside Bet, de Sacha Bennett; 2013: The Wee Man, de Ray Burdis.

SHELAGH DELANEY 
(1938-2011)
Shelagh Delaney nasceu a 25 de Novembro de 1938, em Broughton, Salford, Lancashire, Inglaterra, tendo falecido a 20 de Novembro de 2011, em Suffolk, Inglaterra, com 72 anos, vítima de cancro. A família tinha ascendência irlandesa, o pai era controlador de bilhetes nos autocarros. Estudou na Broughton Secondary Modern School. Interessa-se por teatro desde muito nova. Um dia vê a peça de Terence Rattigan, “Variations on a Theme”, na Manchester's Opera House, e acha que é capaz de fazer melhor. Sobretudo no que diz respeito à descrição das personagens homossexuais e femininas. Escreve em duas semanas a sua primeira peça, “A Taste of Honey”, que é aceite por Joan Littlewood no seu Theatre Workshop. É desde logo ligada ao movimento “Kitchen sink realism” e igualmente aos “Angry Young Men”, designação que nunca aceita e que afirma detestar.
A primeira representação de “A Taste of Honey”, que decorre na sua terra natal, Salford, acontece a 27 de Maio de 1958, passando depois ao West End, onde se prolonga por 368 representações, a partir de Janeiro de 1959. Mais tarde, em 1960, estreia-se na Broadway, com encenação de Tony Richardson e interpretação de Joan Plowright e Angela Lansbury. É considerada a peça mais representada de uma escritora inglesa do pós-guerra.  Em 1961, escreve, conjuntamente com Tony Richardsono argumento cinematográfico de “Uma Gota de Mel”, com o qual ganhou os prémios de Melhor Argumento dos BAFTA e do Writers' Guild of Great Britain Award em 1962. Delaney escreveu ainda outros argumentos para cinema: “The White Bus”, “Charlie Bubbles” (ambos em 1967) e “Dance with a Stranger” (1985). Ciou igualmente peças para rádio: “Tell Me a Film” (2003), “Country Life” (2004) e ainda “Whoopi Goldberg's Country Life (2010). “Sweetly Sings the Donkey”, uma colecção de contos, é editada em 1963. Shelagh Delaney, e sobretudo a sua peça “A Taste of Honey”, teve uma grande influência na música do seu tempo, nomeadamente em The Smiths e Morrissey. Mas a canção do mesmo nome foi composta por Bobby Scott e Ric Marlow, havendo depois várias versões, entre as quais o cover instrumental de Herb Alpert and the Tijuana Brass, ou a versão, de 1964, cantada por Tony Bennett. Um ano antes, os Beatles lançaram o álbum “Please Please Me”, onde aparecia o tema, produzido por George Martin e cantado por Paul McCartney.
Principais peças de teatro: “A Taste of Honey”, “The Lion in Love” (1960), “The White Bus”, “Charlie Bubbles”, “Dance With a Stranger”.

A relação de Shelagh Delaney, com o cinema e a televisão foi muito intensa. Para lá da versão de “Uma Gota de Mel”, assinada por Tony Richardson (1961), há a assinalar, além de algumas outras adaptações para televisão, "Charlie Bubbles" (Um Homem e a Sua História), de Albert Finney (1967), com Albert Finney, Colin Blakely e Billie Whitelaw, “The White Bus”, de  Lindsay Anderson (1967), "Dance with a Stranger" (Dança Fatal), de Mike Newell (1985), com  Miranda Richardson, Rupert Everett e Ian Holm, ou “Three Days in August”, de Jan Jung (1992), uma co-produção russa-norte-americana. Em Portugal, Artur Ramos, em 1994, dirigiu uma versão televisiva de “Um Sabor a Mel”, com base numa encenação de João Lourenço, com Irene Cruz, Cristina Carvalhal, Rogério Samora, Miguel Hurst, André Maia, Paulo Curado e Melim Teixeira.