segunda-feira, 2 de junho de 2014

SESSÃO 19: 10 DE JUNHO DE 2014


A ALDEIA DOS MALDITOS (1960)

“Village of the Damned”, rodado em Inglaterra, em 1960, por Wolf Rilla, é um objecto raro no domínio da ficção científica, apesar de se inscrever numa tradição de obras que proliferaram depois da II Guerra Mundial e que acompanharam o desenvolvimento da Guerra Fria, entre o Ocidente, sobretudo os EUA, e a União Soviética e o bloco de Leste. Referimo-nos a filmes que anunciavam catastróficas invasões de extra-terrestres e outras ameaças semelhantes, o que para muitos era uma forma de metaforicamente se aludir, a Oeste, aos anunciados ataques da URSS com armas nucleares.
O projecto tem uma história curiosa, pois foi iniciado nos EUA, através dos estúdios da MGM, e poderia ter como protagonista Ronald Colman. Acontece que, depois de alguma polémica interna, os estúdios resolveram não produzir o filme no seu território, dado que havia interpretações inflamadas sobre o facto de surgir uma virgem que dá à luz uma criança. Por isso se achou mais correcto transferir a produção para a MGM-UK, oferecendo o principal papel a George Sanders, um actor nascido na Rússia, de pais ingleses, e que fez quase toda a sua carreira entre Inglaterra e os EUA, e sendo entregue a realização a Wolf Rilla, nascido na Alemanha e exilado em Londres, depois da subida ao poder de Hitler.

Ronald Kinnoch (que assinou com o pseudónimo de "George Barclay"), Stirling Silliphant e o próprio Wolf Rilla escreveram a adaptação do romance de John Wyndham, "The Midwich Cuckoos", que está na base de “A Aldeia dos Malditos”. Como começámos por afirmar, este é um objecto raro no domínio da ficção científica, dado que a obra consegue manter um muito apreciável suspense e uma fortíssima dose de angustiante terror, não usando quase nenhum tipo de efeitos especiais e jogando, sobretudo, com um inquietante clima muito bem conseguido quer pelo doseado argumento, desenvolvido com perícia, quer pela sóbria mas eficaz realização, quer pela interpretação, onde se destaca o trabalho de George Sanders, um magnífico actor, mas também pela contribuição de um perturbador grupo de crianças. O filme foi um sucesso enorme, tendo custado cerca de 82 mil dólares e conseguindo na estreia nos EUA mais de um milhão e meio de dólares. Justificou mesmo uma sequela, “Uma Aventura Fantástica” (Children of the Damned), assinada por Anton M. Leader, em 1964, e com um elenco encabeçado por Ian Hendry, Alan Badel e Barbara Ferris, mas o resultado ficou muito aquém do original.
Numa pequena cidade do Midwich inglês, durante uma tarde aprazível e perfeitamente normal, acontecem factos altamente alarmantes: todos os seres vivos, pessoas e animais, sucumbem a uma estranha letargia. Durante um certo lapso de tempo, a região ficou incontactável, os telefones não respondem, e quem se aproxima, de carro ou a pé, cede à mesma pesada dormência. O tempo parou, nada se movimenta. A polícia procura investigar, as altas autoridades da nação inquietam-se, são enviados reforços militares, ninguém encontra uma resposta para explicar o sucedido, mas, tal como veio, o fenómeno desaparece, os animais reanimam-se e as pessoas regressam ao trabalho e à sua vida normal, sem se lembrarem do que quer que seja. Mas, meses depois, começam a nascer crianças, de cabelos louros e de olhos iluminados e penetrantes. Crianças que só as mães sabem ser suas. Que crescem e passam a funcionar como grupo e a amaldiçoar a terra que as viu nascer e que controlam com poderes especiais. Qualquer um obedece às suas ordens e instalam o caos por onde passam. É o terror e mais não se pode dizer… Esta é a “Aldeia dos Malditos”.

O preto e branco da fotografia funciona plenamente neste arrepiante suspense onde se invertem os habituais papéis de vítimas e carrascos. Aqui são as crianças as portadoras do Mal, as crianças que são normalmente vistas como as mais frágeis e indefesas mártires nesse género de obras. É com as mulheres e com as crianças que o público mais facilmente se identifica e por quem mais rapidamente sofre. Mas aqui as mulheres são as mães que geram as crianças que se assumem como o verdadeiro pesadelo. Um argumento engenhoso, invulgar, no mínimo perturbante. Nada de monstros, nada de rituais sangrentos, nada de perseguições estridentes. Apenas a presença de louras crianças de olhos penetrantes e … mentes diabólicas.
Em 1995, o americano John Carpenter, mestre no género, volta ao tema, com um remake bastante bom, o que não costuma acontecer (os remakes habitualmente não atingem a qualidade dos originais). “Village of the Damned” ou “John Carpenter's Village of the Damned", que em Portugal recebeu o título “A Cidade dos Malditos”, ostentava um bom conjunto de actores, Christopher Reeve, Kirstie Alley, Linda Kozlowski, Michael Paré, Meredith Salenger e Mark Hamill, e passando para os EUA a história mantinha todo o suspense, somando-lhe se possível, maiores conotações políticas. Um bom tema, portante, que tudo indica ainda não se ter esgotado.

A ALDEIA DOS MALDITOS
Título original: Village of the Damned
Realização: Wolf Rilla (Inglaterra, 1960); Argumento: Stirling Silliphant, Wolf Rilla, George Barclay (Ronald Kinnoch), segundo romance de John Wyndham ("The Midwich Cuckoos"); Produção: Ronald Kinnoch; Música: Ron Goodwin; Fotografia (p/b):  Geoffrey Faithfull; Montagem: Gordon Hales; Casting: Irene Howard; Direcção artística: Ivan King; Maquilhagem: Eric Aylott, Joan Johnstone; Direcção de Produção:  Denis Johnson; Assistentes de realização: David Middlemas; Som: Cyril Swern, A.W. Watkins; Efeitos visuais Tom Howard; Companhias de produção:Metro-Goldwyn-Mayer British Studios; Intérpretes: George Sanders (Gordon Zellaby), Barbara Shelley (Anthea Zellaby), Martin Stephens (David Zellaby), Michael Gwynn (Alan Bernard), Laurence Naismith (Doutor Willers), Richard Warner (Harrington), Jenny Laird (Mrs. Harrington), Sarah Long (Evelyn Harrington), Thomas Heathcote (James Pawle), Charlotte Mitchell (Janet Pawle), Pamela Buck (Milly Hughes), Rosamund Greenwood (Miss Ogle), Susan Richards, Bernard Archard, Peter Vaughan (P.C. Gobby), John Phillips, Richard Vernon, John Stuart, Keith Pyott, Alexander Archdale, Sheila Robins, Tom Bowman, Anthony Harrison, Diane Aubrey, Gerald Paris, Bruno (o cão), e ainda as crianças June Cowell, Linda Bateson, John Kelly, Carlo Cura, Lesley Scoble, Mark Milleham, Roger Malik, Elizabeth Mundle, Teri Scoble, Peter Preidel, Peter Taylor, Howard Knight, Brian Smith, Janice Howley, Paul Norman, Robert Marks, John Bush, Billy Lawrence, etc. Duração: 77 minutos; Distribuição em Portugal: Warner (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos.

WOLF RILLA (1920-2005)
Nasceu em Berlim, Alemanha, a 16 de Março de 1920, e viria a falecer a 19 de Outubro de 2005, em Provence, França. Filho do actor alemão Walter Rilla que, por ser judeu, quando da subida ao poder de Hitler se transferiu com a família para Londres, Inglaterra. Depois de concluída a sua educação, começou a trabalhar na BBC World Review, em 1942, passando depois para os serviços noticiosos. Posteriormente, ingressa no Group 3, a produtora formada por Michael Balcon, John Baxter e John Grierson e realiza “The End of the Road” (1957). “Coração não Batas Mais” (1958) é um sucesso comercial, mas será em 1960, com “A Aldeia dos Malditos”, produzido pela MGM inglesa, que Wolf Rilla conhece o seu maior sucesso, que o coloca definitivamente na história do cinema.
Foi professor na International Film School de Londres, e escreveu um tratado de cinema que ainda hoje é bem recebido: "A-Z of Movie Making" (1970). Retirado do cinema, abriu com a mulher, Shirley, um hotel/restaurante, “Le Moulin de la Camandoule”, em Fayence, na Provence, França. Aí morreu, de morte natural, em 2005.

Filmografia:
Como realizador: 1953: Noose for a Lady; Glad TIdings; The Large Rope; Marilyn; 1954: The Black Rider; Stock Car; 1955: The Blue Peter; Fabian of the Yard (série TV) (1 episódio); 1956: Pacific Destiny (Destino ao Pacífico); The Scarlet Pimpernel (série TV) (2 episódios); 1957: The End of the Road; The Scamp; The Adventures of Aggie (série TV) (1 episódio); 1957-1958: Sailor of Fortune (série TV) (2 episódios); 1958: Bachelor of Hearts (Coração não batas mais); Armchair Theatre (série TV) (1 episódio); 1959: Jessy; Witness in the Dark; 1960: Die zornigen jungen Männer; Village of the Damned (A Aldeia dos Malditos); Piccadilly Third Stop; 1961: Watch it, Sailor!; 1962-1965: Zero One (série TV) (3 episódios); 1963: The World Ten Times Over; Cairo; 1965: Os Vingadores (série TV) (1 episódio); 1968: Pax?; 1973: Secrets of a Door-to-Door Salesman; 1975: Bedtime with Rosie.

GEORGE SANDERS (1906-1972)
George Henry Sanders nasceu a 3 de Julho de 1906, em St. Petersburg, Rússia, e viria a falecer no dia 25 de Abril de 1972 , em Castelldefels, Barcelona, Espanha. Causa: suicídio. Filho de mãe russa e de pai inglês, foi educado em Inglaterra (Bedales School, Brighton College) e, mais tarde, naturalizou-se inglês. Antes de se estrear como actor, passou por vários empregos, tendo ajudado o pai na indústria do tabaco. Em 1934, estreia-se no cinema. Rapidamente se tornou um actor reconhecido internacionalmente, passando a dividir a carreira entre Inglaterra e os EUA. Entre meados dos anos 40 e meados dos anos 60 do século XX, situam-se os seus principais triunfos, entre os quais “O Fantasma Apaixonado”, “Amber Eterna”, “O Leque de Lady Windermere”, “O Milagre do Quadro”, “Viagem em  Itália”, “O Tesouro do Barba Ruiva”, “A Casaca Vermelha”, “Cidade nas Trevas”, "Rebecca", "Sansão e Dalila", "Salomão e a Rainha de Sabá", "O Retrato de Dorian Gray", "Ivanhoe" e “A Aldeia dos Malditos”.  Pela sua participação em “Eva” ganhou o Oscar de Melhor Actor Secundário de 1950. Casado com Susan Larson (1940 - 1949), Zsa Zsa Gabor (1949 - 1954) Benita Hume (1959 - 1967) e Magda Gabor (1970 - 1971). Zsa Zsa Gabor e Magda Gabor, actrizes, eram irmãs.
Aos 65 anos, George Sanders suicida-se, num hotel de Castelldefels, perto de Barcelona (tinha mantido até pouco antes uma casa em Maiorca, de que muito gostava, e que vendera) e deixou uma carta de despedida:  "Querido mundo, vou-me embora porque estou aborrecido. Já vivi bastante. Deixo-vos com as vossas preocupações, neste delicioso esgoto. Boa sorte."
Assinou uma autobiografia, “Memoirs of a Professional Cad” (1960), e dois romances policiais, "Crime On My Hands", escrito pelo escritor-fantasma Craig Rice, a quem Sanders dedica a obra, e "Stranger at Home", escrito realmente por Leigh Brackett (a quem Sanders volta a dedicar a obra). Foi a sua fama como intérprete de duas figuras de obras de mistério e crime, "Saint" e "Falcon", que justificaram esses romances. Em 1958, Sanders gravou um álbum musical, “The George Sanders Touch: Songs for the Lovely Lady”. O seu nome aparece em duas estrelas no Hollywood Walk of Fame, uma para filmes de cinema, em 1636 Vine Street, e outra pela sua contribuição para a televisão, em 7007 Hollywood Boulevard.

Filmografia:

Como actor: 1934: Love, Life and Laughter, de Maurice Elvey; 1936: Things to come (A Vida Futura), de William Cameron Menzies (não creditado); The Man Who Could Work Miracles (O Homem que Podia Fazer Milagres), de Lothar Mendes; Dishonour Bright, de Tom Walls; Find the Lady, de Roland Grillette; Strange Cargo, de Lawrence Huntington; Lloyd's of London (Lloyds de Londres), de Henry King; 1937: Love Is News, de Tay Garnett; Slave Ship (O Navio Negreiro), de Tay Garnett; The Lady Escapes (Feitiço Contra Feiticeiro), de Eugene Forde; Lancer Spy (O Lanceiro Espião), de Gregory Ratoff; 1938: Four Men and a Prayer (O Juramento dos Quatro), de John Ford; International Settlement (O Inferno de Xangai), de Eugene Forde; 1939: Mr. Moto's Last Warning (Mr. Moto no Fundo do Mar), de Norman Foster; So This is London de Thornton Freeland; The Outsider, de Paul L. Stein; The Saint Strikes Back (O 'Saint' Revolta-se),  de John Farrow; The Saint in London (O 'Saint' em Londres), de John Paddy Carstairs; Nurse Edith Cavell (O Caso Edith Cavell), de Herbert Wilcox; Allegheny Uprising (O Primeiro Rebelde), de William A. Seiter; Confessions of a Nazi Spy (Confissão de Um Espião Nazi), de Anatole Litvak; 1940: Green Hell (O Inferno Verde), de James Whale; The Saint's Double Trouble, de Jack Hively; The Saint Takes Over, de Jack Hively; 1940: Bitter Sweet (Sempre Noivos), de W. S. Van Dyke; The Son of Monte Cristo (O Filho do Conde de Monte Cristo), de Rowland V. Lee; The House of Seven Gables (A Casa das Sete Torres), de Joe May; Rebecca (Rebecca), de Alfred Hitchcock; Foreign Correspondant (Correspondente de Guerra), de Alfred Hitchcock; 1941: The Saint in Palm Springs, de Jack Hively; The Gay Falcon, de Irving Reis; Man Hunt (Feras Humanas), de Fritz Lang; Rage in Heaven (Tempestade), de W.S. Van Dyke; Sundown (Eram Cinco Heróis), de Henry Hathaway; 1942: A Date With the Falcon (Falcão, o Terror dos Mares), de Irving Reis; The Falcon Takes Over (Falcão Detective), de Irving Reis; The Falcon's Brother (O Irmão Vingador), de Stanley Logan; Son of Fury (O Aventureiro dos Mares do Sul), de John Cromwell; The Black Swan (O Pirata Negro), de Henry King; Tales of Manhattan (Seis Destinos), de Julien Duvivier; Her Cardboard Lover, de George Cukor; The Moon and Sixpence (Mesmo Assim Elas Amavam-no), de Albert Lewin; Quiet Please, Murder, de John Larkin; 1943: They Came to Blow up America, de Edward Ludwig; 1943: Paris After Dark, de Léonide Moguy; Appointment in Berlin (Encontro em Berlim), de Alfred Green; This Land is Mine (Esta Terra é Minha), de Jean Renoir; 1944: The Lodger (Jack, o Estripador), de John Brahm; Action in Arabia (Zona Internacional), de Léonide Moguy; Summer Storm (Tempestade de Verão), de Douglas Sirk; 1945: Hangover Square (Concerto Fantástico), de John Brahm; The Strange Affair of Uncle Harry (Veneno que Liberta), de Robert Siodmak; The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray), de Albert Lewin; 1946: A Scandal in Paris (Escândalo em Paris), de Douglas Sirk; The Strange Woman (Uma Mulher Estranha), de Edgar G. Ulmer; 1947: The Private Affairs of Bel Ami (Bel Ami), de Albert Lewin; Lured (Oito Desaparecidas),  de Douglas Sirk; The Ghost and Mrs Muir (O Fantasma Apaixonado) de Joseph L. Mankiewicz; Forever Amber (Amber Eterna), de Otto Preminger; 1949: The Fan (O Leque de Lady Windermere), de Otto Preminger; Samson and Delilah (Sansão e Dalila), de Cecil B. De Mille; 1950: All about Eve (Eva), de Joseph L. Mankiewicz; Black Jack (Jack o Negro), de Julien Duvivier e José Antonio Nieves Conde; 1951: I Can Get it For You Wholesale (Ambição de Mulher), de Michael Gordon; 1952: The Light Touch (O Milagre do Quadro), de Richard Brooks; Ivanhoe (Ivanhoe, O Vingador do Rei), de Richard Thorpe; Assignment Paris (Intriga em Paris), de Robert Parrish; 1953: Call Me Madam (Sua Excelência a Embaixatriz), de Walter Lang; 1954: Viaggio in Italia (Viagem em  Itália), de Roberto Rossellini; Witness to Murder (A Testemunha do Crime), de Roy Rowland; King Richard and the Crusaders (O Talismã), de David Butler; 1955: Jupiter's Darling (A Favorita de Júpiter), de George Sidney; Moonfleet (O Tesouro do Barba Ruiva), de Fritz Lang; The Scarlet Coat (A Casaca Vermelha), de John Sturges; The King's Thief (O Ladrão do Rei), de Robert Z. Leonard;  The 20th Century-Fox Hour (série de TV); 1956: That certain feeling (O Tal Sentimento), de Melvin Frank e Norman Panama; Never Say Goodby (Nunca Digas Adeus) de Jerry Hopper; While the City Sleeps (Cidade nas Trevas), de Fritz Lang; Death of a Scoundrel (Amores de Um Canalha), de Charles Martin; Screen Directors Playhouse (série de TV); The Ford Television Theatre (série de TV); 1956-1961: General Electric Theater (série de TV); 1957: The Seventh Sin (O Sétimo Pecado), de Ronald Neame; The George Sanders Mystery Theater (série de TV); 1958: The Whole Truth (Um Crime na Riviera), de Dan Cohen e John Guillermin; Rock-a-Bye Baby (Jerry Ama-Seca), de Jerry Lewis (cena retirada na montagem final); From the Earth to the Moon (Da Terra à Lua), de Byron Haskin; Decision (série de TV);  Schlitz Playhouse of Stars (série de TV); 1959: Solomon and Sheba (Salomão e a Raínha de Saba), de King Vidor; That Kind of Woman (Uma Certa Mulher) de Sidney Lumet; A Touch of Larceny, de Guy Hamilton; 1960: Bluebeard's Ten Honeymoons (As Dez Mulheres de Barba Azul), de W. Lee Wilder; The Last Voyage, de Andrew L. Stone; Village of the Damned (A Aldeia dos Malditos), de Wolf Rilla; Alcoa Theatre (série de TV); 1961: Cone of Silence, de Charles Frend; Five Golden Hours (O Cangalheiro e as Viúvas), de Mario Zampi; The Rebel, de Robert Day; Le Rendez-vous (Rendez-vous ), de Jean Delannoy; 1962: Operation Snatch, de Robert Day; In search of the Castaways, de Robert Stevenson; Checkmate (série de TV); 1963: Cairo (Cairo), de Wolf Rilla; Il Mondo di Notte, numero 3,  de Gianni Proia; The Cracksman, de Peter Graham Scott; 1964: L'Intrigo (Intriga), de George Marshall e Vittorio Sala; A Shot in the Dark (Um Tiro às Escuras), de Blake Edwards; The Golden Head, de Richard Thorpe e James Hill; F.B.I. Operazione Baalbeck, de Marcello Giannini; 1965: The Amorous Adventures of Moll Flanders (A Vida Amorosa de Molly Flanders), de Terence Young; Voyage to the Bottom of the Sea (série de TV); The Rogues (série de TV); 1966: The Quiller Memorandum (O Processo Quiller), de Michael Anderson; Einer spielt falsch (Mala Diplomática para o Cairo), de Menahem Golan; Batman (série de TV); Daniel Boone (série de TV); The Man from U.N.C.L.E. (série de TV); 1967: Warning Shot (Tiro de Aviso), de Buzz Kulik; Good Times, de  William Friedkin; The Jungle Book (O Livro da Selva), animação, de Wolfgang Reitherman (só voz do tigre); 1968: Caccia ai violenti, de Nino Scolaro, Sandy Howard; Laura (telefilme); 1969: The Candy Man, de Herbert J. Leder; The Body Stealers, de Gerry Levy; The Best House in London, de Philip Saville; Die sieben Männer der Sumuru, de  Jesús Franco  (Jess Franco); 1970: The Kremlin Letter (A Carta do Kremlin), de John Huston; Appuntamento col Disonore, de  Adriano Bolzoni; ITV Saturday Night Theatre (série de TV); 1971: Missão Impossível (série de TV); 1972: Doomwatch, de Peter Sasdy; Endless Night (Noite Sem Fim), de Sidney Gilliat; 1973: Psychomania, de Don Sharp.

SESSÃO 18: 3 DE JUNHO DE 2014


SÁBADO À NOITE, 
DOMINGO DE MANHÃ (1960)
“Saturday Night and Sunday Morning”, de Karel Reisz, segundo um romance, em grande parte autobiográfico, de Alan Sillitoe, um dos “angry young men”, é outro dos títulos mais importantes do lançamento do “Free Cinema”, estabelecendo, juntamente com “Look Back in Anger”, o paradigma deste movimento cinematográfico ao nível da longa-metragem de ficção, quer pela escolha das personagens, quer pelo seu enquadramento social. De novo nos encontramos nos meios operários ingleses, com uma figura masculina de forte presença e de indisfarçável irreverência e revolta contra a ordem estabelecida na Inglaterra dos anos 50-60, mas expressando-se através de um comportamento conflituoso, amoral, inconsequente, muito distante dos heróis positivos da revolta marxista proposta por alguns filmes do realismo socialista ou mesmo de certas obras mais ortodoxas do neo-realismo italiano, para só citar duas tendências. Arthur Seaton, personagem interpretada por Albert Finney, sabe o que não quer, apesar de não saber muito bem o que pretende da vida. Há uma frase marcante nesta obra: “Whatever people say I am, that’s what I am not!” (Qualquer coisa que as pessoas digam que eu sou, é o que eu não sou!). Neste particular, os anti-heróis do “Free Cinema” aproximam-se muto dos seus “irmãos” norte americanos surgidos na década de 50, como James Dean (“Fúria de Viver”) ou Marlon Brando (“O Selvagem” ou “Um Eléctrico Chamado Desejo”).
O que se pressente nestas obras, bem como nalgumas outras que se seguiram, é um inconformismo, um desajustamento da juventude, nomeadamente operária, em relação ao condicionalismo da sociedade onde se inscreve, o que causa rebeldia, social e moral, inquietação, nalguns casos sintomas de comportamentos neuróticos, associais. As figuras centrais destas obras explodem numa raiva que aparentemente não tem um sentido, que procura sobretudo dinamitar o cinzentismo de um quotidiano rotineiro, sem horizontes, sem outras perspectivas que não sejam prolongar o dia-a-dia nos bairros suburbanos de casa de tijolo vermelho, frente à televisão, nos pubs inundados de cerveja, na demonstração de uma virilidade vazia em refregas de rua, nas fugas transgressoras de uma sexualidade bravia…
Numa cidade sem história da Inglaterra profunda, Arthur Seaton é-nos apresentado numa sequência antológica, no interior de uma fábrica de bicicletas (algo por que passou na juventude o escritor Alan Sillitoe). É um espaço enorme, imbuído num ruído constante, onde as personagens humanas se perdem, são números de uma engrenagem industrial. Trata-se de um plano de conjunto que, pela profundidade de campo, pela aspereza do som, pela mecanização dos gestos (que relembra “Tempos Modernos” de Chaplin), pelas duras condições de trabalho que deixa antever, se torna facilmente opressivo. Arthur revela-se desde logo uma peça de um conjunto, mas ao mesmo tempo, um rebelde. Ele vai contando:  “nine hundred and fifty four, nine hundred and fifty “bloody” five,...” E vai mais longe, na sua ideia de vida: “What I’m out for is a good time. All the rest is propaganda!” (“O que me importa é aproveitar a vida. Tudo o resto é propaganda!”).
Quando regressa a casa, nada de excitante o espera, para lá da mãe a trabalhar e o pai preso à televisão. Não é esta a vida a que ele aspira: “Há muito mais para desfrutar na vida do que aquilo que os meus pais tiveram” (“There’s a lot more in life than mum and dad have got”). A fuga é o pub e as mulheres. Umas casadas, mais velhas, outras solteiras, jovens e algo inocentes. Para Arthur não há diferença. Usa-as, como o usam a ele na fábrica. Não há moral a defender. “Tudo o resto é propaganda”. Numa sociedade sem moral, Arthur é apenas mais um, que se aproveita do ambiente. Ele “não sabe a diferença entre o certo e o errado”, como lhe diz uma mulher a quem ele aconselha um aborto. Aqui e ali, um momento de genuína libertação, quando passeia pela cidade, de bicicleta, com alguns amigos, ou quando vai pescar junto ao rio.
O filme tem uma sinceridade de olhar, uma pureza de registo que magoa por vezes. A belíssima fotografia, a preto e branco, de Freddie Francis, agarra-nos pela forma como capta exteriores de ruas e interiores de casas e pubs, com uma autenticidade indiscutível.
Com esta obra, Albert Finney passou quase de imediato ao estrelato, ganhado pouco depois um Oscar com o seu trabalho em “Tom Jones”. O “Free Cinema” tinha igualmente alcançado a internacionalização, os escritores a ele ligados dominavam e os realizadores tornavam-se vedetas, rapidamente aliciados por Hollywood. Por essa altura, a “Nouvelle Vague” impunha-se em França, com conceitos semelhantes em muitos aspectos, mas obviamente com uma preocupação social um pouco diferente. Era o triunfo da ideia de um certo “cinema novo” que iria irradiar para todo o mundo, da Europa Ocidental à de Leste, à América Latina, à Ásia, inclusive até aos confins da África que ia acordando igualmente para o cinema. Em Portugal, igualmente. Fernando Lopes, que estudou em Inglaterra, por essa altura, é um herdeiro do “Free Cinema”.


SÁBADO À NOITE, DOMINGO DE MANHÃ
Título original: Saturday Night and Sunday Morning
Realização: Karel Reisz (Inglaterra, 1960); Argumento: Alan Sillitoe, segundo romance seu; Produção: Tony Richardson, Harry Saltzman; Música: John Dankworth; Fotografia (p/b): Freddie Francis; Montagem: Seth Holt; Direcção artística: Ted Marshall; Maquilhagem: Harold Fletcher, Pearl Tipaldi; Guarda-roupa:  Sophie Devine, Barbara Gillett; Direcção de Produção: Jack Rix; Assistentes de realização: Tom Pevsner; Som: Chris Greenham, Peter Handford, Bob Jones; Companhia de produção: Woodfall Film Productions; Intérpretes: Albert Finney (Arthur Seaton), Shirley Anne Field (Doreen Gratton), Rachel Roberts (Brenda), Hylda Baker (Tia Ada), Norman Rossington (Bert), Bryan Pringle (Jack), Robert Cawdron (Robboe), Edna Morris (Mrs. Bull), Elsie Wagstaff (Mrs. Seaton), Frank Pettitt (Mr.  Seaton), Avis Bunnage, Colin Blakely, Irene Richmond, Louise Dunn, Anne Blake, Peter Madden, Cameron Hall, Alister Williamson, Robert Aldous, Joy Andrews, Frank Atkinson, Roger Avon, John Barrett, Diana Chesney, Stephen Dartnell, Peter Evans, Robert Marks, Barry Mason, Bartlett Mullins, Julia Nelson, Peter Sallis, Michael Sillitoe, Jack Smethurst, Roy Spencer, etc. Duração: 89 minutos; Distribuição em Portugal: inexistente; Cópia DVD: BFI; Inglês, sem legendas; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de  Fevereiro de 1963.

FREE CINEMA
O “Free Cinema” foi um movimento de jovem cinema, um pouco à semelhança do que aconteceria um pouco mais tarde em França, com a “Nouvelle Vague”, que procurou revitalizar a produção cinematográfica inglesa, mas introduzindo uma forte componente social, colocando a sua atenção nos ambientes suburbanos e no operariado, temas que se encontravam quase por completo ausentes do cinema britânico da década de 50. O movimento nasceu numa sessão pública, realizada no National Film Theatre, em Londres, a 5 de Fevereiro de 1956, e teve como impulsionadores Lindsay Anderson, Karel Reisz, Tony Richardson e Lorenza Mazzetti. O programa dessa sessão era composto por três documentários de curta-metragem: “O Dreamland”, de Lindsay Anderson, sobre um parque de diversões em Margate, Kent; “Momma Don't Allow”, de Karel Reisz e Tony Richardson, sobre um clube de jazz, em Wood Green, no norte de Londres, e “Together”, de Lorenza Mazzetti, sobre dois surdos-mudos no East End londrino despedaçado pelas bombas.
Lindsay Anderson, Karel Reisz (e Gavin Lambert) tinham fundado uma revista que se viria a destacar como porta-voz do grupo, “Sequence”. Os dois primeiros, juntamente com Lorenza Mazzetti, escreveram um manifesto de uma única folha, que seria distribuído nessa sessão inicial do “Free Cinema”: "No Film Can Be Too Personal". O manifesto foi escrito no café The Soup Kitchen, em Charing Cross, onde Mazzetti trabalhava, e rezava assim:
“Esses filmes não foram feitos em conjunto, nem com a ideia de os mostrar juntos. Mas quando os viram reunidos, sentiram que tinham uma atitude em comum. Implícita nesta atitude está a crença na liberdade, na importância das pessoas e do significado do quotidiano. / Como cineastas, acreditamos nisso. / Nenhum filme pode ser demasiado pessoal. / A imagem fala. O som amplifica e comenta. / O tamanho é irrelevante. A perfeição não é um objectivo. / Uma atitude significa um estilo. Um estilo significa uma atitude”.
Foram seis as sessões de “Free Cinema” organizadas no National Film Theatre de Londres, entre 1956 e 1959. As duas primeiras sessões e a última, a sexta, foram dedicadas a obras inglesas (Look at Britain e The Last Free Cinema) e agruparam o embrião do que viria a ser o Free Cinema. No último programa, que pode ser visto entre 18 e 22 de Março de 1959, foram apresentadas obras de Karel Reisz, “We Are the Lambeth Boys”, de Robert Vas “Refuge England”, de Michael Grigsby “Enginemen” e de Elizabeth Russell “Food for a Blush”.
O segundo programa (Setembro de 1956) apresentava filmes de Georges Franju (Le Sang des bêtes), Norman McLaren (Neighbours) e Lionel Rogosin (On the Bowery). O quarto, dedicado ao novo cinema polaco ("Polish Voices", em Setembro de 1958), dava a conhecer ao público londrino obras de, entre outros, Roman Polanski e Walerian Borowczyk). Na quinta sessão, o tema era o cinema francês ("French Renewal", igualmente em Setembro de 1958, puderam ver-se obras que pre-anunciavam a Nouvelle Vague”, como “Le Beau Serge”, de Claude Chabrol e “Les Mistons”, de François Truffaut.
Os principais realizadores saídos do Free Cinema foram Lindsay Anderson, Michael Grigsby, Karel Reisz, Tony Richardson, John Schlesinger, e Robert Vas. Entre os actores revelaram-se nomes como Alan Bates, Dirk Bogarde, Julie Christie, Tom Courtenay, Albert Finney, Richard Harris, Laurence Harvey, ou Rita Tushingham.
Entre as principais obras deste movimento devem citar-se, entre outras, 1958: Look Back in Anger, de Richardson; 1959: Room at the Top, de Jack Clayton; 1960: Saturday Night and Sunday Morning, de Reisz; 1961: A Taste of Honey, de Anderson, 1962: A Kind of Loving, de Schlesinger; 1962: The Loneliness of the Long Distance Runner, de Richardson; 1963: This Sporting Life, de Anderson; 1963: Billy Liar, de Schlesinger; 1963: Tom Jones, de Richardson,  ou 1965: Darling, de Schlesinger.

KAREL REISZ (1929-2002)
Karel Reisz nasceu a 21 de Julho de 1926, em Ostrava, Checoslováquia, e faleceu a 25 de Novembro de 2002, em Londres, Inglaterra. Reisz foi uma das 669 crianças judias salvas do Holocausto e trazidas por Sir Nicholas Winton para a Inglaterra, quando a Alemanha nazi invadiu aquele país do centro da Europa pouco antes da eclosão da II Guerra Mundial. Entretanto, os seus pais acabariam por ser mortos em Auschwitz. Estudou em Cambridge, onde, em 1947, juntamente com Lindsay Anderson, fundou a revista "Sequence". Escreveu, em 1952, um livro intitulado "Técnica de Montagem" (The Technique Of Film Editing), que permanece um dos manuais mais prestigiados neste campo. Durante a II Guerra Mundial foi piloto da RF no esquadrão Checo. Jornalista da revista de cinema "Sight and Sound". Programador do British Film Institute. Foi, juntamente com Tony Richardson, Lindsay Anderson e Lorenza Mazzetti, um dos animadores do movimento "Free Cinema" que, nos finais dos anos cinquenta, traria uma nova estética e introduziria valores sociais nos filmes ingleses, surgindo muito associado aos “angry young men”, estes mais ligados à literatura e ao teatro. Ficou também célebre a sua recusa em realizar “O Regresso de Jedi” (1983). Nos últimos anos da sua vida, dedicou-se quase em exclusivo ao teatro. Casado com Julia Coppard, de quem teve três filhos, e posteriormente Betsy Blair (1963-2002), ex-mulher de Gene Kelly, com quem permaneceu casado até ao dia da sua morte. Foi membro do Júri Internacional do Festival de Cannes em 1970 e 1983.

Filmografia
Como realizador
1955: Momma Don't Allow (documentário, curta-metragem); 1958: We Are the Lambeth Boys (documentário, média-metragem); 1959: March to Aldermaston (documentário, curta-metragem); 1960: Saturday Night and Sunday Morning (Sábado à Noite, Domingo de Manhã); 1964: Night Must Fall (Ao Caír da Noite); 1966: Morgan: A Suitable Case for Treatment (Morgan - Um Caso para Tratamento); 1968: Isadora (Isadora); 1974: The Gambler (O Vício do Jogo); 1978: Who'll Stop the Rain / Dog Soldiers (Os Guerrilheiros do Inferno); 1981: The French Lieutenant's Woman (A Amante do Tenente Francês); 1985: Sweet Dreams (Depois da Meia-noite); 1990: Everybody Wins (Corrupção na Cidade); 1994: Performance (TV) - episódio The Deep Blue Sea; 2000: Act Without Words (TV).

ALBERT FINNEY (1936- )
Albert Finney nasceu a 9 de Maio de 1936, em Salford, Greater Manchester, Inglaterra. Filho de um guarda-livros, Albert Finney viu definir-se desde muito cedo a sua carreira como actor. Aos 19 anos, estreou-se no teatro em Birmingham, no papel de Brutus, em "Julio César", de William Shakespeare. Foi Tony Richardson que o trouxe para o cinema, depois de o ver interpretar uma personagem de "Coriolano", também de Shakespeare, num palco de Londres, convidando-o para entrar em "The Entertainer" (1960). No seu filme seguinte, Finney é já o protagonista de “Saturday Night, Sunday Morning”, de Karel Reisz, onde recebe os mais rasgados elogios. Em 1963, de novo sob as ordens de Tony Richardson, é “Tom Jones”, que merece a sua primeira nomeação para o Oscar de Melhor Actor. As outras serão em “Murder on the Orient Express” (1974), “The Dresser” (1983), “Under the Volcano” (1984) e “Erin Brockovich” (2000). Apesar das nomeações, nunca ganhou o Oscar. Coleccionou, porém, diversos outros importantes prémios, e recusou, segundo consta, algumas honrarias, como o CBE (Commander of the Order of the British Empire) em 1980 e o Knighthood in 2000, destinados a sublinhar a sua contribuição para a arte de representar. Estudou na Royal Academy of Dramatic Art (RADA), de que presentemente é membro, bem como da Royal Shakespeare Company (RSC), em Stratford-Upon-Avon, onde trabalhou por diversas vezes. Como realizador dirigiu dois títulos: "Charlie Bubbles” (1968) e "The Biko Inquest" (1984), este para a TV.
Casado com Jane Wenham (1957 - 1961), Anouk Aimée (1970 - 1978) e Pene Delmage (2006 até ao presente).

Filmografia:
Como actor
No cinema: 1960: The Entertainer (O Comediante), de Tony Richardson; Saturday Night and Sunday Morning (Sábado à Noite, Domingo de Manhã), de Karel Reisz; 1963: Tom Jones (Tom Jones, Romântico e Aventureiro), de Tony Richardson; The Victors (Os Vitoriosos), de Carl Foreman; 1964: Night Must Fall (Ao Cair da Noite), de Karel Reisz; 1967: Two for the Road (Caminho para Dois), de Stanley Donen; Charlie Bubbles (Um Homem e a Sua História), de Albert Finney; 1969: The Picasso Summer, de Serge Bourguignon e Robert Sallin; 1970: Scrooge (Muito obrigado, Sr, Scrooge), de Ronald Neame; 1971: Gumshoe (Passos Silenciosos), de Stephen Frears; 1973: Alpha Beta, de Anthony Page; 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1975: The Adventure of Sherlock Holmes' Smarter Brother (As Aventuras do Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes), de Gene Wilder (cameo, não creditado); 1977: The Duellists (O Duelo), de Ridley Scott; 1981: Loophole (A Brecha), de John Quested; Wolfen (Cidade em Pânico), de Michael Wadleigh; Looker (As Belas São Assassinadas), de Michael Crichton; 1982: Shoot the Moon (Depois do Amor), de Alan Parker; Annie (Annie), de John Huston; 1983: The Dresser (O Companheiro), de Peter Yates; 1984: Under the Volcano (Debaixo do Vulcão), de John Huston; 1987: Orphan (O Pai Adoptivo), de Alan J. Pakula; 1990: Miller's Crossing, de Joel Coen; 1992: The Playboys (Os Playboys), de Gillies MacKinnon; Rich in Love (Lucille - O Fim da Infância), de Bruce Beresdford; 1993: Rich in Love, de Bruce Beresford; 1994: The Browning Version (A Versão Browning), de Mike Figgis; 1994: A Man of No Importance (Um Homem sem Importância), de Suri Krishnamma; 1995: The Run of the Country (Uma Razão Para Lutar), de Peter Yates; 1997: Washington Square (Washington Square), de Agnieszka Holland; 1999: Breakfast of Champions (Um Homem Influente), de Alan Rudolph; Simpatico (Puro Sangue), de Matthew Warchus; 2000: Erin Brockovich (Erin Brockovich), de Steven Soderbergh; Traffic (Traffic - Ninguém Sai Ileso), de Steven Soderbergh; 2001: Hemingway, the Hunter of Death, de Sergio Dow; Delivering Milo, de Nick Castle; 2003: Big Fish (O Grande Peixe), de Tim Burton; 2004: Ocean's Twelve (Os Doze do Oceano), de Steven Soderbergh (não creditado); 2005: Corpse Bride (A Noiva Cadáver), de Tim Burton e Mike Johnson; Aspects of Love, de Gale Edwards; 2006: A Good Year (Um Ano Especial), de Ridley Scott; Amazing Grace,de Michael Apted; 2007: The Bourne Ultimatum (Ultimato), de Paul Greengrass; Before the Devil Knows you're Dead (Antes que o Diabo Saiba que Morreste), de Sidney Lumet; 2012: The Bourne Legacy (O Legado de Bourne), de Tony Gilroy; Skyfall (Skyfall), de Sam Mendes.
Na televisão: 1956: She Stoops to Conquer, de Dennis Monger; 1957: The Claverdon Road Job, de Peter Dews; 1958: BBC Sunday-Night Theatre; 1959: A Midsummer Night's Dream, de Peter Hall; Emergency-Ward 10, de Paul Bernard e John Cooper; 1975: Forget-Me-Not-Lane, de Alan Bridges; 1982: Lights, Camera, Annie! (documentário); 1984: Pope John Paul II, de Herbert Wise; The Biko Inquest, de Graham Evans e Albert Finney; 1987: A Simple Man, de Moira Shearer; 1990: The Wall: Live in Berlin, de Ken O'Neil e Roger Waters; The Image, de Peter Werner; The Endless Game, de Bryan Forbes; The Green Man, de Elijah Moshinsky; 1996: Karaoke, de Renny Rye; Cold Lazarus, de Renny Rye; 1997: Nostromo, de Alastair Reid; 1998: A Rather English Marriage, de Paul Seed; 2002: The Gathering Storm, de Richard Loncraine; 2001: My Uncle Silas, de Philip Saville; 2003: My Uncle Silas II, de Tom Clegg; My Uncle Silas, de Philip Saville; 2008: Munich the Documentary, de Phil Matthews (documentário, narrador). 
Como realizador: 1967: Charlie Bubbles (Um Homem e a Sua História); 1984: The Biko Inquest (TV).

sábado, 26 de abril de 2014

SESSÃO 17: 27 DE MAIO DE 2014


COM JEITO VAI MESTRE (1959)

A série de comédias inglesas “Com Jeito Vai…” foi uma das de maior sucesso popular em Inglaterra e em todo o mundo. Produziram-se 31 filmes entre 1958 e 1992, mas 30 delas até 1979. Eram comédias com um tema central para cada uma delas, organizando-se como uma sucessão de sketches, parodiando o assunto, muitas vezes outros filmes de grande sucesso (Cleópatra, westerns, filmes de terror, 007, Emmannuelle, etc.) ou então certas instituições, como a escola, o hospital, o exército, a marinha, o campismo, os cruzeiros, etc.
São comédias populares, sem grandes subtilezas, vivendo de trocadilhos linguísticos e de situações dúbias. São brejeiras, qb, sem entrarem na ordinarice, por vezes com um humor ingénuo, aos nossos olhos de hoje, mas que não só fizeram um tempo, como hoje são vistas como objectos de culto por plateias de várias idades e extractos sociais. Na época foram atacadas por serem uma forma de fuga à realidade (veja-se o ataque que lhes moveram os “angry young men” e o “free cinema”), o que se compreende.


“Com Jeito Vai, Mestre”, terceiro título da série, e um dos mais divertidos destes primeiros anos, passa-se quase todo no interior de uma escola (a Maudlin Street Secondary Modern School), onde acontece uma inspecção que irá analisar o desempenho da instituição, tanto da parte de professores como dos alunos. Há duas concepções pedagógicas que se confrontam, o rigor autoritário de um lado e a “compreensão” laxista para o comportamento dos alunos. Em causa está a continuação ou não de um director de escola (o “headmaster”), consoante os inspectores aprovem ou não o desempenho da escola. Se aprovarem, o director pode ganhar um novo posto, numa nova escola, deixando aquela onde se encontra há vinte anos. Mas alguns alunos resolvem intrometer-se na avaliação, causando os maiores embaraços aos professores. As aulas de música ou de química tornam-se verdadeiros pesadelos para quem as ministra, enquanto um inspector se perde de amores por uma professora de educação física e outra se deixa seduzir (ou seduz) um desastrado mestre.
Os gags tem graça e não ofendem, e a série é hoje em dia uma curiosidade com muitos fans nos clubes de vídeo onde pululam os DVDs desta pandilha que funcionou com um agradável espírito de grupo. Na verdade os actores iam rodando de filme em filme, mantendo-se um núcleo fixo. Em “Com Jeito Vai, Mestre” encontramos alguns deles, como Kenneth Connor, Charles Hawtrey, Leslie Phillips, Joan Sims, Kenneth Williams, Hattie Jacques, Rosalind Knight, enquanto outros, como Sid James, Peter Butterworth, Terry Scott, Bernard Bresslaw, Barbara Windsor, Jack Douglas ou Jim Dale os vamos encontrar noutras aventuras do mesmo jeito.
Depois de “Carry On Sergeant” e “Carry On Nurse”', este “Carry on Teacher”, como sempre produzido por Peter Rogers e realizado por Gerald Thomas (uma dupla que concedeu os trinta e um títulos da série, o que é obra!), prolonga de certa forma um certo tipo de humor tradicional inglês que vem do music hall e dos entertainers.
Curiosidade: anos mais tarde, Morrissey homenageia o filme com uma canção que cita a escola do filme: "Late Night, Maudlin Street".


COM JEITO VAI MESTRE
Título original: Carry on Professor
Realização: Gerald Thomas (Inglaterra, 1959); Argumento: Norman Hudis; Produção: Peter Rogers; Música: Bruce Montgomery; Fotografia (p/b): Reginald H. Wyer; Montagem: John Shirley; Casting: Betty White; Direcção artística: Lionel Couch; Maquilhagem: Olga Angelinetta, George Blackler; Guarda-roupa: Laurel Staffell; Direcção de Produção:  Frank Bevis; Assistentes de realização: Bert Batt, Ian Goddard, David Tringham; Departamento de arte: Terence Morgan; Som: Robert T. MacPhee, Gordon K. McCallum, Les Wiggins, Cyril Crowhurst; Peter Rogers Productions, Beaconsfield Productions; Intérpretes: Kenneth Connor (Gregory Adams), Charles Hawtrey (Michael Bean), Leslie Phillips (Alistair Grigg), Joan Sims (Sarah Allcock), Kenneth Williams (Edwin Milton), Hattie Jacques (Grace Short), Rosalind Knight (Felicity Wheeler), Cyril Chamberlain (Alf Hudson), Ted Ray (William 'Wakie' Wakefieldo), Richard O'Sullivan (Robin Stevens), George Howell (Billy Haig), Diana Beevers (Penelope 'Penny' Lee), Jacqueline Lewis (Pat Gordon), Roy Hines (Harry Bird), Carol White (Sheila Dale), Jane White (Irene Ambrose), Paul Cole (John Atkins), Larry Dann, Francesca Annis, Josephine Bailey, David Barry, Sandra Bryant, Jeremy Bulloch, Peter Cleall, Terry Cooke, Leonard Davey, Jane Evans, Daphne Foreman, Irene French, Vicky Harrington, Lorna Henderson, Diane Langton, David Tilley, etc. Duração: 86 minutos; Distribuição em Portugal: LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 23 de Dezembro de 1960.

CARRY ON  - A SÉRIE
A série “Carry On” (“Com Jeito Vai…” na sua tradução portuguesa) é um conjunto de comédias inglesas que se iniciaram em 1958 e que se prolongou até 1992, inicialmente distribuídos pela   Anglo-Amalgamated (1958 – 1966), pela Rank Organisation (1967 – 1978), todas elas rodadas nos Pinewood Studios. Consta de 31 títulos para cinema, três especiais de Natal, e uma outra série de televisão, com  treze episódios, além de três espectáculos teatrais que estrearam no West End de Londres e fizeram tournées pela província.
Peter Rogers e Gerald Thomas foram respectivamente o produtor e o realizador, sendo que por duas vezes ambos assinaram conjuntamente a direcção. Empregavam um conjunto de actores mais ou menos constante que circulavam pelas diversas obras, consoante as necessidades do projecto. Os nomes mais assíduos foram os de Sid James, Kenneth Williams, Charles Hawtrey, Joan Sims, Kenneth Connor, Peter Butterworth, Hattie Jacques, Terry Scott, Bernard Bresslaw, Barbara Windsor, Jack Douglas e Jim Dale. Entre 1958 e 1992, surgiram sete argumentistas, entre os quais Norman Hudis (1958–62) e Talbot Rothwell (1963–74). As partituras musicais tiveram três compositores principais: Bruce Montgomery (1958–62), Eric Rogers (1963–75, 1977–78) e Max Harris (1976: Carry On England).
É até hoje a segunda série de filmes ingleses com maior duração, só ultrapassada pelo James Bond, 007.  Existiu um longo hiato entre 1978 e 1992.
Foi uma série muito popular, não só Inglaterra, como um pouco por todo o lado. Em Portugal estrearam-se quase todas no Cinema São Jorge, em épocas apropriadas, Carnaval ou Natal. 
Filmografia: 1958: Carry On Sergeant (Com Jeito Vai, Sargento), de  Gerald Thomas; 1959: Carry On Nurse, de  Gerald Thomas; Carry On Teacher (Com Jeito Vai, Mestre), de  Gerald Thomas; 1960: Carry On Constable (Com Jeito Vai, Sr. Guarda), de  Gerald Thomas; Carry On Regardless, de Gerald Thomas, Ralph Thomas; 1962: Carry On Cruising, de  Gerald Thomas,Ralph Thomas; 1963: Carry On Cabby, de Gerald Thomas; Carry On Jack, ou Carry On Venus, de Gerald Thomas; 1964: Carry On Spying, de  Gerald Thomas; Carry On Cleo (Com Jeito Vai... Cleópatra), de  Gerald Thomas; 1965: Carry On Cowboy, de  Gerald Thomas; 1966: Carry On Screaming! (Com Jeito Vai... Gritando), de  Gerald Thomas; Carry On – Don't Lose your Head, de  Gerald Thomas; 1967: Carry On – Follow that Camel, de  Gerald Thomas; Carry On Doctor (Doutor, Vamos a Isto), de  Gerald Thomas; 1968: Carry On up the Khyber (Saias Acima), de  Gerald Thomas; 1969: Carry On Camping (Com Jeito Vai... Campista), de  Gerald Thomas; Carry On Again Doctor (Doutor... Agora É Que São Elas), de  Gerald Thomas; 1970: Carry On Up the Jungle ( Agência de Vigarices), de  Gerald Thomas; Carry On Loving, de  Gerald Thomas; Carry On Henry (A Sétima Mulher de Henrique VIII), de  Gerald Thomas; 1971: Carry On At your Convenience (Os Revoltados do Cano), de  Gerald Thomas; 1972: Carry On Matron (Até à... Maternidade!), de  Gerald Thomas; Carry On Abroad (Com Jeito Vai... na Pândega!), de  Gerald Thomas; 1973: Carry On Girls (Simplesmente... 'Garotas'), de  Gerald Thomas; 1974: Carry On Dick (Com Jeito Vai... de Bacamarte à Solta), de Gerald Thomas; 1975: Carry On Behind (Com Jeito Vai... na Farra), de  Gerald Thomas; 1976: Carry On England (Com Jeito Vai... Inglaterra), de  Gerald Thomas; 1978: Carry On Emmannuelle (Com Jeito Vai Emmannuelle), de  Gerald Thomas; 1979: That's Carry On (Com Jeito Vai... Pessoal), de  Gerald Thomas; 1992: Carry On Columbus (Com Jeito Vai... Colombo), de  Gerald Thomas; em televisão: 1998: Carry on Snogging (TV), 2001: Can We Carry On, Girls? (TV), 2011: Greatest Ever Carry On Films (TV).
Em 1969, o canal de televisão ITV apresentou um “Christmas Special”,  "Carry On Christmas", produzido pela Thames Television, que foi visto por mais de oito milhões de tele espectadores. Dois outros “Especiais de Natal” foram lançados em 1972 e 1973. Em 1975 surgiu a primeira série de seis episódios para televisão, a que se seguiu uma segunda série de sete episódios, todos de meia hora. 
A escritora Penelope Gilliatt escreveu sobre uma serie:.. "A carga habitual de fazer contra o Carry On filmes é dizer que eles poderiam ser muito melhor feito Isso é verdade suficiente Olham terrível, eles parecem ser editado com um cortador de toucinho , os efeitos são superficiais e os empurrões de ritmo ao longo de quadrinhos como um gato em uma manhã fria Mas se todas essas coisas eram mais elegante que eu realmente não acho que os filmes seriam mais agradável:.. a maldade faz parte da funniness "
Na imagem, que serviu de capa a um DVD, em 2003, apresentam-se as caricaturas de alguns dos principais actores da série (da esquerda para a direita): Bernard Bresslaw, Kenneth Williams, Joan Sims, Sid James, Hattie Jacques, Jim Dale, Barbara Windsor e Charles Hawtrey.
Uma outra série de comédias desta época, iniciada com "Doctor at Sea" (Uma Garota a Bordo), em 1955, sempre com realização de Ralph Thomas, teve um sucesso algo semelhante. Seguiram-se "Doctor at Large" (Não Diga, Doutor, 1957), "Doctor in Love" (Doutor Apaixonado, 1960), "Doctor in Distress" (Diga... 33 e 1/2, 1963), "Doctor in Clover" (Doutor... tenha Maneiras, 1966), “Doctor in Trouble” (1970), com participação de alguns excelentes actores, como Dirk Bogarde , James Robertson Justice, Leslie Phillips ou Harry Secombe, mas, apesar disso, não conseguiu a continuidade e o êxito de “Com Jeito Vai…”.

GERALD THOMAS (1920-1993)
Gerald Thomas, nascido a 10 de Dezembro de 1920 , em Hull, Yorkshire, Inglaterra, e falecidao a 9 de Novembro de 1993, em Beaconsfield, Buckinghamshire, Inglaterra, iniciou a sua carreira, em 1946, como montador da produtora Two Cities Films, sendo posteriormente realizador de toda a série “Com Jeito Vai…”, de que foi sempre produtor o seu amigo Peter Rogers. Irmão mais novo de Ralph Thomas, que dirigiu diversas obras para a Rank, incluindo a série iniciada com "Doctor at Sea" (Uma Garota a Bordo), em 1955.

Gerald Thomas esteve alistado no Exército inglês durante a II Guerra Mundial e tinha por hábito, para “preservar a espontaneidade dos actores”, utilizar quase sempre a primeira take de cada plano. Por uma questão de economia também, pensamos nós, dado que toda a série “Com Jeito Vai…! Tinha como característica  essencial ser muito económica. 

SESSÃO 16: 20 DE MAIO DE 2014


UM LUGAR NA ALTA RODA (1959)

O free cinema não terá sido um movimento fechado, muito pelo contrário, mas teve o seu núcleo inicial muito bem definido em redor de quatro membros que organizaram as primeiras sessões: Lindsay Anderson, Karel Reisz, Tony Richardson e Lorenza Mazzetti. Jack Clayton não fez parte deste grupo, mas o seu filme “Room at the Top” acabou por se integrar coerentemente nos propósitos dos mentores do movimento: um retrato de uma Inglaterra raramente vista no cinema durante a década de 50, uma análise desencantada e irada sobre a situação social, um desviar de foco, do puro entretenimento para a condição operária e para os conflitos de classes, que só muito acidentalmente eram vistos na cinematografia inglesa desta época. Por isso, “Um Lugar na Ata Roda” passou a ser “companheiro de percurso” do free cinema.
Numa pequena cidade da província inglesa vamos acompanhar a chegada de um jovem, Joe Lampton (Laurence Harvey), que vem ocupar um lugar de secretaria numa das empresas locais. Astuto e arrivista, com sucesso junto das mulheres, Joe começa por cortejar uma francesa que conhece numa companhia de teatral da cidade, Alice (Simone Signoret). Solitária e entrada na idade, Alice prolonga um casamento infeliz e encontra em Joe uma nova esperança de bem-estar. Mas Joe rapidamente muda o seu olhar para Susan Brown (Heather Sears), filha de um importante empresário (Donald Wolfit), que lhe oferece outras garantias de ascensão social. Afinal, tudo se resume a subir na vida, não olhando aos degraus que se pisam para se atingir os fins.
Trata-se mais uma vez de um anti-herói, encolerizado pela situação social, e educado numa sociedade que só premeia os que triunfam e disfrutam de uma condição económica desafogada.
Baseado num romance de John Braine, o argumento de Neil Paterson e Mordecai Richler, poderia facilmente cair nas armadilhas do melodramatismo fácil e piegas, do sentimentalismo mais primário. A realização, sóbria mas vigorosa, de Jack Clayton e as actuações dos principais intérpretes, Laurence Harvey, excelente na sua máscara de um cinismo e pragmatismo extremos, Simone Signoret, numa magnífica composição que lhe valeria o Oscar de Melhor Actriz do ano, e Heather Sears, na figura de uma ingénua e desprevenida adolescente, mantêm o filme a um nível de invulgar austeridade e qualidade plástica e emocional. No que são ainda acompanhados pelo trabalho de dois secundários brilhantes, Donald Wolfit e Hermione Baddeley. O segredo do sucesso desta obra, que correu contra a corrente do tempo e afirmou um olhar novo sobre a realidade inglesa, foi seguramente a sensibilidade de Jack Clayton para descrever o dia-a-dia de uma pequena cidade industrial, a justeza de tom na imposição de personagens e a discreta mas corajosa análise dos pequenos e grandes interesses que se jogam numa sociedade onde impera a hipocrisia. 
A belíssima fotografia a preto e branco de Freddie Francis, e a banda sonora, onde sobressai a partitura musical de Mario Nascimbene, são outros elementos a valorizar esta obra que se afirmou como um dos mais altos momentos do cinema inglês no final da década de 50. Curiosamente, começou por ser mal recebido na sua estreia, mas foi progressivamente ganhando o relevo que hoje lhe é devido. Um dos aspectos mais interessantes da obra foi a forma desassombrada como tratou a questão sexual, muito pouco abordada até então. O facto de surgir um adultério, de se apontarem relações sexuais anteriores ao casamento, e a ousadia sensual de algumas cenas de amor provocaram polémica e geraram mal entendidos. Mas, após algumas semanas em estreia, o filme começaria a ganhar os favores do público e acabaria por ser o quarto maior sucesso de bilheteira do ano. Ganharia inúmeros prémios internacionais: nos Oscars, para lá da estatueta para Simone Signoret, há a referir outro Oscar para Melhor Argumento Adaptado, além de ter sido nomeado para Melhor Filme, Melhor Actor, Melhor Actriz Secundária e ainda Melhor Realizador. Nos Globos de Ouro, ganhou o Samuel Goldwyn Award e Simone Signoret foi igualmente nomeada, ela que tinha anteriormente vencido o Festival de Cannes, onde Clayton foi vedeta. Nos BAFTA de 1959, ganhou o Prémio de Melhor Filme do Ano e de Melhor Filme Inglês do Ano. Simone Signoret não fugiu à regra e viu o seu memorável desempenho galardoado. O filme foi ainda nomeado para Melhor Actor Inglês (Laurence Harvey e Donald Wolfit); Melhor Actriz Inglesa (Hermione Baddeley) e Revelação em Cinema (Mary Peach). 

UM LUGAR NA ALTA RODA
Título Original: Room at the Top
Realização: Jack Clayton (Inglaterra, 1959); Argumento: Neil Paterson, Mordecai Richler, segundo romance de John Braine; Produção: Raymond Anzarut, James Woolf, John Woolf; Música: Mario Nascimbene; Fotografia (p/b):  Freddie Francis; Montagem: Ralph Kemplen; Direcção artística: Ralph W. Brinton; Guarda-roupa: Rahvis; Maquilhagem: Tony Sforzini; Direcção de Produção: James H. Ware; Assistentes de realização: Ronald Spencer; Departamento de arte: Tom Jung; Som: John Cox, Peter Handford, Ken Ritchie; Companhias de produção:Romulus Films, Remus; Intérpretes: Simone Signoret (Alice Aisgill), Laurence Harvey (Joe Lampton), Heather Sears (Susan Brown), Donald Wolfit (Mr. Brown), Donald Houston (Charles Soames), Hermione Baddeley (Elspeth), Allan Cuthbertson (George Aisgill), Raymond Huntley (Mr. Hoylake), John Westbrook (Jack Wales), Ambrosine Phillpotts (Mrs. Brown), Richard Pasco (Teddy), Beatrice Varley, Delena Kidd, Ian Hendry, April Olrich, Mary Peach, Anthony Newlands, Avril Elgar, Thelma Ruby, Paul Whitsun-Jones, Derren Nesbitt, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: inexistente; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 2 de Dezembro de 1959.

JACK CLAYTON (1921-1995)
Jack Clayton nasceu a 1 de Março de 1921, em Brighton, Inglaterra, e viria a falecer, com 73 anos, a 26 de Fevereiro de 1995, em Slough, Berkshire, Inglaterra. Casado com Christine Norden (1947-1953), Katherine Kath (?-?) e Haya Harareet (?-1995). Começou a sua carreira no cinema, como actor, com oito anos, no filme “Dark Red Roses” (1929). Aos 14 anos, trabalhava para a empresa de Alexander Korda, Denham Film Studios, como “tea boy”, continuando a subir nos estúdios, passando a assistente de realização e montador. Alistado na Royal Air Force durante a II Guerra Mundial, Clayton dirige o seu primeiro filme, “Naples is a Battlefield” (1944). Terminada a guerra, trabalha como produtor associado na Romulus Film Productions, de John e James Woolf, onde dirige uma curta-metragem que ganharia um Oscar, “The Bespoke Overcoat” (1956), iniciando assim uma carreira regular de realizador e produtor, sendo particularmente atraído para adaptações de obras literárias. “Room at the Top” (1959) é o seu primeiro grande triunfo, aparecendo associado aos movimentos dos angry young men e free cinema que por essa altura surgiram em Inglaterra, recuperando uma tradição realista e social do cinema inglês. O filme recebeu várias nomeações para os Oscars, ganhou dois, e teve diversos prémios em festivais de todo o mundo.
"Os Inocentes" (1961), Segundo Henry James, "The Pumpkin Eater" (1964) e "Casa de Nossa Mãe" (1967) confirmam UMA Reputação, Sendo Contratado DEPOIS POR Grandes Estúdios norte-Americanos de para algumas Produções seguintes, Como "O Great Gatsby "(1974), adaptando F. Scott Fitzgerald, OU" Something Wicked This Way Comes "(1983), Segundo Ray Bradbury. Doente from 1978, um SUA actividade começou a rarear. De Regresso a Inglaterra, dirigiu OS SEUS Dois Ultimos Filmes, um parágrafo cinema, "A Paixão Solitária de Judith Hearne" (1987), outro parágrafo Televisão, "Memento Mori" (1992), Ambos protagonizados POR Maggie Smith.

Filmografia
Como produtor
1944: Nápoles é um campo de batalha (Curta-metragem); 1956: O Bespoke Overcoat (Curta-metragem); 1959: Room at the Top (Um Lugar na Alta Roda); 1961: The Innocents (Os Inocentes); 1964: The Pumpkin Eater; 1967: Casa de Nossa Mãe (Todas como Noites como Nove); 1974: The Great Gatsby (O Grande Gatsby); 1983: Something Wicked This Way Comes; 1987: A Paixão Solitária de Judith Hearne (A Paixão Solitária de Judith Hearne); 1992: Memento Mori (TV)

LAURENCE HARVEY 
(1928-1973)
Laruschka Mischa Skikne (nome de baptismo de Laurence Harvey), nasceu a 1 de Outubro de 1928, em Joniskis, na Lituânia, e faleceu a 25 de Novembro de 1973, em Londres, Inglaterra, vítima de um cancro no estômago. Em 1934, a família emigra para a África do Sul, instalando-se em Joanesburgo. Durante a II Guerra Mundial, Laurence Harvey alista-se no exército, passa pelo Egipto e Itália, após o que regressa à África do Sul, onde começa uma carreira de actor. Ganhou uma bolsa para a Royal Academy of Dramatic Arts e viaja até Londres. Em Manchester, associa-se ao elenco do Library Theater.
Em 1948, estreia-se no cinema em “House of Darkness” e no teatro comercial aparece em "Hassan", um notório fracasso. Junta-se à companhia do Shakespeare Memorial Theatre em Stratford-upon-Avon, na temporada de 1952. Na Romulus Pictures vai construindo uma carreira discreta, de actor frio e distante, até que, em 1954, interpreta Romeu, na versão de “Romeu e Julieta”, de Renato Castellani, um papel que o lança internacionalmente. Chama a atenção de Hollywood e a Warner dá-lhe o protagonismo em “O Talismã” (1954). Prossegue o trabalho sem sobressalto até que, em 1959, Jack Clayton o contrata para “Um Lugar na Alta Roda” (1959), uma obra que, conjuntamente com “Paixão Proibida” (1959), renova o cinema inglês, e impõe o “free cinema”, ainda que Clayton não faça parte do movimento, sendo no entanto a ele associado pelas características sociais e realistas do filme. Harvey é nomeado para o Oscar de Melhor Actor e a sua carreira estava lançada, tanto em Inglaterra como nos EUA. Integra o elenco de um conjunto de obras importantes, como “Alamo”, de John Wayne, “O Número do Amor”, de Daniel Mann, “Fumo de Verão”, de Peter Glenville, “Restos de Um Pecado”, de Edward Dmytryk; “O Enviado da Manchúria”, de John Frankenheimer, “Darling”, de John Schlesinger, “Carga da Brigada Ligeira”, de Tony Richardson, entre outras. Casado com Margaret Leighton (1957 - 1961), Paulene Stone (1972 - 1973), Joan Perry (1968 - 1972).

Filmografia
Como ator
Cinema: 1948: Casa das Trevas, de Oswald Mitchell; 1949: Man on the Run, de Lawrence Huntington; O Homem de Ontem, de Oswald Mitchell; Aterragem, de Ken Annakin; 1950: Os Anos de Dança (A Valsa Eterna), de Harold franceses; The Black Rose (A Rosa Negra), de Henry Hathaway; Cairo Road, de David MacDonald (NAO creditado); 1951: Linha Scarlet (A Corrida da Morte), de Lewis Gilbert; Há outro Sol, de Lewis Gilbert; 1952: Um assassino Caminhadas, de Ronald Drake; Eu acredito em você (Acredito los Ti), de Basil Dearden e Michael Relph; Mulheres de Crepúsculo, de Gordon Perry; 1953: Cavaleiros da Távola Redonda (Os Cavaleiros da Távola Redonda), de Richard Thorpe (NAO creditado e Localidade: Não Confirmado); Inocentes em Paris (Inocentes los Paris), de Gordon Perry; 1954: The Good Die Young (Os Bons Morrem Cedo), de Lewis Gilbert; Rei Ricardo e os cruzados (Talismã, Ricardo Coração de Leão), de David Butler; Romeo and Juliet (Romeu e Julieta), de Renato Castellani; 1955: I Am a Camera, de Henry Cornelius; Storm Over the Nile (As Quatro Penas), de Zoltan Korda e Terence Young; 1956: Três homens em um barco (Três Homens num Bote), de Ken Annakin; 1957: Depois da Bola, de Compton Bennett; A Verdade Sobre Mulheres, de Muriel Box; 1958: The Silent Enemy (O Inimigo Silencioso), de William Fairchild; 1959: Room at the Top (Um Lugar na Alta Roda), de Jack Clayton; Poder entre os homens, de Alexander Hammid, Gian Luigi Polidoro, VR Sarma; 1960: Expresso Bongo (Expresso Bongo), de Val Guest; The Alamo (Alamo), de John Wayne; Butterfield 8 (O Número do Amor), de Daniel Mann; 1961: A longo e curto eo Alto, de Leslie Norman; Dois Amores (Dois Amores), de Charles Walters; Summer and Smoke (Fumo de Verão), de Peter Glenville; 1962: Walk on the Wild Side (Restos de Um Pecado), de Edward Dmytryk; O Maravilhoso Mundo dos Irmãos Grimm (O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm), de Henry Levin e George Pal; The Manchurian Candidate (O Enviado da Manchúria), de John Frankenheimer; A Girl Named Tamiko (Uma Chamada Rapaz Rapariga Tamiko), de John Sturges; 1963: The Running Man (Um Homem los Fuga), de Carol Reed; A Cerimônia (A Cerimónia), de Laurence Harvey; 1964: Of Human Bondage (Servidão Humana), de Ken Hughes; O Outrage (Ultraje), de Martin Ritt; 1965: Darling (querida), de John Schlesinger; A vida no topo (Escândalo na Alta Roda), de Ted Kotcheff; 1966: O Espião com um nariz frio (Camarada Princesa, Agente los Londres), de Daniel Petrie; 1968: Kampf um Rom I UO The Last Roman, de Robert Siodmak; Um dândi em Aspic (A Beira do Pânico), de Anthony Mann; Conto do Inverno, de Frank Dunlop; A Carga da Brigada Ligeira (A Carga da Brigada Ligeira), de Tony Richardson; Casamento da Boneca (Documentário); 1969: L'Assoluto Naturale UO Ela e Ele, de Mauro Bolognini; The Magic Christian, de Joseph McGrath; Rebus (O Jogo do Crime), de Nino Zanchin; Tchaikovsky, de Igor Talankin e L. Sadikova (narrador); Kampf um Rom II - Der Verrat; 1970: A funda, de Orson Welles (incompleto); WUSA (Muro de Separaç ão), de Stuart Rosenberg; 1972: Fuga para o Sol, de Menahem Golan; 1973: Night Watch (A Noite dos Mil Olhos), de Brian G. Hutton; F for Fake, de Orson Welles; 1974: Welcome to Seta Praia, de Laurence Harvey;
Televisão: 1950: Otelo; 1953: As You Like It; 1955: ITV Play of the Week; A Hora Alcoa; 1956: A aposta; 1957: Holiday Noite Reunião; 1959: Alfred Hitchcock Presents; ITV Play of the Week; 1960: O que é minha linha; Eis Hollywood; 1962: The Milton Berle Show; O Dilúvio; 1964: Senha; The Ed Sullivan Show; O Eamonn Andrews Mostrar; 1965: The Eamonn Andrews Mostrar; O Danny Kaye Show; 1966: Hollywood Talent Scouts; Late Night Line-Up; 1967: The Merv Griffin Show; Dial M for Murder; 1968: The Joey Bishop Show; Marvelous Party!; 1969: Rowan e Martin Laugh-In; Selvagem do Coringa; 1970: The David Frost Show; 1971: ITV Saturday Night Theatre; The Dick Cavett Show; The Tonight Show Starring Johnny Carson; Bowling celebridade; 1972: Night Gallery; 1973: Colombo; 45 Oscar; The Tonight Show Starring Johnny Carson;

Documentário sobre  Laurence Harvey: 1965: The Love Goddesses, de Saul J. Turell.