segunda-feira, 3 de novembro de 2014

SESSÂO 55: 18 DE NOVEMBRO DE 2014

BEAN: UM AUTÊNTICO DESASTRE (1997)

Rowan Atkinson é um dos actores mais populares do actual cinema inglês, sendo mundialmente conhecido por uma das suas criações em televisão, que passou igualmente ao cinema, Mr. Bean. Esta é uma personagem que não deixa certamente ninguém indiferente, ou se ama ou se detesta. Começou pelo “Not the Nine O'Clock News”, passou depois por “The Black Adder”, “Mr. Bean” ou  “The Thin Blue Line”,tudo séries de um enorme sucesso de público e com profunda influência no humor que hoje em dia se pratica um pouco por todo o lado. Mas este atarantado homenzinho, ora tímido ora exibicionista, mas sempre gerador de uma torrente de percalços ou de perfeitas catástrofes, de um narcisismo incómodo (são inenarráveis as suas cenas ao espelho ou mesmo aquelas que proporciona directamente ao espectador), desperta obviamente desencontradas reacções no público. Há os fiéis de sempre, que o acompanham como objecto de culto, e há quem não suporte as imbecilidades infantis desta grotesca figura.
Com “Bean: um Autêntico Desastre” a personagem passou ao grande ecrã e as respostas mantiveram-se inalteráveis. O filme, com a assinatura de Mel Smith, tem como protagonista Mr. Bean (Rowan Atkinson), um guarda de uma hipotética Royal Nacional Gallery de Londres, que acaba de vender para a América um quadro famoso, “a Mãe de Whistler”. Os americanos da The Grierson Gallery querem por força um especialista europeu a apresentar publicamente a obra, e os ingleses, para se livrarem do “pior empregado que imaginar se pode”, enviam Mr. Bean como grande especialista em arte, ele que só sabe coçar o nariz e proferir algumas sílabas sem nexo. Chegado à Califórnia, as coisas passam-se como será lógico (?) acontecerem, tanto mais que o curador do museu convida a sumidade britânica para sua casa. O que se segue é uma sucessão pandemónica de peripécias, cada uma mais louca do que a anterior, com alguns gags magníficos, outros dispensáveis, mas que oferecem bem a imagem deste actor que desencadeou uma onda de fervorosos adeptos em todo o mundo.
A realização de Mel Smith é escorreita e aproveita sobretudo as características do humor de  Rowan Atkinson (que admiramos sobretudo em obras como “Quatro Casamentos e Um Funeral”, onde cria uma fabulosa figura de padre), pois essa é a sua função.

BEAN: UM AUTÊNTICO DESASTRE
Título original: Bean
Realização: Mel Smith (Inglaterra, EUA, 1997); Argumento: Rowan Atkinson, Richard Curtis, Robin Driscoll; Produção: Rowan Atkinson, Peter Bennett-Jones, Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner, Rebecca O'Brien; Música: Howard Goodall; Fotografia (cor):  Francis Kenny; Montagem: Chris Blunden; Casting: Ronnie Yeskel; Design de produção: Peter S. Larkin; Direcção artística: Kevin Constant; Decoração:  Bill Gregory; Guarda-roupa:  Hope Hanafin; Maquilhagem: Tony Gardner, Brian McManus, Emjay Olson, Rupert Simon, Judy Yonemoto; Direcção de Produção: Cydney Bernard, Deborah Harding; Assistentes de realização: Trey Batchelor, John Greaves, Cliff Lanning, Todd Y. Murata, Michael Zimbrich; Departamento de arte: Andy Evans, Maureen Farley, Craig Gadsby, Gregory S. Hooper, Tom Hrupcho, Theodore Sharps, Abigail Sheiner; Som: Robert J. Anderson Jr., Matt Grimes, Eddy Joseph, Nick Lowe, Kenneth C. Mantlo, Nigel Mills; Efeitos especiais: Scott Kodrik; Companhias de produção: Polygram Filmed Entertainment, Working Title Films, Tiger Aspect Productions; Intérpretes: Rowan Atkinson (Mr. Bean), Peter MacNicol (David Langley), John Mills (Chairman), Pamela Reed (Alison Langley), Harris Yulin (George Grierson), Burt Reynolds (General Newton), Larry Drake (Elmer), Danny Goldring (segurança), Johnny Galecki (Stingo Wheelie), Chris Ellis (Det. Butler), Andrew Lawrence (Kevin Langley), Peter Egan (Lord Walton), Peter Capaldi (Gareth), June Brown, Peter James, Clive Corner, Rob Brownstein, Julia Pearlstein, Tom McGowan, Sandra Oh, Tricia Vessey, Alison Goldie, Dakin Matthews, Scott Charles, Thomas Mills, Ronnie Yeskel, etc. Duração: 89 minutos; Distribuição em Portugal: Vitória Filmes (1997, cinema), Prisvideo (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Setembro de 1997.

MEL SMITH (1952-2013)
Melvyn Kenneth Smith nasceu a 3 de Dezembro de 1952, em Chiswick, Londres, Inglaterra, e faleceu a 19 de Julho de 2013, em St John's Wood, Londres, Inglaterra, vítima de ataque de coração. Actor, produtor, realizador, um dos seus títulos mais conhecidos terá sido “A Princesa Prometida” (1987). Casado com a modelo Pamela Gay-Rees (1991-2013). Estudou na Universidade de Oxford. Trabalhou muito na televisão, fazendo por vezes parelha com Griff Rhys Jones, seu sócio na companhia de produção Talkback. Ainda na universidade, produziu “The Tempest”, e representou na Oxford University Dramatic Society. Passou pelo Royal Court Theatre de Londres, depois pelo Bristol Old Vic. Foi director associado do Sheffield's Crucible Theatre, mas rapidamente enveredou por uma carreira de actor e produtor de televisão, sobretudo na área da comédia, onde se notabilizou. Em 1999 foi hospitalizado em virtude de uma overdose de comprimidos contra as dores e as insónias. Morreu em 2013, em casa, vítima de um ataque cardíaco.

Filmografia:
Como realizador:  1989: The Tall Guy (Os Homens Medem-se aos Palmos); 1994: From Here to Paternity (TV); Radioland Murders; 1997: Bean (Bean: Um Autêntico Desastre); 2001: Heels and Low Lifes (Perigo de Saltos Altos); 2003: Blackball (A Estrela da Equipa).

ROWAN ATKINSON (1955 - )
Rowan Sebastian Atkinson nasceu a 6 de Janeiro de 1955, em County Durham, Inglaterra. Filho de Ella May e Eric Atkinson. Passa a juventude numa quinta dirigida pelo pai, mais tarde estuda nas Universidade de Newcastle e em Oxford onde tira o curso de engenheiro electrónico. É o seu encontro com o argumentista Richard Curtis que o leva para o espectáculo, escrevendo e representando comédias, sobretudo na televisão. Associa-se à equipa que escreve e interpreta a série “Not the Nine O'Clock News” (1979), que ganha um International Emmy Award e o British Academy Award para "Best Light Entertainment Programme of 1980." Ele próprio ganha o "British Academy Award" e é considerado a "BBC Personality of the Year" pela sua representação no programa. É o triunfo que se prolonga por várias aparições no cinema (“Dead on Time”, 1983, “Pleasure at Her Majesty's”, 1976, “Nunca Digas Nunca”, 1983, “Os Homens Medem-se aos Palmos”, 1989),  mas sobretudo na televisão (em séries como “The Black Adder”, “Mr. Bean”, “Funny Business” ou “The Thin Blue Line”, etc.).
Casado com a maquilhadora Sunetra Sastry desde 1990. Entusiasta de automóveis e velocidade, escreve sobre carros e participa em corridas (e por vezes em choques traumáticos que o levam ao hospital). Recebeu o Laurence Olivier Theatre Award para Best Comedy Performance em 1982.

Filmografia
Como actor / no cinema: 1982: Fundamental Frolics; 1983: Dead on Time, de Lyndall Hobbs (curta-metragem); Never Say Never Again (nunca Digas Nunca), de Irvin Kershner; 1989: The Appointments of Dennis Jennings, de Dean Parisot (curta-metragem); The Tall Guy (Os Homens Medem-se aos Palmos), de Mel Smith; 1990: The Witches (As Bruxas), de Nicolas Roeg; 1991: The Driven Man, de Mark Chapman; 1992: Laughing Matters; 1993: Hot Shots! 2 (Ases pelos Ares, 2), de Jim Abrahams; 1994: Four Weddings and a Funeral (Quatro Casamentos e um Funeral), de Mike Newell; The Lion King (O Rei Leão), de Roger Allers, Rob Minkoff  (voz);  1997: Bean (Bean: um Autêntico Desastre), de Mel Smith; 2000: Maybe Baby, de Ben Elton; 2001: Rat Race (Está Tudo Louco!), de Jerry Zucker; 2002: Scooby-Doo (Scooby-Doo), de Raja Gosnell; 2003: Johnny English (Johnny English), de Peter Howitt; Love Actually (O Amor Acontece), de Richard Curtis; 2005: Keeping Mum (Uma Família dos Diabos), de Niall Johnson;
2007: Mr. Bean's Holiday (Mr. Bean em Férias), de Steve Bendelack; 2011: Johnny English Reborn         (O Regresso de Johnny English), de Oliver Parker;

Como actor / na televisão: Canned Laughter (1979), The Secret Policeman's Ball (1979), Not the Nine O'Clock News (1979–1982), Peter Cook & Co (1980), The Innes Book of Records (1980), Blackadder II; blackadder's Christmas Carol; Blackadder III, Blackadder's Christmas Carol; Blackadder III; Blackadder's Christmas Carol; Blackadder Goes Forth(1983–1989); Saturday Live (1986); Mr. Bean (1990–2012); Rowan Atkinson Live (1992); Bernard and the Genie (1991); Funny Business (1992); A Bit of Fry & Laurie (1992); The Thin Blue Line; (1995–1996); The Story of Bean (1997); Black Adder and Centurion Blaccadicus (2000); Mr. Bean (animação) (voz) (2002); Blackadder: The Cavalier Years (1988); Nosenight (1989); Mr Bean's Red Nose Day (1991); The Stonk (1991); (I Wanna Be) Elected (1992); Blind Date with Mr Bean (1993); Torvill and Bean (1995); Doctor Who and the Curse of Fatal Death (1999); Popsters (2001); Lying to Michael Jackson (2003); Spider-Plant Man (2005); Mr Bean's Wedding (2007); The Greatest Worst Bits of Comic Relief (2007); Live from Lambeth Palace (2013); We Are Most Amused (2008); Blackadder Rides Again (2008); Not Again: Not the Nine O'Clock News (2009); Bondi Rescue (2010); Top Gear (2011); The Olympics opening ceremony (2012); Goodness Gracious Me (2013); Goodwood Festival of Speed (2014).

SESSÃO 54: 11 DE NOVEMBRO DE 2014


SEGREDOS E MENTIRAS (1996)

De início há duas mulheres, com vidas separadas que vamos acompanhando em montagem paralela. De um lado, Hortence, uma jovem negra de 27 anos, técnica de optometria, que acaba de assistir ao enterro da sua mãe adoptiva. Como o pai adoptivo já tinha morrido anos antes, Hortence é agora uma mulher só.
Num outro local de Londres, Cynthia, uma mulher branca, de meia idade, mãe de uma rapariga de 20 anos, Roxane, empregada numa fábrica, é a imagem da instabilidade e do desconforto. Vamos assistindo a cenas de ora uma, ora outra, imagens desligadas que pressentimos que mais à frente irão colidir. Chama-se a isto, em linguagem técnica e escolástica, montagem de convergência.
Hortence sente-se só e vai tentar encontrar a mãe biológica que a deu para adopção ainda bebé. Pela legislação inglesa isto é possível e Hortence acaba por descobrir que a sua mãe é Cynthia, nada mais, nada menos. Uma negra filha perdida de uma branca que não quer acreditar nos seus olhos quando é posta perante as evidências: “Mas minha querida, eu não posso ser tua mãe!”. Claro que podia, lembrou-se depois de um americano de que não quer falar e com quem se cruzara quando tinha dezasseis anos.
O resto são “segredos e mentiras” de que fala o título da obra de Mike Leigh e que se vem lentamente deslindando, perante surpresas, dúvidas, ataques de fúria e um churrasco familiar que introduz alguma harmonia, mesmo que passageira, naquela nova família.


Mike Leigh propõe uma solução utópica, é certo, mas saudável. Nada melhor que a verdade e enfrentá-la resolutamente. Como já se sabe, Mike Leigh e Ken Loach são dois dos mais representativos cineastas do cinema inglês contemporâneo e dois cultores de um cinema de forte implantação social. “Segredos e Mentiras” é modelar na forma como retrata a realidade social de Inglaterra, na década de 90, com as suas  dificuldades e características próprias. De um lado, temos uma média burguesia com os seus pequenos sonhos (curiosamente representada por uma negra), do outro, uma mescla de pequena burguesia a descambar para o proletariado (a filha de Cynthia é empregada de limpeza nas ruas de Londres). Mas Cynthia tem um irmão, Maurice,  fotógrafo de casamentos e baptizados e de fotos de estúdio, que tem uma vida um pouco mais desafogada. É neste universo sem grandes horizontes, num bairro popular da capital inglesa, que tudo se passa. Mas a precisão das anotações sociais, o rigor na descrição das situações, e sobretudo a densidade psicológica, a verdade humana que as personagens exalam, quer pelo desenho das personalidades que o argumento lhes oferece, quer pelo brilhantismo da interpretação de um elenco absolutamente notável que conseguiu nomeações para os Oscars nas respectivas categorias: Timothy Spall é um fabuloso Maurice, desde o pormenor das suas sessões fotográficas até ao comovente tom conciliador com que tenta reunir a família; Marianne Jean-Baptiste na figura de Hortence, rigorosa e discreta, a brilhante Brenda Blethyn na complexa e histriónica Cynthia, divididas entre as mais amplas emoções, ou mesmo Claire Rushbrook, a revoltada Roxanne, que deixa cair a sua fachada de agressividade latente, perante o desenrolar dos acontecimentos.
A realização de Mike Leigh é serena, atenta ao mais pequeno indício, intimista e púdica, com uma construção extremamente inteligente e sensível. Uma obra-prima invulgar, optimista no seu desencanto.


SEGREDOS E MENTIRAS
Título original: Secrets & Lies
Realização: Mike Leigh (Inglaterra, 1996);  Argumento: Mike Leigh; Produção: Simon Channing Williams; Música: Andrew Dickson; Fotografia (cor):  Dick Pope; Montagem: Jon Gregory; Casting: Susie Parriss, Paddy Stern; Design de produção: Alison Chitty; Direcção artística: Eve Stewart; Decoração: Liz Griffiths; Guarda-roupa:  Maria Price; Maquilhagem: Christine Blundell, Kirstin Chalmers; Direcção de Produção: Georgina Lowe; Assistentes de realização: Zerlina Hughes, Jennie Osborn, Josh Robertson, Chris Rose, Paula Spinks; Departamento de arte: Nic Orlande; Som: Orin Beaton, Mick Boggis, Loveday Harding, George Richards, Ted Swanscott; Efeitos visuais: David Smith; Companhias de produção: Channel Four Films, CiBy 2000, Thin Man Films; Intérpretes: Timothy Spall (Maurice Purley), Phyllis Logan (Monica Purley), Brenda Blethyn (Cynthia Rose Purley), Claire Rushbrook (Roxanne Purley), Marianne Jean-Baptiste (Hortense Cumberbatch), Elizabeth Berrington (Jane), Michele Austin (Dionne), Lee Ross (Paul), Lesley Manville, Ron Cook, Emma Amos, Brian Bovell, Trevor Laird, Clare Perkins, Elias Perkins McCook, Jane Mitchell, Janice Acquah, Keylee Jade Flanders, Hannah Davis, Terence Harvey, Kate O'Malley, Joe Tucker, Richard Syms, Grant Masters, Annie Hayes, Jean Ainslie, Daniel Smith, Lucy Sheen, Frances Ruffelle, etc. Duração: 142 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Outubro de 1996.

MIKE LEIGH (1943- )
Nasceu a 20 de Fevereiro de 1943, em Salford, Greater Manchester, Inglaterra. Filho de um médico, a família era originária de emigrantes judeus da Europa de Leste. Estudou na Royal Academy of Dramatic Art (RADA). Vasta actividade no teatro, na televisão e no cinema. Tanto no cinema como no teatro, raramente trabalha com um guião (peça ou argumento) pré-estabelecido. A sua peça "Abigail's Party", levada a cena no New Ambassador's Theatre, foi nomeada para o Laurence Olivier Theatre Award for Best Revival de 2002. Os seus filmes têm tido algumas das maiores recompensas e distinções em Festivais de todo o mundo. Professor coordenador da The London Film School. Foi casado com Alison Steadman (1973 – 2001, divórcio), de quem tem duas filhas.  Agraciado com o oficialato da Ordem do Império Britânico, em 1993. Para si, os melhores filmes de sempre são: A Árvore dos Tamancos (1978), Viagem a Tóquio (1953), Soy Cuba (1964), Os Quatrocentos Golpes (1959), A Morte do Sr. Lazarescu (2005), Sånger från andra våningen (2000), Quanto Mais Quente Melhor (1959), Os Dias da Rádio (1987), As Sete Ocasiões de Pamplinas (1925) e How a Mosquito Operates (1912).

Filmografia:
Cinema / Longas-metragens: 1984: Meantime; 1988: High Hopes (Grandes Ambições); 1991: Life is Sweet; 1993: Naked (Nu); 1996: Secrets and Lies (Segredos e Mentiras); 1997: Career Girls (Raparigas de Sucesso); 1998: Welcome to Hollywood; 1999: Topsy-Turvy (Topsy-Turvy); 2002: All or Nothing (Tudo ou Nada); 2004: Vera Drake (Vera Drake); 2007: Happy-Go-Lucky (Um Dia de Cada Vez); 2010: Another Year (Um Ano Mais); 2014: Mr. Turner
Curtas-metragens: 1971: Bleak Moments; 1975: Five-Minutes Films; 1987: The Short and Curlies; 1992: A Sense of History; 2012: A Running Jump;

Televisão: 1973: Hard Labour; Scene (A Mug's Game?);1973-1982: Play for Today (TV) (Home Sweet Home, Who's Who, Abigail's Party, The Kiss of Death, Nuts in May); 1975-1976: Second City Firsts (Knock for Knock, The Permissive Society); 1976: Plays for Britain; 1980: BBC2 Playhouse (Grown-Ups); 1982: Home Sweet Home; 1982: Five-Minute Films (Afternoon, A Light Snack, Probation, Old Chums, The Birth of the Goalie of the 2001 F.A. Cup Final); 1983: Meantime; 1985: Four Days in July.

SESSÃO 53: 4 DE NOVEMBRO DE 2014


TRAINSPOTTING (1996)

Partindo de um romance de Irvine Welsh que se transformou rapidamente num grande sucesso editorial, adaptado ao teatro e posteriormente ao cinema, “Trainspotting” assinala a segunda obra cinematográfica de uma equipa que se havia distinguido pouco tempo antes com a sua estreia em “Shallow Grave”. Peter Boyle teria a consagração com “Quem Quer Ser Bilionário?”, em 2008.
Em “Pequenos Crimes Entre Amigos”, três companheiros de roubo disputavam uma mala com dinheiro, esquema que é mais ou menos repetido pelo escritor Irvine Welsh, o realizador Danny Boyle e o produtor Andrew MacDonald no seu trabalho seguinte. Há igualmente uma mala cheia de droga, trocada depois por uma mala repleta de notas, disputada por vários companheiros de destino. Eles formam um grupo de heroinómanos de Edimburgo que está na base desta obra. Mas esta linha de ficção é pouco importante ao longo do filme e serve sobretudo para introduzir algumas anotações de humor negro. O essencial no filme é, todavia, o tom quase documental com que se acompanha este grupo de drogados à roda dos vinte anos, que se afunda no consumo de heroína que tenta depois abandonar, para recair sem remorsos, traficando nos intervalos para conseguir dinheiro para se auto-abastecer.
O tom é quase sempre de um realismo sem concessões, desde as cenas de consumo da droga até à sequência em que o protagonista ensaia uma cura de desintoxicação. Muitos momentos, cenas de grupo na casa onde habitam, em pubs ou em discotecas, fazem lembrar o free cinema dos anos 60 e toda a tradição realista do melhor cinema inglês, que na actualidade é mantida por Ken Loach ou Mike Leigh. Mas a narração em off, assegurada pelo actor Ewan McGregor, e algumas outras sequências, relembram “A Laranja Mecânica”, de Kubrick, e o seu universo de uma violência epidérmica. É, aliás, através desse recurso a um certo onirismo negro que “Trainspotting” se afasta do puro realismo, em duas ou três sequências de devaneio e pesadelo. Numa delas, Mark Renton, depois de ter perdido dois supositórios de droga, mergulha literalmente na latrina do mais nojento WC, procurando recuperar esses dois passaportes para os tais "paraísos artificiais" de que fala a lenda. Noutra, um recém-nascido que entretanto morrera durante uma festa mais animada do grupo, aparece gatinhando no tecto do quarto.

Falando de "paraísos artificiais", este é talvez um dos primeiros filmes onde, apesar de tudo, se tenta compreender porque recorre às drogas quem delas depende. E fala-se mesmo numa possível felicidade que o seu consumo pode trazer. Felicidade que se contrapõe ao pesado quotidiano, à mediocridade da vida em família, à agressividade da competição profissional, à absoluta miséria moral circundante. A opção pela droga é aqui quase reivindicada como um direito e não é por acaso que nalgumas cenas surge o "Perfect Day", cantado por Lou Reed, como banda sonora.
O sucesso internacional que este filme conheceu, e a polémica por si desencadeada, mostram bem que nem só de obras cor-de-rosa as plateias mundiais têm necessidade. Mas o equívoco pode igualmente instalar-se, pois um filme como “Trainspotting” pode igualmente ser consumido como um degrau mais na escalada de violência e abjecção no cinema. De todas as maneiras, trata-se de um marco na história do cinema inglês, inclusive por essa forma despreconceituada como é tratado o consumo de drogas e a sua ligação a uma sociedade doente, onde os indivíduos não se sentem integrados e optam por paraísos artificiais para ultrapassar o mal-estar dominante. Um bom retrato de uma certa juventude. 

TRAINSPOTTING
Título original: Trainspotting
Realização: Danny Boyle (Inglaterra, 1996); Argumento: John Hodge, segundo romance de Irvine Welsh; Produção: Andrew Macdonald; Fotografia (cor):  Brian Tufano; Montagem: Masahiro Hirakubo; Casting: Andy Pryor, Gail Stevens; Design de produção: Kave Quinn; Direcção artística: Tracey Gallacher; Guarda-roupa:  Rachael Fleming; Maquilhagem: Graham Johnston, Robert McCann; Direcção de Produção: Lesley Stewart; Assistentes de realização: David Gilchrist, Claire Hughes, Ben Johnson; Departamento de arte: Gordon Fitzgerald, Colin H. Fraser, Stephen Wong; Som: Tony Cook, Jonathan Miller, Colin Nicolson; Efeitos especiais: Perry Costello; Efeitos visuais: Grant Mason, Tony Steers; Companhias de produção: Channel Four Films, Figment Films, The Noel Gay Motion Picture Company; Intérpretes: Ewan McGregor (Renton), Ewen Bremne (Spud), Jonny Lee Miller (rapaz doente), Kevin McKidd  (Tommy), Robert Carlyle (Begbie), Kelly Macdonald (Diane), Peter Mullan (Swanney), James Cosmo (Mr. Renton), Eileen Nicholas (Mrs. Renton), Susan Vidler (Allison), Pauline Lynch (Lizzy), Shirley Henderson (Gail), Stuart McQuarrie, Irvine Welsh (Mikey Forrester), Dale Winton, Keith Allen, Kevin Allen, Annie Louise Ross, Billy Riddoch, Fiona Bell, Vincent Friell, Hugh Ross, Victor Eadie, Kate Donnelly, Finlay Welsh, Eddie Nestor, Tom Delmar, Rachael Fleming, John Hodge, Andrew Macdonald, Archie MacPherson, etc. Duração: 94 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 18 anos; Data de estreia em Portugal: 1 de Novembro de 1996.  

DANNY BOYLE (1956 - )
Daniel Boyle nasceu a 20 de Outubro de 1956, em Radcliffe, Manchester, Inglaterra. Oriundo de uma família da classe operária irlandesa, católica. Esteve destinado a seguir uma carreira eclesiástica, mas aos 14 anos foi um padre que o dissuadiu a deixar o seminário. Hoje considera-se “um ateu espiritualista”. Rapidamente assumiu a sua paixão pelo “drama”, passou a estudar no Thornleigh Salesian College, em Bolton, depois na Bangor University, cursos de Inglês e Drama. Casou-se então com a actriz Frances Barber. Continua a considerar que entre o “Drama” (teatro, cinema) e a Igreja há muitos pontos de contacto e dá como exemplo o facto de realizadores como Martin Scorsese, John Woo ou M. Night Shyamalan, todos terem frequentado o seminário. Juntou-se à Joint Stock Theatre Company e, em 1982, passou para a  Royal Court Theatre, onde encenou “The Genius”, de Howard Brenton e “Saved”, de Edward Bond. Encenou depois, na Royal Shakespeare Company, cinco espectáculos, e em 2010, dirigiu no Old Vic Theatre um espectáculo de uma noite, “The Children's Monologues”, com Sir Ben Kingsley, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Gemma Arterton e Eddie Redmayne. Ainda no teatro, encenou em 2011 “Frankenstein”, para o National Theatre. Foi da responsabilidade de Boyle o espectáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.
Começou a trabalhar em televisão em 1987, na BBC, onde desde aí desenvolve actividade regular. No cinema estreia-se com “Shallow Grave” que, com “Trainspotting”, o levam a ser considerado “Best Newcomer Award” em 1996,  pelo London Film Critics Circle. Conta que o filme que o levou a apaixonar-se pelo cinema foi “Apocalypse Now”.
“The Beach”, “28 Days Later”, “Millions”, “Sunshine”, são os seus filmes seguintes, mas o triunfo internacional concretiza-se com “Slumdog Millionaire” (2008), e posteriormente com “127 Hours”. Prepara actualmente uma sequela de “Trainspotting”, intitulada “Porno”. Em toda a história do cinema só oito cineastas conseguiram o que Danny Boyle alcançou com “Quem Quer Ser Bilionário?”: o Oscar, o Globo de Ouro, o BAFTA e o Director's Guild, todos para o Melhor Realizador do Ano. Os outros sete são: Mike Nichols ( A Primeira Noite, 1967), Milos Forman (Voando Sobre Um Ninho de Cucos, 1975), Richard Attenborough (Gandhi, 1982), Oliver Stone (Platoon - Os Bravos do Pelotão, 1986), Steven Spielberg (A Lista de Schindler, 1993), Ang Lee (O Segredo de Brokeback Mountain, 2005), e Alfonso Cuaron (Gravidade, 2013). Entre 1983 e 2003 manteve uma relação com a directora de arte Gail Stevens, de quem tem três filhos. 

Filmografia
Cinema / Como realizador / longas metragens: 1994: Shallow Grave (Pequenos Crimes Entre Amigos); 1996: Trainspotting (Trainspotting); 1997: A Life less ordinary (Vidas Diferentes); 2000: The Beach (A Praia); 2002: 28 Days Later (28 Dias Depois); 2004: Millions (Milhões); 2007: Sunshine (Missão Solar); 2008: Slumdog Millionaire (Quem Quer Ser Bilionário?); 2010: 127 Hours (127 Horas); 2013: Trance (Transe); 2014: Porno (anunciado).
Cinema / Como realizador / curta-metragem: 2002: Alien Love Triangle;
Televisão / Como realizador: 1987: The Venus de Milo Instead; Inspector Morse (2 episódios); 1987: Scout; 1989: The Hen House; 1989: 1989-1993; Screenplay (3 episódios); The Nightwatch; 1989: Monkeys; 1991: For the Greater Good (3 episódios); 1993: Mr. Wroe's Virgins  (3 episódios); 2001: Strumpet; 2001: Vacuuming Completely Nude in Paradise; 2011: National Theatre Live:  Frankenstein; 2012: London 2012 Olympic Opening Ceremony: Isles of Wonder; 2014: Babylon.

EWAN MCGREGOR (1971 - )
Ewan Gordon McGregor nasceu a 31 de Março de 1971, em Perth, Perthshire, Escócia, Reino Unido, filho de um casal de professores, Carol Diane e James Charles McGregor. Aos 16 anos deixou a Morrison Academy para ingressar no Perth Repertory Theatre. Estudou arte de representar em Kirkcaldly, em Fife, cursando depois a London's Guildhall School of Music and Drama, ao lado de Daniel Craig e Alistair McGowan. Estreia-se na televisão na mini-série  “Lipstick on Your Collar”, de Dennis Potter, no Channel 4 (1993). O seu primeiro grande papel no cinema acontece em “Pequenos Crimes Entre Amigos” (1994), de Danny Boyle, com quem trabalha regularmente. “O Livro de Cabeceira” (1996) e “Trainspotting” (1996) confirmam-no como um dos grandes actores do mais recente teatro e cinema ingleses. Célebre pelo seu trabalho em “Star Wars”, criando a personagem de Obi-Wan Kenobi. Casado com a designer Eve Mavrakis. Em 2013 foi nomeado Oficial da Ordem do Império Britânico. Ao longo da sua carreira arrecadou dezenas de prémios e distinções internacionais.

Filmografia

Como actor: 1993: Lipstick on Your Collar (TV);  The Scarlet and the Black (TV); Family Style (TV); 1994: Being Human (Gente Como Nós), de Bill Forsyth; Shallow Grave (Pequenos Crimes Entre Amigos), de Danny Boyle; Doggin' Around (O Pianista), de Desmond Daves (TV); 1995: Blue Juice, de Carl Prechezer; Kavanagh Q.C.(TV); 1996: Tales from the Crypt (Contos de Arrepiar)(TV); Karaoke (TV); Emma (Emma), de Douglas McGrath; Trainspotting (Trainspotting), de Danny Boyle; Brassed Off  (Os Virtuosos ), de Mark Herman; The Pillow Book (O Livro de Cabeceira), de Peter Greenaway; 1997: A Life Less Ordinary  (Vidas Diferentes); The Serpent's Kiss (O Beijo da Serpente), de Philippe Rousselot; Nightwatch (O Vigilante da Noite), de Ole Bornedal; ER (Serviço de Urgência) (TV); 1998: Velvet Goldmine (Velvet Goldmine), de Todd Haynes; Little Voice (Uma Estrela Caída do Céu), de Mark Herman; Welcome to Hollywood, de Adam Rifkin e Tony Markes; 1999: Rogue Trader (Jogador de Alto Risco), de James Dearden; Star Wars Episode I: The Phantom Menace (), de George Lucas; Desserts (curta-metragem); Eye of the Beholder (Um Olhar Obsessivo), de Stephan Elliott; 2000: Nora (Nora), de Pat Murphy; Anno Domini (curta-metragem); The Mystery of the Third Planet (TV); 2001: Moulin Rouge! (Moulin Rouge!), de Baz Luhrmann; Solid Geometry (TV); Down with Love (Abaixo o Amor), de  Peyton Reed; 2002: Black Hawk Down (Cercados), de Ridley Scott; Star Wars Episode II: Attack of the Clones (Star Wars: Episódio II - O Ataque dos Clones);  de George Lucas; The Polar Bears of Churchill (TV); 2003: Bye Bye Love, de Peyton Reed; Young Adam (Young Adam), de David Mackenzie; Big Fish (O Grande Peixe), de Tim Burton; Faster, de Mark Neale; Long Way Round (TV); 2005: Robots (Robôs), de Chris Wedge, Carlos Saldanha (voz); Valiant (Valiant - Os Bravos do Pombal), de Gary Chapman (voz); Star Wars Episode III: Revenge of the Sith (Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith), de George Lucas; The Island (A Ilha), de Michael Bay; Stay (Stay - Entre a Vida e a Morte), de Marc Forster; 2006: Alex Rider: Stormbreaker (Alex Rider - Operação Stormbreaker), de Geoffrey Sax; Scenes of a Sexual Nature (Cenas de Natureza Sexual), de Ed Blum; Miss Potter (O Mundo Encantado de Beatrix Potter), de Chris Noonan; 2007: Cassandra's Dream (O Sonho de Cassandra), de Woody Allen; Long Way Down (TV); 2008: Deception (No Limite da Ilusão), de Marcel Langenegger; Incendiary (Incendiário), de Sharon Maguire; 2009: Angels & Demons (Anjos e Demónios), de Ron Howard; The Men Who Stare at Goats (Homens Que Matam Cabras só com o Olhar), de  Grant Heslov; Jackboots on Whitehall de Edward McHenry, Rory McHenry; 2010: I Love You Phillip Morris (Eu Amo-te Phillip Morris), de Glenn Ficarra e John Requa; Amelia (Amelia), de Mira Nair; The Ghost Writer (O Escritor Fantasma), de Roman Polanski; Nanny McPhee and the Big Bang (Nanny McPhee e o Toque de Magia), de Susanna White; The Battle of Britain (TV); 2011: Beginners (Assim é o Amor), de Mike Mills; Perfect Sense (O Sentido do Amor), de David Mackenzie; 2011: Fastest de Mark Neal; 2012: Haywire (Uma Traição Fatal), de Steven Soderbergh; Salmon Fishing in the Yemen (A Pesca do Salmão no Iémen), de Lasse Hallström; The Impossible  ou Lo imposible (O Impossível), de Juan Antonio Bayona; The Corrections (TV);  2013: Jack the Giant Slayer (Jack, o Caçador de Gigantes), de Bryan Singer; Ewan McGregor: Cold Chain Mission (TV);Bomber Boys (TV); August: Osage County (Um Quente Agosto), de John Wells; 2014: A Million Ways to Die in the West (Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas), de Seth MacFarlane;  Son of a Gun, de Julius Avery; Hebrides: Islands on the Edge (TV) (voz); 2015: Jane Got a Gun de Gavin O'Connor; 2015: Mortdecai, de David Koepp; 2015: Our Kind of Traitor, de Susanna White (em produção); Last Days in the Desert, de Rodrigo García (em produção); Miles Ahead, de Don Cheadle (em produção); The Land of Sometimes, de Will Finn (TV); Porno, de Danny Boyle (em produção); Born to Be King, de Peter Capaldi (em produção); 2016: American Pastoral, de Phillip Noyce (em produção).

domingo, 19 de outubro de 2014

SESSÃO 52: 28 DE OUTUBRO DE 2014


SENSIBILIDADE E BOM SENSO (1995)

“Sense and Sensibility” foi o primeiro romance escrito por Jane Austen, uma das mais conceituadas escritoras de língua inglesa, que viveu entre o século XVIII e o século XIX. A obra terá sido escrita alguns anos antes, mas só apareceu editada em 1811, ainda sem referência de autoria. Assinava-o “A Lady”. Só mais tarde Jane Austen assumiu a “maternidade”. O livro é magnífico como descrição de uma época, com personagens notáveis e situações de uma enorme subtileza e acuidade de observação. 
Como em alguns outros romances que tem por tema casas senhorias inglesas em ambientes rurais (por exemplo “O Regresso a Howards End”, de E. M. Forster, muito posterior na escrita, mas muito semelhante nalguns aspectos),  “Sensibilidade e Bom Senso” aborda uma questão de partilhas, por morte do Mr. Dashwood (Tom Wilkinson), que por tradição na época, deixa a herança ao filho (sobretudo a sua casa Norland Park) com a recomendação do mesmo assegurar a sobrevivência das três filhas de um segundo casamento, Elinor (Emma Thompson), Marianne (Kate Winslet) e Margaret (Emilie François),  bem assim como da sua mulher. 

Mas, desaparecido o patrono, John, o único filho, de conluio com a viperina mulher, tratam de esquecer as recomendações paternas e exilam a Senhora Dashwood e as suas filhas para bem longe, habitando uma casa muito mais simples e com reduzidos recursos para viver. Claro que toda esta trama de cariz social está bem impregnada no desenrolar da obra que todavia faz oscilar o seu centro de acção para uma análise do comportamento das irmãs Elinor e Marianne, cada uma delas com reacções muito diversas perante as circunstancias que enfrenta. Elinor é mais racional, fazendo imperar o bom senso, Mariane é sobretudo emotiva e passional. Mas cada uma delas, depois de passar por diversas provas, acaba por encontrar o seu equilíbrio, tanto emocional como racional.
Como quase todas as obras literárias de Jane Austen, “Sensibilidade e Bom Senso” já conheceu algumas adaptações ao cinema e à televisão. Rodney Bennett, em 1981, realizou uma mini-série para televisão de certa qualidade, e John Alexander, já em 2008 também teve bons resultados para a sua versão na BBC. Mas este “Sense and Sensibility”, de 1995, adaptado e interpretado por Emma Thompson e dirigido por Ang Lee para cinema, será seguramente o melhor exemplo de uma cuidada adaptação, onde todos os valores se produção se encontram salvaguardados, através de uma excelente reconstituição de época, cuidada e sem  ostentação inútil, uma fotografia magnífica, uma montagem descritiva e serena, adaptada ao espírito da época e do local, e uma notável interpretação de todo o elenco, com particular relevo para Emma Thompson.

Não será dos melhores filme de Ann Lee (preferimos-lhe, por exemplo, “O Tigre e o Dragão”,  “O Segredo de Brokeback Mountain” ou o pouco conhecido “Sedução, Conspiração”), mas mostra-se um bom exemplo do que tradicionalmente se chama certa “qualidade britânica”.

SENSIBILIDADE E BOM SENSO
Título original: Sense and Sensibility
Realização: Ang Lee (Inglaterra, EUA, 1995); Argumento: Emma Thompson, segundo romance de Jane Austen; Produção: Laurie Borg, Lindsay Doran, Sydney Pollack, James Schamus, Geoff Stier; Música: Patrick Doyle; Fotografia (cor): Michael Coulter; Montagem: Tim Squyres; Casting: Michelle Guish; Design de produção: Luciana Arrighi; Direcção artística: Philip Elton, Andrew Sanders; Decoração: Ian Whittaker; Guarda-roupa:  Jenny Beavan, John Bright; Maquilhagem: Jan Archibald, Morag Ross; Direcção de Produção: Anthony Bregman; Assistentes de realização: Christopher Newman, Bernard Bellew, Ben Howarth, Keith Young, Mick Ward;  Departamento de arte: Jack Carter, Stan Cook, Gill Ducker, Robert Harper, John Hedges, Mark White; Som: Tony Dawe, Chris Gurney, Steve Hamilton, Thomas O'Shea; Efeitos especiais: Jeff Clifford, Ricky Farns; Efeitos visuais: Randall Balsmeyer; Companhias de produção: Columbia Pictures Corporation, Mirage Enterprises; Intérpretes: James Fleet (John Dashwood), Tom Wilkinson (Mr. Dashwood), Harriet Walter (Fanny Ferrars Dashwood), Kate Winslet (Marianne Dashwood), Emma Thompson (Elinor Dashwood), Gemma Jones (Mrs. Dashwood), Hugh Grant (Edward Ferrars), Emilie François (Margaret Dashwood), Elizabeth Spriggs (Mrs. Jennings), Robert Hardy (Sir John Middleton), Ian Brimble (Thomas), Isabelle Amyes (Betsy), Alan Rickman (Coronel Christopher Brandon), Greg Wise (John Willoughby), Alexander John, Imelda Staunton, Imogen Stubbs, Hugh Laurie, Allan Mitchell, Josephine Gradwell, Richard Lumsden, Lone Vidahl, Oliver Ford Davies, Eleanor McCready, Lindsay Doran, etc. Duração: 136 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de Março de 1996. 


 
ANG LEE (1954 - )
Ang Lee nasceu a 23 de Outubro de 1954, em Pingtung, Taiwan, República da China ou China Nacionalista. Estudou no National Taiwan College of Arts, passando depois a viver nos EUA, onde estudou realização na Universidade de Illinois e produção cinematográfica em Nova Iorque. Foi assistente de realização de Spike Lee. Em 1992 estreou-se na longa-metragem  com m com "Pushing Hands", a que se seguiram duas obras que cimentaram a sua carreira, "O Banquete de Casamento" (Urso de Ouro no Festival de Berlim, Melhor Realização no Festival de Seattle, nomeado para os Golden Globe Awards) e " Comer, Beber, Homem, Mulher" (nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro). "Sensibilidade e Bom Senso", primeira superprodução internacional, foi nomeado para os Oscars de Melhor Filme e Melhor Argumento Adaptado. Ganha o BAFTA de Melhor Filme e o Urso de Ouro de Berlim. Em 2000, com "O Tigre e o Dragão", ganha dois Globos de Ouro e é ovacionado no Festival de Cannes. Adapta "Hulk", curiosa versão dos Marvel Comics, mas em 200,5 com "O Segredo de Brokeback Mountain", recebe o Oscar e o Globo de Ouro por seu trabalho. Volta a ganhar o Oscar com “A Vida de Pi”, em 2013. Casado com Jane Lin (desde 1983).

Filmografia:
Como realizador: 1992: Pushing Hands ou Tui shou; 1993: The Wedding Banquet ou Hsi yen (O Banquete de Casamento); 1994: Yin shi nan nu ou Eat Drink Man Woman (Comer, Beber, Homem, Mulher); 1995: Sense and Sensibility (Sensibilidade e Bom Senso); 1997: The Ice Storm (A Tempestade de Gelo); 2000: Wo hu Zang Llong ou Crouching Tiger, Hidden Dragon (O Tigre e o Dragão); 2001: The Hire: Chosen (curta-metragem); 1991-2001: Ride with the Devil (Cavalgando com o Diabo); 2003: Hulk (Hulk); 2005: Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain); 2007: Lust, Caution (Sedução, Conspiração), 2009: Taking Woodstock; 2012: Life of Pi (A Vida de Pi).

EMMA THOMPSON (1959 - )
Nasceu a 15 de Abril de 1959, em Paddington, Londres, Inglaterra. Oriunda de uma família de actores, o pai era Eric Thompson, a mãe Phyllida Law, a irmã Sophie Thompson, todos actores como ela. Estudou na Universidade de Cambridge Literatura Inglesa e fez parte do  Footlights Group, um grupo uiversitário onde muitos dos membros dos Monty Python se encontraram. Formada em 1980 iniciou a carreira na radio BBC, depois na televisão. Foi na BBC que se cruzou com Kenneth Branagh, durante a rodagem da minisérie Fortunes of War (1987). Emma ganhou umBAFTA pelo seu trabalho e ambos casaram em  1989, continuando a trabalhar em conjunto. “Regresso a Howards End” (1992) marcou a sua carreira, a partir daí repleta de sucessos, prémios e distinções, não só actriz, mas também como argumentista (a sua adaptação de “sensibilidade e Bom Senso” é um bom exemplo”). Diverciada de Kenneth Branagh em 1995, casou com Greg Wise (2003 – até ao presente).
jane.com". A revista inglesa “Empire” coloca-a em 91º lugar na lista "The Top 100 Movie Stars of All Time". ( 1997). Asua interpretação de Miss Kenton em Os Despojos do Dia (1993) está colocada em 52º lugar na lista da revista “Premiere” “100 Greatest Performances of All Time” (2006). Ganhou dois Oscars, um em “Regresso a Howards End” (1992), como actriz, outro em “Sensibilidade e Bom Senso” (1995), como argumentista. Possui um Estrela no Hollywood Walk of Fame junto ao nº 6714 em Hollywood Boulevard (2010). Até 2014, tinha integrado o elenco de cinco filmes nomeados para Melhor Filme do Ano: “Regresso a Howards End” (1992), “Em Nome do Pai” (1993), “Os Despojos do Dia” (1993), “Sensibilidade e Bom Senso” (1995) e “Uma Outra Educação” (2009).

Filmografia
Como actriz: 1982:  Cambridge Footlights Revue, de John Kilby (TV);  There's Nothing to Worry About! (TV); 1983:  The Crystal Cube, de John Kilby; 1983-1984:  Alfresco (TV); 1984:  The Comic Strip Presents... (TV); 1984:  The Young Ones (TV); 1985:  Assaulted Nuts (TV); Emma Thompson: Up for Grabs (TV); 1987:  Tutti Frutti (TV); Fortunes of War (TV); 1988: Thompson (TV); 1989:  Look Back in Anger (TV) de Judi Dench; 1989:  The Tall Guy (Os Homens Medem-se aos Palmos), de Mel Smith; 1989:  Theatre Night (série TV); Henry V (Henrique V), de Kenneth Branagh; 1991:  Impromptu, de James Lapine; Dead Again (Viver de Novo), de Kenneth Branagh; 1992:  Cheers, Aquele Bar (TV); Retour à Howards End (Regresso a Howards End), de James Ivory; Peter's Friends (Os Amigos de Peter), de Kenneth Branagh; 1993:  Much Ado About Nothing (Muito Barulho por Nada), de Kenneth Branagh; The Remains of the Day (Os Despojos do Dia), de James Ivory; 1994: In the Name of the Father (Em Nome do Pai), de Jim Sheridan; My Father the Hero (Meu Pai, o Herói), de Steve Miner; The Blue Boy, de Paul Murton (TV); 1994:  Junior (Junior), de Ivan Reitman; 1995:  Carrington (Carrington), de Christopher Hampton; Sense and Sensibility (Sensibilidade e Bom Senso), de Ang Lee; 1997:  Hospital!, de John Henderson (TV) ; 1997:  The Winter Guest (O Convidado), de Alan Rickman; Ellen (TV); 1998:  Primary Colors (Escândalos do Candidato), de Mike Nichols; Judas Kiss (O Beijo de Judas), de Sebastian Gutierrez; 2000:  Maybe Baby, de Ben Elton e Hugh Laurie; 2001:  Wit (Espírito de Coragem), de Mike Nichols; 2002: Treasure Planet (O Planeta do Tesouro), de Ron Clements e John Musker (voz); 2003:  Love Actually (O Amor Acontece), de Richard Curtis; Imagining Argentina (Aconteceu na Argentina), de Christopher Hampton; Angels in America (Anjos na América) (TV); 2004: Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), de Alfonso Cuarón; 2005: Nanny McPhee (Nanny McPhee - A Ama Mágica), de Kirk Jones; 2006: Stranger than Fiction (Contado Ninguém Acredita), de Marc Forster; 2007: Harry Potter and the Order of the Phoenix (Harry Potter e a Ordem da Fénix), de David Yates; 2007: I Am Legend (Eu Sou a Lenda), de Francis Lawrence; 2008: Brideshead Revisited (Reviver o Passado em Brideshead), de Julian Jarrold; Last Chance Harvey (A Um Passo do Amor), de Joel Hopkins; 2009: Radio Rock Revolution (O Barco do Rock), de Richard Curtis; 2009: An Education (Uma Outra Educação), de Lone Scherfig; 2010: Nanny McPhee et le Big Bang (Nanny McPhee e o Toque de Magia), de Susanna White; The Song of Lunch, de Niall MacCormick (TV); 2011:  Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2, de David Yates; 2012:  Playhouse Presents (TV);  Brave (Brave – Indomável), de Mark Andrews  (voz);  Men in Black 3 (MIB³: Homens de Negro 3), de Barry Sonnenfeld; 2013:  Beautiful Creatures (Criaturas Maravilhosas) de Richard LaGravenese;  d'escrocs de Joel Hopkins; Saving Mr. Banks (Ao Encontro de Mr. Banks), de John Lee Hancock; Effie Gray, de Richard Laxton; Love Punch (Golpe de Amor), de Joel Hopkins; 2014:; Men, Women & Children, de Jason Reitman (voz); 2015: The Legend of Barney Thomson, de Robert Carlyle (em pós-produção);  A Walk in the Woods, de Ken Kwapis (em pós-produção);  Survivor, de James McTeigue (em pós-produção); Um filme de John Wells anda sem título (em pré-produção).
Como argumentista: 1982: Cambridge Footlights Revue (TV) de John Kilby; There's Nothing to Worry About!; 1995: Sense and Sensibility, de Ang Lee; 2005: Pride & Prejudice, de Joe Wright; 2010: Nanny McPhee and the Big Bang, de Susanna White; 2013: Effie, de Richard Laxton; 2014:  Annie, de Will Gluck

JANE AUSTEN (1775-1817)
Jane Austen nasceu a 16 de Dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, Reino Unido, e morreu a 18 de Julho de 1817, aos 41 anos, em Winchester, Reino Unido.
Escritora desde muito jovem, deixou alguns romances que se encontram entre os mais celebrados da literatura inglesa, como “Sense and Sensibility” (1811), “Pride and Prejudice” (1813), “Mansfield Park” (1814), “Emma” (1815), “Northanger Abbey” (1818), ou “Persuasion” (1818). Oriunda de uma família da nobreza rural inglesa, essa situação social e o ambiente da época serviram de pretexto para todas as suas obras, cujo temática central são questões amorosas, suas dificuldades e esperanças nesse contexto. Muito estudada nos meios académicos, profundamente adaptada a cinema e televisão, é vista nalguns meios como conservadora, noutros como inspirada no pensamento de Mary Wollstonecraft, escritora e feminista britânica contemporânea de Jane Austen.
Sétima filha de Cassandra e do reverendo George Austen, o pároco anglicano de Steventon, Jane tinha mais seis irmãos e uma irmã, Cassandra, com quem estabeleceu grande cumplicidade senso conhecida uma vasta correspondência, de grade importância literária.
Desde 1787, Jane Austen escreveu, para simples entretenimento da família, “Juvenilia”, que inclui diversas paródias da literatura da época. Entre 1795 e 1799 começou a redigir as primeiras versões dos seus principais romances, que se publicariam mais tarde. Em 1797, o pai pretendeu publicar “Orgulho e Preconceito”, mas foi recusado pelo editor. Nem Cassandra, nem Jane se casaram, e esta última conheceu vários percalços com pretendentes que, por uma razão ou outra, nunca chegaram ao altar. Em Janeiro de 1805, morreu o seu pai, deixando a família em difícil situação económica. Mudaram varias vezes de residência e de cidade. Em Hampshire, Jane retoma a sua actividade literária e “Sense and Sensibility” acaba por ser aceite por um editor em 1810 ou 1811, sendo a autora a assumir os riscos da publicação. Publicado anonimamente, com o pseudónimo: "By a Lady", teve algumas críticas favoráveis, e os lucros foram de 140 libras esterlinas. As obras seguintes foram muito melho recebidas, o anonimato desapareceu e os lucros aumentaram. Em 1813, o irmão Henry Austen foi tratado pelo Sr. Clarke, médico do príncipe Regente, o qual, ao descobrir que Austen era a autora de “Pride and Prejudice” e “Sense and Sensibility”, obras que apreciava muito, pediu a este que solicitasse a Henry que o romance seguinte da autora lhe fosse dedicado. Jane não apreciava muito o príncipe, devido às suas conhecidas infidelidades, mas, em Dezembro de 1815, foi publicado “Emma”, dedicado ao príncipe regente. Começou a redigir “Persuasion” em Agosto de 1815, e um ano depois começou a se sentir mal, tendo abandonado a escrita dois anos depois, deixando várias obras inacabadas. Foi levada para Winchester, a fim de receber tratamento médico, e viria a falecer em 18 de Julho de 1817. Consta que as suas últimas palavras foram: "Não quero nada mais que a morte". Na altura desconheceu-se a causa da morte, mas presentemente calcula-se que Jane Austen foi vitima da Doença de Addison. Está enterrada na Catedral de Winchester, onde se lê a seguinte placa: "She opened her mouth with wisdom and in her tongue is the law of kindness" ("Ela abriu a sua boca com sabedoria e na sua línguagem reside a lei da bondade").

Obras de Jane Auten:
Romances: Sense and Sensibility (1811), Pride and Prejudice (1813), Mansfield Park (1814), Emma (1815), Northanger Abbey (1818), Persuasion (1818); Novela: Lady Susan (1794, 1805); Obras não terminadas: The Watsons (1804), Sanditon (1817); Outras obras: Sir Charles Grandison (teatro) (1793, 1800), Plan of a Novel (1815), Poems (1796-1817), Prayers (1796-1817), Letters (1796-1817)
Outras obras de juventude da autora foram antologiadas e três volumes: Juvenilia — Volume the First (1787–1793) - Frederic & Elfrida, Jack & Alice, Edgar & Emma, Henry and Eliza, The Adventures of Mr. Harley, Sir William Mountague, Memoirs of Mr. Clifford, The Beautifull Cassandra, Amelia Webster, The Visit, The Mystery, The Three Sisters, A beautiful description, The generous Curate, Ode to Pity;
Juvenilia — Volume the Second (1787–1793) - Love and Freindship, Lesley Castle, The History of England, A Collection of Letters, The female philosopher, The first Act of a Comedy, A Letter from a Young Lady, A Tour through Wales, A Tale;

Juvenilia — Volume the Third (1787–1793) - Evelyn, Catharine, or the Bower.

SESSÃO 51: 21 DE OUTUBRO DE 2014


O LIVRO DE CABECEIRA (1996)

O corpo sempre foi, desde tempos imemoriais, suporte de mensagens nele inscritas, de desenhos a letras, símbolos diversos de testemunhos variados. Em África ou nas Américas, uma multiplicidade de tribos e raças servia-se do corpo tatuado ou simplesmente pintado para inspirar as mais diversas emoções ou invocar os deuses. Na Europa e no Oriente passou-se o mesmo e em muitos casos ainda se passa. A recente febre de tatuagens, desde o “Amor de Mãe” a “Angola 62”, até aos mais elaborados e sofisticados desenhos “simbólicos” mostram que desenhar e escrever no corpo é prática corrente desde sempre. Mudam apenas os artefactos e as técnicas com que se executam os empreendimentos. Antigamente eram os feiticeiros, hoje são os tatuadores célebres que se reúnem em convenções internacionais em Miami ou outras paradisíacas localidades para que o negócio rende. De resto a pele de animais sempre serviu de base de escrita, e é vulgar ainda hoje, em filmes e romances de terror, haver alusões a pele humana retirada do corpo de vítimas e usada para transmitir recados ou guardar mensagens. 
“The Pillow Book” (O Livro de Cabeceira), dirigido por Peter Greenaway em 1996, e baseado na obra da cortesã e escritora medieval japonesa (século X) Nagiko Kiyohara no Motosuke Sei Shonagon, conta uma história que tem por base a escrita no corpo humano. O filme abre com imagens da pequena Nagiko (repare-se na justaposição da protagonista do filme com a própria escritora, através do uso do nome Nagiko) a servir de tela privilegiada do pai, escritor e calígrafo, a desenhar-lhe no rosto signos japoneses que para sempre a irão marcar. Essas frases dizem que “Deus criou o primeiro modelo de um ser humano em barro, pintou os olhos, os lábios e o sexo. Depois, pintou o nome de cada pessoa para que o dono jamais o esquecesse. Se Deus gostava da sua criação trazia à vida o modelo de barro pintado assinando o seu próprio nome”. Numa civilização onde o símbolo tem uma importância tão grande e as iniciações estabelecem parâmetros definitivos, Nagiko sente-se guiada na sua vida por essa relação umbilical entre a caligrafia, a poesia, a pele humana, o sexo, o amor, a vingança e a morte.


Ainda jovem, descobre que o pai para conseguir editar os seus textos cedia aos desejos sexuais do seu editor homossexual. Quando amadureceu, serviu-se da sua beleza e sedução para chegar junto do editor, que no entanto recusa publicar os seus livros. Utiliza então um estratagema, seduzindo o escritor europeu amante do editor, para chegar junto deste e acabar por ver publicadas as suas obras. São treze livros que irão circular entre a escritora e o editor, levados na pele de sucessivos mensageiros, sendo que muitas vezes a mensagem se identifica com o próprio mensageiro. Nagiko não deixa nada ao acaso, prepara cada mensageiro com minucia, depila, lava, aromatiza, escreve delicadamente cada poema. Jerome, o escritor inglês, é o primeiro a ser enviado, curiosamente com o livro seis, “o livro do amante”, escrito por Nagiko e encadernado pelo editor, o que transforma num triângulo amoroso esta primeira emissão. Jerome, o mensageiro, estabelece a ligação entre Nagiko e o editor, conduzida por uma bissexualidade que o transforma num joguete facilmente manobrável. O segundo e terceiro livro são expedidos em simultâneo, “o livro do inocente” e “o do idiota”. “O livro do impotente” é o quarto, lançado em correria. O quinto mensageiro, gordo, chama-se “o livro do exibicionista”. No sétimo, “o livro do sedutor”, a chuva lavou os símbolos e dele quase só resta o corpo. O oitavo é “o livro da juventude”. O nono, povoado por enigmas, é “o livro dos segredos”. O décimo, que se apresenta como “o livro do silêncio”, traz os barulhos da grande cidade O décimo primeiro mensageiro aparece morto junto da porta da editora, atropelado. É “o livro do traído”. O décimo segundo apenas se dá por ele porque buzina ao passar no seu carro, é “o livro dos falsos inícios”. 


Finalmente o décimo terceiro, “o livro da morte”, encerra o percurso da vingança e justifica a morte do editor com as frases que estão inscritas no corpo do mensageiro: “Na época dos antigos samurais, quando prendiam os criminosos, tatuavam os seus crimes nos seus corpos. O editor é um criminoso, merece carregar a vergonha dos seus actos para sempre. Mas os seus crimes não estão escritos no seu corpo. É na sua alma que eles estão escritos. Deveriam estar à mostra para todos verem como é sujo. A única verdadeira posse de um ser humano é o amor que ele possui. Tudo se acaba ou então se consome, menos o amor. A única coisa que levamos da vida é o que nós sentimos. Os homens desonrados não merecem o dom da vida. O editor não tem honra. Não merece viver”. Peter Greenaway, autor de obras como "The Draughtsman's Contract", "The Cook, the Thief, His Wife, and Her Lover", "Prospero's Books", “The Baby of Mâcon” ou “Nightwatching”, entre muitas outras, é um cineasta experimentalista, que não acredita numa narrativa tradicional, numa forma linear de “contar” uma história. Os seus filmes devem muito à pintura, à música, às artes performativas. O seu realizador preferido é Alain Resnais, o seu filme referência é “O Último Ano em Marienbad”. O seu cinema mistura as técnicas tradicionais do cinema, mas também o vídeo, jogando com a cor e o preto e branco, com diferentes enquadramentos no mesmo plano (em “O Livro de Cabeceira” surgem várias imagens de menores dimensões no interior dos planos, multiplicando as leituras). Utiliza a imagem, a escrita, a poesia, a voz off, o recitativo e a voz das personagens, criando um conjunto de referências que o espectador absorve e produzindo uma sensação caótica que obriga a uma compreensão activa. Neste particular, “O Livro de Cabeceira” conjuga imagens de rara beleza plástica com uma sonoridade encantatória, que a fotografia de Sacha Vierny, o director de fotografia de Resnais, alimenta magnificamente, e os actores sublinham com a sua presença e talento. Filme de uma grande sensualidade e sedução, mas sempre elegante e púdico, funciona como um marco decisivo no interior da filmografia do autor e do cinema vanguardista contemporâneo.



O LIVRO DE CABECEIRA
Título original: The Pillow Book
Realização: Peter Greenaway (Inglaterra, Holanda, França, Luxemburgo, 1996); Argumento: Peter Greenaway, Sei Shonagon, segundo obra desta última; Produção: Terry Glinwood, Kees Kasander, Jessinta Liu, Jean-Louis Piel, Tom Reeve, Denis Wigman; Fotografia (cor):  Sacha Vierny; Montagem: Peter Greenaway, Chris Wyatt; Casting: Abi Cohen, Hitomi Ishihara, Carrie O'Brien, Aimi O, Liora Reich; Design de produção: Kôichi Hamamura, Willemijn Loivers, Hiroto Oonogi, Andrée Putman, Noriyuki Tanaka, Wilbert Van Dorp; Guarda-roupa: Martin Margiela, Dien van Straalen, Koji Tatsuno; Maquilhagem: Seiji Arai, Cathy Folmer, Shoko Ishigaki, Sara Meerman, Vivian Nowak, Noriko Sato, Kyôko Toyokawa; Direcção de Produção: Katsumi Furuhashi, Misako Furukawa, Yumiko Miwa, Fiona Nottingham;  Assistentes de realização: Paul Cheung, Koji Kobayashi, Adrian Kwan, Kenji Nakanishi, Aimi O, Vincent Rivier; Departamento de arte: Lau Wai Chung, Lijntje Helweg, Wong Mai Ming, Law Tak Nga, Lau Kwok On, Danielle Schilling, Wong Kwong Shing, Mari Tobita, Dione van der Hoeven, Floris Vos, Emi Wada; Som: Kazunori Fujimaru, Nigel Heath, Mathew Knights, Garth Marshall, Kan Shirai, Julian Slater, Volker Zeigermann; Efeitos visuais: Reinier van Brummelen; Companhias de produção: Kasander & Wigman Productions, Woodline Films Ltd., Alpha Film Corporation, Channel Four Films, Canal+, Delux Productions, Euroimages Fund of the Council of Europe, Nederlands Fonds voor de Film; Intérpretes: Vivian Wu (Nagiko), Yoshi Oida (o editor), Ken Ogata (o pai), Hideko Yoshida (a tia), Ewan McGregor (Jerome), Judy Ongg ( mãe), Ken Mitsuishi (o marido), Yutaka Honda (Hoki), Barbara Lott (a mãe de Jerome), Miwako Kawai (a jovem Nagiko), Lynne Langdon, Chizuru Ohnishi, Shiho Takamatsu, Aki Ishimaru, Hisashi Hidaka, Dehong Chen, Ham-Chau Luong, Akihiko Nishida, Kentaro Matsuo, Nguyen Duc Nhan, Augusto Aristotle, Roger To Thanh Hien, Chris Bearne, Ronald Guttman, Wichert Dromkert, Martin Tukker, Wu Wei, Tom Kane, Kheim Lam, Daishi Hori, Kinya Tsuruyama, Eiichi Tanaka, Rick Waney, Masaru Matsuda, Wataru Murofushi, Ryuke Azuma, etc. Duração:126 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 25 de Outubro de 1996. 

PETER GREENAWAY (1942 - )
Peter Greenaway nasceu a 5 de Abril de 1942, em Newport, País de Gales. A família vivia no País de Gales mas, quando Peter tinha três anos de idade, mudou-se para Essex. Ainda criança, Peter Greenaway começou a interessar-se muito por artes plásticas e desejava ser pintor. Esta sua inclinação manteve-se ao longo da vida, desenvolvendo uma sensibilidade pictórica muito interessante, inclusive no campo do cinema, onde se tornou mais conhecido. Em 1962, iniciou estudos no Walthamstow College of Art, onde teve como colega e amigo o músico Ian Dury, (com quem mais tarde colaboraria em “The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover”). Em Walthamstow estudou pintura, pois queria ser pintor muralista, e realiza seu primeiro filme, “Death of Sentiment”, um ensaio sobre jardins de igrejas, filmado em quatro dos maiores cemitérios de Londres. Em 1965 vamos encontrá-lo no Central Office of Information, onde passou os quinze anos seguintes, trabalhando, inicialmente como montador e depois como realizador, sobretudo e filmes experimentais, e sempre muito ligados à pintura. No campo do cinema, os seus interesses foram para autores como Bergman, ou os franceses da Nouvelle Vague, Godard e Resnais. O seu filme favorito é “O Último Ano em Marienbad” (1961) e a actriz Delphine Seyrig. Greenaway interessou-se sempre por ópera, tendo escrito dez libretos, para uma série, “The Death of a Composer: Rosa, a Horse Drama,  The Tulse Luper Suitcases, The Moab Story”, tendo como referência dez compositores, de Anton Webern a John Lennon. A sua primeira longa-metragem data de 1980, “The Falls”,  sendo que as suas obras de maior reconhecimento internacional datam das décadas de 80 e 90. O interesse por ópera e música levou Greenaway a produzir, em 2005, um espectáculo multimedia, de colaboração com o maestro e compositor David Lang e o calígrafo Brody Neuenschwander, intitulado "Writing on Water". O espectáculo reuniu, ao vivo, a orquestra London Sinfonietta, o realizador, montando imagens numa mesa de vídeo, o compositor na regência da orquestra e o calígrafo, todos trabalhando simultaneamente, com o produto audiovisual sendo lançado num enorme ecrã que era presenciado por vastas plateias. Em 1999, Greenaway divorciou-se, vendeu a casa da família no País de Gales e passou a viver na Holanda. Em 2007, passou a Comandante da »Ordem do Império Britânico, pela sua contribuição à arte do cinema.

Filmografia
Como realizador (curtas-metragens): 1962: Death of Sentiment; 1966: Tree; Train; 1967: Revolution; 5 Postcards From Capital Cities; 1969: Intervals; 1971: Erosion; 1973: H Is for House; 1975: Windows; Water Wrackets; Water; 1976: Vertical Features Remake; Goole by Numbers; 1977: Dear Phone; 1978: A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist; Eddie Kid; Cut Above the Rest; 1-100; Vertical Features Remake;1979: Zandra Rhodes; Women Artists; Leeds Castle; 1980: Lacock Village; Country Diary; Act of God; 1981: Terence Conran; 1983: The Coastline; 1984: Making a Splash; 1985: Inside Rooms: 26 Bathrooms, London & Oxfordshire; 1988: Fear of Drowning; 1989: Hubert Bals Handshake; Death in the Seine; 1991: M Is for Man, Music, Mozart; A Walk Through Prospero's Library; 1992: Rosa; 1997: The Bridge; 2001: The Man in the Bath; 2003: Cinema16: British Short Films; 2005: Writing on Water; 2009: The Marriage;
(longas-metragens): 1980: The Falls; 1982: The Draughtsman's Contract (O Contrato); 1983: Four American Composers; 1985: A Zed & Two Noughts (Z00 - Um Z e dois Zeros); 1987: The Belly of an Architect (O Ventre de um Arquitecto); 1988: Drowning by Numbers (Maridos à Água); 1989: The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover (O Cozinheiro, o Ladrão, a sua Mulher e o Amante Dela); 1990: A TV Dante (TV Mini-série) (4 episódios); 1991: Prospero's Books (Os Livros de Próspero); Darwin; A Walk Through Prospero's Library (documentário); 1993: The Baby of Mâcon (O Bebé de Mâcon); 1995: Stairs 1 Geneva (documentário); 1996: Lumière et Compagnie - filme colectivo (documentário); 1996: The Pillow Book (O Livro de Cabeceira); 1999: 8½ Women (8 Mulheres e ½); The Death of a Composer: Rosa, a Horse Drama; 2003: The Tulse Luper Suitcases, The Moab Story; The Tulse Luper Suitcases, Antwerp; The Tulse Luper Suitcases, Sark to the Finish; 2004: The Tulse Luper Suitcases, Vaux to the Sea; Visions of Europe (fragmento "European Showerbath") - filme colectivo; 2005: A Life in Suitcases; 2007: Nightwatching (A Ronda da Noite); Peopling the Palaces at Venaria Reale; 2008: Rembrandt's J'accuse (documentário); Cinema Is Dead, Long Live the Screen (documentário); 2012: Goltzius and the Pelican Company; 2013: 3x3D (episódio "Just in Time"); 2014: Eisenstein in Guanajuato (pós-produção); 2015: Walking to Paris (pré-produção); 2016: The Eisenstein Handshakes (anunciado).