domingo, 6 de julho de 2014

SESSÃO 27: 9 DE JULHO DE 2014


JOGADOR PROFISSIONAL (1963)

Lindsay Anderson é outro dos grandes nomes do cinema inglês que, ao lado de Tony Richardson e Karel Reisz, criaram as bases teóricas do “Free Cinema”, através da criação da revista “Sequence”, e depois as expuseram na prática, quer pelas sessões no BFI, quer sobretudo através dos seus próprios filmes, inicialmente documentários, depois obras de ficção, como este “This Sporting Life”, que parte de um romance de David Storey, o que mais uma vez testemunha o cruzar de íntimas ligações entre o “Free Cinema” e os “Angry Young Men”.
“Jogador Profissional” tem por tema o rugby. Curiosamente, ou talvez não, tanto o escritor David Storey, como o actor Richard Harris eram entusiastas deste desporto, que praticaram. David Storey faz mesmo uma perninha no filme como um dos diversos jogadores anónimos que surgem a enquadrar a personagem de Frank Machin, um jovem ambicioso que resolve enveredar pelo rugby como forma de promoção social, ele que é oriundo de um bairro pobre e vê no desporto uma maneira de ganhar bem, ter acesso a outros ambientes, ser saudado por onde passa, dispor de um carro potente… Afinal nada diferente do que se passa noutros desportos, e nada muito diverso do que hoje em dia acontece. Talvez nessa altura fossem estas carreiras mais mal pagas, mas no fundo, tudo é relativo. Esta é uma história de alienação (um termo muito em voga por essa década de 60 do século XX), de alguém que se vende para subir na vida. Há quem diga que Frank Machin é “um macaco num campo de futebol”, designação que parece de certa forma acabar por ter algum efeito na consciencialização da personagem.
Machin é mineiro, tem uma tarefa árdua, vive num quarto alugado, apaixonado pela senhoria que é viúva e tem dois filhos. O filme inicia-se por um jogo de rubgy, durante o qual uma entrada mais violenta de um adversário ressabiado leva Machin ao solo, com seis dentes partidos. No dentista, por entre os vapores da anestesia, vai recordando, numa montagem em sucessivos flashbacks, momentos da sua vida passada, a mina, o quarto alugado, as brincadeiras com os filhos de Mrs. Margaret Hammond, a ida ao baile onde os heróis da equipa local são apaparicados pela multidão. Sente crescer dentro de si a necessidade imperiosa de ser como eles, e apresenta-se aos directores do clube, através de um velho “tio” que o persegue. Um jogo de experiência mostra as suas potencialidades, a violência que há dentro de si e que pode ser canalizada para o campo. Ele é o macho por excelência que todos admiram e alguns cobiçam com secretas intenções. Os directores olham-no como nítido objecto de desejo, a mulher de um deles, também. As fãs tentam seduzi-lo nas festas, mas ele tem o pensamento centrado e bloqueado em Margaret Hammond. Não é meigo a pedir, quando é chegada a altura de assinar contrato profissional: um milhão de libras. O clube aceita, e percebe-se que neste preço há muitas garantias a oferecer, como pagamento: rendimento no campo, mas algo mais a cumprir noutros campos. 

Tudo é esboçado com discrição e pudor, mas as insinuações são fortes. A condução da narrativa é extremamente inteligente e sóbria nesse aspecto, mas vigorosa e musculada. A montagem, sacudida, leva o espectador a aguentar os socos e os encontrões da batalha campal, mas igualmente dos confrontos sociais. Os actores são magníficos, Richard Harris impõe-se como essa força da natureza que leva (quase) tudo à frente, mas que não consegue todavia aliciar o motivo maior da sua luta pessoal. Rachel Roberts, outra das actrizes reveladas pelo “Free Cinema”, é uma presença dilacerante pelas escolhas que terá de enfrentar, e todos os outros são magníficos de eficácia, desde Alan Badel (um inquietante Gerald Weaver), William Hartnell ('o “tio” Johnson, uma sombra perdida no universo do rugby), ou Colin Blakely (Maurice Braithwaite, um jogador e principal amigo de Machin). A fotografia, a preto e branco, de Denys N. Coop, mistura a lama do campo com a viscosidade dos ambientes urbanos desta pequena cidade no norte de Inglaterra, sendo particularmente convincente neste claro escuro dramático que ajuda a definir uma sociedade e os seus traumas. Excelente é ainda a partitura musical de  Roberto Gerhard que contribui em muito para o sucesso desta obra que acabaria por triunfar em Cannes, nos Baftas e nas nomeações para os Globos e os Oscars. Com “This Sporting Life” o cinema inglês impõe-se internacionalmente como um das mais importantes movimentos de cinema novo internacional, ao lado da nouvelle vague francesa. 

JOGADOR PROFISSIONAL
Título original: This Sporting Life
Realização: Lindsay Anderson (Inglaterra, 1963); Argumento: David Storey, segundo romance de sua autoria; Produção: Leslie Parkyn, Karel Reisz, Julian Wintle; Música: Roberto Gerhard; Fotografia (p/b):  Denys N. Coop; Montagem: Peter Taylor; Direcção artística: Alan Withy; Guarda-roupa:  Sophie Devine;  Maquilhagem: Ivy Emmerton, Bob Lawrance; Casting: Miriam Brickman; Direcção de Produção:  Albert Fennell, Geoffrey Haine;  Assistentes de realização: Ted Sturgis, Ken Softley, Claude Watson;  Departamento de arte: Peter Lamont, Ernie Quick; Som: Chris Greenham, Gordon K. McCallum, John W. Mitchell; Efeitos especiais: Charles Staffell; Companhias de produção: Independent Artists, Julian Wintle/Leslie Parkyn Productions; Intérpretes: Richard Harris (Frank Machin), Rachel Roberts (Mrs. Margaret Hammond), Alan Badel (Gerald Weaver), William Hartnell ('Dad' Johnson), Colin Blakely (Maurice Braithwaite), Vanda Godsell (Mrs. Anne Weaver), Anne Cunningham (Judith), Jack Watson (Len Miller), Arthur Lowe (Charles Slomer), Harry Markham (Wade), George Sewell (Jeff), Leonard Rossiter (Phillips), Katherine Parr (Mrs. Farrer), Bernadette Benson, Andrew Nolan, Peter Duguid, Wallas Eaton, Anthony Woodruff, Michael Logan, Murray Evans, Tom Clegg, Ken Traill, Frank Windsor, John Gill, Edward Fox (barman), Glenda Jackson (cantora na festa), Graham Roberts, Anton Rodgers, David Storey (jogador de rugby), etc. Duração: 134 minutos; Distribuição em Portugal: inexistente; Cópia DVD: Network; Inglês sem legendas; Classificação etária: M/ 12 anos.

LINDSAY ANDERSON (1923-1994)
Lindsay Gordon Anderson nasceu a 17 de Abril de 1923, em Bangalore, Karnataka, India Britânica, agora União Indiana, e viria a falecer a 30 de Agosto de 1994, em Angoulême, Charente, França, de ataque de coração. Filho de um major do Exército Britânico, foi educado em Oxford e serviu como criptógrafo nos serviços de espionagem inglesa, durante o último ano da II Guerra Mundial, em Nova Deli. Foi um importante crítico de cinema e documentarista, sendo um dos chefes de fila no “Free Cinema”. Fundador da revista “Sequence”, em 1947, que teve um importante papel a definir o futuro do Free Cinema”, ao mesmo tempo que sublinhava as virtudes das vanguardas norte-americana e francesa. Trabalhou ainda como encenador de teatro e foi director artístico do Royal Court Theatre (1969-1975) e foi um dos membros fundadores  da English Stage Company no Royal Court. A sua carreira teatral e cinematográfica está estreitamente ligada à do seu amigo e dramaturgo, David Storey. Era amigo íntimo das actrizes Rachel Roberts e Jill Bennett, que cometeram ambas suicídio. Ele homenageou-as no documentário "Is That All There Is?". Com uma vasta filmografia, como documentarista, tem uma curta carreira como realizador de ficção (sete títulos), mas particularmente significativa, com obras como “Jogador Profissional”, “Se…”. “Um Homem de Sorte”, “Britannia Hospital” ou “As Baleias de Agosto”.

Filmografia
Como realizador
Ficção: 1963: This Sporting Life (Jogador Profissional); 1967: The White Bus; 1968: If... (Se…); 1973: O Lucky Man ! (Um Homem de Sorte); 1975: In Celebration; 1979: Look Back in Anger, co-realizado com David Hugh Jones; 1982: Britannia Hospital (Britannia Hospital); 1987: The Whales of August (As Baleias de Agosto)
Documentários: 1948: Meet the Pioneers (Curta-metragem); 1949: Idlers at Work (Curta-metragem); 1952: Trunk Conveyor (Curta-metragem); Wakefield Express (Curta-metragem); Three Installations (Curta-metragem); 1953: O Dreamland (Curta-metragem); 1954: Thursday's Children, co-realizado com Guy Brenton (Curta-metragem); 1955: Foot and Mouth (Curta-metragem); Energy First (Curta-metragem); £20 a Ton (Curta-metragem); A Hundred Thousand Children (Curta-metragem); The Children Upstairs (Curta-metragem); Henry (Curta-metragem); Green and Pleasant Land (Curta-metragem); 1956: Every Day Except Christmas (Curta-metragem); 1959: March to Aldermaston (Curta-metragem); 1967: The Singing Lesson (Curta-metragem); 1985: Wish You Were There; 1986: Wham ! In China: Foreign Skies ou Wish You Were There; 1993: Is That All There Is ?;
Televisão: 1956: The Adventures of Robin Hood (5 episódios: The Haunted Mill, Isabella, The Imposters, Secret Mission e Ambush); 1959: The Long and the Short and the Tall; 1968: NET Playhouse (1 episódio: Home); 1972: Play for Today (1 episódio); 1979: The Old Crowd; 1986: Free Cinema; 1989: Glory! Glory!;
Bibliografia: Lindsay Anderson publicou ainda uma obra de critica cinematográfica, que é ainda hoje de referencia obrigatória: “About John Ford”, ed. Plexus, Londres, 1981.

RICHARD HARRIS (1930- 2002)
Richard St. John Harris nasceu em Limerick, Irlanda, 1 de Outubro de 1930, e faleceu em Londres, Inglaterra, 25 de Outubro de 2002. Filho de Ivan Harris e Mildred Harty. Originário do sul da Irlanda, de uma família rural, contraiu tuberculose na adolescência, o que parece ter contribuído, segundo alguns, para seu estilo de representação introspectivo. Ainda estudante, iniciou a sua carreira artística como encenador teatral. Tinha uma paixão pela literatura e pelo rugby. No cinema estreia-se só em 1958, numa pequena participação na comédia “Alive and Kicking”. Já na década de 60, tornou-se notado em obras como “Os Canhões de Navarone” ou “Revolta na Bounty” (ambos de 1961). Mas foi em 1963, ao vencer o prémio de Melhor Actor no festival de Cannes, com o seu trabalho em “This Sporting Life”, que se tornou mundialmente célebre e estrela de primeira grandeza. Foi nomeado pela primeira vez para o Oscar. Em seguida, surge em “Deserto Vermelho” (64), “Os Heróis de Telemark”, “Major Dundee”, “A Bíblia – O Começo do Mundo”, “Camelot”, “Um Homem Chamado Cavalo”, “Os Homens Nascem Iguais”, “Um Homem na Solidão”, “Robin and Marian”, “The Field - Esta Terra é Minha”, “Imperdoável”, e tantos outros grandes trabalhos.  Estreou-se na realização com “Bloomfield” (A Queda de um Ídolo), em 1971. Já no século XXI a estrela voltou a brilhar alto nos seus papeis de professor Dumbledore, nos filmes de Harry Potter, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” e “Harry Potter e a Câmara dos Segredos”, para lá de trabalhos em “Gladiador” ou “O Conde de Monte Cristo”. Casado com Elizabeth Rees (1957 - 1969) e posteriormente com Ann Turkel (1974 - 1982). Pai do realizador Damian Harris, e dos actores Jared Harris e Jamie Harris. Faleceu aos 72 anos, em consequência de um cancro linfático.

Filmografia
Como actor: 1958: Alive and Kicking, de Cyril Frankel; Shake Hands with the Devil (De Mãos Dadas com o Diabo), de Michael Anderson; ITV Play of the Week (TV) episódio The Iron Harp; ITV Television Playhouse (TV)  episódio Rest in Violence; The DuPont Show of the Month (TV) episódio The Hasty Heart 1959: The Wreck of the Mary Deare (), de Michael Anderson; The Iron Harp (TV) episódios Alive and Kicking, Shake Hands with the Devil e The Wreck of the Mary Deare; 1960: The Night Fighters, de Tay Garnett; The Long and the Short and the Tall, de Leslie Norman; A Terrible Beauty, de  Tay Garnett; Art Carney Special (TV) episódio Victory; Armchair Theatre (TV) episódio Come in Razor Red; 1961: The Guns of Navarone (Os Canhões de Navarone), de Jack Lee Thompson; 1962: Mutiny on the Bounty (Revolta na Bounty), de Lewis Milestone; 1963: This Sporting Life (jogador Profissional), de Lindsay Anderson; 1964: Il Deserto Rosso (O Deserto Vermelho), de Michelangelo Antonioni; I Tre Volti (As Três Faces de Uma Mulher) (episódio "Gli Amanti Celebri", de Mauro Bolognini); 1965: The Heroes of Telemark (Os Heróis de Telemark), de Anthony Mann; 1965: Major Dundee (Major Dundee), de Sam Peckinpah; 1966: Hawaii (Havaii), de George Roy Hill; 1966: The Bible - In the Beginning (A Biblia – O Começo do Mundo), de John Huston; 1967: Caprice (Um Perigo Chamado Capricho), de Frank Tashlin; 1967: Camelot (Camelot), de Joshua Logan; 1969: A Man Called Horse (Um Homem Chamado Cavalo), d'Elliot Silverstein; 1970: Cromwell (Cromwell), de Ken Hughes; 1970: The Molly Maguires (Os Homens Nascem Iguais), de Martin Ritt; 1971: Man in the Wilderness (Um Homem na Solidão), de Richard C. Sarafian; Bloomfield (A Queda de um Ídolo), de Richard Harris; The Snow Goose, de Patrick Garland (TV); Festival europäischer Schlager (TV); 1973: The Deadly Trackers, de Barry Shear; 1974: Juggernaut (Código: Juggernaut), de Richard Lester; 99 and 44/100% Dead (Arrefecido a 99%), de John Frankenheimer; 1976: The Return of a Man Called Horse (A Vingança do Homem Chamado Cavalo), de Irvin Kershner; 1976: Robin and Marian (A Flecha e a Rosa), de Richard Lester; 1976: Orca (Orca - A Fúria dos Mares), de Michael Anderson; Echoes of a Summer, de Don Taylor;  1977: The Cassandra Crossing (Cassandra Crossing), de George Pan Cosmatos; Golden Rendezvous, de Ashley Lazarus, Freddie Francis; Gulliver's Travels, de  Peter R. Hunt; 1978: The Wild Geese (Os Gansos Selvagens), de Andrew V. McLaglen; 1979: The Last Word (Os Saqueadores), de Roy Boulting; 1979: A Game for Vultures (O Jogo dos Abutres), de James Fargo; 1981: Your Ticket Is No Longer Valid (O Fim da Viagem), de George Kaczender; Tarzan, the Ape Man (Tarzan, o Homem-Macaco), de John Derek; 1982: Triumphs of a Man Called Horse (Triunfo do Homem Chamado Cavalo), de John Hough; Camelot, de Marty Callner (TV); Highpoint, de Peter Carter; 1985: Martin's Day, de Alan Gibson; 1988: Maigret, de Paul Lynch (TV); Trappola diabólica, de Bruno Mattei, Claudio Fragasso; 1989: Mack the Knife, de Menahem Golan; 1990: The Field (The Field - Esta Terra é Minha), de Jim Sheridan; King of the Wind, de Peter Duffell;  1992: Unforgiven (Imperdoável), de Clint Eastwood; 1992: Patriot Games (Jogos de Poder - O Atentado), de Phillip Noyce; 1993: Wrestling Ernest Hemingway, de Randa Haines; 1985 Martin's Day, de Alan Gibson; 1993: Silent Tongue, de Sam Shepard; 1994: La Bible: Abraham, de Joseph Sargent; 1995: Cry the Beloved Country (Chora, Terra Amada!), de Darrell James Roodt; The Great Kandinsky, de Terry Winsor (TV);  1996: Trojan Eddie, de Gillies MacKinnon; Savage Hearts, de Mark Ezra; 1997: Smilla's Sense of Snow (Smilla e o Mistério da Neve), de Bille August; This Is the Sea, de Mary McGuckian; The Hunchback (O Corcunda de Notre Dame), de Peter Medak (TV);  1998: Sibirskiy tsiryulnik (O Barbeiro da Sibéria), de Nikita Mikhalkov; Upright Affair, de Dante Marraccini; 1999: Grizzly Falls de Stewart Raffill; To Walk with Lions, de Carl Schultz; 2000: Gladiator (Gladiador), de Ridley Scott; 2001: Harry Potter and the Philosopher's Stone (Harry Potter e a Pedra Filosofal), de Chris Columbus; The Count of Monte Cristo (O Conde de Monte Cristo), de Kevin Reynolds; Kaena, la prophétie, de Chris Delaporte (voz); The Pearl, de Alfredo Zacarías;  Bette (TV) episodio True Story;  2002: My Kingdom, de Don Boyd; 2002: Julius Caesar, de Uli Edel (TV); San Giovanni - L'Apocalisse, de Raffaele Mertes (TV); Harry Potter and the Chamber of Secrets (Harry Potter e a Câmara dos Segredos), de Chris Columbus;  
Como realizador: 1971: Bloomfield (A Queda de um Ídolo).

RACHEL ROBERTS (1927–1980)
Rachel Roberts nasceu a 20 de Setembro de 1927, em Llanelli, Carmarthenshire, Pais de Gales, Reino Unido, e viria a falecer, com 53 anos de idade, a 26 de Novembro de 1980, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Causa da morte: suicídio, com uma forte dose de barbitúricos. Excelente actriz, será para sempre recordada como a amante de dois representantes machos do Free Cinema, em “Saturday Night and Sunday Morning” e “This Sporting Life”, pelo trabalho no qual haveria de ser nomeada para o Oscar de Melhor Actriz. Anos mais tarde, na Austrália, voltaria a ser altamente elogiada pela sua criação de Mrs Appleyard no filme de Peter Weir “Picnic at Hanging Rock”. Estudou na University of Wales e na Royal Academy of Dramatic Art, começou a trabalhar no teatro na companhia de Swansea em 1950. A sua estreia no cinema dá-se em “Valley of Song”, de 1953, uma realização de Gilbert Gunn. Alternou o teatro e o cinema, e fez carreira no musical, sobretudo na obra de Lionel Bart, “Maggie May” (1964). Mudou-se para Los Angeles no inicio dos anos 70, aparecendo em papaeis secundários. Regressou a Inglaterra para interpretar “Yanks” (1979), de John Schlesinger, e ganhou o BAFTA para Melhor Actriz Secundária. Em 1979, Roberts contracenou com Jill Bennett numa produção televisiva de Lindsay Anderson e Stephen Frears, “The Old Crowd”, segundo obra de   Alan Bennett. Foi casada com Alan Dobie (1955–1961) e Rex Harrison (1962–1971), acabando ambos os casamentos em divórcio e grandes depressões. Suicidou-se a 26 de Novembro de 1980, na sua casa de Los Angeles. Foi cremada na capela Pines Crematory em Los Angeles. O diário que mantinha com regulatidade desde muito nova serviu de base a “No Bells on Sunday: The Memoirs of Rachel Roberts” (1984). Em 1992, as cinzas de Rachel Roberts e da sua amiga Jill Bennett, foram dispersas pelo rio Tamisa, numa cerimónia levada a efeito pelo grande amigo de ambas, Lindsay Anderson que rodou um documentário em sua homenagem, para a BBC, “That All There Is?”.

Filmografia
Como actriz: 1953: Valley of Song, de Gilbert Gunn; The Limping Man, de Cy Endfield; 1954: The Weak and the Wicked, de J. Lee Thompson; The Crowded Day, de John Guillermin; 1957: The Good Companions (Bons Camaradas), de J. Lee Thompson; 1958–1959: Our Mutual Friend; 1959: Our Man in Havana (O Nosso Agente em Havana) de Carol Reed; 1960: BBC Sunday-Night Play (TV); On Trial (TV); Saturday Night and Sunday Morning (Sábado à Noite, Domingo de Manhã), de Karel Reisz; 1961: Girl on Approval, de Clive Donner; 1963: This Sporting Life (Jogador Profissional), de Lindsay Anderson; The Eleventh Hour (TV); 1966: Out of the Unknown (TV); ITV Play of the Week (TV); Blithe Spirit (TV); 1968: A Flea in Her Ear (Com a Pedra no Sapato), de Jacques Charon; 1969: The Reckoning (Balada para um Homem Só), de Jack Gold; Happy Ever After (TV); Destiny of a Spy (TV); Night Gallery (TV); 1971: Doctors' Wives (Médicos e Mulheres), de George Schaefer; Wild Rovers (Vagabundos Selvagens), de Blake Edwards; Marcus Welby, M.D. (TV); 1973: Alpha Beta, de Anthony Page; Baffled (A Mansão do Poder Oculto), de Philip Leacock; The Belstone Fox, de James Hill; O Lucky Man! (Um Homem de Sorte), de Lindsay Anderson; 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; Great Expectations (Grandes Esperanças) (TV); Play for Today (TV) - Back of Beyond; Late Night Drama (TV) – Graceless Go I; 1975: Picnic at Hanging Rock (Piquenique em Hanging Rock), de Peter Weir; 1976-1978: The Tony Randall Show (TV); 1976–1978: The Tony Randall Show; 1977: A Circle of Children (TV); 1978: Foul Play (Jogo Baixo), de Colin Higgins; 1979: Yanks (Yanks), de John Schlesinger; When a Stranger Calls (Chamada Misteriosa), de Fred Walton; The Old Crowd (TV); Family (TV) - Exits and Entrances; 3 by Cheever (TV) - The Sorrows of Gin; 1979: Family (TV); Six Plays by Alan Bennett: The Old Crowd  Pauline (TV); 1980: The Hostage Tower (A Torre dos Reféns) (TV); Sonya (TV); 1981: Charlie Chan and the Curse of the Dragon Queen (Charlie Chan e a Maldição da Rainha), de Clive Donner; 1982: The Wall (TV)

DAVID STOREY (1933 - )
David Rhames Storey nasceu a 13 de Julho de 1933, em Wakefield, Yorkshire, Inglaterra. Estudou na Queen Elizabeth Grammar School, em Wakefield, e, posteriormente, na  Slade School of Fine Art, em Londres. Foi jogador profissional de rugby. Romancista, argumentista, dramaturgo, ganhou o Booker Prize.

Obras: This Sporting Life (Macmillan Fiction Award) (1960); Flight into Camden (1961) (John Llewellyn Rhys Prize e Somerset Maugham Award); Radcliffe (1963); The Restoration of Arnold Middleton (1967); In Celebration (1969); The Contractor (1970); Home (1970); The Changing Room (1971); Pasmore (1972); The Farm (1973); Cromwell (1973); A Temporary Life (1973); Edward (1973); Life Class (1975); Saville (1976) (Booker Prize); Mother's Day (1977); Early Days (1980); Sisters (1980); A Prodigal Child (1982); Present Times (1984); The March on Russia (1989); Storey's Lives: 1951-1991 (1992); A Serious Man (1998); As it Happened (2002).

Filmografia
Como argumentista e escritor adaptado: 1963: This Sporting Life (Jogador Profissional), de Lindsay Anderson; 1968: NET Playhouse (TV) – Home, de Lindsay Anderson; 1971: Great Performances (TV)- Early Days ..., de  Anthony Page; 1971: Mooi weer vandaag, de Berend Boudewijn, Karl Guttman  (TV) ; 1972: Play for Today (TV) (1970-1984):  Home, de Kirsten Sørlie; 1973: Proslava, de Branko Plesa (TV); 1974: Ter ere van..., de Dré Poppe (TV); The Contractor, de Barry Davis (TV); 1975: Farma, de Aleksandar Mandic (TV); In Celebration, de Lindsay Anderson; 1980: Play for Today (TV) (1970-1984):  Pasmore, de Richard Eyre; 1981: Early Days, de Anthony Page (TV) ; 1989: Theatre Night (TV) - The Contractor, de  Barry Davis.1971: Mooi weer vandaag (TV) (play)

Como actor: 1963: This Sporting Life (Jogador Profissional), de Lindsay Anderson (um joador de rugby).

SESSÃO 26: 8 DE JULHO DE 2014


NA TERRA COMO NO CÉU (1963)

Não será um obra-prima da comédia inglesa, como as que os Ealing Studio produziu uma década antes, mas “Heavens Above!” merece alguma atenção por diversos motivos. Um dos principais será certamente a interpretação de Peter Sellers, que por esses anos se começava a notabilizar impondo-se como um dos principais actores do cinema inglês, progredindo depois numa carreira internacional com a maioria dos seus sucessos a surgirem nos EUA: quem não o recorda, entre muitos outros, em “Dr. Estranhoamor”, “Lolita”, a série “Pantera-Cor-de Rosa” ou nessa magnifica comédia “A Festa”?
Depois haverá que reconhecer que a dupla de irmãos John Boulting e Roy Boulting teve um papel interessante como produtores, argumentistas e realizadores de um certo tipo de obras, seguramente viradas para o grande público, mas ainda assim com preocupações sociais e cinematográficas, acima da média. Finalmente, o argumento de “Na Terra como no Céu”, muito embora algumas facilidades, oferece um conjunto de aspectos interessantes, sobretudo na forma como aborda a questão religiosa, aqui referindo-se à igreja inglesa, mas que facilmente se pode extrapolar para quase todas as outras. Há ainda objectivas criticas a algumas formas de governo, do capitalismo ao comunismo, que merecem reflexão.

Recordemos então o essencial da intriga: a paróquia de uma pequena localidade inglesa necessita de um novo vigário, e o arcebispo (Cecil Parker), que conhece bem um tal John Smallwood, propõe-no para o lugar. Quando vão localizar a sua fica e colocá-lo no seu novo destino, trocam as fichas e em vez de um John Smallwood, enviam um outro John Smallwood (Peter Sellers). Se o visado pelo arcebispo era um padre convencional que iria fazer o que o conservadorismo da igreja sempre fez, o John Smallwood que chega à paróquia, saiu de uma cadeia, onde era capelão, e traz ideias muito pouco ortodoxas, que vão escandalizar a comunidade. Ele procura ajudar os mais humildes, os pobres, lutar contra certos preconceitos (como o racismo), mas acaba também ele por cometer algumas ingenuidades. O filme aponta a sua critica à hierarquia da igreja, mas igualmente aos interesses instalados, mas igualmente ao idealismo ingénuo do vigário. Neste sentido, e apesar de se mostrar como uma comédia sem grandes ambições, “Heavens Above!” é um sintomático retrato das contradições vividas pela sociedade inglesa (e ocidental) deste período histórico.
Peter Sellers tem um bom trabalho, num tipo de humor discreto, comedido, eficaz, bem acompanhado por todo o elenco, e a realização dos irmãos Boulting é também ela eficiente, discreta, explorando com graça alguns paradoxos socias. Um tipo de obra que tipifica bem um período onde a comédia de grande público não tendia a estupidificar as plateias, mas, pelo contrário, as levava a pensar sobre a sociedade, de certa forma bem alicerçada na realidade.

NA TERRA COMO NO CÉU
Título original: Heavens Above!
Realização: John Boulting, Roy Boulting (Inglaterra, 1963); Argumento: John Boulting, John Boulting, Frank Harvey, segundo ideia de Malcolm Muggeridge; Produção: John Boulting, Roy Boulting; Música: Richard Rodney Bennett; Fotografia (p/b):  Mutz Greenbaum;  Montagem: Teddy Darvas; Direcção artística: Albert Witherick; Guarda-roupa: David Ffolkes; Maquilhagem: Gerry Fletcher, Stuart Freeborn, Barbara Ritchie; Direcção de Produção: Michael F. Johnson; Assistentes de realização: Derek Cracknell, Henry Emery, Malcolm Johnson; Departamento de arte: Peter Childs, Alan Evans, Roy Walker, Frank Willson; Som: Chris Greenham, Red Law; Efeitos visuais: John Mackey, George Samuels, Wally Veevers; Companhias de produção: Charter Film Productions, Romulus; Intérpretes: Peter Sellers (Padre John Smallwood), Cecil Parker (Arcebispo Aspinall), Isabel Jeans (Lady Despard), Ian Carmichael (o outro Smallwood), Bernard Miles (Simpson), Brock Peters (Matthew Robinson), Eric Sykes (Harry Smith), Irene Handl (Rene Smith), Miriam Karlin (Winnie Smith), Joan Miller (Mrs. Smith-Gould), Miles Malleson (Rockeby), Eric Barker, William Hartnell, Roy Kinnear, Joan Hickson, Kenneth Griffith, Mark Eden, John Comer, Basil Dignam, Franklyn Engelman, Colin Gordon, Geoffrey Hibbert, Joan Heal, Ludovic Kennedy, Marjie Lawrence, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Universal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 26 de Agosto de 1968.

PETER SELLERS (1925-1980)
Nascido em Southsea, Hampshire, Inglaterra, a 8 de Setembro de 1925, Peter Sellers (cujo nome de baptismo era Richard Henry Sellers) foi actor, realizador, cantor, entertainer, escritor. Morreu, de ataque de coração, a 24 de Julho de 1980, em Londres, Inglaterra. Filho de um casal de actores, que actuavam numa companhia dirigida pela avó, estudou no St. Aloysius College e estreou-se em 1945 em espectáculos teatrais, como imitador. Serve na R. A. F., e no fim da II Guerra Mundial, consegue salientar-se na rádio e na TV (“The Goon Show”,, BBC, 1949-1956, ao lado de Spike Miligan, Michael Bentine e Harry Secombe), iniciando-se no cinema em 1951, ainda que anteriormente tivesse intervindo em algumas curtas-metragens e documentários, o que prossegue posteriormente, nomeadamente em “Humor Abstrato” (The Running, Jumping, Standing Still Film), uma de de Richard Lester (Inglaterra, 1959), uma das melhores curtas-metragens de humor dessa década. A partir de 1955 confirma-se como um dos mais inteligentes, criativos e finos intérpretes ingleses, num tipo de humor iniciado por Alec Guinness, com quem trabalhou no primeiro grande sucesso da sua carreira, “O Quinteto era de Cordas”. Prosseguiu uma actividade regular na ITV e lançou alguns discos gravados como cançonetista. Foi prémio de interpretação no Festival de San Sebastian de 1962 por “A Valsa do Galanteador”. É na década de 60 que se impõe como uma actor notável e de grande sucesso de crítica e de público, em filmes como “What's New, Pussycat” (1965), ao lado de um promissor Woody Allen que se estreava, na série “A Pantera Cor-de-Rosa” (cujo título inicial data de 1963), ou em obras de Stanley Kubrick, como “Lolita” ou “Dr. Estranho Amor”. A sua única experiência como realizador assumida integralmente é “Topaze”, mas teve uma outra tentativa, “The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu”, cuja de foi iniciada por si, mas não terminada por entretanto falecer. Mas a sua grande aposta nos derradeiros anos de vida foi “Being There”. Peter Sellers leu o livro em 1972, achou que seria um papel à sua medida, e lutou por ele durante sete anos. Em 1979, nomeado para o Óscar de melhor actor, perderia a estatueta para Dustin Hoffman, em “Kramer vs. Kramer”. Um falhanço que deixaria o actor profundamente angustiado. No ano seguinte, morreria, vítima de um ataque cardíaco. Na revista Empire, numa consulta aos leitores, Peter Sellers ficou em 84º lugar entre os 100 maiores actores de todos os tempos. Casado com Anne Howe (entre 1950 e 1962, dois filhos, Michael Sellers e Sarah Sellers), Britt Ekland (de 1964 a 1968, uma filha, Victoria Sellers), Miranda Quarry (de 1970 a 1974) e Lynn Frederick (entre 1977 e 1980).

Filmografia
Como actor

1951: Penny Points to Paradise, de Tony Young; 1952: Down Among the Z Men, de Maclean Rogers; 1954: Orders are Orders, de David Paltenghi; 1955: John and Julie, de William Fairchild; The Ladykillers (O Quinteto era de Cordas), de Alexander Mackendrick; Case of the Mukkinese Battle Horn, de Joseph Sterling; 1957: The Smallest Show on Earth (Luzes sem Ribalta), de Basil Dearden; The Naked Truth (A Verdade Nua), de Mario Zampi; 1958: Tom Thumb (O Pequeno Polegar), de George Pal; Up The Creek, de Val Guest; Carlton-Browne oftThe F.O. (Diplomata em Apuros), de Roy Boulting, John Boulting e Jeff Dell; 1959 The Mouse That Roared (O Rato que Ruge), de Jack Arnold; I'm All Right, Jack (Simpático Idiota), de John Boulting; The Running, Jumping, Standing Still Film (Humor Abstrato), de Richard Lester (curta-metragem); 1960: The Battle of the Sexes (Uma Mulher Tranquila), de Charles Crichton; Two Way Stretch (Arma de Dois Gumes), de Robert Day; 1961: Never Let Go (Sem Olhar Para Trás), de John Guillermin; The Millionairess (A Milionária), de Anthony Asquith; Mr Topaze (Topaze), de Peter Sellers; The Road to Hong Kong          (A Caminho de Hong-Kong), de Norman Panamá; 1962: Only Two Can Play (A Segunda Mulher), de Sidney Gilliat; Lolita (Lolita), de Stanley Kubrick; Waltz of the Toreadors (A Valsa do Galanteador), de John Guillermin; 1963: The Dock Brief, de James Hill; Heavens Above (Na Terra Como No Céu), de John Boulting, Roy Boulting; The Wrong Arm of the Law (O Braço Esquerdo da Lei), de Cliff Owen; The Pink Panther (A Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; Dr. Strangelove (Dr. Estranho Amor), de Stanley Kubrick; The World of Henry Orient (O Mundo de Henry Orient), de George Roy Hill; 1964: A Shot in the Dark (Um Tiro às Escuras), de Blake Edwards; 1965: What's New Pussycat (O Que Há de Novo, Gatinha?), de Clive Donner; The Wrong Box  (A Fabulosa Troca de Caixões), de Bryan Forbes; 1966: After The Fox ou Caccia Alla Volpe (A Raposa Dourada), de Vittorio de Sica; 1967: Casino Royale (Casino Royal), de John Huston, Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish, Joe McGrath, Richard Talmadge; The Bobo (O Bobo), de Robert Parrish; Woman Times Seven (Sete Vezes Mulher), de Vittorio de Sica; 1968: The Party (A Festa), de Blake Edwards; I Love You Alice B. Toklas (A Borboleta Vermelha), de Hy Averback; Candy (Candy), de Christian Marquand; 1969: The Magic Christian (Um Beatle no Paraíso), de Joseph Mc Grath; 1970: Hoffman (Hoffman), de Alvin Rakoff; There's A Girl In My Soup (Está uma Rapariga na Minha Sopa), de Roy Boulting; 1971: Where Does It Hurt? (Onde é que Doi?), de Rod Amateau; 1972: Alice's Adventures in Wonderland (As Aventuras de Alice), de William Sterling; 1973: The Blockhouse (O Fortim), de Clive Rees; The Optimists of Nine Elms, de Anthony Simmons; Soft Beds, Hard Battles (Batalhas Duras em Camas Moles), de Roy Boulting; Ghost in the Noonday Sun, de Peter Medak; 1974: The Great Mcgonagall, de Joseph McGrath; The Return of the Pink Panther (A Volta da Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; 1976: Murder By Death, de Robert Moore; The Pink Panther Strikes Again (A Pantera Cor-de-Rosa Volta a Atacar), de Blake Edwards; 1978: Revenge of the Pink Panther (A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; 1979: The Prisoner of Zenda (O Prisioneiro de Zenda), de Richard Quine; 1980: Being There (Bem-Vindo, Mr. Chance), de Hal Ashby; The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu, de Piers Haggard.
Como argumentista: 1951: Let's Go Crazy; 1956: The Case of the Mukkinese Battle Horn (material adicional); 1959: The Running Jumping & Standing Still Film; 1967: Casino Royale (não creditado); 1969: The Magic Christian (material adicional); 1979: Balham, Gateway to the South ;
Como realizador: 1959: The Running Jumping & Standing Still Film; 1961: Mr. Topaze; 1980: The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu (não creditado); 
Como cantor: 1966: Caccia Alla Volpe (A Raposa Dourada);
Como produtor: 1959: The Running Jumping & Standing Still Film; 1978: Revenge of the Pink Panther;
Como montador: 1959: The Running Jumping & Standing Still Film;
Participação pessoal:
1957: Eric Sykes Presents Peter Sellers (série de TV); 1965: Music of Lennon & McCartney (TV); 1966: El Rey en Londres ou Crónica Espectacular y Rítmica de una Visita Real; 1967: With Love, Sophia (TV); 1968: The Goon Show (TV); 1970: Simon Simon; 1972: The Last Goon Show of All (TV); 1975: Peter Sellers og Hans Verden (TV); 1977: To See Such Fun;
Utilização de imagens de arquivo de Peter Sellers: 1976: America at the Movies; 1985: Muppet Video: Rowlf's Rhapsodies with the Muppets; 1996: Spike (TV); 2000: The Unforgettable Hattie Jacques (TV); 2000: The 100 Greatest TV Ads (TV) (voz); The Unknown Peter Sellers (TV); 2001: The Sketch Show Story; Wild About Harry: A Tribute to Sir Harry Secombe (TV); 2002: Liza Minnelli: The E! True Hollywood Story (TV); 2003: Behind the Laughter; 2004: The 76th Annual Academy Awards;
Aparições especiais: 1967: ABC Stage 67 (episódio "David Frost's Night Out in London", de 2 de Fevereiro de 1967); 1969: It Takes a Thief (episódio "Who'll Bid Two Million Dollars?" de 2 de Outubro de 1969); 1969: London aktuell (episódio de 9 de Novembro de 1969); 1969: Rowan & Martin's Laugh-In (episódio de 15 de Setembro de 1969); 1969: Rowan & Martin's Laugh-In (episódio de 17 de Novembro de 1969); 1969: This Is Tom Jones (episódio de 7 de Fevereiro de 1969); 1970: Rowan & Martin's Laugh-In (episódio de 16 de Março de 1970); 1971: V.I.P.-Schaukel (episódio de 9 de Maio de 1971); 1972 – Sykes – episódio "Stranger" (19 de Outubro de 1972); 1973: Dean Martin Show (episódio de 5 Abril de 1973); 1997 –The Muppet Show (episódio de 6 de Dezembro de 1977); 1997: Heroes of Comedy: episódio "The Goons".

JOHN E ROY BOULTING 
(1913 - 1985, 2001)
John Edward Boulting nasceu a 21 de Novembro de 1913, em Bray, Berkshire, Inglaterra, e viria a falecer a 17 de Junho de 1985, com 71 anos, em Sunningdale, Berkshire, Inglaterra. Roy Alfred Clarence Boulting nasceu no mesmo dia, ou não fossem gémeos, e viria a falecer a 5 de Novembro de 2001, com 87 anos, em Eynsham, Oxfordshire, Inglaterra.
Filhos de Rose Bennet e Arthur Boulting, ficaram conhecidos pelos Irmãos Boulting. Em 1937 fundaram uma casa produtora de filmes Charter Film Productions. Escreveram, produziram e realizaram filmes em conjunto, ou em separado, mas quase sempre os dois em funções separadas. Ficaram conhecidos por algumas interessantes comédias de crítica social, entre as décadas de 50 e 60, como “Private's Progress” (1956), “Lucky Jim” (1957), “I'm All Right Jack” (1959) ou “Heavens Above!” (Na Terra Como no Céu, 1963). Trabalhram com um grupo de actores mais ou menos constante, Ian Carmichael, Richard Attenborough, Terry-Thomas, Dennis Price, John Le Mesurier, Irene Handl, ou Miles Malleson. Durante a Guerra Civil espanhola, Roy alistou-se nas Brigadas Internacionais de apoio à República. Foi piloto da RAF durante a II Guerra Mundial. 
Roy foi casado com Angelina Warnock (1936–1941), Jean Capon (1942–1951), Enid Munnik (1951–1968), Hayley Mills (1971–1976), Sandra Spencer (1978–1984) e Anne Boulting (?–1985). O irmão mais velho destes gémeos, Sydney Boulting, sob o nome de Peter Cotes, ficou conhecido como actor e produtor teatral, sendo o primeiro encenador de “The Mousetrap”.
Filmografia
Filmes dirigidos conjuntamente: 1950: Seven Days to Noon; 1954: Seagulls Over Sorrento; 1960: Suspect; 1963: Heavens Above! (Na Terra Como no Céu);
Filmes dirigidos só por John Boulting: 1945: Journey Together (Jornada Heróica); 1947: Brighton Rock; 1951: The Magic Box; 1956: Private's Progress; 1957: Lucky Jim; 1959: I'm All Right Jack (Simpático Idiota); 1965: Rotten to the Core; 1979: The Number;

Filmes dirigidos só por Roy Boulting: 1937: Consider Your Verdict (curta-metragem); 1937: The Landlady (curta-metragem, documentário); 1939: Inquest; 1939: Trunk Crime; 1940: Pastor Hall; 1941: Dawn Guard (curta-metragem); 1942: Thunder Rock (O Farol das Ilusões); 1943: Vitória do Deserto (documentário, não creditado); 1944: Tunisian Victory (documentário, co-dirigido com Frank Capra); 1946: Burma Victory (documentário); 1947: Fame Is the Spur; 1948: The Guinea Pig; 1951: High Treason (Alta Traição); 1953: Sailor of the King (O Marinheiro do Rei); 1955: Josephine and Men (Josefina e os Homens); 1956: Run for the Sun (Rumo ao Sol); 1956: Kraft Television Theatre (TV); 1957: Brothers in Law; 1958: Happy is the Bride; 1959: Carlton-Browne of the F.O.; 1960: French Mistress; 1966: The Family Way (Este Difícil Amor) ; 1968: Twisted Nerve (O Anormal); 1970: There's a Girl in My Soup (Caiu Uma Rapariga na Minha Sopa); 1974: Soft Beds, Hard Battles (Duras Batalhas em Camas Fofas); 1979: The Last Word; 1985: The Moving Finger (TV). 

SESSÃO 25: 2 DE JULHO DE 2014


O SENHOR DAS MOSCAS (1963)

“O Senhor das Moscas” (Lord of the Flies) é um importante romance de um Nobel inglês, William Golding, que, lançado em 1954, teve posteriormente um enorme sucesso e seria adaptado a cinema, inicialmente por Peter Brook, em 1963, mais tarde, em 1990, por Harry Hook. A versão de Peter Brook é aquela que nos ocupa e, definitivamente, a mais interessante, cotando-se como obra de referência na cinematografia inglesa, muito embora a de Harry Hook não seja de menosprezar, apesar de se desviar um pouco do original literário.
“Lord of the Flies” é uma alegoria que teve dificuldade em ser editada e que na sua primeira edição nos EUA não chegou a vender 3000 exemplares. O filme de Peter Brook ajudou a cimentar uma auréola mítica em redor da obra que rapidamente se transformou num romance de culto, bem assim como o filme. Presentemente, é um sucesso, um verdadeiro “clássico”, de leitura obrigatória em estabelecimentos de ensino. O título parece ser uma referência a Belzebu ou o Diabo e conta-nos, sob a forma de metáfora, o regresso à barbárie, tendo como protagonistas dois grupos de crianças de um colégio que, em tempo de guerra, e depois da queda de um avião numa ilha deserta, ficam retidos nessa ilha, entregues a si próprios, tendo de aprender (ou desaprender, segundo os pontos de vista) a sobreviver. É obvio que o tema da obra é filosófico e simbólico, com o grupo de jovens perdido numa floresta luxuriante, um autêntico Éden na Terra, abundante em comida, água e beleza natural, onde os adolescentes começam por coabitar sem grandes problemas, mas se vão dividindo depois em duas facções, uma delas procurando comandar e deter o poder, inventando ritos guerreiros e impondo chefes que iniciam a ditadura sobre os demais. A imagem de uma cabeça de porco, infestada de moscas, será o prenúncio da aparição do Mal, réplica da célebre serpente da Bíblia. 
Mas o livro e o filme são pródigos numa simbologia exemplar. Personagens existem que prenunciam conceitos essenciais na vida das sociedades. Ralph, escolhido por todos para a defesa do grupo, é obviamente um representante da democracia representativa, enquanto Jack prefigura o fascismo e as ditaduras que se impõem pela manipulação e a força. Há quem aceite submeter-se às ordens do tirano, e se organize em exércitos que espalham o medo e a violência. Mas há momentos e figuras que nos remetem para o pensamento místico ou científico, para a razão e para a crendice, para a ordem e a exaltação esquizofrénica, o progresso e a barbárie. Na verdade esta é uma metáfora social e política que procura perceber como se impõem as ditaduras, como se instala o Mal. Um Mal que pode brotar e germinar no coração dos mais jovens, dos mais puros ou dos mais impreparados, mercê das condições que os rodeiam.   
O filme de Peter Brook, um dos mais geniais homens de teatro do século XX, é uma adaptação conscienciosa do romance, recriando em imagem soberbas, num glorioso preto e branco, essa floresta onde explodem as paixões humanas. Há quem aponte curiosas semelhanças tanto do livro como do filme com as populares séries televisivas “Lost” ou “Survivor”. A verdade é que “Lord Of The Flies” tem influenciado, ao longo dos tempos, inúmeras outras obras, literárias, cinematográficas, musicais.
As filmagens decorreram em Porto Rico, em Aguadilla, El Yunque, e na ilha de Vieques, locais escolhidos por Peter Brook que, para seleccionar o seu jovem elenco, terá realizado um casting a mais de três mil crianças. Conta-se que Hugh Edwards, o miúdo que interpreta a figura de Piggy, conseguiu o papel ao escrever uma carta a Brook dizendo simplesmente: “Prezado Senhor, sou gordo e uso óculos”. Mas a selecção final é excelente e todo o elenco é de uma convicção e eficácia invulgares, contribuindo em muito para o sucesso final. A arte de Peter Brook transforma o filme num envolvente quadro que nos mostra o progressivo resvalar da convivência civilizada para uma competitiva e selvática batalha pelo poder. Saído da II Guerra Mundial, tanto William Golding como Peter Brook tinham bem presente o horror por que tinham passado e “O Senhor das Moscas” transmite-o brilhantemente.  

O SENHOR DAS MOSCAS
Título original: Lord of the Flies
Realização: Peter Brook  (Inglaterra, 1963); Argumento: Peter Brook, segundo romance de William Golding (Lord of the Flies); Produção: Lewis M. Allen, Gerald Feil, Al Hine; Música: Raymond Leppard; Fotografia (p/b):  Tom Hollyman ; Montagem: Peter Brook, Gerald Feil, Jean-Claude Lubtchansky;  Casting: Terry Fay, Michael Macdonald; Maquilhagem: Lydia Rodriguez; Guarda-roupa:  Susan Fletcher; Assistente de realização: Toby Robertson;  Som: Carter Harman, James Townsend;  Companhia de produção: Two Arts Ltd.; Intérpretes: James Aubrey (Ralph), Tom Chapin (Jack), Hugh Edwards (Piggy), Roger Elwin (Roger), Tom Gaman (Simon), Roger Allan (Piers), David Brunjes (Donald), Peter Davy (Peter), Kent Fletcher (Percival Wemys Madison), Nicholas Hammond (Robert), Christopher Harris (Bill), Alan Heaps (Neville), Jonathan Heaps (Howard), Burnes Hollyman (Douglas), Andrew Horne (Matthew), Richard Horne, Timothy Horne, Peter Ksiezopolski, Anthony McCall-Judson, Malcolm Rodker, David St. Clair, Rene Sanfiorenzo Jr., Jeremy Scuse, John Stableford, David Surtees, Simon Surtees, Nicholas Valkenburg, Patrick Valkenburg, Edward Valencia, John Walsh, David Walsh, Jeremy Willis, etc. Duração: 92 minutos; Distribuição em Portugal: inexistente; Cópia DVD: Studio Canal (inglês, sem legendas); Classificação etária: M/ 12 anos.

PETER BROOK (1925- )
Peter Stephen Paul Brook nasceu a 21 de Março de 1925, em Londres, Inglaterra. Aos sete anos encenou e interpretou todos os papéis de “Hamlet”, numa “produção” caseira para a família. Durante a sua longa carreira tem sido encenador de teatro e ópera, escritor e realizador. Estudou em Westminster e no Magdalen College, Oxford. Começou a encenar no Birmingham Rep, Stratford Upon Avon e na Broadway. Em 1962, foi nomeado Director da Royal Shakespeare Company, ocupando o posto durante duas décadas. As mais célebres encenações suas foram de peças de Shakespeare, como "Love's Labour's Lost" (1946), "Measure for Measure" (1950), "Titus Andronicus" (1955), "King Lear" (1962) ou "A Midsummer Night's Dream" (1970), na Royal Shakespeare Company, e  ainda “Marat/Sade”, “Tempest”, “The Visit”, “Faust”, “The Fighting Cock”, “King Lear”, “Irma LaDouce”, ou “House of Flowers”. Em Paris, em 1971, Brook fundou o International Centre for Theatre Research (C.I.R.T), mais tarde, o International Center for Theatre Creations (C.I.C.T). Em Paris, encenou “Marat/Sade”, “Timon of Athens”, “The Iks”, “Ubu aux Bouffes”, “Conference of the Birds”, “L'Os”, “The Cherry Orchard”, “Tragedy of Carmen”, “The Mahabharata”, “Woza Albert!”, “The Tempest”, “Impressions of Pelleas”, “The Man Who”, “Qui est là?”, “Happy Days”, “Je suis un phénomène”, “Le Costume”, “The Tragedy of Hamlet” e “Far Away”. São célebres as suas encenações das óperas “La Bohème”, “Boris Godounov”, “The Olympians”, “Salomé” e “Le Nozze de Figaro” (no Covent Garden Opera House, em Londres), “Faust” e “Eugene Onegin” (na Metropolitan Opera, em Nova Iorque) e “Don Giovanni” (no Aix en Provence Festival). A sua carreira como realizador agrupa “O Senhor das Moscas” (1963), “Marat/Sade” (1967), “King Lear” (1971), “Moderato cantabile” (1960), “The Mahabharata” (1989) e “Meetings with Remarkable Men” (1979). Peter Brook escreveu uma autobiografia, "Threads of Time" (1998) e várias outras obras: "The Empty Space" (1968), "The Shifting Point" (1987) ou "There Are No Secrets" (1993). Casado com Natasha Parry (1951: até ao presente)
Foi condecorado como “Commander of the Order of the British Empire” (1965), e como “Companion of Honour” (1998). Concederam-lhe o “Laurence Olivier Theatre Award” e o “The Times Award for Outstanding Contribution to British Theatre” (1994). Em 19884 ganhara o “Laurence Olivier Theatre Special Award” pela sua contribuição ao teatro.  Em 1988 ganhou o “London Critics Circle Theatre Award (Drama Theatre Award)” para Melhor Encenador pelo seu trabalho em “The Mahabharata”. Na Broadway foi duas vezes o Melhor Encenador do ano (Tony Award), em 1966 por "Marat/Sade" e em 1971 por "A Midsummer Night's Dream". Duas outras nomeações: em 1959 por "The Visit", e em 1961, por "Irma la Douce".

Filmografia
Como realizador
1953: The Beggar's Opera (A Ópera dos Mendigos); 1956-1957: ITV Play of the Week (TV) (dois episódios: Hamlet, 1956, e Heaven and Earth, 1957); 1958: Box for One (TV); 1960: Moderato Cantabile; 1963: Lord of the Flies (O Senhor das Moscas); 1964: Puhelinkioski (TV); 1967: Marat/Sade; 1967: Ride of the Valkyrie (curta-metragem); 1968: Tell Me Lies; 1971: King Lear; 1979: Mesure pour Mesure (TV); 1979: Meetings with Remarkable Men; 1982: La Cerisaie (TV); 1983: La Tragédie de Carmen; 1984: A Paixão de Swann; 1989: The Mahabharata (TV) (três episódios: “War”, “Game of Dice” e “Exile in the Forest”); 2002: The Tragedy of Hamlet (TV).

WILLIAM GOLDING  (1911-1993)
William Gerald Golding nasceu a 19 de Setembro de 1911, em St Columb Minor, Cornwall, Inglaterra, e faleceu, de ataque cardíaco, a 19 de Junho de 1993, em Perranarworthal, Cornwall, Inglaterra. Casado com Ann Brookfield (1939 - 1993). Estudou na Marlbrough Grammar School (1921-1930) e no Brasenose College, Oxford (1930-1934). Serviu na marinha britânica na II Guerra Mundial. Professor de inglês na Bishop Wordsworth school, em Salisbury, quando escreveu o seu primeiro romance, "Lord of the Flies", publicado na editora Faber, em 1954, depois de ter sido recusado por mais de dez casas editoras. Deixou de leccionar em 1962, para se entregar por inteiro à escrita. Em 1980, ganhou o Booker Prize pelo romance "Rites of Passage".Prémio Nobel da Literatura em 1983. Um dia disse: “O homem produz o mal, como as abelhas produzem o mel”. Toda a sua obra é uma procura da razão do mal e, em simultâneo, do confronto entre a razão e a fé, com uma evidente preocupação ecológica.

Principais obras: Poems, 1934; Lord of the Flies (O Senhor das Moscas), 1954; The Inheritors, 1955; Pincher Martin, 1956; The Brass Butterfly, 1958; Free-fall, 1959; The Spire, 1964; The Hot Gates, 1965; The Scorpion God, 1971; Darkness Visible, 1979; A Moving Target, 1982; The Paper Men, 1984; An Egyptian Journal, 1985; Trilogia “To The Ends of the Earth”: Rites of Passage, 1980, Close Quarters, 1987, e Fire Down Below, 1989.

Filmografia
Como escritor: 1963: Lord of the Flies (O Senhor das Moscas), de Peter Brooks; 1975: Alkitrang dugo, de  Lupita Aquino-Kashiwahara (inspirado em "Lord of the Flies"); 1990: Lord of the Flies (O Senhor das Moscas), de Harry Hook; 2005: To the Ends of the Earth, de David Attwood (TV) (três episódios: Fire Down Below, Close Quarters, Rites of Passage).
Documentário: 2012 Arena (TV) - The Dreams of William Golding, de Adam Low. 


SESSÃO 24: 1 DE JULHO DE 2014


A VELHA DESCOBRE O CRIME (1963)

Agatha Christie é indiscutivelmente uma das mais populares escritoras inglesas do género policial e uma das mais adaptadas ao cinema. Há, sobretudo, duas craiações suas, Hercules Poirot e Miss Marple, que batem quase todos os outros investigadores particulares neste campo. Ambos tiveram vários intérpretes notáveis mas, no caso de Miss Marple, duas houve que se tornaram lendárias, a primeira das quais Margaret Rutherford que, nos anos 60, nos deu um magnífico conjunto de trabalhos, numa série que ficou célebre e hoje em dia são verdadeiros “cult movies”, sempre sob a direcção do realizador George Pollock. “Murder She Said” (O Estranho Caso da Velha Curiosa, 1961) foi o primeiro da série, a que se seguiram “Murder at the Gallop” (A Velha Descobre o Crime, 1963), “Murder Ahoy” (A Velha Investiga, 1964) e “Murder Most Foul” (O Regresso da Velha Curiosa, 1964). Rutherford ainda haveria de recriar a mesma figura, mas agora numa obra norte-americana, “The Alphabet Murders” (O Alfabeto do Crime), de Frank Tashlin (1965). A outra grande Miss Marple foi Angela Lansbury, sobretudo numa série de televisão, sendo depois continuada por uma muito interessante Ita Ever, num novo conjunto de telefilmes.
“A Velha Descobre o Crime” tem duas ou três características que tornam o filme muito interessante. Desde logo, o trabalho de Margaret Rutherford, que compõe uma personagem inesquecível, pela persistência, bonomia, inteligência a que a própria morfologia física da actriz oferece um generoso contributo. Mas, na interpretação, há ainda que contar com a colaboração de Stringer Davis (Mr. Stringer), colaborador de Miss Marple em todos os casos, e marido de Margaret Rutherford na realidade, e também, neste título, de dois grandes actores ingleses, Robert Morley (Hector Enderby) e Flora Robson (Miss Milchrest).
Depois, há que reconhecer a qualidade da descrição de uma pequena comunidade inglesa de província, que George Pollack pinta a traços largos, mas pertinentes e eficazes. Em “A Velha Descobre o Crime”, Miss Marple e o seu parceiro de aventuras, o discreto senhor Stringer, vagueiam pela aldeia angariando fundos para uma Liga de Assistência a Criminosos Recuperados ("The Reformed Criminals Assistance League"), e resolvem visitar o velho e forreta Enderby para o levar a contribuir. Mas, quando chegam à mansão do rico e avarento senhor, não conseguem já falar com ele, pois o que encontram é o seu cadáver. Dado que ele tinha pavor a gatos, e por aí passara um desses bichanos, um ataque cardíaco começa por ser a explicação mais óbvia. Mas Miss Marple tem outra teoria, que vai procurar cimentar, munida de um pedaço de lama endurecida que encontra junto da vítima e que guarda para futuras averiguações. É chamado o inspector Craddock, que parece satisfeito com a ideia de um ataque cardíaco como causa da morte, dado que já eram conhecidos há alguns anos os problemas de coração do velho. Como sempre nestes casos, e muito ao estilo de Agatha Christie, há vários herdeiros interessados na fortuna, um deles acaba mesmo por conhecer o mesmo destino que o milionário e Miss Marple aproveita a reunião familiar no hotel “The Gallop” para tentar descobrir quem pode estar por detrás de tão funestas ocorrências.
Claro que se trata de um policial na melhor tradição inglesa, mas o humor não deixa de estar presente, em parte devido à escrita e imaginação da escritora, outro tanto pela forma como Margaret Rutherford compõe a figura, um simpática velhinha que não deixa de dançar o twist e andar a cavalo ou de bicicleta e que não se escusa de aconselhar o inspector da polícia a ler obras de Agatha Christie.
Dirigido com leveza e eficácia por George Pollock, adaptado da literatura (romance “After the Funeral”) ao cinema por James P. Cavanagh, este é um filme de produção média inglesa, de reduzido orçamento e de lucros invejáveis, muito como resultado do agrado que conheceu junto das plateias mundiais.

A VELHA DESCOBRE O CRIME
Título original: Murder at the Gallop
Realização: George Pollock (Inglaterra, 1963); Argumento: James P. Cavanagh, segundo romance de Agatha Christie ("After the Funeral"); Produção: George H. Brown, Lawrence P. Bachmann; Música: Ron Goodwin; Fotografia (p/b):  Arthur Ibbetson; Montagem: Bert Rule; Casting: Irene Howard; Direcção artística: Frank White; Guarda-roupa: Maude Churchill, Charles Monet, Masada Wilmot; Maquilhagem: Eddie Knigh, Pearl Orton; Direcção de Produção: Sydney Streeter; Assistentes de realização: Basil Rayburn, Edward Dorian; Departamento de arte: Tom Jung; Som: David Bowen, A.W. Watkins; Efeitos especiais: Tom Howard; Companhias de produção: George H. Brown Productions, Metro-Goldwyn-Mayer British Studios; Intérpretes: Margaret Rutherford (Miss Jane Marple), Stringer Davis (Mr. Stringer), Robert Morley (Hector Enderby), Flora Robson (Miss Milchrest), Charles 'Bud' Tingwell (Inspector Craddock), Gordon Harri (Sargento Bacon), Robert Urquhart (George Crossfield), Katya Douglas (Rosamund Shane), James Villiers (Michael Shane), Noel Howlett (Mr. Trundell), Finlay Currie (Velho Enderby), Duncan Lamont (Hillman), Kevin Stoney (Doutor Markwell), Frank Atkinson, Roger Avon, Jack Dearlove, Fred Griffiths, Joan Ingram, Paddy Smith, Guy Standeven, etc. Duração: 81 minutos; Distribuição em Portugal: Warner; Classificação etária: M/ 12 anos;

GEORGE POLLOCK (1907–1979)
George Pollock nasceu a 27 de Março de 1907 em Leicester, Leicestershire, Inglaterra, e viria a falecer a 22 de Dezembro de 1979, com 72 anos, em Thanet, Kent, Inglaterra. Iniciou a sua carreira no cinema na década de 30, como assistente de realização, actividade que desempenhou durante anos. Colaborou com David Lean em várias obras deste, como “Brief Encounter”, “Great Expectations” e “Oliver Twist”. Como realizador estreia-se em 1957, em “Stranger in Town “. A sua coroa de glória são quatro adaptações de obras de Agatha Christie, no início da década de 60, tendo como protagonista Miss Marple, interpretada pela fabulosa Margaret Rutherford: “O Estranho Caso da Velha Curiosa” (1961), “A Velha Descobre o Crime” (1963), “A Velha Investiga” (1964) e “O Regresso da Velha Curiosa” (1964). Voltaria à obra da escritora em 1965, com a versão de “Ten Little Indians”, mas sem os mesmos resultados. Teve ainda vários trabalhos para televisão, como “Interpol Calling”, “Zero One”, “Gideon's Way” e “Danger Man”.

Filmografia
Como realizador: 1957: Stranger in Town; 1958: Rooney; Sally's Irish Rogue; 1959: Don't Panic Chaps!; Broth of a Boy; 1960: And the Same to You; Interpol Calling (TV); 1961: Murder She Said (O Estranho Caso da Velha Curiosa); 1962: Village of Daughters; Kill or Cure; 1962-1963: Zero One (TV); 1963: Murder at the Gallop (A Velha Descobre o Crime); 1964: Murder Most Foul (A Velha Investiga); Murder Ahoy (O Regresso da Velha Curiosa); 1965: Ten Little Indians (Dez Convites Para a Morte); 1966: Danger Man (TV); 1967: Gideon's Way (TV).

MARGARET RUTHERFORD 
(1892-1972)
Margaret Taylor Rutherford nasceu a 11 de Maio de 1892, em Balham, Londres, Inglaterra, e faleceu a 22 de Maio de 1972, em Chalfont St. Peter, Buckinghamshire, Inglaterra, com 80 anos, vítima de pneumonia. Apesar da sua aparência bonacheirona e simpática, Margaret Rutherford teve uma vida acidentada e uma infância não muito feliz. Filha única de William Rutherford Benn e de Florence Nicholson, era oriunda de uma família importante, contando nela com nobres e políticos. Mas o pai, que sofria de problemas mentais, foi acometido por um colapso nervoso na lua-de-mel, e foi internado num asilo. Tinha alta nos feriados e a 4 de Março de 1883, matou o pai, o reverendo Julius Benn, um ministro do Congregacionalismo, tentando suicidar-se a seguir. Sobreviveu, voltou ao isolamento do Hospital Broadmoor para criminosos. Alguns anos mais tarde, libertado, supostamente curado de sua doença mental, mudou o apelido para Rutherford, e voltou para sua esposa. Viajaram até à Índia, mas Margareth regressou a Inglaterra, e aos cuidados de uma tia, Bessie Nicholson, educadora de infância, depois da mãe se ter enforcado numa árvore. O pai voltou igualmente a Inglaterra, de novo a Broadmoor, onde morreu em 1921. Rutherford foi educada na Wimbledon High School e na Royal Academy of Dramatic Art. Estreou-se no Old Vic, em 1925, quando tinha 33 anos. A sua aparência física não a ajudava a ser uma heroína romântica, mas impôs-se como personagem característica, aparecendo nalguns filmes importantes dos anos 40, como na obra de David Lean “Uma Mulher do Outro Mundo” (1945), que adaptava uma peça de Noel Coward, “Blithe Spirit”, onde ela criava a personagem de Madame Arcati, que, conjuntamente com a figura de Miss Marple permanecem as suas interpretações de referência. "Nunca pretendi fazer comédia. Sempre me surpreendo quando o público acha engraçado tudo o que faço", escreveu Margaret na sua autobiografia. Casada com o actor Stringer Davis em 1945, era vulgar vê-los representar conjuntamente. Na década de 1950, Rutherford e Davis adoptaram o escritor Gordon Langley Hall, quando este já estava na casa dos 20 anos. Hall, pouco depois, mudou de sexo, passando a assinar como Dawn Langley Simmons, sendo com este novo nome que escreveu uma biografia de Rutherford, em 1983.
Em 1961, ela interpretou, pela primeira vez, o papel de Miss Marple, iniciando uma série de quatro filmes baseados em obras de Agatha Christie, e dirigidos por George Pollock. Em 1964, ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Actriz Secundária pelo seu trabalho no filme “The V.I.P.s”. Apareceu ainda em “Chimes at Midnight”, de Orson Welles, de 1966.
Recebeu a ordem de Officer of the British Empire (OBE), em 1961, e depois um Dame Commander of the British Empire (DBE), em 1967. Nos derradeiros tempos da sua vida sofria de Alzheimer. Dame Margaret Rutherford morreu em Maio de 1972 e foi enterrada no cemitério de St. James Church, Gerrards Cross, Buckinghamshire, Inglaterra, onde iriam igualmente repousar os restos de seu marido Stringer Davis, que morreu em Agosto de 1973,

Filmografia

Como actriz: 1936: Troubled Waters, de Albert Parker (não creditada); Dusty Ermine, de Bernard Vorhaus; Talk of the Devil, de Carol Reed; 1937: Catch As Catch Can, de Roy Kellino; Missing, Believed Married, de  John Paddy Carstairs; Big Fella, de  J. Elder Wills; Beauty and the Barge, de Henry Edwards; 1938: Spring Meeting, de John Gielgud (TV); Have You Brought Your Music? (TV); 1941: Quiet Wedding (Pedido de Casamento), de Anthony Asquith; 1943: Yellow Canary (Contra-Espionagem), de  Herbert Wilcox; The Demi-Paradise (Metade do Paraíso), de Anthony Asquith; 1944: English Without Tears (Pátria Acolhedora), de  Harold French; 1945: Blithe Spirit (Uma Mulher do Outro Mundo), de David Lean; 1946: The Importance of Being Earnest (TV); 1947: Meet Me at Dawn (Espero-te de Madrugada), de Peter Creswell e Thornton Freeland; While the Sun Shines, de Anthony Asquith; 1948: Miranda (Sereia Tentadora), de Ken Annakin; 1949: The Happiest Days of Your Life (Os Mais Felizes Dias da Sua Vida), de Frank Launder;  1950: Passport to Pimlico (Passaporte para Pimlico ou Passaporte para o Paraíso), de Henry Cornelius; Quel Bandido Sono Io ou Her Favourite Husband, de Mario Soldati; 1950-1958: BBC Sunday-Night Theatre (TV); 1951: The Magic Box, de John Boulting; 1952: Curtain Up, de Ralph Smart; The Importance of Being Earnest (A Importância de se Chamar Ernesto), de Anthony Asquith; Castle in the Air, de Henry Cass; Miss Robin Hood, de John Guillermin; 1953: Innocents in Paris (Inocentes em Paris), de Gordon Parry; Trouble in Store (A Loja do Doido), de John Paddy Carstairs; 1954: The Runaway Bus de Val Guest; Mad about Men (Doidinha Por Homens), de Ralph Thomas; Aunt Clara, de Anthony Kimmins; 1955: An Alligator Named Daisy, de Jack Lee Thompson; 1957: The Smallest Show on Earth (Luzes sem Ribalta), de Basil Dearden; Just My Luck de John Paddy Carstairs; 1957:  Dick and the Duchess (TV); 1959: I'm All Right Jack (Simpático Idiota), de John Boulting; 1959: Farewell, Farewell, Eugene (TV) 1960: ITV Television Playhouse (TV); The Day After Tomorrow (TV); 1961: On the Double (Um General e Meio), de Melville Shavelson; Murder she Said (O Estranho Caso da Velha Curiosa), de George Pollock; 1962: Zero One (TV); 1963: ITV Play of the Week (TV); The Mouse on the Moon (Um Rato em Órbita), de Richard Lester; Murder at the Gallop (A Velha Descobre o Crime), de George Pollock; The V.I.P.s ou International Hotel (Hotel Internacional), de Anthony Asquith; 1964: Murder Most Foul (A Velha Investiga), de George Pollock; Murder Ahoy (O Regresso da Velha Curiosa) de George Pollock; 1965: The Alphabet Murders (O Alfabeto do Crime), de Frank Tashlin; 1965: The Stately Ghosts of England (TV); Chimes at Midnight (As Badaladas da Meia Noite), de Orson Welles; 1966: A Countess from Hong Kong (A Condessa de Hong Kong),  de Charles Chaplin; The Wacky World of Mother Goose, de Jules Bass (só voz); Jackanory (TV); Arabella (Arabela), de Mauro Bolognini.